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v.1 obras selecionadas de lutero,  os primordios, escritos de 1517 a 1519

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tos, aparentemente não diriam respeito aos cânones. Em primeiro lugar, por- 
que os cânones estabelecem penitências públicas, e a Igreja não tem direito de 
julgar publicamente a respeito de coisas ocultas. Em segundo lugar, porque 
assim como não deve ser punido publicamente, da mesma forma o pecado 
oculto não precisa ser perdoado publicamente. As indulgências, porém, são 
remissões públicas e acontecem A face da Igreja, como é evidente. Sim, exis- 
tem alguns que julgam haver uma diferença considerável entre as indulgên- 
cias concedidas através de bulas ~úblicas e as dadas oarticularmente. no foro 
- ~ ~ ~ . - - - - ~ - 
da consciência. Em terceiro lugar, a Igreja não é ofendida através dos peca- 
dos ocultos, mas unicamente dos públicos; por isso elas117 não são obrigadas 
a [fazer] penitência pública para reparar os escândalos e tornar a construir o 
que destruíram. Quarto: também hoje os jurisconsultos não condenam as 
pessoas que são criminosas publicamente, a menos que sejam reconhecidas 
[como tais] pela lei, enquanto que toleram as que são reconhecidas [como 
tais] pelo fato. Certamente não reprovo a opinião deles, e ela não me parece 
crrónea, pois a ninguém é permitido julgar, condenar e desprezar o outro, 
por mais pecador que seja, a menos que tenha poder para julgá-lo, para que 
iião se lhe diga: "Quem és tu que julgas o servo alheio?" [Rm 14.4.1 Entre- 
t~tnto, deve ser repreendida a negligência do amor tanto por parte de superio- 
res quanto de súditos, pois permitem que os que são reconhecidos [como cri- 
iitiiiosos] pelo fato ajam livremente, não cuidando para que se tornem [crimi- 
nosos] reconhecidos [como tais também] pela lei, de acordo com aquele pre- 
~. 
cr>rniingddos e descreve com ele como os penitentes, os catecumenos e o s energúmenas po- 
diam participar da missa até aleitura do Evangelho, devendo ausentar-se antes da distribui- 
vã<) da Eucaristia. Os catecúmenos eram judeus ou pagãos que proclamavam sua adesão ao 
c!isriilnisino. mas ainda não haviam recebido a Batismo. Os energúmenos eram os posses- 
r<>s. <ir dhbeis, o s excepcionais, os quais a Igreja acompanhava de maneira especial. 
l'iic<iriiravam-se sob a orientação do enorcista, tinham um lugar especial no templo e . r«- 
ixlciilc c i l i usos de furia, fora delc. No mais. eram tidos. assim como aqueles que haviaiii 
cornctid<i pccwdos grnvcs. por excluidos da comunhão. 
117 Sc. us Iicrsoas qiic coriiclerii pecados ocultos. 
ceito de Cristo: "Dize-o à Igreja; se não ouvir a Igreja", etc. [Mt 18.17.1 
2. Creio que é evidente para todos que penas canônicas só são impostas 
por crimes. Logo, as indulgências (se são remissões dos cânones) só são úteis 
para criminosos. Por isso, as pessoas que levam uma vida comum, que não 
pode ser vivida sem pecados veniais, não necessitam de indulgências, princi- 
palmente porque não devem ser instituídas penas para pecados veniais, sim, 
[as pessoas] também não são obrigadas a confessá-los; [portanto,] muito me- 
nos têm necessidade de comprar indulgências. Do contrário, seria preciso que 
as penas canônicas fossem suportadas por todos em todo e qualquer tempo, 
já que, como eu disse, ninguém vive sem pecados veniais. Mas digo mais: 
nem mesmo por cada pecado mortal devem-se comprar indulgências. De- 
monstro isto da seguinte maneira: ninguém está certo de que não vive em pe- 
cado mortal por causa do ocultíssimo vício da soberba. Se, pois, as penas ca- 
nônicas se aplicassem a todo pecado mortal, toda a vida dos crentes, além da 
cruz evangélica, não seria outra coisa senão também uma tortura das penas 
canõnicas. Por esta razão, também dever-se-iam comprar sempre indulgên- 
cias, sem fazer outra coisa. Se isso é absurdo, está claro que as indulgências 
só se aplicam aos pecados punidos pelos cânones. Ora, só podem ser punidos 
pelos cânones, como pecados, os crimes certos e públicos, ou, se insistirem 
muito comigo, pelo menos [só] aqueles em relação aos quais estamos certos 
de que são crimes, como eu disse a respeito do adultério, do furto, do homicí- 
dio, etc., isto é, obras exteriormente manifestas. Por isso, o consentimento 
com qualquer pecado mortal não diz respeito às penas canônicas, seja para 
fins de imposição, seja para fins de remissão, assim como também não uma 
palavra da boca, a menos que seja a ocasião para a obra futura, como é evi- 
dente também a partir das palavras dos cânones. 
3 . Os cânones também não sáo impostos pelos crimes de tal forma que 
não cessem se alguém faz coisa melhor: se entra num monastério, ou se dedi- 
ca ao serviço dos pobres e doentes, ou sofre por causa de Cristo, ou morre de 
acordo com a vontade de Deus, ou se faz algo semelhante ou maior do que es- 
sas coisas. No caso dessas pessoas está claro que as penas canônicas cessam e 
que as indulgências em nada Ihes aproveitam. Daí que elas só são impostas 
aos preguiçosos, aos que fazem penitência com frieza, isto é, aos pecadores 
delicados. Por esta razão, as indulgências também parecem ser concedidas 
com propriedade tão-somente aos duros e impacientes. 
4. Quanto aos impedidos por uma causa justa, de modo que não podem 
suportar as penas, não há dúvida de que se deve entender como se elas não 
lhes fossem impostas, por exemplo, se alguém fosse prisioneiro dos turcos e 
infiéis, ou se fosse servo de algum senhor, a quem é obrigado a obedecer de 
acordo com o mandamento do Evangelho, ou como se alguém também [ti- 
vesse que] cumprir uma obrigação, [como] servir mulher e filhos mediante o 
trabalho das mãos e a obtenção do sustento. Pois quem está impedido por 
tais coisas não é obrigado a abandoná-las; pelo contrário: é obrigado a fazê- 
Ias, a deixar os cânones de lado e a obedecer a Deus. Por isso, também não 
tem necessidade de que elas lhe sejam remitidas, já que não estava em condi- 
Góes de que lhe fossem impostas. 
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5. Aos doentes os cânones nada impõem. Logo, só entra em considera- 
ção quem está são e quem não pertence ao número daqueles que dizem: "A 
mão do Senhor me atingiu." [Jó 19.21.1 Pois o que se deve a estes não é im- 
~iosição de penas, mas visitação e consolo, conforme aquela palavra de Cris- 
to: "Estive doente, e não me visitastes." [Mt 25.43.1 Do contrário se dirá aos 
pontífices: "Pois perseguem a quem tu feriste e aumentaram a dor de minhas 
feridas." [SI 69.26.1 E aquela palavra de Jó: "Por que me perseguis como 
Deus me persegue?" [Jó 19.22.1 Portanto, também para estes as indulgências 
não são necessárias. 
6. Por fim, [O mesmo vale para] os mortos e moribundos, dos quais já 
falamos. 
Vês, pois, como são muitos os cristãos para os quais as indulgências não 
são necessárias nem úteis. Mas volto, por fim, à tese, para finalmente termi- 
nar esse assunto e para golpeá-los com sua própria espada. 
Todos na Igreja concordam que, na agonia e no momento da morte, 
qualquer sacerdote é papa e, por conseguinte, tudo remite ao moribundo. Se 
falta um sacerdote, o desejo certamente é suficiente. Por isso, ele está absol- 
vido de tudo aquilo de que pode ser absolvido pelo papa. Portanto, as indul- 
gências parecem absolutamente nada conferir aos falecidos, visto que tudo o 
que pode ser desligado é desligado na morte. A partir disso fica claro, ao 
iriesmo tempo, que a diferença de graus e leis só se aplica aos vivos e sãos. As- 
sim, as indulgências são úteis às pessoas manifestamente criminosas, vivas, 
s3s e robustas, não impedidas e que não querem agir melhor. Se erro nessa 
qtiestão, que me corrija quem puder e souber. 
Mas se perguntas: "Então de que penas as almas são redimidas, ou que 
i>ciias sofrem elas no purgatório, se não sofrem nada correspondente às pe- 
nas canônicas?", digo: se eu soubesse isso, por que debateria e perguntaria? 
liii 1120 sou tão perito e sabedor do que Deus faz com as almas que partiram 
quanto aqueles copiosissimos redentores de almas118, que propõem tudo com 
iriiita segurança,