Seguridade Social no Brasil - Artigo_480_495
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riquezas \u2013 e se expande o assistencialismo. Nesse sentido, 
o ajuste neoliberal configura-se como a redefinição do âmbito político-institucional e da 
reprodução das relações sociais. 
Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o neoliberalismo configura-se como uma 
das expressões da crise capitalista, sistema que organiza diversas estratégias para sua 
redefinição e reação a crise, refletindo no campo político, econômico, cultural e social. 
Portanto, essas estratégias capitalistas de reação à crise global iniciada nos anos 1970, 
ocasionam o agravamento da questão social. Por conseguinte, acentuam-se as formas de 
dominação, exploração e alienação sobre povos e nações, oprimindo especialmente os 
chamados países periféricos. 
Assim, o ajuste neoliberal representa a perda de direitos, uma vez que prioriza a 
ascensão econômica em detrimento das conquistas sociais. Deste modo, possui o 
objetivo de fortalecer o processo de acumulação de riquezas por meio da exploração do 
trabalho, negação de direitos adquiridos e privatização de políticas e bens públicos. Essas 
circunstâncias influenciam diretamente na Seguridade Social, fragilizando o seu propósito 
social. 
Conforme Boschetti (2009), no Brasil a Seguridade Social se organiza com 
influências tanto do modelo alemão bismarckiano - sistema de seguros destinados aos 
trabalhadores, por meio de contribuição - quanto do modelo inglês beveridgiano \u2013 tem 
como principal objetivo o enfrentamento da pobreza - ao restringir a previdência aos 
trabalhadores contribuintes, universalizar a saúde e limitar a assistência social ao público 
que dela necessitar. Portanto, a Seguridade Social brasileira fica entre o seguro e a 
assistência social, pois, a previdência social é influenciada pelo modelo bismarckiano, 
enquanto que a saúde e a assistência social sofrem influência do modelo beveridgiano. 
 
 
 
 
 
 
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Nessa perspectiva, a política de Seguridade Social brasileira assume 
características híbridas, pois, as políticas que a constituem assumem características 
distintas e atendem grupos sociais diferenciados. Sendo assim, não é destinada para toda 
sociedade, sendo que cada uma das suas políticas integrantes possui objetivos e 
diretrizes distintos, pois, se criam requisitos para determinar o público de cada política, 
com exceção da política de saúde que é de caráter universalizante, sendo as demais 
restritivas e seletivas. 
 Dessa forma, a saúde tem como parâmetro o princípio da universalidade, que não 
se aplica a todos os elementos constituintes, mas se direciona apenas para a saúde, 
sendo a previdência destinada para aqueles inseridos no mercado de trabalho formal ou 
informal e a assistência social designada para aqueles que dela necessitarem. 
Compreende-se, que embora a Carta Magna de 1988, como aponta Vianna (S/D), 
defina em seu artigo 194 a Seguridade Social com uma aproximação com o modelo 
Beveridge, o qual serviu como referência para a reforma do sistema de proteção social no 
Reino Unido em 1946 - que influenciou na implantação do Welfare State no mundo 
desenvolvido - há de considerar que os princípios desse modelo nunca foram efetivados 
no Brasil. 
Portanto, o Brasil não acompanhou o processo de transformações sociais que 
ocorriam no campo internacional, sendo que adquiriu conquistas sociais somente no final 
da década de 1980, em uma conjuntura específica resultante do longo período 
antidemocrático, que impulsionou a mobilização social pela garantia de direitos. Deste 
modo, é importante ressaltar, conforme Iamamoto (2009, p. 30) que, 
 
A desigualdade de temporalidades históricas tem na feição anti-
democrática assumida pela revolução burguesa no Brasil um de seus 
pilares. As soluções políticas para as grandes decisões que presidiram a 
condução da vida nacional têm sido orientadas por deliberações \u201cde cima 
para baixo\u201d e pela reiterada exclusão das classes subalternas, 
historicamente destituídas da cidadania social e política. 
 
Nessa perspectiva, a formação sócio histórica brasileira possui suas 
particularidades, ponderando os seus aspectos econômicos, sociais e políticos, nos quais 
a submissão ao capital estrangeiro é determinante. Por conseguinte, as medidas de 
proteção social no Brasil ocorrem de maneira tardia, em um contexto resultante da forte 
repressão social e negação de direitos. 
 
 
 
 
 
 
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Deste modo, Behring e Bochetti (2008), com base na percepção de Coutinho 
(1989) 2, enfatizam que no Brasil não ocorreram reformas de caráter socialdemocrata, 
mas uma revolução passiva. Nesse sentido, as autoras afirmam que essas circunstâncias 
ocasionaram mudanças objetivas nas condições de vida e de trabalho, porém dotadas de 
determinações que as colocam em uma posição de submissão à classe burguesa, sendo 
geridas e controladas pela mesma. Sendo assim, a conquista dos preceitos 
constitucionais de 1988 ocorre em um contexto particular, de radicalização democrática, 
posterior a 20 anos de ditadura. 
Diante disso, é importante destacar que a Carta Magna de 1988, expressa avanços 
que ocorrem tardiamente devido a essas condições e características internas. Vale 
ressaltar, que o texto constitucional - no que concerne a Seguridade Social - embora 
propusesse a integração de políticas, tendo como parâmetro a universalidade, deixa 
lacunas ao determinar características diferenciadas para cada política que a compõe. 
Nesse sentido, o que se pode observar é que os avanços sociais brasileiros 
ocorrem tardiamente e, de maneira imediata, adentram na década de 1990, em um 
processo de regressão social. Esse processo é proveniente da adoção da política 
neoliberal no país, trazendo sérios prejuízos para a população brasileira, na qual uma 
pequena parcela detém o produto da acumulação de riquezas e bloqueiam a efetivação 
da garantia de direitos sociais, descaracterizando-os em virtude da expansão das 
privatizações e incentivo ao terceiro setor. 
Destarte, entende-se que a proteção social no Brasil, sobretudo a Seguridade 
Social, não proporcionou progresso social de fato, considerando que suas propostas 
expressas na Constituição Federal de 1988, não foram firmadas, em virtude de não haver 
terreno fértil para que a mesma pudesse efetivar os princípios da universalidade e da 
igualdade, devido à ofensiva neoliberal que influencia no seu funcionamento até os dias 
atuais. 
 
A SEGURIDADE SOCIAL NO BRASIL FRENTE AO NEOLIBERALISMO 
 
Considerando o contexto da década de 1990, percebe-se que o progresso proposto 
pela Constituição Federal de 1988, não foi implementado, pois, não se depara com 
 
2
 COUTINHO, C. N. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Rio de Janeiro: Campus, 1989. 
 
 
 
 
 
 
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condições favoráveis para sua efetivação. Pelo contrário, se instaura no país a política 
neoliberal, adotada com a finalidade de adequar o Brasil a economia internacional. Esta 
política vai em desencontro com os objetivos da referida Carta Magna, especialmente da 
Seguridade Social, descaracterizando-a e dificultando sua implementação, uma vez que 
não convêm com as necessidades de acumulação capitalista, estas que passam a ser 
prioridade. 
Nos anos de 1990, difundem-se nos diversos meios de comunicação, políticos e 
intelectuais, discursos voltados para difusão do propósito de reformas, sendo enfáticos 
nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Embora o termo reforma 
seja utilizado no sentido social-democrático, tais \u201creformas\u201d são direcionadas para o 
mercado, em um momento em que os problemas estatais são compreendidos como as 
causas da crise econômica e social vivenciados pelo país na