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Aula - O conceito de cultura

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O conceito de cultura
A percepção que temos de nós mesmos é mudada quando nos percebemos em relação aos outros; quando ao observar que os outros podem fazer as mesmas coisas, mas de forma diferente, nos indagamos sobre as nossas próprias maneiras. 
Pequena introdução
O costume do couvade
Há um costume em diversas culturas indígenas chamado de couvade. Ele consiste em que no momento em que uma mulher fica grávida, o pai da criança tem que cumprir os mesmos tabus rituais que a mulher, ficar em casa deitado, repousando, por exemplo. É uma forma de expressar para a sociedade que ele é o pai. Já pensaram as conseqüências de tal costume na nossa sociedade? Essa não seria uma forma “natural” de viver uma gravidez para nós.
Por exemplo, pensem em que há de “natural” em comer com garfo e faca? Ou em dormir em camas? Ou ainda em escovar os dentes após as refeições? Isso é mais natural que comer com as mãos ou do que dormir em redes ou de não escovar os dentes? É “natural” para nós, mas é para os membros de uma outra cultura, os Bororo do parque do Xingu, por exemplo?
Dimensão comparativa. Sempre estamos comparando as culturas, não para dizer que uma é melhor que a outra, mas para poder perceber a diferença. É na relação de contraste, de comparação, que percebemos a alteridade. 
Alteridade = o homem na sua vertente social tem uma relação de interação e dependência com o outro. Por esse motivo, o "eu" na sua forma individual só pode existir através de um contato com o "outro".
Dimensão fundamental da Antropologia
Que diferenças existem entre essas duas imagens?
A diferença está na relação
As diferenças não estão nem em uma, nem na outra imagem, mas estão na relação que estabelecemos entre elas. No caso da antropologia é a mesma coisa. Para poder entender a diferença, para poder estudar a alteridade precisamos da comparação, precisamos das relações.
O homem tem uma característica diferencial em relação a todos os outros animais: ele é ao mesmo tempo um ser biológico e um ser cultural/simbólico. Por um lado pertencemos a natureza, somos animais mas, por outro, demos um passo fundamental que nos separou para sempre da natureza: inventamos a cultura. Depois desse movimento essencial de separação da natureza, passamos a ter uma diferença radical com o resto dos animais: a cultura.
Neste contexto ...
Todos nós somos portadores de cultura à medida que fomos socializados nos princípios mais gerais que nos tornam membros de um grupamento social.
Na sociedade em que vivemos compartilhamos alguns códigos simbólicos, mas não todos os códigos; afinal, a vida social nas sociedades modernas é bastante complexa. Tais códigos e sua interpretação permitem-nos chegar a acordos razoáveis com outros sujeitos, sobre o mundo e alguns de seus sentidos. 
CULTURA 
Ao contrário do que podemos pensar, quando articulamos a idéia de cultura, surgem inúmeros sentidos e signifinicados para ela. É por isso que dizemos que ela é polissêmica.
Felix Guattari, pensador francês, reuniu diferentes significados de cultura em três grupos, por ele designados: 
Cultura –Valor aparece claramente na ideia de “cultivar o espírito”, comporta um julgamento de valor sobre determinada situação. Exemplo: Determinar se uma pessoa é culta ou inculta porque conhece música clássica. 
Cultura-alma-coletiva Expressa a ideia de que todas as culturas grupos e povos possuem cultura e identidade cultural. 
Cultura-mercadoria corresponde a “cultura de massa”. Cultura compreende bens e equipamentos que estão disponíveis no mercado .
Cultura ... Diferentes significados
Cultura diz respeito à forma como os homens, diferentemente, sociedade por sociedade, em diferentes momentos históricos, ordenam e imprimem uma lógica singular ao mundo, dotando-o de significados os mais diversos.
O homem ...
O Ritual do Corpo entre os Sonacirema
In American Anthropologist, vol. 58 (1966). “Body Ritual among the Nacirema”.
[...] Os Sonacirema são um grupo norte-americano que vive no território que se estende desde os Cree do Canadá, aos Yaqui e Tarahumara do México, e aos Caribe e Aruaque das Antilhas. Pouco se sabe quanto à sua origem, embora a tradição mítica afirme que eles vieram do leste.
A cultura Sonacirema se caracteriza por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que se beneficiou de um ‘habitat’ natural muito rico. Embora, nesta sociedade, a maior parte do tempo das pessoas seja devotada à ocupação econômica, uma grande porção dos frutos destes trabalhos, e uma considerável parte do dia, são despendidas em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde constituem a preocupação dominante dentro do ‘ethos’ deste povo. [...]
A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é feio, e que sua tendência natural é a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é evitar essas características, através do uso de poderosas influências do ritual e da cerimônia. Todo o grupo doméstico possui um ou mais santuários dedicados a tal propósito. [...]
 
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O ritual do corpo cotidianamente realizado por todos inclui um rito bucal. Apesar de sabermos que este povo é tão meticuloso no que diz respeito ao cuidado da boca, este rito envolve uma prática que o estrangeiro não-iniciado não consegue deixar de achar repugnante. Conforme foi descrito, o rito consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca, juntamente com certos pós mágicos, e em seguida na movimentação deste feixe segundo uma série de gestos altamente formalizados.
[...] A maioria dos Sonacirema mostra tendências masoquistas bem definidas, ressaltando que um povo dominantemente masoquista desenvolve especialistas sádicos. Era a tais tendências que o Professor Linton se referia, ao discutir uma parte especial do ritual cotidiano do corpo, que é apenas realizada pelos homens. Esta parte do rito envolve uma arranhadura e laceração da superfície do rosto por meio de um instrumento cortante. Ritos femininos especiais ocorrem somente quatro vezes por mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência, lhes sobra em barbárie. Como parte desta cerimônia, as mulheres assam suas cabeças em pequenos fornos durante mais ou menos uma hora. [...]
 [....]Para concluirmos, deve-se mencionar certas práticas que estão baseadas na estética nativa, mas que dependem da aversão generalizada ao corpo e às funções naturais. Há jejuns rituais para fazer pessoas gordas ficarem magras, e banquetes cerimoniais para fazer pessoas magras ficarem gordas. Outros ritos ainda são usados para tornar maiores os seios das mulheres, se eles são pequenos, e menores, se são grandes. Uma insatisfação geral com a forma dos seios é simbolizada pelo fato de que a forma ideal está virtualmente fora do espectro da variação humana. Umas poucas mulheres que sofrem de quase inumano desenvolvimento hipermamário são tão idolatradas que podem viver bem através de simples viagens de aldeia em aldeia, permitindo aos nativos admira-las mediante uma taxa. [...]
O contato entre diferentes culturas leva a processos de estranhamento (em relação aos costumes do outro) e desnaturalização (de nossas próprias práticas, quando analisadas pela perspectiva do outro).
Quando o estranhamento em relação ao diferente se transforma em repúdio ou na afirmação da própria cultura como superior , estamos diante de um comportamento etnocêntrico.
 O etnocentrismo é uma forma de preconceito que pode gerar graves conflitos, como ataques a imigrantes, estrangeiros ou a membros da mesma sociedade que possuam práticas culturais diferentes.
Relativismo cultural: postura contrária ao etnocentrismo, que procura reconhecer a diversidade cultural como positiva, respeitando cada manifestação cultural e procurando compreendê-la a partir de sua lógica própria. 
Etnocentrismo e Relativismo Cultural