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SALUTOGÊNESE- Ética do cuidado

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(Do Livro Os caminhos da Saúde – integração Mente e Corpo. Petrópolis: Vozes, 2010. 
Organização M. L. Pelizzoli)
SALUTOGÉNESE - as fontes da saúde física, psíquica e espiritual1 
Michaela Glöckler2 
Promover a saúde ou evitar a doença?
Um ramo novo da ciência, chamado salutogênese, estuda as origens da saúde física, 
anímica e espiritual. A palavra latina salutogênese é composta pela palavra latina salus, 
salutis: saúde; e a palavra grega gênese significa origem. A salutogênese pesquisa, pois, as 
origens da saúde, fundando assim também um novo paradigma, um novo ramo da pesquisa. 
O paradigma na medicina em vigor aproximadamente nos últimos trezentos anos era a 
patogênese, composta pelas duas palavras gregas pathein: sofrer, e gênese: origem, 
significando a origem do sofrimento, ou seja, da doença. A patogênese pesquisa, pois, a 
origem da doença. Neste contexto desenvolveu-se também o conceito da prevenção: 
prevenir doenças, no sentido da patogênese, significa evitar ou eliminar fatores 
patogênicos. O que está em primeiro plano é como a doença aparece e como pode ser 
evitada, eliminando-se os fatores patogênicos. 
No espaço anglófono, o conceito de salutogênese tem vindo a ser desenvolvido desde os 
anos 60 do século XX. Na Alemanha, encontrou receptividade nos discursos acadêmicos e 
da política da saúde apenas nos anos 90, seguramente, pelo menos em parte, porque até lá, 
o velho conceito da patogênese ainda tinha sustentabilidade financeira. A explosão dos 
custos na saúde, e as consequentes dificuldades financeiras, criaram, no entanto, a nível 
internacional, uma abertura para o conceito de salutogênese. A pergunta-chave é agora: de 
onde nos advém a saúde? Deixando de ser: de onde vem a doença, e como pode ser 
evitada?
Qual é então a diferença essencial entre o conceito novo da salutogênese e o velho da 
patogênese?
O conceito da patogênese baseia-se, por exemplo, nas doenças infecciosas, no modelo do 
contágio. Eu pergunto-me: quem é que me contagiou? Como se chama o vírus, a bactéria? 
Qual o antibiótico indicado?
Do ponto de vista da salutogênese, porém, eu perguntaria: porque é que fui eu que apanhei 
a infecção quando toda a gente à minha volta continuou saudável? A questão de por que é 
que uns contraem o contágio e outros não já nos leva à pesquisa salutogenética. 
1 Tradução portuguesa: Fritz Wessling.
2 Pediatra. Especialista reconhecida internacionalmente na Medicina Antroposófica. Criadora do International 
Postgraduate Medical Training. Suíça.
Na sequência do desastre nuclear de Chernobyl, por exemplo, verificou-se que uma elevada 
percentagem da população contraiu leucemia e cancro. Porque é que não ficaram todos 
doentes, pois a exposição era igual para toda a gente? O que protegeu alguns? Quais as 
fontes da saúde que ficaram ativadas?
Saúde psico-social – uma perspectiva econômica
Não só o Estado, mas também a esfera econômica está muito interessada no princípio da 
salutogênese. Em 1994 foi assinado, na dita ronda do Uruguai no âmbito da WTO 
(Organização Mundial do Comércio – World Trade Organization), o acordo denominado 
GATS (Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços – General Agreement on Trade in 
Services), ou seja, um acordo geral que permite comercializar toda a vasta gama dos 
serviços sociais. Cento e vinte países já ratificaram o acordo e estão prontos a entregar os 
serviços sociais nas mãos da economia privada. 
Por isso, os serviços sociais precisam ser reestruturados, com maior transparência. Visando 
estes objetivos, foram desenvolvidos métodos de gestão de qualidade, servindo de base para 
a descrição exata de cada serviço; por exemplo, o tempo que leva a execução otimizada de 
uma determinada tarefa de assistência pessoal. O problema que se põe aqui é que tudo o 
que não tem eficiência imediata deixa de ser pago. Dar atenção humana a alguém, dedicar-
lhe individualmente algum tempo, por exemplo, porque tem alguma pergunta importante a 
fazer, para além de precisar ser acompanhado à casa de banho em tempo. 
Recorde, são posturas que devem ser integradas no sistema como merecedoras de 
remuneração. Mas contra isso é levantado o argumento da escassez de meios financeiros. 
Sendo assim, o controlo de qualidade contribui efetivamente para uma maior eficácia no 
sentido economicista, mas contém o perigo de uma regulamentação total do trabalho social, 
inadequada para as verdadeiras necessidades do ser humano. Aqui se abrem questões 
essenciais para a reestruturação da saúde no sentido moderno, virada para o futuro, sendo 
necessária a participação de iniciativas civis e associações de pacientes. 
Leo Nefiodow demonstrou no seu livro “O sexto ciclo segundo Kondratieff” os ciclos da 
evolução econômica, dando-lhes o nome do cientista russo Nikolai D. Kondratieff (1892 – 
1938). Este tinha detectado, em 1926, ciclos evolutivos, com ondas longas de 40 a 50 anos, 
constatando que cada 40 a 50 anos surge um impulso completamente novo, originando um 
salto inovador na economia mundial. Por volta de 1800 foi a máquina a vapor e a 
industrialização do processamento do algodão, depois veio a siderurgia e os caminhos-de-
ferro, a seguir o petróleo, a petroquímica, e os automóveis, e por fim a indústria dos 
computadores e da informática. Estes impulsos determinaram, cada um por sua vez, surtos 
na atividade econômica. O boom da indústria da informática prevê-se, no entanto, mais 
breve do que inicialmente se pensou. O que torna mais premente a questão de qual será o 
motor da próxima alta a nível econômico. Tudo indica que será a saúde psico-social, ou 
seja, o mercado dos serviços sociais. Projetando para o futuro o aumento, nos últimos dois 
anos, da dependência em relação a estupefacientes e medicamentos, segundo um estudo da 
Organização Mundial de Saúde, em 2100 um em dois habitantes dos países industrializados 
será tóxico-dependente. O que significa que 50 % da humanidade viverá com este vício e 
precisará de mais ou menos ajuda. 
Na vida econômica já se verifica hoje que as ausências motivadas por problemas psico-
sociais são um problema crescente. As pessoas têm cada vez menos capacidade de encaixe, 
metem mais baixas, resistem menos. A estabilidade econômica depende da saúde de um 
número suficiente de pessoas saudáveis. Por esta razão também a esfera econômica se 
mostra interessada no conceito de salutogênese. 
Para preparar isso, há que elaborar um sistema que permita descrever serviços concretos de 
tal modo que possam ser comercializados no mercado, e comprados pelos clientes. Assim, 
as instituições sociais, os lares de idosos, escolas e jardins de infância etc., vêem-se 
confrontados com a questão do controlo e da gestão da qualidade. Por um lado, aumentará 
– esperemos, a qualidade do trabalho e dos serviços, por outro lado, tudo passa a ser objeto 
de compra e venda, de uma forma muito diferenciada. A perspectiva da aproximação de 
uma sociedade tipo 20/80 (20% da população tem trabalho e toma conta dos restantes 80%) 
coloca o desafio, sobretudo para o movimento da Medicina Antroposófica, de trabalharmos 
para que a relação se inverta. 80% da população deveria estar saudável e ativa, capaz de 
trabalhar com prazer e de gerar novos postos de trabalho consoante às novas visões 
macroeconômicas, políticas e sociais, para poder sustentar os 20% que não tem esta 
capacidade. 
Devido à explosão dos custos na saúde, estamos hoje lado a lado com as esferas da política 
e da economia, para promover, tanto quanto possível, a saúde do homem. 
Saúde – o que é isso afinal?
A salutogênese tem o objetivo de chamar a atenção das pessoas para as fontes da saúde e da 
cura, a nível individual e social. 
Rudolf Steiner (1861–1925) postulou já em 1920, numa conferência para médicos, que o 
médico deve sempre considerar o bem de toda a humanidade, ao ajudar individualmente 
uma pessoa. Por quê? Cada ser humanofaz parte de um todo e influencia este todo, quer 
tenha consciência disso ou não, pela maneira como lida interior e exteriormente consigo 
próprio e com as outras pessoas. Participa ativamente na evolução da Terra e do Homem. 
Quanto mais eu for capaz de atuar a partir de uma perspectiva global – mesmo no pormenor 
mais ínfimo – quanto mais eu irei contribuir para o bem do todo. Quanto mais isolado eu 
estiver, quanto mais desconectados forem os meus atos, quanto mais eu corro o risco de 
contribuir para as patologias no processo da evolução. Tornar-se saudável, “são”, “inteiro”, 
significa integrar-se. A doença é sempre consequência do isolamento ou da desintegração 
de determinados processos, funções ou substâncias no organismo. 
Sendo assim, temos a tarefa de seguir com os nossos pequenos atos no quotidiano os 
grandes desígnios da humanidade, não os perdendo de vista.
Aaron Antonovsky (1923–1994), o pai do paradigma “salutogénico” desenvolveu critérios 
de qualificação da saúde física e psicológica das pessoas, para realizar um estudo sobre o 
estado de saúde das pessoas idosas em Israel. Qual o seu espanto quando constatou que 
entre as pessoas mais saudáveis que encontrou havia também sobreviventes do holocausto. 
Abraham Maslow (falecido em 1970), um dos fundadores da psicologia e psicoterapia 
humanista, junto com Carl Rogers e Erich Fromm, encontrou também surpresas ao 
pesquisar a saúde psicológica. À procura das causas da mesma, examinou pessoas 
saudáveis e descobriu que aqueles que revelavam maior saúde tinham todos passado por 
experiências interiores de romper limites, por exemplo, vivências espirituais, possivelmente 
extra corporais, um encontro com Deus ou outras vivências místicas. Descobriu ainda que 
mesmo a alma assolada pela doença psíquica possui um núcleo saudável. Ao conseguir 
fortalecer este núcleo, a pessoa lidará melhor com os problemas e influenciará mais 
saudavelmente as pessoas à sua volta. 
Uma outra abordagem na “salutogênese” pesquisa a resistência das pessoas, e descobriu 
que a hereditariedade e o ambiente não são os únicos fatores determinantes na evolução da 
pessoa. Há um terceiro fator, até agora subestimado, mas de importância fulcral: o fator das 
relações humanas. O que caracteriza boas relações entre pessoas? 
Há três aspectos que caracterizam a essência da qualidade humana: 
- Honestidade, sinceridade, verdade
- Amor.
- Respeito pela autonomia e dignidade do outro, mesmo que se trate de um bebê ou de uma 
pessoa dependente de ajuda. 
Caso uma criança possa vivenciar uma tal boa relação – mesmo que seja com apenas uma 
pessoa ou apenas num determinado período da infância – poderá fazer uma evolução 
anímica saudável, mesmo quando existem condicionantes muito desfavoráveis como 
agressões físicas à noite e o abandono durante o dia. Quando existe uma verdadeira e 
profunda relação com alguém, a saúde anímica não precisa estar necessariamente posta em 
causa, pelo contrário, uma tal criança poderá até desenvolver uma sensibilidade e 
compaixão especiais. 
O livro “Plus fort que la haine”, que teve muito impacto em França, é um magnífico 
exemplo disso. “Mais forte que o ódio” narra o amor e a humanidade vivenciados numa 
família de apoio por uma criança com apenas três anos, extremamente traumatizada e 
abandonada, durante preciosos três meses. Esta vivência é marcante para o resto da sua vida 
e permite-lhe identificar-se com a bondade e o carinho. “Fortalecer a criança: pedagogia 
entre risco e resistência” é o título de uma publicação alemã que analisa numerosos estados 
sobre a qualidade da vida de numerosas crianças, demonstrando como se lançam os 
alicerces para a saúde durante toda uma vida. 
Fontes físicas, anímicas e espirituais da saúde. 
Quais são os resultados principais das pesquisas de Antonovsky sobre a salutogênese, de 
Maslow sobre a saúde psicológica, e dos estudos sobre a resistência? Podemos resumi-los 
em três aspectos centrais, ou seja, três princípios que ajudam a desenvolver a saúde. 
A nível físico, trata-se do princípio da heterostase. A palavra é composta do grego hetero: 
diferente, e latim stase: estado, significando outro estado. Pelo 
Contrário, a palavra homeostase, do grego homeo: igual ou parecido, designa o estado 
semelhante ou igual. 
Segundo o modelo da patogênese, o organismo pretende conseguir um ambiente tão 
constante quanto possível, no sentido da homeostase, o que sem dúvida é importante – a 
questão é como este objetivo será alcançado. 
Segundo o modelo da salutogênese, o que marca o organismo saudável não é a homeostase, 
mas sim a capacidade de transformar constantemente os processos heterostáticos em 
homeostáticos, possuindo um elevado grau de adaptabilidade e aptidão para fazer 
processos. 
O aspecto central do princípio salutogênico é pois a capacidade humana de ir ao encontro 
do estranho e do conflito, fortalecendo-se nesta interação. O princípio da heterostase 
significa pois aprender a lidar com o stress e não apenas evitá-lo. Há que aprender a 
conhecer e ampliar os limites da própria resistência física e anímica. 
Este princípio da salutogênese corresponde ao conselho que a medicina antroposófica tem 
dado desde sempre: para as crianças é salutar passar pelas ditas doenças infantis. Estimula o 
desenvolvimento do sistema imunitário, a capacidade de auto regulação e auto terapia. 
Obviamente devemos sempre perguntar se a criança individual tem resistência suficiente 
para o confronto com a doença. A avaliação caberá sobretudo ao médico. Se a constituição 
da criança for tão frágil que não se pode expô-la a este confronto, fará naturalmente sentido 
recorrer às vacinas ou também a medicamentos para baixar a febre, e antibióticos. No 
entanto, importa não impedir o contacto com as doenças infantis por meio de grandes 
campanhas de vacinação, privando assim a criança da oportunidade de adquirir novas 
resistências de maior alcance. 
Uns conselhos típicos, de acordo com o princípio da patogênese: vacina-te contra todas as 
gripes virais, foge, tanto quanto possível, ao stress e aos aborrecimentos, mete baixa, toma 
este ou aquele comprimido logo que te sintas menos bem. 
Para a salutogênese, são decisivas as seguintes questões: como aprendo a lidar com 
qualquer situação na vida, mantendo a minha flexibilidade interior e exterior? Como posso 
tornar-me tolerante a frustrações e ao stress, e estável no meu caráter? 
No âmbito anímico, trata-se, de acordo com a salutogênese, de criar um sentido de 
coerência, de interligação de tudo o que existe. Só quando a pessoa conseguir integrar-se 
no contexto grande e pequeno do universo da sua vida, poderá encontrar o sentido desta 
vida. 
Como se adquire este sentido de coerência? Antonovsky diz simples e singelamente: a 
criança precisa de aprender, pela sua educação, uma cosmovisão satisfatória. Deve poder 
aprender que o mundo é: 
 - Compreensível.
 - Significativo; valioso, repleto de sentido. 
 - Manuseável, permitindo a ação. 
Neste sentido, uma cosmovisão torna-se satisfatória quando ajuda a pessoa a encontrar-se a 
si própria e a lidar com a vida de uma maneira que faz sentido. Por exemplo, houve, depois 
da 2ª guerra mundial, muitas crianças sobrecarregadas de medos, devido a vivências 
próprias, ou relatos de adultos, que tinham vivido horrores, como o lançamento das bombas 
nucleares sobre o Japão. Nestes casos, é decisivo haver pelo menos uma pessoa 
compreensiva ao dispor, para ouvir as perguntas e para ajudar a construir o sentido de 
coerência. Assim, será possível conviver com estes medos e preocupações e criar 
esperanças de que se possa contribuir para a superação dos medos bem como das causas 
das guerras. Hoje, muitas crianças e jovens sentem-se assim no pós-11 de Setembro. 
Conversas, reportagens e informações tão diversificadas quanto possível são umacoisa 
necessária para que o sucedido possa ser compreendido e digerido. 
De acordo com a idade da criança, torna-se decisiva, sobretudo, a presença de uma pessoa 
próxima – de preferência, mãe ou pai, - que vivenciou tudo, tem tudo na consciência, e 
mesmo assim irradia esperança e otimismo. Ajuda imenso ver que alguém pode conhecer 
grandes perigos e graves problemas, passar por eles, e mesmo assim irradiar alegria e 
normalidade, dizendo sim à vida. 
Há muitas maneiras de contribuir para a consolidação deste sentido de coerência, desde 
pequeno. Nas escolas Waldorf, por exemplo, é recitado pelos alunos e professores em 
conjunto, todas as manhãs, antes da primeira aula, o dito “Verso da Manhã”, da autoria de 
Rudolf Steiner, o fundador da pedagogia Waldorf, e recomendado para alunos a partir do 5º 
ano. 
Eu contemplo o mundo à minha volta
Onde o sol envia a sua luz, 
Onde as estrelas brilham, 
Onde as pedras repousam, 
Os animais sentindo vivem, 
Onde a alma do homem
Oferece acolhimento ao espírito. 
Eu perscruto nas profundezas da alma, 
Que vive dentro de mim. 
O espírito divino tece
No sol e na luz da alma, 
Lá fora nos espaços do mundo, 
Cá dentro, nas profundezas da alma. 
Até vós, ó espírito divino
Quero dirigir-me, 
Pedindo bênçãos e forças, 
Para que desabroche na minha alma 
O aprender e o trabalhar. 
Numa cosmovisão, não importa transmitir uma determinada visão das coisas, como fazem, 
no essencial, as ideologias. O que importa é o processo interior de crescimento, pelo qual as 
pessoas se unem cada vez mais ao que se passa no mundo, aprendendo e trabalhando 
continuamente, e fortalecendo a compreensão. 
Mesmo assim, para fornecer o sentido de coerência na criança, é decisivo o exemplo dado 
pelo adulto que por sua vez trabalha para consolidar o sentido de coerência em relação a si 
próprio e ao mundo. Esta é uma das tarefas mais importantes da nossa época, designada 5ª 
época pós–Atlântida e que começou, segundo Rudolf Steiner, no início do século XV. O 
que a caracteriza é, segundo Goethe, o pacto com o mal, o pacto entre Mefistófeles e 
Fausto: tudo aponta para que o confronto interior e exterior com as forças e inclinações do 
mal seja uma missão para a nossa época. Basta considerar a imensa violência e 
destrutividade divulgadas pelos média, pela televisão e pelo vídeo, para compreendermos 
que ninguém que tenha a auto-consciência desperta pode esquivar-se a isso.
Quando reconhecemos o mal, o perigo de segui-lo ou de deixar que o mal nos domine é 
menor. Cresce a hipótese de, ao reconhecer e superar o mal, desenvolvemos maneiras de 
pôr em prática o bem, o amar, a verdade. Um antigo provérbio chinês diz: Há apenas duas 
maneiras de se tornar sábio : pela compreensão ou pela experiência sofrida. 
O terceiro desafio decisivo – o mais difícil para aprendermos hoje, é de construirmos 
resistência a nível espiritual, pela confiança que desenvolvemos, no decorrer e no sentido 
da evolução da humanidade, especialmente hoje. Quantas pessoas não existem hoje que 
caem na depressão por terem perdido a confiança na evolução, em Deus e no Homem. Para 
muitos, torna-se insuportável a informação constante sobre atrocidades, violência, 
corrupção, guerras, catástrofes. A consequência é ou doença, drogas, abuso de 
medicamentos, ou atos desesperados como o terrorismo ou o suicídio. 
Há que construir uma cosmovisão que ajude a compreender o mal, o negativo, o destrutivo, 
e a encontrar um novo sentido para tudo. Hans Jonas (1903–1984), um filósofo judeu, 
contemporâneo e colega de Aaron Antonovsky, marcou presença no debate ético do século 
XX com o seu “princípio da responsabilidade”. Um sentido de responsabilidade de cunho 
humanista, que aposta na dignidade humana, está no centro da sua filosofia. A mãe de Hans 
Jonas tinha perdido a vida em Auschwitz, nas câmaras de gás - um fato incompreensível 
para ele, judeu crente. Pois, de acordo com a tradição judaica, Deus vive na história, atua na 
história, acompanha a humanidade no processo histórico. Deus torna-se, por assim dizer, 
vivenciável na história, e não castiga os justos. No pós-Auschwitz, Jonas teve de interrogar-
se: onde estava Deus, quando Auschwitz aconteceu? Virou as costas à humanidade, 
abandonou-a? Será que Deus nunca existiu? Ou será que Deus modificou a sua relação com 
a humanidade, acompanhando a evolução desta? Por via de questões como estas, Jonas 
chegou a um conceito de Deus processual, evolutivo, descrito no seu livro “O conceito de 
Deus no pós–Auschwitz”. Nesta obra pergunta: Deus pode ser, ainda, universalmente sábio 
e onipotente, depois de o holocausto ter acontecido? E constata que Deus, em relação ao 
homem, já não pode ser universalmente sábio e onipotente, porque assim o holocausto 
nunca teria acontecido. Deus partilha a sua sabedoria e potência com o homem dando-lhe a 
chance de optar em liberdade pelo bem, mas também a possibilidade de errar e enveredar 
pelos caminhos mais aberrantes. Agora é o homem que precisa saber o que faz. Ele, não 
Deus, é responsável pelo que faz com as próprias mãos. Jonas descobre a região do meio 
como o lugar onde reside a humanidade. É a região do coração, da consciência moral, do 
amor, que é compatível com a liberdade do homem e com a sua autonomia cognitiva. Só 
nesta região é possível uma relação estável entre o homem e Deus, desde os primórdios da 
criação até ao dia de hoje. O conhecimento e o poder podem ser abusados. Servem ao 
homem para que desenvolva as capacidades, e a consciência de si. Mas o amor é. 
Caracteriza o núcleo eterno no homem ao qual Deus permanece ligado, mesmo em 
Auschwitz. Deus é amor. Este Deus pode estar presente em Auschwitz, acudindo a quem 
estava nas câmaras de gás. Este “conceito de Deus pós–Auschwitz” salvou a imagem que 
Jonas tinha de Deus. Ao mesmo tempo, este conceito de Deus é o princípio salutogenético 
mais forte. Mobiliza todos os recursos de resistência do homem. Dá resposta à pergunta: 
como posso manter-me saudável, face aos ataques físicos, anímicos, e espirituais? Há três 
princípios fundamentais. 
Três princípios fundamentais. 
O primeiro princípio significa cultivar conscientemente uma relação com Deus e com o 
mundo espiritual: eu estou em Deus e Deus está em mim. Tal como Soljenitsine descreveu 
no seu “Arquipélago de Gulag”, quando um soldado russo está prestes a pisar-lhe o rosto 
com a sua bota suja. Está deitado no chão, vê aquela bota aproximar-se, e pensa neste 
momento: podes, sim, destruir o meu corpo, mas ao meu espírito não chegas. O recurso de 
resistência mais forte é a vivência de Deus, a vivência mística, ou também a vivência da 
própria identidade como Eu, como ser eterno. 
O segundo princípio da invulnerabilidade, mobilizador dos recursos de resistência, é o 
princípio da relação humana. Pessoas em situações extremas relatam com grande 
frequência que só conseguiram vencer graças ao sentimento de ligação profunda com uma 
ou várias pessoas. Soubemos, por exemplo, de Nelson Mandela, que aquilo que o manteve 
durante os largos anos na prisão foi a certeza que lá fora a sua mulher continuava na luta. 
As relações estreitas, calorosas e seguras, seja com o pai, a mãe, os avós, amigos, 
companheiros, esposos, dão-nos um sentido de proteção: já não nos sentimos sós, 
abandonados, nem por um momento, pois este amor envolve-nos, sustenta-nos o tempo 
todo. Esta força pode também emanar de uma relação estreita com um falecido. Quem 
vivenciar esta força, oferecendo-a aos outros, será capaz de resistir às situações mais 
adversas. Saberá que vale a pena viver, apesar do pesadelo que está a vivenciar no 
momento e que passará com o tempo. 
O terceiro princípio evidenciado em dados estatísticos, nas pesquisas sobre a 
salutogênese, está relacionado com as posses e com o dinheiro. Quem tiver por exemplo 
uma moradia de luxo em Maiorca, ou uma conta bancária bem recheada na Suíça,sentir-se-
á também reforçado na sua capacidade de resistência. Sabendo que pode gozar a vida em 
cheio, graças a estes recursos materiais, logo que tenha saído da situação atual adversa, terá 
maior resistência. 
O que estes três princípios têm em comum é a segurança, identificação e o sentido 
existencial do ser que transmitem, a nível material, anímico e espiritual. 
 
Abrir fontes de saúde – a nova missão da medicina 
O princípio basilar da salutogênese, norteado pela heterostase e pela autodefesa 
imunológica do organismo, traz uma renovação ampla em todos os campos da medicina 
moderna. Isso inclui a alimentação saudável, com alimentos de cultivo natural e forte 
vitalidade. Digeri-los e transformá-los em substância própria do corpo exige ao organismo 
mais esforço que a ingestão de legumes enlatados, ou vitaminas artificiais. Tudo o que é 
pré–cozinhado, pré–digerido, sintético e pronto para comer não estimula suficientemente a 
atividade própria do organismo. Ativar, não poupar esforço é o princípio basilar da 
alimentação saudável. Os medicamentos antroposóficos têm também a meta de revigorar a 
resistência própria do paciente. Curar-se não é um processo que queremos poupar à pessoa 
– os medicamentos ajudam o organismo a desenvolver e mobilizar sua resistência e 
capacidade de auto–cura. 
Educar adequadamente a criança é saber estabelecer limites de acordo com a idade e 
ajudar na auto–experiência e no auto–desenvolvimento. Para a criança, é importante saber 
entre as pessoas conhecidas de exemplos que a ajudem a assumir desafios e lidar com as 
dificuldades. As crianças precisam da possibilidade de medir as suas forças no confronto 
com os adultos próximos, para poderem vivenciar e consolidar as suas capacidades. 
Uma boa educação prima pela honestidade, amor e respeito pelo outro. Nisto, a honestidade 
constitui a base, pois o amor e a autonomia, por muito importantes que sejam, carecem de 
chão quando não são acompanhados pela honestidade – por assim dizer, o amor a nível 
cognitivo. Pelo pensamento claro (que equivale saúde a nível mental) a criança aprende a 
integrar-se e orientar-se no contexto do mundo. 
Quando uma criança partiu um brinquedo, vai ter com um adulto, e pergunta, confiante: 
“Podes compor-me isto?”. “Compor”, curar, significa também restituir a integridade. Saúde 
significa integração, harmonia afinada de todas as funções. E significa tudo o que é são, 
sagrado em nós. 
A Antroposofia como ciência da alma e do espírito humano pode ligar-se, até ao pormenor, 
a este novo conceito da salutogênese. O que significa uma responsabilidade, sobretudo dos 
pedagogos e médicos antroposóficos, no sentido de contribuírem com pesquisas próprias 
para que este conceito seja mais divulgado e posto em prática. Requer ainda considerar a 
realidade espiritual no atual debate médico e científico, não isolando o espírito como 
“transcendental” ou remetendo-o em exclusivo aos teólogos e filósofos. 
A saúde do homem moderno depende, numa parte decisiva, da ideia que tem de si como ser 
humano, e do caminho de desenvolvimento pessoal que trilha. Pelo que iremos concluir 
estas considerações com a perspectiva da auto–educação. 
Saúde hoje e amanhã
Cada um pode aprender a ser mais saudável, mais humano, tomando consciência da 
existência divina – espiritual, e despertando-a em si. O como fazer foi indicado por Rudolf 
Steiner graças à sua experiência no campo da auto–educação. Nos seus livros 
“Conhecimento dos Mundos Superiores”, “Ciência do Oculto” e “Teosofia” expõe no 
entanto claramente que a aquisição de conhecimentos, o impulso do auto–desenvolvimento 
superior, e a prática meditativa só serão benéficos se houver vontade de tornar frutíferos 
para a via quotidiana os resultados destes trabalhos. Auto–desenvolvimento, neste sentido, 
significa adquirir experiências na vida e descobrir a vida com todas as facetas, altos e 
baixos. Como é que queremos, afinal, aprender qualidades humanas tão magníficas como a 
veneração, a calma interior, a coragem e otimismo, esperança, lealdade, devoção, amor, 
verdade, e até aquela autonomia que também respeita profundamente a autonomia do outro, 
sem que estas qualidades se afirmem no quotidiano, e sem que o próprio quotidiano os 
tenha moldado e posto à prova? Nas palavras de Steiner: “para muitas pessoas, a vida 
comum já constitui por si um processo iniciático, mais ou menos inconsciente, por meio da 
prova do fogo. São aquelas que passam por experiências ricas desse tipo, cuja 
autoconfiança, coragem e perseverança crescem de maneira sadia; elas aprendem a 
suportar dor, decepção, fracasso de empreendimentos com grandeza de alma e, 
notadamente, com calma e força inabaláveis. Quem passou por experiências desse tipo já 
é muitas vezes um iniciado, sem que o saiba nitidamente; falta, então, apenas pouco para 
que se lhe abram os ouvidos e os olhos espirituais, vindo ele a tornar-se um clarividente”. 
O caminho iniciático segundo a antroposofia existe para possibilitar a iniciação de todos 
aqueles que a procuram consciente e ativamente. Começa com o pensamento sobre um fato 
ou sobre uma qualidade que se pretende aprender. Podemos com toda a calma trazer esta 
qualidade ante a imaginação, avaliar a nossa própria experiência de vida, e refletir em que 
medida é que já conseguimos realizá-la e as condições que teremos de criar para 
desenvolvê-la mais ainda. Para isso, há a possibilidade da meditação regular sobre tais 
qualidades no pensar ou no sentir, e há também a hipótese de exercitá-las, 
propositadamente, no quotidiano, durante determinadas semanas ou meses, i.e. praticá-las 
sistematicamente, na ocasião de certas atividades, situações de diálogo ou encontros com 
pessoas. Assim aprendemos que os pensamentos são realidades, pois experienciamos que 
algo que inicialmente existia apenas no nosso pensar, passa agora, aos poucos, a fazer parte 
das nossas qualidades e da nossa identidade. Assim vivenciamos como o nosso ser é 
despertado, anímico–espiritualmente, para uma cada vez maior clareza, tanto nos 
pensamentos como os sentimentos. No entanto, também vivenciamos como qualidades 
negativas, egoístas ou ligadas aos instintos inferiores, também se intensificam, opondo-se 
ao trabalho em curso. Isso por um lado tem a ver com a maior sensibilidade e percepção 
que desenvolvemos em relação aos aspectos negativos, no seu contraste com as qualidades 
positivas. Por outro lado, devido aos exercícios, a nossa parte anímico–espiritual torna-se 
mais livre e autônoma em relação ao corpo, que assim se transforma numa base mais forte, 
com os seus impulsos e instintos inatos. 
Por isso é essencial respeitar na vida certas condições que providenciam um bom equilíbrio, 
e formam a base de bons hábitos que nos apóiam nos altos e baixos da vida. São estas as 
chamadas “sete condições para o desenvolvimento oculto”. Queremos explanar aqui, no 
final, estas condições, pois constituem ao mesmo tempo sete posturas éticas que poderemos 
praticar sozinhos ou em conjunto com os outros. Ajudam-nos a encontrar as fontes de uma 
relação ética e moral profunda com o ser humano e com o mundo, para que possamos 
receber dela saúde física, anímica e espiritual. 
“Cumpre frisar que de nenhuma dessas condições se exige um integral cumprimento, mas 
simplesmente o aspirar a tal cumprimento. Ninguém é capaz de cumprir integralmente as 
condições; porém, pôr-se a caminho do seu cumprimento, isso cada um pode fazer. O que 
importa é a vontade, a intenção de pôr-se nesse caminho.”
Sete condições para um desenvolvimento saudável. 
“A primeira condição é a seguinte: dedique a sua atenção em aprimorar a saúde corpórea 
e espiritual. Naturalmente, o quão sadia uma pessoa é não depende, antes de tudo, dela. 
Todavia, pretender melhorar nesse sentido, disto cada um é capaz.”
Isto poderia levar-nos a crer que estamos a ser instruídos parasermos mais egoístas a 
respeito da nossa saúde. Mas o texto descreve a seguir como podemos encontrar uma 
relação justa como o prazer – e com o dever. O corpo e a alma esforçam-se nas lidas do 
trabalho diário, e pode acontecer que, em prol do dever, desconsideramos a saúde. Talvez 
“saltemos” uma refeição, ou trabalhemos noite adentro, para que as coisas avancem. Quer 
dizer, por vezes, o trabalho pede-nos certo desrespeito pela saúde. Esta tendência de 
enfraquecermos a saúde deverá ser equilibrada pela justa relação com o prazer. Podemos 
aprender a viver o prazer intensamente, mas de modo a 
 
dar-nos a força para trabalhar melhor e com mais contentamento. Trata-se de aprender a 
não procurar o prazer como finalidade em si (que nos tiraria forças), mas a viver o prazer de 
modo a oferecer-nos mais força e motivação para a vida e para o desenvolvimento. Para as 
pessoas que mal sabem sentir o prazer, é importante ter bem claro o fato de o prazer 
constituir uma condição. Alma e corpo precisam do prazer. O problema é apenas saber 
manter o processo bem consciente, e por exemplo encontrar o momento para parar de 
comer, de acordo com o lema: “devemos parar de comer quando sabe mesmo bem”. Se 
procurarmos o prazer para além do ponto culminante, ou com a ajuda de drogas ou 
substâncias prejudiciais para a saúde, teremos de procurar outras fontes para a nossa 
recuperação. 
“A segunda condição consiste em sentir-se qual um membro toda a vida existente. No 
cumprimento desta condição está encerrada muita coisa. Mas cada um só pode cumpri-la 
à sua própria maneira. Se sou o seu educador e o meu aluno não corresponde àquilo que 
almejo, tenho então de voltar o meu sentimento não contra o meu aluno, mas contra mim 
mesmo. Tenho de sentir-me uno com o meu aluno a ponto de perguntar a mim mesmo: 
“por acaso aquilo que no meu aluno é insatisfatório não é uma consequência do meu 
próprio agir”? ”Ao invés de voltar o meu sentimento contra ele, farei reflexões no sentido 
de como eu próprio deverei portar-me, a fim de, futuramente, o aluno poder corresponder 
melhor às minhas exigências. A partir de tal mentalidade modifica-se, paulatinamente, 
todo o modo de pensar do ser humano. Isto é válido tanto para o menor como para o 
maior. A partir de tal mentalidade enxergo, por exemplo, um criminoso de forma diferente 
do que sem a mesma. Refreio os meus julgamentos e digo a mim mesmo: “sou apenas um 
homem como esse. A educação que circunstancialmente tive talvez me haja livrado do seu 
destino”. Certamente também chegaria ao pensamento de que esse meu irmão se teria 
tornado outro se os professores que comigo despenderam os seus esforços os tivessem 
dedicado a ele. Conscientizo-me de que a mim coube algo de que a ele foi privado, e de 
que devo o meu bem-estar precisamente à circunstância de que ele foi privado. E, então, 
não mais estarei longe da noção de que sou apenas um membro de toda a humanidade e 
co-responsável por tudo o que acontece.“
Quem pratica esta condição, vai notar o poder elevado (por vezes até assustador) que 
exerce. Quando alguém me irrita e eu resolvo pagar com a mesma moeda, a situação 
entrará facilmente em escalada, ou dará origem a mau ambiente. Mas por exemplo quando 
alguém nos trata injuriosamente, não precisamos de nos deixar levar a reagir ao mesmo 
nível; podemos lidar com o sucedido interrogando-nos: o que é que posso contribuir para 
que a pessoa possa revelar um lado melhor? Ou o que deve ter acontecido àquela pessoa 
(talvez uma experiência em casa…) para que me viesse a falar com tanta baixeza e sem 
inibição? Mesmo quando não encontro respostas, o fato de termos colocado tais perguntas 
de uma forma sincera e sem passar logo a condenar o outro, já é um passo significativo. 
Não é raro o outro, passado algum tempo, modificar o seu comportamento. 
“Outro aspecto do desenvolvimento oculto está estreitamente relacionado com esta 
terceira condição para a disciplina do oculto. O discípulo terá de lutar para elevar-se à 
concepção de que os seus pensamentos e sentimentos têm tanta importância para o mundo 
como os seus atos. Terá de reconhecer o fato de que é tão pernicioso odiar seu semelhante 
como nele bater. Isso leva também a reconhecer que não faço apenas algo por mim 
quando me aperfeiçôo a mim mesmo, mas também em prol do universo. O universo tira 
dos meus sentimentos e pensamentos puros tanto proveito quanto da minha boa conduta.” 
A quarta condição consiste em adquirir “a concepção de que a verdadeira entidade do ser 
humano não reside no exterior, mas no interior. Quem se considera só um produto do 
mundo exterior, um resultado do mundo físico, nada alcançará na disciplina do oculto. 
Sentir-se como um ser anímico–espiritual é um fundamento para tal disciplina. Quem 
avança para tal sentimento 
será capaz de discernir o dever interior do resultado exterior. Aprende a reconhecer o que 
não pode ser medido diretamente pelo outro. O discípulo terá de encontrar a correta 
posição central entre o que as condições exteriores impõem e o que ele reconhece como 
certo para sua conduta. Não deve impor ao seu meio ambiente algo para o qual este não 
pode ter compreensão alguma; mas também deve estar totalmente livre do vício de só fazer 
o que é aprovado por esse meio ambiente. A aprovação para as suas verdades, ele terá de 
procurar unicamente na voz da sua alma honesta e que luta em busca do conhecimento. 
Contudo, deve aprender de seu meio ambiente tanto quanto possível, a fim de descobrir o 
que lhe convém e é útil. Dessa forma desenvolverá, em si próprio, aquilo que se denomina 
na ciência do oculto “a balança espiritual”. Sobre um dos seus pratos encontra-se um 
“coração aberto” para as necessidades do mundo exterior; sobre o outro, “firmeza 
interior e perseverança inabalável”. 
A quinta condição é a perseverança na obediência a uma decisão uma vez tomada. Nada 
poderá levar o discípulo a afastar-se de uma decisão tomada, a não ser pela simples 
constatação de haver incorrido em equívoco. Cada decisão é uma força, e mesmo que essa 
força não tenha êxito diretamente no lugar para onde é dirigida, atuará à sua maneira. O 
sucesso só é decisivo quando se realiza um ato por cobiça. Mas todos os atos realizados 
por cobiça são destituídos de valor perante o mundo superior. Aqui importa unicamente o 
amor a uma ação. Nesse amor deverá esgotar-se tudo o que impele o discípulo a uma 
ação. Assim, ele também não cansará de sempre tornar a converter uma decisão em ação, 
por mais frequentemente que a mesma lhe tenha sido mal sucedida. 
A sexta condição é o desenvolvimento do sentimento de gratidão perante tudo o que é 
proporcionado ao ser humano. Deve-se estar cônscio de que a própria existência é um 
presente de todo o Cosmo. Quanto não é necessário para que cada um de nós possa 
receber e viver sua existência! O quanto não devemos à Natureza e a outras pessoas! A 
esses pensamentos deverão ter inclinação os que almejam a disciplina do oculto. Quem 
não conseguir abandonar-se a eles não será capaz de desenvolver, dentro de si, aquele 
amor universal, necessário para chegar à cognição superior. Algo que eu não amo não se 
me pode revelar. E cada revelação tem de preencher-me de gratidão, pois através dela me 
torno mais rico. 
E por fim, diz-se: todas as citadas condições têm de se unir numa sétima: compreender a 
vida incessantemente no sentido em que as condições o exigem. Por meio disto, o discípulo 
cria a possibilidade de dar à sua vida um caráter uniforme. Cada uma das suas 
manifestações de vida estará em harmonia recíproca, e não em contradição. Ele estará 
preparado para a calma que deverá alcançar no decurso dos primeiros passos na 
disciplina do oculto. 
Este olhar sobre a nossa caminhada de auto-educação esclarece-nos que nós humanos 
somos imperfeitos, mas também temos capacidade de desenvolvimento. Podemos aprender 
cada vez maishumanidade, desde que estejamos dispostos a pensá-la, senti-la, praticá-la e 
querê-la, sempre de novo. Ao criar acesso a estas fontes, adquirimos cada vez maior saúde 
nos três níveis da nossa existência física, anímica e espiritualmente. Além disso, 
adquirimos também uma postura ética salutar, propícia para o desenvolvimento da 
humanidade em todos os domínios da nossa vida. 
Que me seja permitido mencionar, neste contexto um livro recém-publicado, que descreve 
pormenorizadamente esta postura ética saudável com o título: “Rede Humanidade”.

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