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alvedrio e a fatalidade,
passa a Política.
8. A degradação do saber em mercadoria. Os direitos intelectuais
Concentremo-nos agora da Sociedade da Informação.
Tem como instrumento nuclear a Internet. Mas esta foi objecto de profunda e
rápida metamorfose.
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Nascida rede militar, passou a rede científica desinteressada, depois a meio de
comunicação de massas, para se tornar hoje sobretudo veículo comercial.
Nesta evolução, a informação que seria o seu conteúdo vai mudando de
natureza.
Não só passa a abranger qualquer conteúdo de comunicação – de maneira que
melhor se falaria em sociedade da comunicação que em sociedade da informação – como a
própria informação se degrada. O saber transforma-se em mercadoria. De conhecimento livre
transforma-se em bem apropriável. É cada vez mais objecto de direitos de exclusivo, que são
os direitos intelectuais. Estes, por sua vez, são cada vez mais dissociados dos aspectos
pessoais, para serem considerados meros atributos patrimoniais, posições de vantagem na vida
económica.
A mercantilização geral do Direito Intelectual é um facto. Uma manifestação
flagrante está na circunstância de a entidade que é hoje decisiva na disciplina dos direitos
intelectuais não ser hoje, nem a UNESCO nem a OMPI, mas a Organização Mundial do
Comércio – e isto quer no que respeita ao Direito de Autor e ao Direito da Informática, quer
aos direitos industriais. São antes de mais objecto do comércio internacional.
E como todos os países necessitam participar do comércio internacional, são
obrigados a acatar as regras que condicionam a sua admissão, mesmo que estas representem
uma subordinação que não tem fim à vista.
Podemos dar exemplos elucidativos desta mudança de índole dos direitos
intelectuais.
I – Patentes
A patente foi criada como um exclusivo que representava uma recompensa pela
invenção que trazia vantagem à Comunidade. Outorgava um exclusivo, mas era acompanhada
da obrigação de revelar o invento e de explorá-lo industrialmente no país. Pretende-se agora
transformá-la sub-repticiamente num exclusivo comercial, que outorga em cada país um
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mercado garantido sem obrigação de explorar industrialmente. Ampliam-se assim
incessantemente os privilégios dos países industrializados, sem nenhuma vantagem em
contrapartida para os não industrializados 
1
.
II – Marcas
Em matéria de marca, também se assiste ao reforço constante dos poderes
atribuídos ao titular. Mas são sobretudo as marcas de (grande) prestígio (art. 191 do Código da
Propriedade Industrial) que vêem reforçada a protecção. Esta passa a ser autónoma, quer
dizer, independente de qualquer risco de indução do público em erro.
Mas as marcas de grande prestígio são basicamente as marcas das grandes
empresas mundiais. Isto significa que, sem nenhuma contrapartida em qualquer interesse
público, se tende a atribuir a essas empresas, gradualmente, o puro monopólio dum sinal.
Monopólio que, pela possibilidade de exploração económica que encerra, representa valores
espantosos. Basta recordar que se calcula que a marca Coca Cola representa aproximadamente
metade do valor dos activos da empresa.
9. A atribuição de direitos no domínio da informática
Este fenómeno ganha rapidamente alento no domínio da informática.
Falámos já na emergência das “auto-estradas da informática”, que tornam a
penetração da Internet em todos os países praticamente fatal. Anteriormente, podíamos dizer
que só a radiodifusão punha sensivelmente em causa a territorialidade do direito de autor,
 
1
 Alberto Bercovitz Rodriguez-Cano, Propiedad industrial y globalización de los mercados, in “Actualidad
Aranzadi” (Madrid), X, n.º 436, observa que, se o paradigma deixou de ser o desenvolvimento industrial para
passar a ser a participação no comércio mundial, é contraditório simultaneamente pretender a exclusão do
esgotamento internacional (a extinção do direito de comandar a comercialização dos produtos que resultam do
processo patenteado): suprimem-se em benefício do comércio internacional as barreiras aduaneiras que eram de
interesse público e mantêm-se [ou criam-se..] em benefício de interesses privados.
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superando as fronteiras 
2
. Hoje, podemos dizer que todos os meios de expressão de obras
intelectuais são digitalizáveis e comunicáveis em rede, sem limitação de fronteiras.
As telecomunicações clássicas permitiam limitadamente a interactividade. Mas
os novos meios, não só as superam, como levam ainda a interactividade muito além do que se
poderia anteriormente supor.
Para assegurar juridicamente esta infra-estrutura da sociedade da informação,
atribuíram-se direitos sobre os bens informáticos.
Primeiro, atribuiu-se a protecção aos elementos singulares informáticos que são
a base do sistema. É assim que vemos nascer a protecção por direitos intelectuais de:
– topografias dos produtos semicondutores
– programas de computador
– bases de dados.
Só não se acertou ainda no ponto de ataque em relação aos chamados produtos
multimédia. Em compensação, no Reino Unido protegem-se já as obras geradas por
computador, muito embora não haja na sua origem um acto individual de criação.
E mais: em todos os casos se reivindicou a protecção mais forte entre os
direitos intelectuais, que é a atribuída pelo direito de autor 
3
. E isto não obstante se tratar em
todos os casos de produções meramente técnicas, que não são obras literárias ou artísticas e se
aproximam muito mais do nível de novidade que justificou a protecção das invenções 4.
 
2
 A isso se respondeu considerando que a comunicação ao público da obra radiodifundida se dava com a
recepção e não com a emissão. Deste modo se resguardava a competência territorial da lei do lugar da recepção,
a quem cabia disciplinar os direitos sobre a obra.
3
 Só nas topografias dos produtos semicondutores a Europa se afastou do esquema americano, enfileirando por
um direito intermédio entre direito de autor e direito industrial, em vez de um puro direito de autor.
4
 E no que respeita aos programas de computador, procura-se agora sobrepor, à protecção do direito de autor,
ainda a protecção por meio de patente.
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Assegura-se rapidamente a expansão mundial da protecção. Multiplicam-se os
instrumentos internacionais neste domínio 
5
. E com isto se consolida também a supremacia
dos países mais desenvolvidos, impedindo que os outros possam chegar por si ao domínio
destes instrumentos informáticos.
Há até um aspecto contraditório. No meio desta expansão internacional,
podemos dizer que a matéria em que a disciplina internacional era mais necessária é aquela
que não tem ainda regra pactuada. Consiste em determinar a lei aplicável à disciplina dos
conteúdos da Internet, uma vez que estes são colocados em contacto praticamente com todas
as ordens jurídicas mundiais. Acontece assim porque não se encontrou ainda uma solução.
Começou-se por afirmar que a lei competente seria a do país de origem, o que beneficiaria os
países que têm as indústrias de copyright mais desenvolvidas. Mas depressa se reparou que
isso conduziria a que os produtores escolhessem sedes de conveniência, deslocalizando para
os países cujas leis mais lhes conviessem: porque é facílimo colocar um conteúdo num
servidor localizado em qualquer parte do mundo. Perante esta ameaça de êxodo, não se optou
ainda entre o país de origem e o país de recepção (ou seja, todos os países).
Nem mesmo nas convenções de Direito Internacional Privado, para que se
recorre agora, se chegou ainda a qualquer solução.
Mas o pulular de direitos intelectuais vai muito além

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