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A Hidrovia Paraguai Paraná e seu significado par a diplomacia sul americana do brasil

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cedia lugar à concertação de políticas
que permitissem regionalizar os problemas e soluções e impulsionar
o processo de integração. A existência palpável de problemas e
interesses comuns passaria a orientar as políticas externas dos dois
países, levando-os a assumir posições concertadas nos foros
multilaterais, aprofundando, assim, a tendência à reaproximação
bilateral iniciada em 1979291. No entanto, a crescente convergência
de paradigmas entre os dois países, fruto de inevitáveis adaptações à
própria dinâmica da economia internacional, não seria suficiente para
sepultar por completo a herança da vivência de seus caminhos
históricos e mentalidades próprias, que continuariam a permear suas
relações bilaterais até o presente, refletindo-se em desconfianças
veladas e diferenças de visões, que dificultam a negociação de políticas
e iniciativas conjuntas e a conformação de uma real “aliança
estratégica”292.
Não restam dúvidas de que a unidade regional dependeria, a
partir da abertura proporcionada pelo Acordo Tripartite, da
consolidação do entendimento entre o Brasil e a Argentina, que
começava a delinear-se no âmbito do Tratado da Bacia do Prata,
transformado durante anos em foro de mediação de suas controvérsias.
O desenvolvimento integrado da Bacia passaria, portanto, a constituir
autêntico desafio geopolítico e as bases para efetiva aliança regional
que viria sobrepor-se no futuro às desavenças do passado, ao levar os
países da área a unirem esforços para evitar dependência externa. A
proposta brasileira de revalorização da Hidrovia Paraguai-Paraná foi
o primeiro passo nessa direção, antecedendo a criação do próprio
Mercosul, sua expressão máxima.
291
 Russell, op. cit., pp.81-83.
292
 Ver em GONÇALVES, José Botafogo e LYRIO, Mauricio Carvalho. La Alianza
entre Brasil y Argentina. In: Archivos Del Presente, Buenos Aires, año 8, n. 31, p. 21,
2003.
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CAPÍTULO III
A HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ (HPP):
SITUAÇÃO GEOGRÁFICA, CARACTERÍSTICAS
DA NAVEGAÇÃO E ZONAS DE INFLUÊNCIA
A HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ (HPP):
SITUAÇÃO GEOGRÁFICA, CARACTERÍSTICAS
DA NAVEGAÇÃO E ZONAS DE INFLUÊNCIA
1. INSERÇÃO DA HPP NO ÂMBITO DA BACIA DO PRATA
A América do Sul conta com três importantes bacias
hidrográficas, a do Amazonas, a do Orinoco e a do Rio da Prata
(ANEXO - Figura 2), que, se conectadas, ofereceriam a possibilidade
de se navegarem 50.000 km de vias fluviais293. A união desses sistemas,
que hoje funcionam de forma isolada, é tema que chegou a despertar
planos ambiciosos sobre a integração física das três bacias, os quais,
entretanto, sempre se chocaram com dificuldades práticas, inclusive
de ordem econômica. Contudo, tais planos costumam ser valorizados
politicamente por líderes da região (como, por exemplo, o ex-Presidente
Belaunde Terry, do Peru, e o atual Presidente da Venezuela, Hugo
Chávez), na medida em que poderiam contribuir para incrementar o
espaço econômico regional e melhor aproveitar seus recursos e
vantagens comparativas. Gerariam esses sistemas os elementos
necessários a nossa inserção competitiva na economia mundial, uma
vez que o transporte aquático é considerado ideal para o intercâmbio
de grandes volumes de mercadorias não perecíveis, por suas vantagens
competitivas econômicas e ambientais.
293
 CAF. Los Ríos nos unen. Integración Fluvial Suramericana. Santa Fe de Bogotá,
Colombia: Jorge Perea Borda, 1998. p. 28.
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A Bacia do Prata, amplo espaço geopolítico regional,
compreende superfície de 3.200.000 km², equivalente a
aproximadamente 18% da área total da América do Sul, e
superada em tamanho apenas pelos sistemas fluviais do Amazonas,
do Congo e do Mississipi294. Esse sistema fluvial é regido pelo
Tratado da Bacia do Prata, assinado por ocasião da I Reunião
Extraordinária de Chanceleres dos países que a integram295,
realizada em Brasília, em abril de 1969, cujo Artigo 1o dispõe:
“As Partes Contratantes convêm em conjugar esforços com o
objetivo de promover o desenvolvimento harmônico e a integração
física da Bacia do Prata e de suas áreas de influência direta e
ponderável”296.
Ao estender os efeitos do Tratado para além dos limites
geográficos compreendidos pela Bacia do Prata, de forma a
englobar as áreas de influência direta e ponderável, o Artigo 1o
pressupõe a busca do aproveitamento e desenvolvimento sustentável
dos recursos naturais da região com base no conceito de espaço
econômico que prevalece sobre o de espaço geográfico e político.
A integração física far-se-á, no âmbito do Tratado, por meio de
obras de infra-estrutura que permitam a livre circulação de bens,
serviços e pessoas. Com esse objetivo, promovem-se “a
identificação de áreas de interesse comum e a realização de estudos,
programas e obras, bem como a formulação de entendimentos
294
 CASTRO, Therezinha de. Brasil y la Cuenca del Plata. In: DALLANEGRA
PEDRAZA, Luis (Coord.).. Los Países del Atlántico Sur. Geopolítica de la Cuenca del
Plata. Buenos Aires: Editorial Pleamar, 1983. p. 123.
295
 Realizou-se em Buenos Aires, em 1967, por iniciativa do governo argentino, a I
Reunião de Chanceleres da Bacia do Prata, oportunidade, em que subscreveram Declaração
Conjunta, na qual consignaram a decisão de levar a cabo “estudo conjunto e integral da
Bacia do Prata, com vistas à realização de um programa de obras multinacionais, bilaterais
e nacionais de utilidade para o progresso da região”. Essa decisão viria a materializar-se
na assinatura do Tratado da Bacia do Prata, em Brasília, em abril de 1969, por ocasião
da I Reunião Extraordinária de Chanceleres.
296
 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Coleção de Atos Internacionais, no.
633 – Tratado da Bacia do Prata. Rio de Janeiro, 1971. p.4.
135A HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ (HPP)
operativos ou instrumentos jurídicos”297 que contribuam para, inter
alia, facilitar e assistir os países em matéria de navegação e
aperfeiçoar as interconexões rodoviárias, ferroviárias, fluviais,
aéreas, elétricas e de telecomunicações. Portanto, não pareceria
descabido afirmar que preocupações dessa natureza, aliadas à de
consideração dos aspectos integrais da Bacia, conferem ao referido
Tratado caráter precursor do novo paradigma proposto para o
desenvolvimento da infra-estrutura física sul-americana.
Do ponto de vista de sua distribuição geográfica, estende-se a
Bacia do Prata de forma heterogênea pelos territórios da Argentina
(32,3%), Brasil (44,2%), Bolívia (6,4%), Paraguai (12,7%) e Uruguai
(4,4%)298 (ANEXO – Tabela 1). No entanto, se vista sob a ótica do
artigo 1o do Tratado da Bacia do Prata, ou seja, a da “zona de influência
direta e ponderável”, essa distribuição adquire outra conotação. O
Brasil, que dispõe da maior área platina, é o que tem a menor
porcentagem de seu território total (17%) sob a influência da Bacia,
em comparação ao Paraguai, cujo território encontra-se nela contido
integralmente (100%); ao Uruguai (79,34%); à Argentina (37%) e à
Bolívia (18,5%)299.
O sistema platino (ANEXO – Figura 3), que forma em sua
desembocadura vasto estuário entre o Uruguai e o extremo oriental da
planície argentina, é constituído por três grandes eixos fluviais: os rios
Paraguai, Paraná e Uruguai, cujas nascentes encontram-se no planalto
297
 Ibidem.
298
 BOSCOVICH, Nicolás. Geoestrategia para la Integración Regional. Buenos Aires:
Ciudad Argentina, 1999. p. 46.
299
 Castro, op. cit., p. 124. Ver também em FRAGA, Jorge Alberto. El Sistema del
Plata. Visión Geopolítica. In: Boletín del Centro Naval: . La Hidrovía Paraguay-Paraná.
Factor de Integración, Buenos Aires, año 110, v. 109, suplemento n. 763-G-11, p. 77,
invierno 1991; BLOCH D. Roberto. Transporte Fluvial. Buenos Aires: Ad-Hoc, 1999.
p. 45. No que diz respeito às populações afetas às áreas de influência da Bacia, de
acordo com Fraga, o desequilíbrio é ainda mais visível, ao corresponder a população
daquelas