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A Hidrovia Paraguai Paraná e seu significado par a diplomacia sul americana do brasil

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para a diplomacia brasileira na sua vertente de integração física
da América do Sul, a partir dos antecedentes remotos e imediatos
relativos ao tema da navegação fluvial na Bacia do Prata, e colocar em
evidência as origens e o desenvolvimento do chamado projeto
Hidrovia6, bem como os interesses que nele têm o Brasil e os demais
países platinos.
A monografia partiu da hipótese de que a valorização da
Hidrovia como eixo de caráter longitudinal marcou mudança de
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 Ver em BOSCOVICH, Nicolás. Geoestrategia para la Integración Regional. Buenos
Aires: Ciudad Argentina, 1999. p. 91; FRAGA, Jorge Alberto. El Sistema del Plata –
visión geopolitica. In: Boletín del Centro Naval: La Hidrovía Paraguay-Paraná –
factor de integración, Buenos Aires, año 110, v. 109,suplemento n. 763 G 11, pp.77-
83, invierno, 1991; ROMANO, Alfredo Hector Rizzo. Hidrovia Paraguay-Paraná –
aspectos jurídicos y geopolíticos. In: Boletín del Centro Naval: La Hidrovíia Paraguay-
Paraná – factor de integración, Buenos Aires, año 110, v.109, suplemento n. 763 G 11,
p.104, invierno 1991; SORIANO, Carmelo. La Cuenca Del Plata: geopolítica y desarrollo
socioeconómico. In: Boletín del Centro Naval: La Hidrovía Paraguay-Paraná – factor
de integración, Buenos Aires, año 110, v. 109, suplemento n. 763 G 11, pp. 137 e 138,
invierno 1991.
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 A iniciativa dos cinco países platinos de reunir esforços para melhorar as condições de
navegabilidade da Hidrovia Paraguai-Paraná foi incorretamente denominada “Projeto
Hidrovia”. A expressão cunhada e de uso corrente não reflete a natureza real da iniciativa,
que é manter as características naturais da via fluvial, com intervenções mínimas em
alguns pontos críticos de seu curso, para garantir a manutenção das boas condições de
navegação ininterrupta, diurna e noturna, ao longo de todo o ano, suficiente para
embarcações adaptáveis ao rio. Ao contrário, a expressão tem contribuído para gerar
interpretações errôneas de que se trata de abrir uma grande pista fluvial, por meio de
obras de engenharia de grande envergadura.
ELIANA ZUGAIB20
paradigma geopolítico, em que a antiga lógica de antagonismos
que caracterizou as relações na Bacia do Prata, até o fim da
década de 1970, foi substituída por esforços de instauração do
modelo de cooperação e complementação que dinamizou o
processo de integração regional, de que é exemplo expressivo o
Mercosul.
Buscou-se desenvolver a argumentação de que essa mudança
de paradigma geopolítico, embora real, tem alcance relativo,
sobretudo em função de visões diferenciadas sobre a utilização da
Hidrovia e de seus benefícios. O Brasil, por exemplo, sustenta que a
Hidrovia é um corredor fluvial navegável que se encontra, em quase
todo seu percurso, em condições naturais, devendo-se buscar o
equilíbrio que permita sua melhor utilização com o menor impacto
ambiental. Outros países chegariam a buscar maiores vantagens
econômicas do uso da Hidrovia, com a realização de obras, que
esbarrariam em diferentes limitações, seja de caráter ambiental, seja
de caráter econômico-financeiro.
Sustentou-se o ponto de vista de que: (i) existe um valor
intrínseco da Hidrovia para o Brasil como meio de transporte que pode
beneficiar sobretudo a economia da região Centro-Oeste, cujo
desenvolvimento acelerado e crescente vinculação internacional exigem
soluções inovadoras e competitivas e (ii) a via fluvial serve de importante
instrumento de integração regional sul-americana. Sua função, porém,
não deveria ser magnificada isoladamente porque a melhoria das
condições de navegabilidade no sistema fluvial Paraguai-Paraná não
diminui o papel de outros eixos e projetos de infra-estrutura, sejam
longitudinais, sejam transversais, de interesse para a integração sul-
americana.
Procurou-se demonstrar que a iniciativa de revalorização da
Hidrovia, anterior à instituição do próprio Mercosul, viria a assumir a
condição de projeto capaz de contribuir para dar conteúdo à nova
política de integração, que começou a ser gestada no final da década
21INTRODUÇÃO
de 1980 e se expressa hoje na prioridade atribuída pelo Governo
brasileiro à América do Sul.
Para melhor compreender essas vertentes do projeto Hidrovia,
procurou-se inseri-lo no âmbito das estratégias de fortalecimento e
ampliação da infra-estrutura regional, sub-regional e nacional e na
perspectiva histórica da utilização dos rios da Bacia do Prata e de suas
implicações geopolíticas em que prevalecia o conflito dos eixos
“transversais” e “longitudinais”, com o objetivo de monopolizar a
circulação do tráfego e da produção a partir das áreas interiores. O
projeto foi, assim, focalizado como exemplo de transição daquele
paradigma de confrontação para outro de complementação e
cooperação regional.
O trabalho visou, principalmente, ao enfoque diplomático, a partir
do qual buscou realçar o significado da participação do Brasil no projeto
Hidrovia como instrumento da política de integração física e econômica
regional e situá-lo como uma das iniciativas que concorrem para os
objetivos da política externa brasileira na América do Sul. Atribuiu-se
ênfase aos aspectos econômicos e comerciais pelo que representam para
as potencialidades de crescimento da região e aos de caráter ambiental,
tendo em conta constituírem elementos-chave do posicionamento
brasileiro nas negociações no âmbito do Comitê Intergovernamental da
Hidrovia (CIH) e de seus futuros desdobramentos.
A pesquisa seguiu o método dedutivo, tendo como ponto de
partida a consideração dos interesses do Brasil na Bacia do Prata e
evoluiu para a discussão dos aspectos particulares do transporte e da
navegação fluvial que se relacionam com a HPP. Tratou-se de abordar
dois temas específicos, a Hidrovia e a integração da América do Sul,
de maneira a identificar sua inter-relação e inferir dessa abordagem os
elementos de relevância para o estudo. Trabalharam-se fontes já
conhecidas sob ótica diferenciada, com o intuito de chegar a novos
patamares de interpretação acerca de pontos debatidos. Foi realizada
análise documental e bibliográfica.
ELIANA ZUGAIB22
Para responder à hipótese, intentou-se observar, registrar e
analisar os seguintes argumentos: (a) o projeto HPP representa mudança
das visões geopolíticas que tanto condicionaram os esforços de
integração regional e, portanto, do modelo de relacionamento do Brasil
com seus vizinhos da Bacia do Prata; (b) nesse sentido, a HPP tornou-
se opção de infra-estrutura de transporte eficiente, competitiva e capaz
de impulsionar o processo de integração e de desenvolvimento
sustentável regionais; (c) a vocação natural do complexo Paraguai-
Paraná é servir de via de passagem para a integração regional e poderá
viabilizar o propósito do Mercosul de agilizar a circulação de
mercadorias, bens e serviços, com redução dos custos de transporte e
de seguros; (d) para que a HPP possa cumprir plenamente a função de
via interior do Mercosul é imprescindível que sua navegabilidade seja
assegurada em condições suficientes com vistas a incrementar a eficiência
do comércio regional e sua competitividade no mercado internacional;
(e) a questão ambiental tem forte incidência sobre o tema da HPP e
representa elemento de complexidade no trato diplomático da Hidrovia;
e (f) a continuidade do projeto tem importância para os esforços
empreendidos no âmbito da IIRSA, que resultou da I Reunião de
Presidentes da América do Sul, realizada em Brasília no ano 2000, e
ganhou acrescida importância na política de integração sul-americana
preconizada pelo Governo do Presidente Lula.
O trabalho sustenta-se em oito capítulos. O primeiro deles trata
da integração da América do Sul como condição essencial para o
desenvolvimento sustentável da região. Para crescer de maneira
harmônica, objetivo básico do Tratado da Bacia do Prata, os países
que a compõem devem integrar suas economias, aumentando o
intercâmbio comercial, financeiro e tecnológico,