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As Vítimas Algozes

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e a aguardente em abundância, em que se fartavam. Todos eles 
gritavam – viva sinhá-moça – como indiferentemente soltariam qualquer outro grito, 
que os animasse a beber, e nenhum deles por um só e breve momento pensara no 
incômodo que a sua gritaria podia causar ao senhor doente. 
Pouco, menos que pouco, nada lhes importavam a sorte e a vida de Domingos 
Caetano, a boa ou má fortuna de Florinda, e a felicidade de Hermano. 
No marido da senhora-moça viam um novo senhor, e antes da festa que os fazia 
olvidar tudo, alguns deles tinham perguntado a outros: 
– Será melhor ou pior senhor? 
E não poucos haviam respondido: 
– Mais ou menos chicote, será sempre cativeiro. 
O que se podia traduzir assim: 
– Sempre escravidão, sempre ódio. 
E os fados estrepitosos avançavam pela noite, impedindo o sono do velho 
doente. 
Soavam de contínuo os gritos: – viva sinhá-moça! 
Mas se chegasse às senzalas dos fados a notícia da morte do senhor, da senhora, 
ou da sinhá-moça festejada, e com a notícia não viesse a ordem da cessação da gritaria e 
das danças bacanais, os fados continuariam sem atenção às lágrimas e ao luto dos 
senhores, e talvez fosse tal infortúnio o incentivo para maior alegria. 
Às duas horas da madrugada terminaram os fados dos escravos por ordem que 
Angélica mandara, escondendo-a à condescendência e à tolerância festivais do pai que 
abençoava por todos os modos o feliz casamento da filha. 
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Mas além das duas horas da madrugada velavam ainda nesta noite um grande 
padecimento e dois grandes amores. 
O grande padecimento de Domingos Caetano, que gastava na insônia os restos 
da vida em ruínas. 
O grande amor da esposa, da companheira de longos anos, que se prendia àquela 
vida tão cara e tão prestes a desprender-se do corpo. 
E grande amor dos noivos que, no egoísmo da glória desse amor, velava, 
esquecendo o mundo, o futuro, tudo... até o pai que se adiantava para a morte. 
Perdão para esse egoísmo! E a embriaguez dos noivos. 
 
XVII 
 
E ainda alguém mais velava: era o rancor do escravo. 
Simeão agitava-se nas torturas de duas idéias para ele cruéis. 
Desde o dia em que sonhara que Hermano ia casar com Florinda, confrangia-se 
pensando, reconhecendo que teria por senhor-moço o homem que o esbofeteara, 
subjugara, e mandara preso à fazenda, e que esse mancebo que ele detestava, e a quem 
desejava o maior mal, havia de ter a dita de possuir a bela mulher, sua senhora-moça, 
cujos dotes físicos ele se atrevera a contemplar dissimulado com olhos perversamente 
libidinosos, encarecendo com imaginação desenfreada e aos aplausos da cozinha e da 
senzala infames o que seus olhos não podiam ver, injuriando na torpeza do elogio a 
virginal pureza da donzela. 
Simeão passou dias horríveis, retemperando sua alma no rancor mais violento: 
carcomido por incrível inveja e em delírio insolente, notou uma a uma, estudou com 
raiva a beleza do rosto, a gentileza da figura, a graça do andar, as proporções dos pés e 
das mãos, todos os encantos visíveis de sua senhora-moça, e aborreceu ainda mil vezes 
mais Hermano, para quem era possível, provável, certa a posse de tantos tesouros 
impossível para ele. 
O escravo não amava, não amou Florinda; mas em sua mente audaz, em seus 
instintos escandalosos, revoltantemente ultrajadores e licenciosos, lembrou, 
contemplando a senhora-moça, o que lembrava aproximando-se da negra fácil, da 
escrava desmoralizada que lhe agradava e não fugia a seus ignóbeis afagos. 
E Simeão teve dobrada raiva de Florinda que não podia ser sua, como a negra 
escrava, e que bela, encantadora, inocentemente voluptuosa, ia ser do homem que ele 
mais aborrecia. 
E, sem o pensar, Florinda excitou-lhe a fúria inimiga, dando-lhe novo e bonito 
fardamento de pajem no dia do seu casamento, e chamando-o de preferência para servir 
a seu noivo e a ela durante o banquete nupcial. 
E Simeão abafou no seio rugidos de fera, e apenas terminou o banquete fugiu 
com desespero, vagou pelo campo, e investindo enfim para uma das senzalas em que se 
batia o fado, bebeu desordenado, bebeu até cair em completa embriaguez. 
No outro dia, ao sol fora, despertou caído à porta da senzala e ainda meio 
embrutecido recolheu-se a casa, onde Hermano risonho e feliz mostrou à docemente 
confundida noiva, gracejando sobre a intemperança do crioulo. 
Florinda que corava a todos os olhos, mal ousou dizer: 
– Vai dormir, pobre Simeão. 
Passaram quatro dias: o crioulo abatido aparentemente, mas com o coração 
abrasado em rancoroso furor, meditava silencioso nos cantos da casa, estremecendo à 
voz de Hermano, que já o governava como principal senhor. 
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– Agora – dizia consigo Simeão – , a liberdade ou a morte... servir a este novo 
senhor é impossível... prefiro matá-lo e matar-me... 
E mais que nunca desejava a morte de Domingos Caetano, que havia de deixá-lo 
forro, conforme o pensar de todos. 
No quinto dia não pôde resistir às saudades da venda, e abusando da bondade 
com que em atenção à sua noiva Hermano o tratava, saiu sem licença, e muito antes da 
noite, que sempre tinha por sua. 
Na venda encontrou o infalível Barbudo que dormia, ou fingia dormir, estirado 
no banco fronteiro ao balcão. 
O Barbudo levantou-se à chegada de Simeão. 
– Como vais? – perguntou ele ao crioulo. 
– De mal a pior. 
– Não apareces de dia como dantes, Simeão: agora é só à noite que passeias! 
– Tenho senhor novo: é necessário estudá-lo. 
– Vamos conversar. 
O Barbudo e Simeão sairam, dirigindo-se para o terreiro da venda. 
– O ataque não volta – murmurou Simeão surdamente. – Deixou sinal e não se 
repete! É para desesperar. 
– Também que pressa! – disse o Barbudo a rir para excitar o crioulo. 
– É que agora não posso suportar o cativeiro naquela casa: prefiro ser vendido a 
outro senhor. 
– Que há pois de novo? 
O crioulo travou do braço do Barbudo, levou-o para longe da venda e fez ampla 
confidência dos seus turvos e sinistros segredos, em que o rancor, a ingratidão, o 
abatimento, a baixeza aviltante de sua condição, arrojo indigno de insensatas 
imaginações se misturavam confusa, mas tempestuosamente. 
Prolongou-se depois a conferência até a noite e enfim, tornados à venda que 
começava a encher-se dos costumados fregueses, Simeão e o Barbudo pediram vinho e 
cartas. 
O crioulo tinha crédito na venda onde já era devedor, e como andava pouco 
endinheirado, obteve sem dificuldade novo empréstimo do vendelhão. 
O jogo dá asas ao tempo: as horas fugiram velozes e mal sentidas pelos 
jogadores que experimentavam as emoções selvagens das sortes muitas vezes obrigadas 
pela empalmação rude ou pelo furto de cartas. 
Era meia-noite, e Simeão irritado pela má fortuna teimava em jogar e pediu mais 
dinheiro ao vendelhão que contra o costume lho negou. 
O crioulo altanado proferiu uma injúria obscena. 
O vendelhão, paciente por sistema, respondeu simplesmente: 
– Já me deves trinta mil-réis: é muito. 
Simeão furioso machucou entre as duas mãos as cartas e atirou-as ao credor, que 
fechava a bolsa 
O vendelhão ofendido agarrou-se com o agressor, os escravos e mais fregueses 
presentes tomaram partido por um e por outro dos brutais atletas, o Barbudo entrou na 
contenda em prol do camarada, e travou-se desenfreada desordem com escandaloso 
acompanhamento de blasfêmias e torpezas em grita. 
Mas de súbito bateram à porta da venda, e uma voz afadigada e ansiosa gritou de 
fora: 
– Simeão! Simeão! 
Os golpes se repetiam à porta que ameaçava ceder arrombada. 
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O medo da intervenção da polícia local, que às vezes por exceção acordava, 
separou os desordeiros. 
A porta abriu-se, e um negro escravo da fazenda de Domingos Caetano, entrou 
precipitado, bradando: 
– Simeão! Simeão! 
—Que é lá? – perguntou este, arranjando as vestes despedaçadas. 
– O senhor morreu. 
Simeão, sem mais ouvir nem perguntar, lançou-se de um salto