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As Vítimas Algozes

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e cria com amor, cumpre 
completar o favor dos sentimentos com o favor da educação, inoculando no coração do 
pequeno escravo predileto as noções do dever, o ensino da religião, a virtude da 
paciência, a obrigação do trabalho que moraliza e nobilita o homem, do trabalho não do 
homem máquina, mas do homem inteligência e coração. 
O escravo assim criado pode não ser um amigo, porque enfim é escravo, e 
portanto um oprimido pela prepotência do senhor ainda mesmo bom; é, porém, em 
regra, um homem agradecido, que esquece o forçado aviltamento da sua condição pela 
lembrança inteligente dos benefícios recebidos. 
Mas o amor cego que não educa o escravo simpático ou preferido, que o 
abandona aos instintos, aos sentimentos baixos, às inspirações malévolas da escravidão, 
que é água encharcada e foco de miasmas, que o aquece ou o cria por traiçoeira, mal 
pensada compaixão na ociosidade, que é a placenta de todos os vícios, alimenta, aquece, 
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fortifica um desgraçado que é sempre ingrato por ser escravo, e às vezes inimigo pela 
reação do oprimido. 
Se estas observações desanimassem a caridade dos senhores para com os 
crioulos que em casa lhes nascem e se criam, fariam morrer uma virtude, agravando 
ainda mais o perigo que correm os senhores, e os sofrimentos que experimentam os 
escravos. 
Os crioulos são muito mais inteligentes e maliciosos que os negros da África; e, 
desprezados e flagelados pelo trato áspero da escravidão, que faz do homem 
instrumento material do trabalho, e irmão da besta de carga, tornam-se inimigos ferozes; 
e se chega a oportunidade da vingança, ostentam na ferocidade verdadeiro e delirante 
luxo de malvadeza. 
O escravo africano mata o senhor, e se afasta do cadáver: o escravo crioulo, 
antes de matar, atormenta e ri das agonias do senhor, e depois de matar insulta e 
esquarteja o cadáver. 
Toda escravidão é perversa; mas a escravidão inteligente é dez vezes mais 
perversa do que a escravidão brutal. Uma odeia por instinto; a outra por instinto e com 
reflexão. 
 
XX 
 
A conferência na floresta pareceu ter aplacado o furor e sem dúvida serenou o 
aspecto de Simeão. 
Quando ele voltou à venda era inteiramente outro: queixou-se da queda que dera 
desastrado e que o desatinara: já de pazes facilmente feitas com o vendelhão, conversou 
tranqüilamente com este sobre a sua situação e mostrou-se consolado do cativeiro em 
que ficara pela bondade extrema de sua senhora. 
Ninguém dissimula melhor do que o escravo: sua condição sempre passiva, a 
obrigação da obediência sem limite e sem reflexão, o temor do castigo, a necessidade de 
esconder o ressentimento para não excitar a cólera ameaçadora do senhor, o hábito da 
mentira, enfim, fazem do escravo o tipo da dissimulação. 
O coração do escravo é escuro, tenebroso como noite de tempestade: é abismo 
profundo e sem luz coberto pela crosta da tristeza íntima e da desconfiança perpétua. 
Muitas vezes o escravo ri, tendo o seio ulcerado e a alma em pranto. 
O Barbudo chegou à venda uma hora depois de Simeão. 
– Tardaste muito hoje, meu Barbudo – disse-lhe este. 
– Tive que fazer em casa – respondeu-lhe o amigo. 
E nesse dia não conversaram no terreiro. 
No primeiro domingo que se seguiu, houve grande reunião na venda, e nas 
veemências do jogo toldou-se a amizade de Simeão e do Barbudo, que jogando de 
sociedade tiveram de disputar sobre a divisão dos lucros. 
Ambos se qualificaram afrontosamente, e separam-se inimizados, fugindo 
Semeão às ameaças de bofetadas, com que o Barbudo por último respondeu à 
incontinência de sua língua depravada. 
– Ora aí está como se acaba uma boa amizade! – disse o vendelhão a rir. 
– Não faço conta de amizade de negro – observou o Barbudo. 
 
XXI 
 
Passaram duas semanas. 
Simeão, a quem Hermano fizera algumas admoestações, deixou de sair da 
fazenda durante o dia; eram porém ainda freqüentes os seus passeios à noite. 
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Hermano soube da continuação desse abuso; mas fingiu ignorá-lo em atenção à 
amizade que sua sogra e sua mulher tinham ao crioulo. 
No fim das duas semanas que dissemos passadas, à tarde de um domingo, 
conversavam, passeando pelo campo, as duas senhoras e Her- mano. 
Depois de alguma hesitação, Angélica disse: 
– Sabem quem faz vinte e um anos amanhã? 
– Simeão – respondeu logo Florinda. 
Hermano sorriu-se. 
– Creio que ele se mostra agora mais ajuizado – tornou a senhora. 
– Sai a passeio todas as noites. 
– Coitado! Serviu muito ao senhor na moléstia fatal... 
E a viúva ainda teve lágrimas para dar à lembrança do marido; quando as 
enxugou, disse a Hermano: 
– Eu tinha um desejo, meu filho; mas não o realizarei sem a sua aprovação. 
– Aprovo-o desde já: qual é ele? 
– Dar amanhã a liberdade a Simeão. 
Florinda apertou a mão do marido. 
– Excelente idéia! – respondeu Hermano. – Ele é, com perdão senhoras, um 
escravo desmoralizado, e talvez seja por exceção ou milagre um liberto de bons 
costumes. 
– Aprova então? 
– Sem dúvida; mas devo dizer que só ele perderá com o benefício que lhe quer 
fazer: perdão outra vez; Simeão está mal preparado para ser feliz com a liberdade; 
entretanto a liberdade é santa e regeneradora. 
– E nós não lhe fecharemos a nossa porta: se ele quiser, e há de querer, ficará 
conosco. 
– Está entendido. 
– Oh! Amanhã Simeão será liberto!... – exclamou Florinda, rindo de 
contentamento. 
Era a primeira vez que Florinda ria depois da morte de seu pai: Hermano beijou-
lhe a mão, agradecendo-lhe o riso. 
– Mas, até amanhã, segredo! – disse Florinda. – Eu quero apreciar a surpresa de 
Simeão. 
E as duas senhoras, a mãe e a filha, se olharam satisfeitas, prelibando a alegria e 
a festa do seu crioulo estimado. 
Enquanto elas estavam assim ocupando-se tão generosamente de Simeão, em 
que estaria pensando esse escravo que ia ser emancipado? 
Estava ainda pensando com alma de escravo que não sonhava com a liberdade 
no dia seguinte. 
Se lhe tivessem dito: – Amanhã serás liberto – , a idéia da liberdade 
revolucionaria seu ânimo, no qual as trevas do cativeiro seriam dissipadas pela aurora 
da emancipação. 
Não há escravo a quem a certeza da alforria próxima não inspire sentimentos 
generosos, não desarme os instintos ferozes da escravidão. 
Mas Simeão, o escravo, nem se lembrava do aniversário natalício, que só é de 
festa para o homem livre, que sorri à vida, porque é livre; não podia esperar e menos 
contar com a liberdade esclarecida pelo sol que ia surgir do oriente. 
E, escravo ingrato e perverso, maquinava um crime horrível, inspirado pelo 
demônio da fatal condição depravadora. 
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Oh! Não há quem tenha um escravo ao pé de si, que não tenha ao pé de si um 
natural inimigo. 
 
XXII 
 
A noite dos domingos é um pouco solitária nas fazendas. 
Os escravos têm no domingo o seu dia de arremedo da liberdade; de manhã 
saem a vender o que têm colhido de suas pobres roças e o que têm furtado das roças do 
senhor; à noite vão aos fados e aos deboches da venda. 
Nunca em parte alguma do mundo houve senhores mais humanos complacentes 
do que no Brasil, onde são raros aqueles que nos domingos contêm presos no horizonte 
da fazenda os seus escravos; em regra, todos fecham os olhos ao gozo amplo do dia 
santificado. 
Por isso as fazendas são muito mais solitárias aos domingos. 
Uma quadrilha de salteadores escolheria de preferência a noite de domingo para 
atacar a casa de uma fazenda. 
Mas em muitas fazendas a casa da família do fazendeiro tem condições e 
seguranças de fortaleza. 
Era assim a casa que Domingos Caetano cuidadosamente fizera construir. 
Levantava-se ela no cabeço de um outeiro suave; era assobradada e toda de 
grossas paredes de pedra; as portas e janelas de rija madeira de lei chapeadas de ferro 
tinham, além de grandes e fortes fechaduras, cada uma duas traves de ferro, que 
tornavam quase impossível