A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
187 pág.
As Vítimas Algozes

Pré-visualização | Página 46 de 50

Frederico e Cândida: Liberato já tinha sondado o coração de Frederico, e achara nele 
o santo amor que o tornaria duas vezes irmão de seu amigo. 
A idéia de uma imposição era estranha por certo ao ânimo de Florêncio da Silva, 
e não pairava no de Plácido Rodrigues, que amava a afilhada quase tanto como ao filho; 
ambos, porém, faziam votos ao céu para que desabrochasse no coração de Cândida o 
terno sentimento que começava a aditar o coração de Frederico. 
Nenhum dos generosos interessados nesse projeto inspirado pela amizade tinha 
dele falado a Cândida; ela, porém, adivinhara com o instinto de mulher os desejos e 
combinações de seus pais e de seu padrinho e guardara para si o segredo que havia 
descoberto, quando seu irmão adotivo já estava na Europa. 
Cândida amava desde a sua primeira infância a Frederico, e nessa época 
preferia-o até a Liberato, que era menos condescendente com os seus caprichos de 
menina; continuou sempre a amá-lo com expansão suave, porém só com amor de irmã. 
Aos treze anos de idade, ao tempo em que Lucinda tinha já encetado as 
maliciosas e desmoralizadoras explicações de sua natureza e da sua missão de mulher, 
Cândida se apercebera da terna afeição, do amor que não era mais de irmão, que ela 
havia inspirado a Frederico: não ouvira a este nem falas apaixonadas, nem ternas 
promessas, e ainda mais ternas rogativas de sonhada e desejada união em breve futuro; 
mas em certo constrangimento respeitoso, no ardor do olhar, na contemplação suave, na 
doçura do falar, no leve tremor da mão que apertava a sua, reconhecera que era amada. 
A mocinha deixara-se amar assim, e sorria docemente a Frederico, embora não o achasse bonito: 
logo depois a retirada dos dois jovens, que seguiam para a Europa, interrompeu o desenvolvimento, e 
deixou no berço esse amor apenas nascente. 
Frederico dissera, chorando, ao abraçar Cândida em despedida: 
– Oh!... Não te esqueças de mim, Cândida! 
E então não a chamou irmã.. 
 112
Cândida, no fim de três dias lembrava-se de Frederico somente como seu irmão 
adotivo. 
Passados três anos voltaram enfim da Europa os dois mancebos. 
Aos vinte e dois anos Frederico chegara ao seu completo crescimento físico e à 
perfeita e firme determinação de seu caráter: o viço mais fulgente da juventude não lhe 
engraçara a figura, mas robustecera-lhe a têmpera nobre e generosa do coração, e dera-
lhe à alma, a retidão do juízo e a prudência da reflexão. 
Cândida, sabendo da chegada de Liberato e Frederico à cidade do Rio de 
Janeiro, contou com um namorado mais; em breve, porém, só achou em Frederico um 
cavalheiro que respeitoso e discreto a amava sem falar-lhe de amor, e como que 
estudando-a, e esperando para cair-lhe aos pés uma hora, que a razão estava encarregada 
de marcar ao amor. 
A vaidosa ressentia-se do que lhe parecia frieza. 
Também a leviana donzela, estimando sempre muito a Frederico, julgou-se 
incapaz e muito longe de poder amá-lo; alguns dias de convivência na casa de seu pai, 
ou na de seu padrinho a convenceram de que esse jovem podia e devia ser o seu melhor 
amigo, seu irmão, como dantes; porém nunca seu marido. Cândida via bem que 
Frederico era feio, malfeito, desengraçado; mas habituada desde a infância ao seu 
aspecto desagradável, perdoava-lhe fácil e sem esforço os senões da figura, admirando-
lhe a energia persistente do caráter, e às vezes a força física evidente do deforme 
Alcides; não era pois a fealdade do mancebo que fechava a este o coração de Cândida. 
Mas a bela e severa inteligência de Frederico, a profundeza do seu juízo, uma 
certa gravidade varonil já dominando os arrojos da idade impetuosa, impunham a 
Cândida respeito, invencível reconhecimento de superioridade, que contradiziam o 
sentimento do amor no ânimo 1eve, inconsiderado, imprudente e viciado pelo 
sensualismo da mucama, e pelas degradações do namoro. 
A irrefletida moça, pensando em Frederico, sentia como uma espécie de temor 
daquele homem tão sério: menos ligeira e precipitada acharia no desenvolvimento desse 
sentir, que se lhe afigurava temor, a fonte puríssima do amor que lhe parecia impossível 
e que se basearia na estima perfeita das grandes e nobres qualidades do amado; ela, 
porém, afastava do seu espírito a imagem daquele feio moço-velho, e sonhava com um 
marido bailarino, apaixonado de saraus e de teatros, escravo de seus caprichos, 
complacente, primeiro incensador de sua vaidade, e até cúmplice louco ou cego com a 
ostentação de sua formosura exigente de cultos na sociedade elegante. 
De seu lado Frederico não compreendeu a donzela que amava; viu-a com os 
olhos, julgou-a com as apreciações de seu pai, padrinho perdido de amizade pela 
afilhada, e de Liberato, irmão extremoso e exaltado; julgou-a por si mesmo com as 
lembranças da inocência da infância da menina, e adorou-a com o suave, mas deferente 
culto que é devido à pureza. Esse modo de exprimir amor chegava tarde à alma daquela 
moça de dezesseis anos: em vez de beatificá-la, atormentou-a; anacrônico e 
involuntariamente cruel, despertou em sua consciência o primeiro remorso. 
Era um amor que envergonhava e vexava a namoradeira: não podendo rir-se de 
Frederico, a louca, experimentando na santidade daquele amor virtuoso e reverente uma 
punição da sua imodéstia e garridice, odiou-o, por não lhe ser possível desprezá-lo. 
Odiou-o ainda mais, porque o respeito indomável a que a obrigava a estima em 
que tinha, e a espécie de temor que lhe inspirava Frederico, levou-a forçadamente a 
esquivar-se dos namoros, que em todas as reuniões provocava, a resfriar as flamas, a 
escassear as liberdades, que tolerava seus galanteadores, e a afetar o recato que aliás 
nunca devera ter esquecido. 
 113
Fazendo sobre si mesma essa violência, que atestava por certo o poder e a 
influência do feio moço-velho, Cândida em breve revoltou-se contra ele, e o aborreceu, 
ou supôs aborrecê-lo pelas privações que se impunha. 
Estes sentimentos contraditórios, esse respeito e espécie de temor, e esse ódio 
pelo flagelo da consciência, esse recato obrigado e esse suposto aborrecimento pela 
privação de levianos e indesculpáveis gozos, provam que uma hora de reflexão em 
Cândida, dez minutos de mais experiência da vida artificial das nossas sociedades, e das 
exigências vaidosas da imaginação da donzela formosa e leviana em Frederico, fariam 
encantada e como que milagrosamente realizar de súbito os benignos e generosos planos 
de Florêncio da Silva e Plácido Rodrigues. 
No respeito, na espécie de temor, no ódio, no suposto aborrecimento que 
Cândida estava confusamente votando a Frederico escondia-se, aprofundava-se o amor 
mais sereno e mais seguro, aquele amor que não arrefece nunca, o amor que fica e não 
voa, o amor que se consagra pela estima. 
Frederico poderia ter encantado Cândida. 
Mas não houve quem falasse à pobre moça, quem a esclarecesse, quem dirigisse. 
Em seu quarto de dormir e ao lado do seu toucador ela tinha a mucama escrava a 
impeli-la para o mal: nos salões, nas reuniões, ela tinha a turificação da sua vaidade e o 
tormento das reservas medrosas, que aumentava o preço e a magia dos turíbulos 
arredados. 
E ainda nos salões de reunião, e fora deles nos colóquios de amizade quase 
fraternal, Frederico, procurando com escrupulosa delicadeza inspirar e merecer o mais 
terno sentimento, sem o pensar deprimia Cândida, exaltando-a pelos tesouros morais 
que ela já não possuía, e amedrontava-a com apreensões da vida tranqüila, séria, e 
nobremente recatada, que o dever e a virtude regulam e que a leviandade desama. 
Tudo pois concorria para afastar Cândida de Frederico. 
 
XVI 
 
Não tinham faltado festas e obséquios aos dois mancebos recém-chegados da 
Europa que eram pelos pais apresentados com orgulho. 
Liberato e Frederico deviam demorar-se apenas quatro meses com seus pais, 
seguindo depois para a América do Norte, onde durante