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As Vítimas Algozes

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a expansão 
sublime... 
Não havia nem receio no sentimento do canto, nem trêmulo na música, nem 
expansão a preparar... 
E todavia Cândida não se mostrou surpreendida, e continuou a lição, 
improvisando um trêmulo mal cabido, que Souvanel não corrigiu. 
A filha enganava a mãe. 
O mestre começava a enganar a todos. 
 
XX 
 
Em outra lição, e em outros breves momentos de liberdade, Souvanel mostrando 
um terno e doloroso pensamento da inspirada Favorita de Verdi, sorriu docemente e 
disse malicioso a Cândida. 
– Deixe sair o coração na voz gemente... gema com o coração nos lábios 
– Arreceio-me... – balbuciou a discípula. 
– Por quê? 
– O coração exposto assim?... E se mo roubassem? 
– Ah! mademoiselle! Por mim eu seria ladrão de consciência. 
– Como? 
– Para não deixá-la pelo roubo infalível com o peito vazio, pediria de joelhos a 
glória de uma troca de corações... 
– Não entendo bem esta música – disse Cândida, sorrindo meigamente. 
E sem dúvida para conter no ponto a que tinham chegado, as finezas que o 
mestre lhe dizia, cantou; mas cantou com apuro de ternura, e com verdadeira ou bem 
simulada comoção, a música tão repassada de sentimento da Favorita. 
Para tanto ousar, ouvir e dizer, era evidente que andava já adiantado o galanteio 
entre Souvanel e Cândida. 
A música arrebata a alma, embriaga os sentidos. 
Não há sedutor mais perigoso do que um mestre desmoralizado, e entre os 
mestres capazes de tentar seduzir o mais perigoso é o de música e principalmente o de 
canto; porque ele ensina as falas que falam ao coração, arrebatam a alma e embriagam 
os sentidos. 
Souvanel achara Cândida bonita, e, tendo logo razão para julgá-la romanesca, 
acreditou-a susceptível de deixar-se apaixonar, viu nela um cálculo de futuro, e mediu 
as vantagens materiais que esperavam ao genro de Florêncio da Silva. Para ele não 
podia ser isso obra de pronta reflexão: estrangeiro mal conhecido, com a sua vida 
passada em nuvens de dúvidas, sem garantias da honra do seu nome, sem fortuna, sem 
abonador de sua moralidade, a princípio nem concebeu a idéia de possibilidade de 
casamento e apenas por distração explorou a sensibilidade e brincou com o coração da 
que supunha simples e inexperiente moça da roça; mas à medida que Cândida 
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namoradeira, parecia fraquear deixando-se arder em flamas de amor, o jovem francês 
exaltava suas esperanças e pouco a pouco foi chegando ao cálculo do que, na própria 
consciência, julgando impossível, não se atrevera a imaginar nos primeiros dias. 
Egoísta e frio especulador, descrente em religião, alheio às noções do dever, 
desdenhando dos brasileiros em refalsado segredo, ambicioso de riqueza, escondendo 
nas dobras do agrado pérfido, nas artimanhas da docilidade, da condescendência, das 
magias da música, nas teias sutis do espírito vivo e travesso a baixa urdidura da lisonja, 
da adulação, do servilismo, para achar protetores, ganho mais fácil e fundamento de 
fortuna, Souvanel não hesitou em abusar da confiança de seus hóspedes, em esquecer os 
favores que recebera de Liberato; mas cauteloso, dissimulado, traiçoeiro, laborou no 
mistério de rápidas e fugitivas provocações de amor, de confidências velozes de 
apaixonado extremo, e de paciente, lenta e hábil propinação do veneno da sedução. 
Souvanel não sabia que falava, não à sensibilidade, mas ao ressentimento e ao 
desvario de Cândida, no ensejo mais oportuno e favorável. 
Desde a noite em que Lucinda repetira à sua senhora com falaz inexatidão, o que 
haviam conversado Florêncio da Silva e Liberato sobre o projeto de casamento, Cândida 
se tornara suspeitosa das intenções de sua família, revoltada contra a idéia de opressora 
privação dos saraus e dos teatros, e disposta à resistência e à oposição à vontade de seus 
pais. 
Desconfiada de todos e de tudo, reparara e observara com ânimo prevenido; seu 
pai e sua mãe não lhe falaram de Frederico e continuaram sempre a abismá-la, como 
dantes, no dilúvio das delicadezas do mais estremoso amor; Liberato, porém, discorrera 
por mais de uma vez em sua presença, atacando a inconveniência dos bailes freqüentes 
para uma donzela modesta e recatada, e ferira com exagerados sarcasmos o teatro ruim, 
grotesco, e imoral da pequena, mas já rica cidade de... 
Ouvindo Liberato, Florêncio da Silva e Leonídia tinham defendido fracamente, e 
deixado condenar sem, protesto, as duas arenas onde triunfava esplêndida e maravilhosa 
a formosura de sua filha. 
Cândida ouvira o que chamava sermões de Liberato com desprezadora 
indiferença silenciosa, que admirava a seus pais; ela, porém, ouvia com a revolta 
n’alma, reconhecendo nas observações de seu irmão a verdade das revelações da sua 
escrava. 
Cândida em impulsos de reação detestou, ou pensou detestar Frederico, e jurou a 
si mesma que jamais consentiria em ser sua esposa. 
Em dois anos de sacrilégio do sentimento, em dois anos passados em 
fingimentos de amor, em tolerância, provocações, e prática indesculpável de dezenas de 
namoros, Cândida conservara o coração livre e como inóspito do sentimento que 
absorve a vida da mulher: dir-se-ia que o hábito de fingir lhe embotara o sentir. Até os 
dezesseis anos não tinha amado; nem um só mancebo, nem o mais belo dos seus 
namorados conseguira atear o fogo em sua alma enregelada. 
Cândida tinha vontade de amar, desejo louco de experimentar esse sentimento 
que perturba a razão, põe em incêndio o coração, escraviza uma, desatina outro; lera já 
em vinte romances dos melhores autores a filologia e a autópsia do amor, e ela não o 
conhecia ainda, como o aprendera nos romances; desejava amar e não amava. 
Suspeitando, acreditando enfim, que seus pais queriam impor-lhe em Frederico 
um marido, e que nesse empenho planejavam roubá-la ao culto dos seus adoradores, por 
instintivo incitamento de resistência e de oposição desejou ainda mais amar, e não 
amava!... 
Cândida não amava; porque em vinte ou trinta turificadores que queimavam 
incenso a seus pés, ela que recebia as turificações de todos, quando procurava distinguir 
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um entre tantos, esquecia vinte nos gelos da indiferença pelo demérito deles, confundia 
dez no peso igual do merecimento, e nunca chegava à preferência de um só, marcado 
pela escolha do coração. 
A namoradeira tinha almejado amor deveras por tresloucada curiosidade, e 
passara finalmente a almejar ainda mais, a querer, a pedir ao céu esse cativeiro d’alma 
por vingança da suposta opressão. 
Foi nesse estado de espírito, nessas circunstâncias determinadas por injustas 
prevenções, nesse doido empenho de amar, que Souvanel se mostrou aos olhos, aos 
ouvidos, e ao coração aberto de Cândida. 
 
XXI 
 
A chegada dos hóspedes de seu pai e de seu irmão, e no primeiro dia que foi 
como que de apresentação dos estudantes e do jovem francês, que não eram conhecidos 
da família, a figura de Souvanel não produziu impressão simpática nem antipática no 
ânimo de Cândida; claramente, porém, agradaram-lhe mais os acadêmicos, cuja posição 
era definida: o estrangeiro recomendado só por suas habilitações de pianista e cantor, 
pareceu-lhe antes um recurso para divertir a sociedade, do que um amigo trazido como 
igual para o seio dela, e esta consideração o amesquinhou a seus olhos. 
A primeira lição tornou Souvanel interessante; a vaidosa moça atendeu ao ensino 
sem atender à pessoa do mestre, e reconhecendo que muito podia ganhar com as 
explicações do insigne professor, lisonjeou-o, ameigou-o, sem idéia alguma de merecer-
lhe cultos, e só para mais condescendente achá-lo, sempre que lhe pedisse o favor de 
alguma lição. 
Mas Souvanel cantou, e sua voz era como o sentimento, deslizando suave como 
arroio murmurante, ou troando impetuoso, como a catadupa despenhada: era impossível 
deixar de olhar o homem que cantava assim, e Cândida viu no rosto e nos olhos de 
Souvanel todas as doces flamas, e rodas