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As Vítimas Algozes

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avanços da morte, que 
era o seu desejo. 
E a esposa e a filha do velho que parecia agonizante, e os parentes e os amigos 
que tinham acudido ao anúncio do grande infortúnio, diziam, vendo Simeão vigilante e 
dedicado junto de seu senhor: 
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– Que agradecido crioulo! Há poucos assim. 
Mas no entanto Simeão era mais do que nunca ingrato e perverso. 
Não condeneis o crioulo; condenai a escravidão. 
O crioulo pode ser bom, há de ser bom amamentado, educado, regenerado pela 
liberdade. 
O escravo é necessariamente mau e inimigo de seu senhor. 
A madre-fera escravidão faz perversos, e vos cerca de inimigos. 
 
IX 
 
Domingos Caetano escapara àquele assalto da morte; mas, à semelhança do 
soldado inválido que traz na mutilação o sinal do golpe inimigo que estivera a ponto de 
cortar-lhe a vida, ficou marcado com a tortura da boca e com a hemiplegia quase 
completa. 
Se não fora católico e pai de família bem pudera preferir ter morrido. 
Não houve para o pobre paralítico nem a duvidosa esperança de convalescença 
promissora da regeneração da saúde: nos primeiros dias houve o sofrimento incessante 
do homem que se reconhece metade morto para o movimento e a ação, para a atividade 
e o trabalho, e que não tem no futuro perspectiva menos desconsoladora, do homem que 
sendo esposo e pai, sabe que deixou de ser apoio e que precisa apoiar-se, que não 
carrega mais com a família, e que é a família que passa a carregá-lo. 
E passados os primeiros dias, Domingos Caetano, que notava o cuidado com que 
o médico auscultava-lhe por vezes o coração e ao mesmo tempo examinava-lhe o pulso, 
e recolhia minuciosas informações de passageiros incômodos que ele sofrera antes do 
terrível ataque, parecendo de muita importância a momentos de rápida mudança da cor 
do rosto, acompanhada de suores e resfriamento nas mãos e nos pés, aproveitou 
desconfiado alguns instantes em que se achou só com o médico e disse lhe: 
– Doutor, devo contas ao céu e à terra e já não posso amar a vida: fale-me 
franco... compreende que preciso saber tudo... 
O médico hesitou. 
– A verdade... e depressa, enquanto elas não voltam... é pela minha alma e por 
elas que eu preciso saber... 
Elas eram a mulher e a filha. 
O doutor murmurou voltando os olhos: 
– Um pai de família prudente... deve sempre estar preparado para... mas eu ainda 
não desespero... 
– Entendo: obrigado... vê que não tremo: o que me diz é quase uma consolação: 
dói-me o deixá-las; mas de que lhes sirvo eu assim?... 
O médico abaixou a cabeça. 
– É penar e penalizá-las; antes morrer. 
E depois de breve pausa o velho continuou: 
– E nestes casos e na pior das hipóteses... porque enfim o doutor ainda não 
desespera... na pior das hipóteses a morte aproxima-se devagar ou chega de súbito?... 
– De um e outro modo – respondeu o médico animado pela frieza com que lhe 
falava o mísero doente. – O seu mal é incurável, meu pobre amigo; não me 
compreenderia bem, se eu quisesse explicá-lo; mas há em uma de suas artérias 
obstáculo já muito grande e que se tornará absoluto, impedindo a circulação do sangue 
que é impelido do coração... nestes casos a morte, que às vezes fulmina como o raio, 
também às vezes se preanuncia àqueles mesmos que não são médicos. 
Com a mão não paralítica o velho apertou a do doutor. 
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– E se a morte não me fulminar hoje ou amanhã, como o raio fulmina, diga-me, 
meu amigo, quais são os sinais da aproximação do termo de tanto padecimento sem 
remédio? 
O médico tomou o pulso ao doente, e achou-o batendo com perfeita 
regularidade. 
Não havia impostura, nem estulta vaidade na resignação de Domingos Caetano. 
Era este um moribundo com quem se podia tranqüila e placidamente conversar 
sobre a morte. 
O médico olhou admirado para o velho e não respondeu. 
– Mas... conversemos, doutor; conversemos, enquanto elas não chegam. 
– Já não lhe disse bastante... talvez demais?... 
– Eu queria saber tudo... – ia dizendo Domingos Caetano. 
Mas ouviu-se o leve ruído de mimosos passos. 
Eram elas, a esposa e a filha que chegavam. 
– Silêncio, doutor... – murmurou o velho. 
E sorriu-se, como podia, e ainda mais com os olhos do que com os lábios, a 
Angélica e a Florinda, que entraram no quarto. 
– Como está?... – perguntaram as duas a um tempo, dirigindo a palavra ao 
esposo e ao pai, e os olhos para o médico. 
– Muito melhor – disse o esposo e pai. 
O médico não pôde falar, e fez potente esforço para conter as lágrimas. 
 
X 
 
Três dias depois, Domingos Caetano recebeu todos os socorros da igreja, todos e 
até a extrema-unção, com a alegria de verdadeiro católico que festeja agradecido a 
sagrada visita do Senhor. 
A mulher e a filha do paralítico não ousaram opor-se ao santo empenho do 
doente amado. 
E o Nosso Pai foi recebido na casa sem coro de lágrimas, e com religiosos 
cantos de adoração católica. 
Contrito e feliz na alma, Domingos Caetano voltou depois e ainda santamente o 
coração para a terra. 
Paralítico, e embora certo de morte próxima, um esposo e pai, o chefe da família 
é ainda e sempre enquanto vivo a providência vidente que vela pelos seus: há nele o 
amor que só a morte apaga, e que durante os restos da mesquinha vida, todo se entrega 
aos cuidados que ainda são de si, sendo da família, e sendo dalém-túmulo. 
Porque os pais não morrem de todo enquanto vivem os filhos, nos quais se 
revivem pelo amor. 
Domingos Caetano ocupava-se incessante do futuro de Angélica e Florinda: ia 
deixá-las ricas, mas sós na terra, ricas e por isso mesmo mais expostas aos perigos, aos 
enganos e às perfídias do mundo: sentiu que fecharia os olhos com a consolação do 
viajante que dorme descansado o termo da viagem, se pudesse deixar Angélica e 
Florinda à sombra de um protetor natural e seguro: arrependeu-se de não ter mais cedo 
facilitado casamento de sua filha, cujo esposo seria o mais interessado diretor da casa e 
da família. 
Adivinhando o que não lhe quisera dizer o médico, viu o anúncio da 
aproximação do passamento na agravação de seu mal: os restos de dúbio movimento, e 
de fraco sentimento do braço e perna condenados desde o ataque cediam à completa 
paralisia, morrendo antes da morte de seu dono; os outros sintomas, a que dantes pouca 
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importância ligava, amiudavam-se: no rosto a súbita palidez, nas mãos e nos pés o suor 
e o frio do gelo lembravam-lhe a miúdo a sentença do médico; sua observação plácida, 
serena e dissimulada parava aí; mas em um certo mal-estar, e na respiração e em todas 
as forças da vida, que repetidamente por instantes pareciam suspender-se, ele pressentia 
a descarregar-se sobre sua cabeça o último golpe. 
O bom velho conversou longamente com a esposa: provavelmente nenhum dos 
dois era estranho à suspeita de alguma suave afeição da filha; ambos se acharam de 
acordo sobre o merecimento daquele que conseguira a glória de falar, embora muito de 
longe, com a eloqüência dos olhos e sem a ousadia da palavra, ao coração angélico da 
sua Florinda. 
O tempo urgia: o pai não podia esperar a espontânea confissão da filha. 
A apreensão da morte que avançava, impunha o dever de chamar o modesto e 
tímido ambicioso de amor à posse do tesouro ambicionado. 
Havia pressa justíssima: pressa de esposo amante para a filha que ia ser órfã, de 
zeloso protetor para a esposa que ia ser viúva. 
Na tarde do segundo dia depois daquele que fora sagrado pela visita do Senhor, 
Domingos Caetano, forjando amorosa e perdoável mentira, pretendeu experimentar 
sensíveis melhoras, e ostentando-as com fingido contentamento, encerrou-se no seu 
quarto com Angélica e Florinda. 
Era a hora do crepúsculo, e o quarto cuja porta se fechara, e onde não se 
acendera luz, estava escuro, como se já fosse noite. 
A instrução não dá, a educação apenas arremeda as delicadezas do sentimento: a 
educação é mãe da cortesia, e adota como pode a delicadeza que é filha