A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
41 pág.
Apostila Hermenêutica Versão 2013

Pré-visualização | Página 1 de 12

________________________________________________________________ 
 
HERMENÊUTICA 
POR: RICARDO FERREIRA SACCO 
________________________________________________________________ 
 
 
 
 
 
 
 
3ª EDIÇÃO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ROTEIRO DE CURSO 
2013 
2 
 
HERMENÊUTICA 
 
 
 
Na lei tem-se o intelecto sem 
paixões, porém, em situações 
indeterminadas, a lei primeiro 
educa os homens e depois 
autoriza-os a decidir. Segue-se 
assim que é preferível que a lei 
governe (Aristóteles - sec. IV 
a.C.; Política, Livro III). 
 
 
1 - Introdução: 
 
 Começamos o estudo perguntando: o que é Direito? 
Seria o conjunto de normas jurídicas escritas e consuetudinárias ou é a leitura 
que se tem da norma no tempo e no espaço? (VIEITO, 2000: p.23) 
 
 Konrad Hesse, citado pelo Prof. Aurélio ressalta que a Constituição está 
condicionada pela realidade histórica, e podemos acrescentar também que está 
intimamente ligada ao fenômeno político produzido pela vida em sociedade, da 
qual não pode se afastar das condições concretas de seu tempo (VIEITO, 2000: 
p.32). 
 
 
1.1 - Compreensão do significado do vocábulo “Hermenêutica”: 
 
Hermenêutica deriva do vocábulo grego hermeneuein, entendida esta 
como filosofia da interpretação. Tal fato tem ligação íntima com o deus grego 
Hermes (Mercúrio para os romanos), o deus mensageiro, que trazia notícias dos 
demais deuses aos homens, sendo capaz de desvendar tudo o que a mente 
humana não compreendesse, permitindo se alcançar o significado das coisas. 
Com a rapidez de suas sandálias divinas (aladas), tornou-se o mensageiro 
predileto dos deuses, pois executava suas tarefas não somente com a astúcia e 
a inteligência que lhe eram características, mas principalmente com a gnose e a 
magia (conhecimento - sabedoria), dessa forma era “o vencedor mágico da 
obscuridade”, porque “sabe tudo e, por isso, pode tudo” (mestre dos magos). 
Hermes é o Deus do Hermetismo e da Hermenêutica, do mistério e da arte de 
decifrá-lo. 
 
 Hermes seria então um “intérprete", eis que era a entidade divina dotada 
de capacidade de traduzir e decifrar o incompreensível, o hermético. 
 
3 
 
O vocábulo Hermenêutica é aplicado não só no Direito, mas também na 
teologia protestante, substituindo a expressão latina ars interpretandi, ou arte da 
interpretação, como sendo a doutrina da arte da interpretação. 
 
 
1.2 - Definição de Hermenêutica: 
 
 É um erro tentar definir Hermenêutica como pura interpretação, e um erro 
maior ainda tentar tratá-las como sinônimos. A interpretação é a aplicação da 
Hermenêutica. A Hermenêutica descobre e fixa princípios que regem a 
interpretação, sistematizando processos aplicáveis para determinar o sentido e 
o alcance das expressões do Direito. Podemos dizer que a Hermenêutica é a 
teoria científica da arte de interpretar, que se faz aproveitando conclusões da 
Filosofia Jurídica. A interpretação é na verdade a aplicação da Hermenêutica, 
outrossim, podemos definir sinteticamente Hermenêutica como sendo o 
conjunto de regras científicas que orientarão a interpretação. 
 
 Essa teoria formada pelas regras científicas é algo complexo, talvez o 
capítulo menos seguro e mais impreciso da ciência do Direito. De pronto 
podemos concluir que é um erro substituir uma palavra pela outra, eis que 
Hermenêutica não é sinônimo de interpretação. 
 
 Carlos Maximiliano ensina que o vocábulo alemão Auslegung abrange o 
conjunto de aplicações da Hermenêutica, que em inglês se resumiria em dois 
termos técnicos: Interpretation and Construction, que seria mais preciso do que 
a palavra portuguesa correspondente - Interpretação. Desta feita, para os 
alemães tornou-se comum o uso de Hermeneutik e Auslegung, assim como 
entre nós o de Hermenêutica e Interpretação. 
 
 A interpretação busca achar o verdadeiro sentido de um grupo de 
palavras, enquanto a construção autoriza a sair do texto e procurar uma solução 
que os constituintes previram, mas não tornaram suficientemente clara. A 
construção é, portanto, imprescindível para o Direito Constitucional. 
 
 Hermenêutica é conditio sine qua non para o entendimento da norma 
jurídica. 
 
 A fim de obter um esclarecimento maior, partamos para a definição de 
Interpretação: a Interpretação é a explicação e o esclarecimento; é exprimir por 
outras palavras um pensamento exteriorizado, mostrando o sentido verdadeiro 
de uma expressão, extraindo de frase, sentença ou norma o seu conteúdo. A 
interpretação é, portanto, o ato de explicar o sentido de algo. 
 
 Interpretar uma expressão do Direito não é tão somente torná-la clara no 
respectivo dizer, mas é, sobretudo, a revelação do sentido apropriado para a 
vida real. Interpretar não é uma arte para simples deleite ou passatempo, muito 
4 
 
pelo contrário, é uma disciplina eminentemente prática e útil à atividade diária 
do operador do Direito. 
 
Na verdade toda regra jurídica pode ser considerada como uma 
proposição que subordina, a certos fatos, uma consequência necessária, 
incumbindo ao exegeta descobrir e aproximar da vida concreta, não somente as 
condições implícitas no texto, mas também as soluções que este liga às 
mesmas. Essa atividade interpretativa é uma só, embora desdobrada em uma 
infinidade de formas diferentes, como veremos. 
 
 
Regra jurídica → Fatos → Consequência necessária 
 
 
A Hermenêutica foi tratada por diversas correntes filosóficas que 
buscavam valores distintos: algumas o valor segurança, outras o valor justiça e 
outras a conciliação de ambos. 
 
Após a Revolução Francesa surgiu a chamada Escola da Exegese, 
trazendo o entendimento que a lei esgotava toda a realidade; o Estado era o 
único autor do Direito e a busca da vontade do legislador eram postulados 
básicos. Caberia ao jurista apenas a análise gramatical e da lógica formal do 
diploma legal, sem procurar soluções fora dele. Nada escapa à lei e se o 
intérprete substituísse a intenção do legislador pela sua estaria invadindo a 
esfera de competência do Legislativo. 
 
Esta escola foi rompida com a aplicação do método histórico-evolutivo, 
que buscava uma interpretação mais atualizada, perquirindo a mens legis em 
detrimento da mens legislatoris. Por este novo método, a lei após criada se 
desligava do legislador e passava a ter vida própria (autônoma), recebendo 
influências do meio social em que se encontra, adaptando-a às exigências do 
momento. 
 
Hoje os elementos extra legem se tornaram imprescindíveis à 
Hermenêutica moderna. 
 
 
2 - Aplicação da Hermenêutica 
 
Não há preceito absoluto; o hermeneuta exerce uma verdadeira arte 
guiada cientificamente, eis que a ciência elabora as regras, traçando diretrizes e 
condicionando o esforço, mas não suprimindo o coeficiente pessoal com seu 
valor subjetivo, eis que se assim o fosse, o investigador seria um autômato. 
Muito antes pelo contrário, o investigador precisa assumir uma postura 
proativa dentro das regras científicas reconhecidas, construindo a norma 
jurídica. 
5 
 
De acordo com o Prof. Aurélio Agostinho (2000, p. 43): 
 
As considerações expostas sobre a vontade do legislador 
não podem nos levar à concepção oposta de total 
liberdade de interpretação, pois isto seria o germe de 
destruição da Hermenêutica jurídica, tendo em vista que a 
norma jurídica tem como função primordial estabelecer 
limites na conduta social e, via de consequência, 
segurança nas relações jurídicas. Se tudo for possível, não 
haverá mais como antecipar os negócios jurídicos, já que 
nenhuma das partes poderá gozar do privilégio de poder 
antecipar, com uma certa margem de tranquilidade, a 
decisão judicial, a respeito do caráter lícito ou não de suas 
condutas. 
 
Este campo impreciso que