BUKOWSKI, C. Ao Sul de Lugar Nenhum
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BUKOWSKI, C. Ao Sul de Lugar Nenhum


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CHARLES BUKOWSKI
(1920-1994)
Charles Bukowski nasceu a 16 de agosto de 1920 em Andernach, Alemanha,
filho de um soldado americano e de uma jovem alemã. Aos três anos de idade,
foi levado aos Estados Unidos pelos pais. Criou-se em meio à pobreza de Los
Angeles, cidade onde morou por cinquenta anos, escrevendo e embriagando-se.
Publicou seu primeiro conto em 1944, aos 24 anos de idade. Só aos 35 anos é
que começou a publicar poesias. Foi internado diversas vezes com crises de
hemorragia e outras disfunções geradas pelo abuso do álcool e do cigarro.
Durante a sua vida, ganhou certa notoriedade com contos publicados pelos
jornais alternativos Open City e Nola Express, mas precisou buscar outros
meios de sustento: trabalhou catorze anos nos Correios. Casou, teve uma filha e
se separou. É considerado o último escritor \u201cmaldito\u201d da literatura norte-
americana, uma espécie de autor beat honorário, embora nunca tenha se
associado com outros representantes beats, como Jack Kerouac e Allen
Ginsberg.
Sua literatura é de caráter extremamente autobiográfico, e nela abundam
temas e personagens marginais, como prostitutas, sexo, alcoolismo, ressacas,
corridas de cavalos, pessoas miseráveis e experiências escatológicas. De estilo
extremamente livre e imediatista, na obra de Bukowski não transparecem
demasiadas preocupações estruturais. Dotado de um senso de humor ferino,
auto-irônico e cáustico, ele foi comparado a Henry Miller, Louis-Ferdinand
Céline e Ernest Hemingway.
Ao longo de sua vida, publicou mais de 45 livros de poesia e prosa. São seis
os seus romances: Cartas na rua (1971), Factótum (1975), Mulheres (1978),
Misto-quente (1982), Hollywood (1989) e Pulp (1994). Bukowski publicou em
vida oito livros de contos e histórias: Ereções, ejaculações e exibicionismos
(1972), Ao sul de lugar nenhum: histórias da vida subterrânea (1973), Tales of
Ordinary Madness (1983), Hot Water Music (1983), Bring Me Your Love
(1983), Numa fria (1983), There\u2019s No Business (1984) e Septuagenarian Stew
(1990). Seus livros de poesias são mais de trinta, entre os quais Flower, Fist and
Bestial Wail (1960), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense
(1996), sendo que a maioria permanece inédita no Brasil. Várias antologias,
além de livros de poemas, cartas e histórias foram publicados postumamente.
Bukowski morreu de pneumonia, decorrente de um tratamento de leucemia,
na cidade de San Pedro, Califórnia, no dia 9 de março de 1994, aos 73 anos de
idade, pouco depois de terminar Pulp.
para Ann Menebroker
Solidão
Edna estava caminhando pela rua com sua sacola de compras quando
passou pelo carro. Havia um cartaz na janela lateral:
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelão grudado na janela com
alguma substância. A maior parte estava datilografada. De onde estava na
calçada, Edna não conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graúdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a
parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento.
Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisão e películas
cinematográficas. Boa comida. Sou especialista em custos de
produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de
mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um número de telefone.
Também havia três fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia
bem sério de terno e gravata. Também parecia estúpido e um pouco cruel. E
feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de
repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas
horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em
como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gás e telefone na
caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria
o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de
cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma
mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitária
lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhões de homens como ele por toda a
América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do
apartamento. O carro ainda estava lá. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill,
e o número do telefone. Leu a parte datilografada novamente. \u201cPelículas
cinematográficas.\u201d Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem
\u201cfilmes\u201d. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de
um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou três xícaras de café antes de discar o
número. O telefone chamou quatro vezes.
\u2013 Alô? \u2013 ele respondeu.
\u2013 Sr. Lighthill?
\u2013 Sim?
\u2013 Vi seu anúncio. Seu anúncio no carro.
\u2013 Ah, sim.
\u2013 Meu nome é Edna.
\u2013 Como vai, Edna?
\u2013 Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo está demais.
\u2013 Sim, nada fácil.
\u2013 Bem, sr. Lighthill...
\u2013 Me chame apenas de Joe.
\u2013 Bem, Joe, rá rá rá, me sinto tão boba. Sabe por que estou telefonando?
\u2013 Você viu meu aviso?
\u2013 Quero dizer, rá rá rá, o que há de errado com você? Não consegue
arranjar uma mulher?
\u2013 Acho que não, Edna. Me diga, onde elas estão?
\u2013 As mulheres?
\u2013 Sim.
\u2013 Ah, por toda parte, veja bem.
\u2013 Onde? Me diga. Onde?
\u2013 Bem, na igreja, veja bem. Há mulheres na igreja.
\u2013 Não gosto de igrejas.
\u2013 Ah.
\u2013 Escute, porque você não vem para cá, Edna?
\u2013 Quer dizer para sua casa?
\u2013 Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar.
Sem pressão.
\u2013 Está tarde.
\u2013 Não está tão tarde. Escute, você viu meu aviso. Deve estar interessada.
\u2013 Bem...
\u2013 Você está com medo, é só isso. Está apenas com medo.
\u2013 Não, não estou com medo.
\u2013 Então venha pra cá, Edna.
\u2013 Bem...
\u2013 Venha.
\u2013 Certo. Vejo você em quinze minutos.
O apartamento ficava no último andar de um condomínio moderno.
Número 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu e lá
estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saíam pelas
narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
\u2013 Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrás dela. Trazia seu vestido azul de seda.
Estava sem meias, de sandálias, e fumando um cigarro.
\u2013 Sente-se, vou pegar uma bebida para você.
Era um lugar agradável. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela
ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas,
hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a
ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill \u2013 Joe \u2013 voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e
então sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
\u2013 Sim \u2013 ele disse \u2013, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-
condicionado.
\u2013 Notei. É muito bom.
\u2013 Tome a sua bebida.
\u2013 Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um
gosto agradável. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter
rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas.
Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma
aparência cômica.
\u2013 É um belo vestido, Edna.
\u2013 Gosta?
\u2013 Oh, sim. Você é bem fornida. O vestido fica muito bem em você, muito
bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados,
olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele não fala?, pensou Edna. É ele quem tem de falar. Havia nele
algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
\u2013 Deixe-me preparar outra bebida para você \u2013 disse Joe.
\u2013 Não, realmente está na minha hora.
\u2013 Ora, vamos lá \u2013 ele disse \u2013, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos
de algo para relaxar.
\u2013 Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando.