A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
100 pág.
ANESTESIA A VITÓRIA SOBRE A DOR

Pré-visualização | Página 11 de 18

massagem, fisioterapia,
apoio psiquiátrico e psicológico que participam no tra-
tamento do paciente com dor.
A maioria das drogas provoca mais de um ou dois
efeitos. Às vezes, uma droga é usada não pelo efeito prin-
cipal, mas para se obter benefícios de outras de suas ações.
Um exemplo muito usado na dor crônica é o dos
antidepressivos. Em doses pequenas eles podem agir de
modo que provoquem alívio de certas
dores, como a da neurite pós-herpéti-
ca, sem significar que o paciente esteja
deprimido. E a dose pode ser aumen-
tada quando houver depressão.
Outro exemplo de aproveitar mais efeitos secundá-
rios é o dos anticonvulsivantes: podem ser receitados
como analgésicos por seus efeitos depressores sobre ner-
vos cuja função esteja anormal e provoque dor.
A droga mais usada no mundo inteiro para alívio
da dor é a aspirina. É um grande medicamento, eficiente
e barato. Serve de padrão para comparar outras drogas
parecidas com ela: os antiinflamatórios não-esteróides.
Isto é, são drogas que aliviam a dor combatendo a reação
do organismo contra a destruição tecidual, mas não são
corticóides. A aspirina e os antiinflamatórios não-este-
róides podem ser usados junto com outros medicamen-
tos para combater a dor, pois agem por mecanismos di-
ferentes para oferecer alívio. A aspirina e seus semelhan-
A maioria das drogas
provoca mais de um ou
dois efeitos.
 ANESTESIA 57
tes podem baixar a febre, diminuir a inflamação e o ede-
ma e ter efeito analgésico. Muito efeito para uma droga só.
De novo devemos estar alerta para os efeitos inde-
sejados dessas drogas muito úteis: a aspirina e os antiin-
flamatórios podem provocar uma série de efeitos secun-
dários: alteração da coagulação, sangramentos digesti-
vos, dor estomacal, gastrite, problemas renais, alergias e
efeitos sobre o metabolismo de outras drogas. Isso ocor-
re porque essas drogas, na sua ação de aliviar a dor, inter-
ferem em várias frentes no organismo.
Atualmente dispomos de drogas que propiciam os
mesmos efeitos benéficos e mínima capacidade de cau-
sar complicações. A aspirina é mais um exemplo de apro-
veitar um efeito secundário: em doses pequenas, não
analgésicas, ela pode ser usada para diminuir a viscosida-
de sangüínea e diminuir a possibilida-
de de problemas de circulação.
Assim, o tratamento do paciente
com dor utiliza várias drogas e recursos
de várias áreas, seja na dor aguda, crô-
nica ou do câncer.
Um dos grandes avanços no tra-
tamento da dor do câncer foi a comprovação da eficiên-
cia da morfina por via oral. Adotando doses adequadas a
cada paciente, em horários fixos, podemos afirmar que a
dor do câncer pode ser diminuída e aliviada em 90%
dos casos. A Organização Mundial da Saúde (OMS)
aprovou e divulgou um regime de tratamento da dor do
câncer que consta de três degraus, onde a morfina é a
principal droga.
Os opióides – a morfina serve como padrão – po-
dem ser usados em qualquer via e em qualquer dose. O
opióide deve ser dado até a obtenção do alívio, sem ja-
Dispomos de drogas que
propiciam os mesmos
efeitos benéficos e
mínima capacidade de
causar complicações.
58 ANESTESIA
mais perder de vista o conforto do paciente. Essa de-
verá ser a dose para aquela dor, naquele paciente. O
limite da dose é imposto pelos eventuais efeitos cola-
terais de náusea, vômito, sonolência ou intolerância.
O opióide pode ser trocado até que se obtenha o efei-
to desejado.
Com a recomendação da OMS para o uso da mor-
fina via oral, aumentou o consumo médico da morfina.
Hoje, os dez países mais adiantados consomem 80% de
toda a morfina usada no mundo. Os outros 140 países,
os restantes 20%, sendo que 60 países não registram ne-
nhum consumo de morfina. A OMS utiliza a quantida-
de de morfina usada num país como critério para avaliar
a qualidade de assistência médica no tratamento da dor
do câncer. As vantagens de usar a mor-
fina por via oral: é muito barata, é prá-
tica, é eficiente.
O uso de morfina enfrenta uma
série de obstáculos, na maioria irreais,
mas todos prejudiciais aos pacientes que
dela necessitam. Muitos pensam que o uso da morfina
significa morte próxima, quando ocorre exatamente o
contrário: tendo sua dor aliviada, o paciente quer conti-
nuar vivendo.
Quando se utiliza um opióide, podem ocorrer tole-
rância, dependência física e adição. A tolerância signifi-
ca que, com o tempo, talvez precise aumentar a dose
para obter o mesmo efeito. É um acontecimento normal
dentro da farmacologia. Outro fato normal é a depen-
dência física: quando há a interrupção brusca da admi-
nistração do opióide, podem ocorrer lacrimação, coriza,
sudorese. A retirada progressiva da droga evita que isso
ocorra. Não é problema, portanto.
Os dez países mais
adiantados consomem
80% de toda a morfina
usada no mundo.
 ANESTESIA 59
Em raros casos, pode ocorrer a adição ou a depen-
dência psíquica. Temos então, um comportamento anti-
social, na busca de obter a qualquer preço o opióide, não
para aliviar dores, que até podem não existir mais, mas
para suprir a necessidade do organismo de receber a dro-
ga. O paciente apresenta uma série de sintomas que re-
presentam os efeitos que o organismo dependente qui-
micamente da droga sofre. Sabe-se que a dependência
psíquica ou adição tem maior possibilidade de ocorrer
em pacientes que fizeram tratamento psiquiátrico ou que
usaram drogas tipo maconha, cocaína ou heroína.
No caso dos pacientes com dor de câncer, quando a
dor diminui ou desaparece, o próprio paciente dispensa
o uso da morfina.
Um avanço que dá mais tranqüilidade no uso de
opióides foi o surgimento de substância antagonista dos
opióides, a naloxona. Ela reverte os efeitos indesejados
ou exagerados com muita rapidez, facilitando o trata-
mento a ser realizado.
Um problema que atinge médicos e pacientes é a
dificuldade na prescrição e compra dos
opióides. A legislação, em quase todos
os países, é rigorosa na proibição do
tráfico de entorpecentes. E como é mais
fácil controlar médicos e doentes, já que
não há intenção de burlar a lei, são eles
que enfrentam empecilhos ao usar os opióides.
A dor crônica, no moderno conceito médico, está
deixando de ser um sintoma e está sendo considerada
uma doença em si. Pelas alterações físicas, psíquicas, pes-
soais, familiares e sociais, pelos custos que acarretam a
dor aguda, as dores lombares, cefaléias, neurites, artrites
e a dor do câncer, pela freqüência e por atingir o ser hu-
Um problema que atinge
médicos e pacientes é a
dificuldade na prescrição
e compra dos opióides.
60 ANESTESIA
mano desde o nascimento até a morte, a dor passou a
exigir estudo e atenção especial.
Enormes foram os progressos no tratamento da dor,
se comparado com o passado. Pequeno foi o avanço, se
compararmos com o futuro. Mas a Medicina se prepara
para continuar a luta. Hoje existem:
– Serviços de Dor Aguda sendo criados nos hospi-
tais;
– Clínicas de Dor, compostas por clínicos, cirur-
giões, neurologistas, anestesiologistas, psiquiatras, fisia-
tras, enfermeiros, para que o paciente receba avaliação e
tratamento com eficiência e rapidez;
– cursos de especialização e pós-gra-
duação em dor, já existindo médicos es-
pecialistas em dor em vários países.
Há cento e cinqüenta anos o alí-
vio da dor era uma necessidade e uma
exigência do indivíduo; hoje, o alívio
da dor é considerado um direito do indivíduo, sendo
uma obrigação da sociedade oferecer condições para que
esse alívio seja proporcionado.
Hoje, o alívio da dor é
considerado um direito
do indivíduo.
 ANESTESIA 61
Quando chega a notícia de que vamos ser opera-
dos, o primeiro momento caracteriza-se pela surpresa (era
inesperado este caminho), pelo alívio (era esperado e se
aguardava como solução do problema) ou pela resigna-
ção (não era desejado, mas aparece como necessidade
para