A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
74 pág.
Fundamentos Sócio Históricos da Educação

Pré-visualização | Página 4 de 32

como tal, é obrigatória 
a existência de um método rigoroso de análise e de explicação, denominado Método científico. 
A Sociologia tendo sido definida como Ciência dos fatos sociais, exige que se faça uma 
diferenciação entre fatos sociais e outros acontecimentos da vida do indivíduo. Assim, fato social é 
toda maneira de agir, determinada ou não, que exerce sobre o indivíduo uma pressão exterior. É 
coletivo, exterior ao indivíduo e coercitivo. 
Por coletivo entende-se que, para ser um fato social, um fato tem que, obrigatoriamente, 
ocorrer dentro de um grupo, na relação entre grupos ou do indivíduo com o grupo. Este fato tem 
que ser exteriorizado, para existir e é coercitivo (exerce uma influência e autoridade sobre o 
indivíduo). 
Difere, assim, dos fenômenos orgânicos que consistem em ações e atos necessários à 
sobrevivência e dos fenômenos psíquicos, que existem na consciência individual e da qual só o 
próprio indivíduo tem consciência. Difere, também, dos atos individuais, não relacionados com o 
grupo, dos quais somente o indivíduo que os realiza, tem conhecimento. 
Um exemplo: O ato de comer nasce de uma necessidade fisiológica, individual; é uma 
atividade rotineira e não constitui fato social. Já um almoço de comemoração de um casamento é 
um fato social, pois há regras a serem seguidas, como: uma lista de convidados, vestimenta 
adequada, certos cuidados na disposição dos lugares à mesa, nos tipos de comida a serem 
servidos, etc. Enfim, existem padrões de comportamento que independem da vontade das 
pessoas envolvidas. Assim, mesmo que os noivos “adorem” comer arroz com feijão ou macarrão, 
jamais servirão este cardápio aos seus convidados. Apesar dos poucos recursos de algumas 
6. Fundamentos Sócio-Históricos da Educação 
 
364 
famílias, se houver uma refeição, nela serão servidas comidas e bebidas diferentes daquelas do 
dia a dia. 
O próprio casamento, mesmo sem festa, é um fato social. Para que uma união seja 
considerada casamento, deve ser realizado um ritual, diante de uma autoridade (juiz, chefe 
religioso, chefe de tribo, etc.). Sem este ritual, o grupo não reconhece a união como casamento. 
A noção de fato social é essencial para a compreensão das diferenças decorrentes da 
existência do indivíduo (vida) e da sua existência para o grupo social. 
O livro As regras do Método Sociológico constitui também a primeira obra exclusivamente 
voltada para a investigação e explicação sociológica, escrita por um sociólogo. Publicado pouco 
após seu doutoramente, este livro condensa os princípios metodológicos desenvolvidos por 
Durkheim enquanto realizava a pesquisa para elaboração de sua tese. Estes princípios foram 
então testados e aplicados em um estudo monográfico intitulado O suicídio: estudo sociológico. 
Neste estudo, publicado em 1897, pela primeira vez, foram utilizados em um trabalho sociológico 
métodos específicos das ciências, com manipulação de variáveis e dados empíricos, de forma 
sistemática e bem delimitada. 
Os princípios fundamentais do método sociológico, segundo Durkheim, são: 
1ª regra: considerar os fatos sociais como “coisas” 
2ª regra: isolar e definir a categoria de fatos que nos propusemos a estudar (o normal e o 
patológico) 
3ª regra: explicar o social pelo social. 
Por estes princípios devem se pautar todos os estudos dos fatos sociais. 
A primeira regra, ao enunciar que os fatos sociais devem ser estudados como coisas, 
refere-se à análise dos fatos como se fossem objetos. Se não reduzirmos o fato social a um 
“objeto”, não seremos capazes de analisá-lo objetivamente e delimitar os fatores que contribuíram 
para originá-lo ou quais as decorrências dele resultantes. 
Ao analisarmos os fatos, devemos poder separar aqueles que são “normais”, que 
decorrem da vida em sociedade e aqueles “patológicos”, que resultam de desvios de 
comportamento de um indivíduo. Esses comportamentos desviantes, devem ser analisados à luz 
da psicologia ou das ciências que tratam dos problemas psiquiátricos e médicos. 
Ao se estudar e explicar o fato social, temos que buscar as respostas na própria 
sociedade, nos comportamentos do grupo. Se a resposta ao problema não decorre da vida em 
sociedade, mas de outros fatores, não pode ser considerado um fato social. 
Como um dos principais pressupostos de Durkheim, podemos destacar a crença de que a 
humanidade evolui no sentido de um aperfeiçoamento gradual empurrado pela lei do progresso. 
Este aperfeiçoamento, gradual e contínuo é característica da humanidade. Esta ideia vinha da 
necessidade da criação de um novo sistema científico e moral mais adequado à nova ordem 
social e produtiva. Havia também o aumento crescente da compreensão de que a vida coletiva 
não era apenas o somatório das vidas dos indivíduos, mas uma composição bem mais distinta e 
complexa. 
Durkheim também preocupava-se com a ordem social e acreditava que a raiz de todos os 
males da sociedade de seu tempo era uma certa fragilidade da moral da época. Esta preocupação 
apareceu de forma mais explícita na obra “Educação e Sociologia”. 
Neste estudo, Durkheim vai analisar e criticar os sistemas de educação propostos em sua 
época. Sua maior crítica vai no sentido de negar a natureza fixa e imutável do indivíduo e de 
negar o caráter individual da educação. Assim, ele não acreditava que o ser humano era imutável 
e que já nascia com características definidas nem que a educação poderia processar-se de forma 
6. Fundamentos Sócio-Históricos da Educação 
 
365 
individual, onde cada família decidisse como gostaria de educar seus membros. Para Durkheim, 
as afirmações de que existe uma educação ideal, perfeita e apropriada aos homens 
indistintamente, era um erro. 
Para ele, cada sociedade possui um sistema de educação que se impõe aos indivíduos. 
Esse sistema de educação é adequado ao desenvolvimento dessa sociedade e funciona como 
elemento regulador dela própria. Dizia Durkheim que era uma “ilusão acreditar que podemos 
educar nossos filhos como queremos. Há costumes com relação aos quais somos obrigados a 
nos conformar; se os desrespeitamos, muito gravemente, eles se vingarão em nossos filhos. 
Estes, uma vez adultos, não estarão em estado de viver no meio de seus contemporâneos, com 
os quais não encontrarão harmonia. (FAUCONNET, In: DURKHEIM, 1975, p. 36) 
Assim, Durkheim sintetiza o papel da escola: aquele de difundir os costumes e ideias de 
cada sociedade, considerando também que o tipo de educação criado pela sociedade, não pode 
ser fruto de uma ação individual. Ela é obra do trabalho das gerações passadas. Para conhecer o 
tipo de educação adequada para uma sociedade, deveriam então ser conhecidas as causas 
históricas das mudanças dessa sociedade. O entendimento histórico é que leva a sociedade a 
desenvolver os sistemas de educação. Assim, cada sociedade constrói um certo ideal de homem, 
nos aspectos intelectual, físico e moral. Ideal este que constitui o eixo do sistema educativo e que 
é o mesmo para todos os cidadãos, como se fosse o molde do “perfeito cidadão” e que cada 
criança deve ser moldada utilizando-se esta “fôrma”. 
O ideal de educação deve gerar na criança um certo número de estados físicos e mentais 
que a sociedade, à qual pertença, considere como indispensáveis a todos os seus membros. 
Durkheim então define a educação como sendo: a ação exercida, pelas gerações adultas, 
sobre as gerações que não se encontram ainda preparadas para a vida social; tem por objeto 
suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais, 
reclamados pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança, 
particularmente, se destine. (Fauconnet, In: Durkheim, 1975, p. 41). 
Em decorrência dessa definição, Durkheim diferenciou as duas consciências do homem. 
Para ele, todo indivíduo é composto de dois seres: o ser individual e o ser

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.