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Manual de moléstias vasculares

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é crônica 
e ocorre em surtos de inflamação, que vêm atingindo os vasos cada vez mais 
proximais. Tardiamente pode ocorrer infarto agudo do miocárdio, acidente vas-
cular cerebral isquêmico e trombose venosa profunda nos membros inferiores.
Não há exames para confirmar o diagnóstico de TAO. Às vezes torna-se 
necessário proceder a investigação de trombofilias (dosagens de proteínas C e S, 
antitrombina III, anti-cardiolipinas e fator V de Leiden) e afastar outras vascu-
lites ou doenças do colágeno. 
Na área dos exames auxiliares, as medidas das pressões segmentares dos mem-
bros com ultrassom e o mapeamento com ultrassonografia dúplex ajudam muito 
no diagnóstico; este último exame demonstra ausência de placas ateromatosas, as 
principais artérias em perfeitas condições de funcionamento e as obstruções distais, 
quase sem recanalizações; o espessamento da parede das artérias ajuda no diagnóstico. 
A arteriografia, solicitada quando existem lesões tróficas, dor de repouso, claudicação 
limitante ou gangrena progressiva, demonstra: artérias proximais normais, obstruções 
distais com segmentos de artéria abertos intercalados com segmentos obstruídos e 
um número muito grande de colaterais em forma de sacarrolha, comuns ao nível do 
joelho - conhecido como sinal de Martorell22. A arteriografia não está indicada para 
diagnóstico da doença, mas sim quando o médico assistente pretende realizar uma 
restauração, embora os seus achados possam auxiliar na confirmação do diagnóstico. 
Manifestações viscerais também podem ser detectadas pela arteriografia.
Deve-se sempre lembrar que devido ao acometimento simultâneo de ar-
térias e de veias, as cirurgias não têm um bom prognóstico, pois as veias não 
costumam ser de boa qualidade e as cirurgias apresentam sucesso em cerca de 
30% dos casos, podendo provocar o agravamento das lesões.
Como a dor predomina no quadro clínico, o uso da associação de medica-
mentos (anti-inflamatórios não hormonais, analgésicos comuns, neurolépticos 
maiores e opiáceos) é muitas vezes utilizada. Os bloqueios anestésicos podem ser 
indicados de forma paliativa, ou para a realização de pequenos desbridamentos (e 
amputações menores). Algumas vezes é indicada a simpatectomia, cujo resultado é 
mais duradouro no membro superior, ou a neurotripsia ao nível distal das pernas, 
quando não há indicação para uma amputação mais proximal.
A TAO é uma das doenças onde ainda se utiliza a simpatectomia para auxiliar 
no controle das lesões tróficas e dor. A simpatectomia resulta em um maior aporte 
sanguíneo para a pele, através da perda do controle dos esfínceteres pré-capilares. 
No entanto, não promove a desobstrução das artérias tronculares, de maneira que 
somente deve ser indicada quando há suficiente aporte de sangue pelos troncos arte-
riais, geralmente estimado pelo índice tornozelo-braço maior do que 0,4.
Observar que o controle da afecção baseia-se exclusivamente no abandono 
do tabagismo. No tratamento da TAO não está indicado o uso de corticoterapia 
ou imunossupressores. Nos pacientes que conseguem se abster completamente 
22Fernando Martorell Otzet, 
1906-1984. Cardiologista 
espanhol, um dos fundadores 
da especialidade da Angiologia 
e Cirurgia Vascular.
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Arterites João Potério Filho
do fumo, a progressão da doença é pequena com o passar dos anos, confirman-
do dessa forma a estreita relação com o tabagismo. 
As arterites apresentadas abaixo constituem um grupo de arterites pri-
márias onde o cirurgião vascular tem pouca ou nenhuma atuação, cabendo ao 
clínico, pediatra e reumatologista o controle da doença. Como nos casos das 
arterites secundárias, a intervenção é realizada apenas para concluir pequenos 
desbridamentos, biópsias ou amputações sequelares.
Arterite Temporal
Também conhecida como arterite de células gigantes ou arterite de Hor-
ton23. É muito mais comum do que a arterite de Takayasu e envolve principal-
mente os ramos das artérias carótidas e o segmento arterial axilo-braquial. É co-
mum as artérias estarem envolvidas bilateralmente e às vezes de forma simétrica. 
Outras artérias podem ser atingidas, embora mais raramente, como as femorais 
superficial e profunda, renais, vertebrais, coronárias e a própria aorta. O acome-
timento preferencial é em mulheres, mas com início na faixa etária acima dos 
50 anos. O processo inflamatório é caracterizado pelo infiltrado tanto de células 
mononucleares como de células gigantes multinucleadas, que em geral estão em 
contato direto com a lâmina elástica, podendo conter fragmentos de elastina. O 
resultado é o estreitamento arterial.
O quadro clínico inicia-se por cefaleia temporal acompanhada de sintomas 
de febre, dores musculares e perda de peso. Outros sintomas se seguem, como 
dificuldade para mastigar, engolir e sintomas visuais (borramento da visão, di-
plopia). Quando os sintomas oculares ocorrem, resultados catastróficos podem 
advir, uma vez que o acometimento da artéria central da retina pode levar a 
cegueira súbita em até 50% dos pacientes não tratados. Ao exame clínico pode-
se observar em vários pacientes área dolorida de endurado e eritema, da região 
da pele sobre a artéria temporal superficial. Quando ocorre o acometimento de 
artérias periféricas, pode-se observar a diminuição ou abolição dos pulsos. 
O que chama a atenção nas provas laboratoriais é o elevado valor da velo-
cidade de hemossedimentação, que pode chegar a 100 mm na primeira hora. 
A forma mais segura para fazer o diagnóstico ainda é a biópsia da artéria 
temporal, onde os achados de células gigantes estão presentes. O tratamento 
baseia-se no uso de altas doses de corticoides e por período de tempo prolon-
gado, o que pode resultar em vários efeitos colaterais como o aparecimento de 
diabetes, sintomas digestivos, hipertensão arterial, osteoporose e catarata.
Existe uma associação muito grande entre arterite temporal e polimialgia 
reumática, sendo esta uma manifestação dolorosa da musculatura e das arti-
culações do pescoço, ombros e quadris, trazendo grande inconveniente para o 
paciente. A polimialgia reumática, quando não associada à arterite temporal, 
apresenta os mesmos sintomas gerais e a grande elevação do VHS, mas não traz 
maiores consequências, pois não destrói o tecido muscular e responde bem a 
baixas doses de corticoides.
Do ponto de vista cirúrgico, o cirurgião vascular somente pode auxiliar na 
realização da biópsia da artéria temporal, quando inflamada. Os sintomas dos mem-
bros raramente necessitam de intervenção, regredindo com o tratamento clínico.
22Bayard Taylor Horton, 
1895-1980. Clínico americano.
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Poliarterite Nodosa (PAN) e Poliangeíte Microscópica (PAM) 
Tanto a PAN como a PAM correspondem a uma vasculite sistêmica de pequenos vasos com aco-
metimento preferencial dos rins. A PAN acomete mais o sexo masculino e a incidência da doença se dá 
principalmente dos 40 aos 60 anos. Na fase aguda ocorrem os sintomas de febre alta e emagrecimento. O 
processo de vasculite pode atingir a pele, levando ao aspecto de livedo reticular, acompanhado de púrpura 
e nódulos subcutâneos dolorosos, que correspondem a microaneurismas. Lesões isquêmicas digitais podem 
ocorrer. O acometimento renal está presente em cerca de 70% dos casos e produz uma glomerulonefrite 
acompanhada de hipertensão arterial e microhematúria. Classicamente são encontrados microaneurismas 
dentro do parênquima renal. O sistema nervoso central também pode ser afetado, assim como o coração. O 
envolvimento do trato digestivo pode levar a infartos, hemorragias e trombose.
A poliangeite microscópica (PAM) se difere da PAN porque o acometimento se dá em vasos ainda meno-
res, não ocorrendo