LACAN, J. O saber do psicanalista   O seminário   Livro 19
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LACAN, J. O saber do psicanalista O seminário Livro 19

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JACQUES LACAN

"Da análise, há uma coisa que deve
prevalecer, é que há um saber que se

retira do próprio sujeito... É do tropeço,
da ação fracassada, do sonho, do

trabalho do analisante que esse saber
resulta. Esse saber que não é suposto,

ele é saber, saber caduco, migalhas de
saber, sobremigalhas de saber. É isso o

inconsciente."

Jaques Lacan
O Saber do Psicanalista

O Saber
do Psicanalista

ío
Seminário 1971-1972

PUBLICAÇÃO PARA
CIRCULAÇÃO INTERNA

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< i iMi:;;iA() líl )IT( >RIAL - 2000/2001
Aiip-l.i Nnpii Ma de Fátima Belo

i iinli.il .i|>;i Ma Lúcia Santos
l ' In 1.1 r. Fonseca* MônicaVieira

M.in ilnie Dória Telma Queiroz

REVISÃO DE REDAÇÃO:
Denise Coutinho

ILUSTRAÇÃO DA CAPA:
lídipa interrogado pela Esfinge

Responsável pela coordenação do projeto de tradução e editoração.

JACQUES LACAN

O Saber doPsicanalista
SEMINÁRIO 1971-1972

TRADUÇÃO:
Ana Izabel Corrêa - PE

Letícia P. Fonseca - PE
Nanette Zmery Frej - PE

REVISÃO DA TRADUÇÃO:
Denise Coutinho - BA

Psicanalista, tradutora e doutoranda em Letras pela UFB A.

Nota Liminar
da Edição Francesa

As conferências aqui reunidas sob o títuloO Saber do psicanalista foram profe-
ridas na capela do Hospital Sainte-Anne para-

lelamente ao seminário ... oupire. Tratava-se
de retomar contato mais diretamente com os

jovens psiquiatras, uma preocupação que nun-
ca o abandonou. Ainda que se imponha, de
modo geral, reservar para seu seminário os ele-
mentos novos que ele pensa poder trazer, estas

lições apresentam muitos desenvolvimentos que
não se encontrarão alhures e cuja importância
não deve ser subestimada.

C.D.

Nota da
Comissão Editorial

O presente texto é um documento detrabalho desenvolvido por um Grupo
de Projeto e Tradução mobilizado pelo Centro

de Estudos Freudianos do Recife. Fruto por-
tanto de uma transferência de trabalho, advém

de questionamentos e constante interlocução,
dando testemunho da continuidade do pro-

cesso de formação do psicanalista suporta-
do e efetivado no CEF-Recife.

Ao ser passado agora ao público, tem como
objctivo principal fornecer aos part icipan-

tes da Instituição subsídios para o estudo, a
partir da leitura textual da obra de Jacqucs

Lacan. E, ao se fazer circular suas ideias,
viabiliza-se mais um recurso que pode dar lugar

a novas reflexões e elaborações.
Esta tradução, realizada a partir de texto es-

tabelecido pela Associação Freudiana Inter-
nacional, dedica-se ao uso exclusivo dos par-

ticipantes do Centro de Estudos Freudianos
do Recife, não tendo qualquer finalidade co-
mercial.

Agradecemos a cada um dos tradutores, aos
revisores e a todos aqueles que colaboraram
conosco, tornando possível esta edição.

l
Sumário

Lição I, de 4 de novembro de 1971 77

Lição II, de 2 de dezembro de 1971 .. 27

Lição III, de 6 de janeiro de 1972 42
Lição IV, de 3 de fevereiro de 1972 57

Lição V, de 3 de março de 1972 73

Lição VI, de 4 de maio de 1972 93

Lição VII, de l de junho de 1972 77.?

Lição I
-o

4 de novembro de 1971

Voltando a falar em Sainte-Anne, o que eu esperaria é que aqui estivessemos residentes, como são chamados, como eram chamados no meu tempo,
"residentes dos asilos"; agora são "hospitais psiquiátricos", sem contar o resto.

É esse público ao qual eu visava ao voltar a Sainte-Anne. Tinha a esperança de
que alguns deles faltassem ao trabalho para vir. Será que se houver alguns aqui -
falo dos residentes em exercício - me dariam o prazer de levantar a mão? É uma

minoria esmagadora, mas, enfim, são suficientes para mim.
A partir daí - e na medida em que eu possa manter esse fôlego - vou tentar

dizer a vocês algumas palavras. É evidente que essas palavras, como sempre, eu
as faço de improviso, o que não quer dizer que não tenha algumas notinhas, mas
foram improvisadas nessa manhã, porque trabalho muito. Entretanto não é pre-
ciso que vocês sintam-se obrigados a fazer o mesmo. Um ponto sobre o qual
insisti foi sobre a distância que existe entre o trabalho e o saber, pois não esque-

çamos que, esta noite, é o saber que lhes prometo, logo, não há tanta necessida-
de de vocês se cansarem. Vocês vão ver o por quê, alguns já supõem por terem

assistido ao que chamam de meu seminário.
Para voltar ao saber, mostrei há bastante tempo que o fato de a ignorância

poder ser considerada no budismo como uma paixão, justifica-se com um pon
co de meditação; mas como nosso forte não é a meditação, só podemos conheci-

Ia através de uma experiência. Trata-se de uma experiência marcante que ti vê 11.1
muito tempo, justamente na sala dos plantonistas. Porque faz um bom tempo
que frequento essas muralhas - não especialmente as daquela época - c iss< i

deveria estar inscrito em algum lugar, em torno de 25-26, e os residentes dai 11 u •
Ia época - não falo do que eles são agora - os residentes tanto dos hospi la i í ,

quanto daquilo que chamavam asilos, isso era sem dúvida um efeito de gn i | » >
mas quanto a man ter-se na ignorância, parece-me que, ali, eles eram o máx i 11 n > '

M

l ' " i l . . . . " i iM . I r u i i que esle loi um momento da medicina; esse momento devia
fon osumente sei seguido pela vacilação atual. Naquela época, afinal de contas,

• 1 i r i i"i inicia-não esqueçam que falo da ignorância-acabo de dizer que é
m 11; 111 . 11 \ 10, não é para mim uma menos-valia, também não é um déficit. É outra

« « u s a , a ignorância está ligada ao saber. É uma maneira de estabelecê-la, de
l.i/.ei t Ir l a um saber estabelecido. Por exemplo, quando alguém queria ser médi-

co i u i ma determinada época, que, naturalmente, era o fim de uma época, bem...
e i u n inai que tenha querido beneficiar-se, mostrar, manifestar uma ignorância, se

posso dizer, consolidada. Dito isto, depois do que acabo de lhes dizer sobre a
ignorância, vocês não se surpreenderão que eu sublinhe que a "douta ignorân-

cia", como se expressava um certo cardeal, no tempo em que esse título não era
um atestado de ignorância, um certo cardeal chamava "douta ignorância" o sa-
ber mais elevado. Era Nicolau de Cusa, somente para lembrá-lo. De sorte que

a correlação da ignorância com o saber é algo de onde essencialmente temos
que partir e ver que afinal, se a ignorância, assim, a partir de um certo momento,
num certo setor, porta o saber em seu nível mais baixo, não é culpa da ignorân-

cia, é antes o contrário.
Já faz algum tempo que, na medicina, a ignorância não é mais tão douta para

que a medicina não sobreviva de outra coisa senão de superstições. Sobre o
sentido dessa palavra, e precisamente no que concerne oportunamente à medi-

cina, voltarei talvez daqui a pouco, se houver tempo. Mas, enfim, para indicar
algo dessa experiência, da qual não quero perder o fio da meada após quase 45
anos frequentando essas muralhas - não é para me vangloriar disso, mas desde

que entreguei alguns de meus Escritos pãrapublixação1, todo mundo sabe mi-
nha idade, é um dos inconvenientes! -naquele momento, o grau de ignorância
passional que reinava na sala dos plantonistas do Sainte-Anne, devo dizer que é
incvocável. É verdade que eram pessoas que tinham vocação e, naquele mo-

mento, ter vocação para os asilos era algo bem particular. Nessa mesma sala
< It >s plantonistas chegaram ao mesmo tempo quatro pessoas cujos nomes não

p< tsso deixar de relembrar, uma vez que sou um deles. O outro, que me agrada-
na l a/cr ressurgir esta noite, era Henri Ey. Pode-se dizer - não é? - com o

espaço de tempo percorrido, que dessa ignorância Ey foi o civilizador. E devo
t h/.ei que louvo seu trabalho. A civilização, enfim, não nos desembaraça de

i u • 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 ia l -estar, como observou Freud, bem ao contrário, Unbehagen, o não
• i . n hr iu ' , mas, enfim, isso tem um lado precioso. Se vocês pensam