GUATTARI, F. Micropolítica   Cartografias do Desejo

GUATTARI, F. Micropolítica Cartografias do Desejo


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· .
FELIX GUATTARIjSUELY ROLNIK
~
,
Micropolitica
Cartografias do Desejo
4' Ediyao
+\OZES
Petr6polls
1996
,
J.lIlI· IIIIIIII1
A
Regina Schnaiderman, present;a
I~
r
.. as boas maneiras de let hoje, e chegar a tratar urn livre como
se escuta urn disco, como se alha urn fHme au urn programa de televisao,
como se e tocado por uma can~ao: todo tratamento do livro que exigisse
urn respeito especial, uma aten-;ao de autra espede, vern de uma outra
era e condena definitivamenre 0 livre. Nao ha nenhuma questao de difi-
culdade nem de compreensao: as conceitos sao exatamente como sons, cores
au imagens, sao intensidades que convern a voce au nao, que passam au
nao passam. 'Pop' fiIosofia. Nao ha nada a compreender, nada a inter-
pretar" .
Gilles Deleuze *
* in Dialogues. Flammarion, Paris 1977, p. 10.
J.. _
SUMARIO
Apresentafiio, 11
I - Cultura: urn conceito reacionario?, 15
II - Subjetividade e Historia, 25
1. Subjetividade: superestrutura-ideologia-representa~ao X produ~ao, 25
2. Subjetividade: sujeito (individual ou social) X "agenciamentos cole-
tivos de enunciac;ao", 30
3. Produ~ao de subjetividade e individualidade, 31
4. Singularidade X individualidade, 37
5. Subjetividade: linha de montagem no capitalismo e no socialismo
burocratico, 39
6. Revolw;6es moleculares: 0 atrevimento de singularizar, 45
7. Em busca de identidade, 66
8. Identidade X singularidade, 68
9. Identidade cultural: uma cilada?, 69
10. Minorias: os devires da sodedade, 73
a. !dentidade X devir mulher, homossexual, negro ... , 73
b. FalofaO em lorna de experiencias minoritarias e suas tramas} 89
1~) Psiquiatria, 89
2~) A escola, 98
c. Minorias na midia: a radio livre, 103
d. Minoria - marginalidade - autonomia - altemativa: 0 devir
molecular, 121
e. Trama de minorias: "rizoma JJ , 123
;
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I
,
III - Politicas, 127
1. Micropolitica: molar & molecular, 127
a. Luta de classes & autonomia, 139
b. Estado & autonomia, 147
c. Igre;a & autonomia, 153
d. Partido & autonomia, 156
e. Centralismo democratico X espontaneismo, anarquia: um falso pro-
blema, 176
2. Uma certa conc&quot;p<;~o, da Historia, 178
3. Revolm;ao (?)'\J85 i\/
-......~ j
4. Capitalismo mundiaf integrado, 187
8. Os ((nllo-garantidos&quot;, 187
b. Essa crise (que noo e s6 economica .. . ), 190
IV - Desejo e Historia, 197
1. Psicanalise & corpora<;iies de analistas, 197
2. Psicanalise e reducionismo, 202
3. 0 Complexo de Infra-Estrutura, 212
a. Dese;o como caos, 214~
b. In/ra-estrutura X superestrutura: critica aideia de con/lito, 217
c. Interpretaroo: 0 analista e 0 pianista, 222
4. A esquizoanaIise, 232
a. Individuaroo do dese;o: a alienaroo, 232C =,&quot;
b. Dese;o: terreno da micropolitica, 233 ( './
c. ((Inconsciente maquinico&quot;; desejo como prodUrtlO, 239
d. Casos de esquizoanfJlise: da clinica ao movimento social, 241
5. Para alom do Complexo de Infra-Estrutura, 265
a. 0 inconsciente freudiano, 265
b. 0 inconsciente esquizoanalitico, 268
v - Emo~ao - energia - corpo - sexo: 0 mito da &quot;viagem&quot;
de libera<;ao, 274
VI - Arnor, territorios de desejo e unta nova suavidade ... , 281
VII - Conversa de aeroporto, 291
VIII - A viagem de Guattari ao Brasil segundo de mesmo, 298
IX - A viagem de Guattari segundo os brasileiros, 305
Apendice: notas descartaveis sobre alguns conceitos, 317
Refer~ncias das Fontes, 324
Bibliografia de Felix Guattari, 327
APRESENTACAO
Este livro naD foi escrito apenas a quatrc maDS as de Guattari
e as minhas. Na verdade, muitas maDS 0 escreverarn ...
Tudo come,a em 1982 com a ideia que tive de convidar Guattari para
urn passeio pelo Brasil. E que 0 pals, naquela ocasHio, estava aquecido
pelo reboli,o de uma campanha eleitoral para governadores, deputados e
vereadores. A sociedade brasHeira vivia urn momento de inconteshivel re-
vitalizac;ao. Revita1izava~se a consciencia social e politica, e claro, mas DaD
apenas e1a: revitalizava-se tamb~m 0 inconsciente -.e de diferentes rna-
neiras. Tipo de situac;ao que faz pensar em Guattari. A esse respeito, disse
Deleuze certa vez *, com relac;ao a si mesrna e a Guattari, que ambos
procuravam allados - e que esses auados cram as &quot;inconscientes que pro-
testam».
Que misterioso protesto seria esse (0 do inconsciente) que DaD tern
aver - em todo caso, nao diretamente - com 0 protestodas conSClen-
cias e de seus interesses ou com aquila que se expressa em manifesta~6es
como as de uma campanha eIeitoral? Se situarmos 0 inconsciente na ma-
neira de se orientar e de se organizar no munde - as cartografias que
o desejo vai tra,ando, diferentes micropolfticas, que correspondem a dife-
rentes modos de inser~ao social - desfaz-se 0 misterio: motivos de sobra
justificam tal protesto. Nao e nada diHcil identifid-los: todos vivemos,
quase que cotidianamente, em crise; crise da economia, especialmente a do
* Entrevista de Deleuze e Guattari a C. Backes-Clement em marw de 1972, pubJicada na revista L'Arc,
n. 49, e inclulda na colctanea Capilalismo e Esqui1;o!renia. Dossier Anti-£dipo. Assfrio &. Alvim,
Lisboa 1976, p. 148.
11
1
I:
desejo, crise dos modos que vamos encontrando para nos ajeitat na vida -
mal conseguimos articular um certo jeito e eIe ja caduca. Vivemos sempre
em defasagem em reIa~iio a atualidade de nossas experi~ndas. Somos futi-
mas dessa incessante desmontagem de territ6rios: treinamos, dia a dia,
nosso jogo de cintura para manter um minimo de equilibrio nisso tudo.
Ternos de set craques em materia de montagem de territorios) montagem,
se possfvel, tao veloz e eficiente quanta 0 ritmo com que 0 mercado
desfaz situa~Oes e faz outras. Enttetanto, niio pode ser qualquer a natu-
reza de tais territorios: vemo-nos solidtados 0 tempo todo e de tados
os lados a investir a poderosa fabrica de subjetividade serializada, pro-
dutora destes homens que somos, reduzidos a condi~iio de suporte de
valor - e isso ate (e sobretudo) quando ocupamos os lugares mais
prestigiados na hierarquia dos valores. Tudo leva a esse tipo de eco-
namia. Muitas vezes naD ha: Dutra salda. E que quando na desmontagem,
perplexos e desparametrados, nos fragilizamos, a tendenda e adotar po-
si~6es meramente defensivas. Por medo da marginaliza~iio na qual corremos
a risco de ser confinados _quando ousamos criar qualquer territ6rio singu~
lar, isto e, independente de serializa~oes subjetivas; por medo de essa mar-
ginaliza~iio chegar a comprometer ate a propria possibilidade de sobrevi-
venda (0 que e plenamente possivel), acabamos reivinclicando urn territ6rio
no edifido das identidades reconheddas. Tornamo-nos assim - muitas
vezes em dissonancia com nassa consciencia produtores de algumas
seqli~ndas da linha de montagem do desejo.
Mas tuda iSBa naD e assim tao simples: as inconscientes as vezes -
e cada vez mais - protestam. So que, a rigor, nao poderfamos chamar
issa de &quot;protesto&quot;. MeIhor·seria falar-mas em &quot;afirma~ao&quot; au em &quot;inven-
~ao&quot;: desinvestem-se as linhas de montagem, investem-se outras linhas; au
seja, inventam-se outros mundos. A raiz· desse sistema, que tern por base
a padroniza~iio do desejo, sofre um golpe a cada vez que isso acontece.
E quando isso acontece (algo assim estaria acontecendo naquele momento
no Brasil?) descobrimos em Guattari um &quot;aliado&quot;, e da mellior qualidade.
Nao como representante de uma escola em cujo seio podedamos nos reasse-
gurar, mas como trafi:ado de uma trajetoria de urn certo tipo, que mobiliza
intensidades de nossa propria trajetoria - desconheddas, talvez - e que
faz com que se fortale~a em nos a vontade de afirmar, na fala ou niio,
a singularidade de nossa experi~nda.
Foi pensando nisso que convidei Guattari para nos visitar. Organi-
ze! uma movimentada agenda de alividades em cinco estados. * Programei
uma serie de conferencias, debates, mesas-redondas, entrevistas, etc., que
seriam gravadas para trans£ormar~se, posteriormente, em livro. A