AUTOMUTILAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA - O acesso a tratamento médico como direito fundamental
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AUTOMUTILAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA - O acesso a tratamento médico como direito fundamental


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AUTOMUTILAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA: O ACESSO A TRATAMENTO 
MÉDICO COMO DIREITO FUNDAMENTAL 
 
 Priscilla Menezes da Silva
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Sumário: Resumo. Introdução. 1. Direito à saúde como direito fundamental e garantidor da dignidade da 
pessoa humana. 1.1 O que é saúde? 1.2 Mínimo existencial x reserva do possível: até que medida o 
Estado está obrigado a prover a saúde dos cidadãos? 2. Automutilação na adolescência: uma questão 
psicossocial. 2.1 Conceito, histórico e simbologia. 2.2 Diagnóstico da causa da automutilação: A 
medicina baseada em evidências. 2.3 Formas de manifestação e consequências da automutilação. 3. A 
tutela jurídica do adolescente. 3.1 Das Encíclicas Papais ao Estatuto da Criança e do Adolescente. 3.2 Da 
Dignidade do ser humano em qualquer idade ou condição. Conclusão. 
Resumo 
 O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a insuficiência de acesso a 
tratamento médico de adolescentes que sofrem com práticas de autolesão e o dever do 
Estado de investir em políticas públicas que garantam tal direito fundamental. 
Abstract 
 The purpose of this paper is to demonstrate the inefficiency of the access to 
teenagers\u2019 health treatment who suffer from cutting (self injury) and the duty of the 
State to promote public policies to ensure such human right. 
Palavras-chave: automutilação; tratamento médico; direito fundamental. 
Introdução 
 Nas palavras do ilustre professor José de Oliveira Ascensão, \u201cproclamar direitos 
sai de graça. Mas tem-se observado que a proclamação generalizada dos direitos do 
homem coincidiu no tempo com o processo do esvaziamento do seu conteúdo\u201d.2 
 
1
 Professora da Universidade Federal Fluminense / UFF. Mestranda em Direito pela UERJ. Advogada da 
Mútua dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro. 
2
 ASCENSÃO, José de Oliveira. Direito Civil. Teoria Geral. Introdução. As Pessoas. Os Bens. Volume I. 
2ª edição. Editora Coimbra. P. 76. 
 Ao analisar o ordenamento jurídico brasileiro, nota-se nítido processo de 
constitucionalização de todos os ramos. O homem passou a ser o epicentro do sistema 
normativo, sendo a prioridade do direito. 
 A Carta Magna de 1988 constitucionalizou diversos direitos, dentre eles a saúde 
como direito social, sendo dever do Estado promovê-la. Especificamente sobre o tema 
deste trabalho, na prática, verifica-se total falta de vontade política
3
 em desenvolver 
programas para atender a um público muito especial: os adolescentes. 
 Apesar da falta de estatísticas oficiais no Brasil, de acordo com relatos de 
profissionais de saúde, tem aumentado a quantidade de adolescentes que apresentam 
comportamento autodestrutivo (autolesão), sem que haja correspondente infraestrutura 
para atendê-los. 
 Tal agressão ao próprio corpo tem origens variadas como se verá ao longo do 
trabalho e demandam estudos descritivos de casos e terapias diversas, de acordo com 
cada paciente, o que exige infraestrutura principalmente de pessoal habilitado a tratar 
este público. 
 Sendo assim, o presente trabalho se propõe a analisar a verdadeira extensão do 
direito fundamental à saúde e sua efetivação no que se refere aos adolescentes. 
1. Direito à saúde como direito fundamental e garantidor da dignidade da pessoa 
humana 
1.1 O que é saúde? 
 Saúde é um estado de completo bem estar físico, mental e social e não apenas 
ausência de doenças.
4
 É no mínimo estranho que um bem tão importante como a saúde 
tenha pouco destaque quando o que mais se discute nos dias atuais é a dignidade da 
pessoa humana. 
 A vida digna necessariamente passa pela saúde do indivíduo (física e mental), 
pois é um dos indicadores de qualidade de vida. No direito à saúde inclui-se o acesso a 
 
3
 REALE, Miguel. A boa fé no Código Civil. Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais. RDB 
21/11. Jul-Set/2003. 
4
 Organização Mundial de Saúde. 
tratamento médico não somente curativo, como se propaga na maior parte dos 
discursos, mas também preventivo, de acordo com o estado atual da medicina. 
 A saúde está no rol dos direitos sociais da Constituição Brasileira
5
 e 
topograficamente está situado dentro dos direitos e garantias fundamentais
6
, aliás, como 
não poderia deixar de ser. Um indivíduo doente e sem acesso a tratamento médico de 
qualidade, por não ter saúde, não pode exercer seus demais direitos, tais como liberdade 
plena, trabalho e lazer. 
Sendo assim, ao longo deste trabalho se destacará que a saúde, para além da 
ausência de enfermidades, deve basear-se no bem estar geral do indivíduo em todas as 
suas acepções, principalmente no aspecto mental e emocional, que podem desencadear 
males físicos, conforme se verá adiante. 
 Em que pese a iniciativa privada poder atuar na área de saúde, é indubitável que 
a obrigação primária de promovê-la é do Estado, mas em que medida e quais custos? 
1.2 Mínimo existencial x reserva do possível: até que medida o Estado está 
obrigado a prover a saúde dos cidadãos? 
 A análise dos princípios do mínimo existencial e da reserva do possível é de 
inexorável importância para compreender a medida da prestação estatal, principalmente 
num momento em que vislumbramos a crescente judicialização da saúde. 
 A teoria do mínimo existencial está diretamente relacionada com a eficácia dos 
direitos fundamentais.
7
 Os direitos sociais (categoria na qual a saúde se insere) são 
direitos de segunda geração, surgem no pós guerra e, ao contrário dos direitos de 
primeira geração, que impõe um não fazer ao Estado (conduta negativa), passam a 
demandar prestações positivas. 
 
5
 Art. 6°, caput, CRFB. 
6
 Segundo José Afonso da Silva os direitos sociais tem natureza jurídica de direitos fundamentais. Vide 
em Comentário Contextual à Constituição, p. 184, Editora Malheiros, 5ª edição. 2008. 
7
 MARTINS, Flávia Bahia. Direito Constitucional, 2ª edição. Niterói, Rio de Janeiro. Impetus, 2011. P. 
203. 
 A partir do Estado do Bem-Estar Social (Welfare State)
8
, a igualdade que antes 
era meramente formal, passa a ser (ou dever-ser) também material, a fim viabilizar a 
igualdade entre pessoas desiguais. Segundo lição de José Afonso da Silva, 
(...) podemos dizer que os \u201cdireitos sociais\u201d, como dimensão dos direitos fundamentais 
do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, 
enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos 
mais fracos; direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais.
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 Os direitos sociais consagrados na Constituição são direitos subjetivos públicos, 
ou seja, tem o poder de obrigar o Estado a prestá-los, mas em que medida? Em tese, 
somente o núcleo essencial de cada direito encerraria tal obrigação, mas o princípio da 
dignidade da pessoa humana deve buscar a vida digna, plena, não a mera sobrevivência 
das pessoas. 
 Diante desta afirmação, se defende uma interpretação máxima de um conceito 
mínimo. Dito de outro modo. O mínimo existencial não deve ser um mínimo vital, 
aquela esmola dada para garantir a mera sobrevivência. O núcleo essencial dos direitos 
fundamentais deve ser interpretado de forma extensiva, a fim de garantir o cumprimento 
do preceito constitucional mais importante: a dignidade do homem, epicentro do 
ordenamento jurídico. 
 No caso do direito à saúde, não adianta construir hospitais e não haver material 
humano para desempenhar o serviço (médicos, enfermeiros, técnicos) equipamentos e 
condições dignas de trabalho e atendimento. 
 Mas se por um lado é dever do Estado promover a