Aula Nota 10 (Parte 1) - Doug Lemov
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Aula Nota 10 (Parte 1) - Doug Lemov


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João e repetiu:
"Quando pergunto qual é o sujeito, estou perguntando sobre quem ou sobre o
que a sentença fala. Qual é o sujeito?". Desta vez, João respondeu corretamente:
"Mãe". Corno em todas as outras sequências do tipo Sem escapatória, essa se-
quência começou com um aluno incapaz de responder e terminou com o mesmo
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aluno dando a resposta certa. A resposta do segundo aluno não substituiu a do
primeiro; deu apoio. E João se viu respondendo corretamente a uma pergunta
cuja resposta ele ignorava momentos antes. Ele experimentou o sucesso e pra-
ticou um dos processos fundamentais da aprendizagem: errar e depois acertar.
Mas vamos agora pensar no que você faria se as coisas não fossem tão bem. E
se o João ainda não conseguisse responder? Pior: e se ele desse de ombros e murmu-
rasse "sei lá", com uma certa arrogância? Se o João não respondesse, Darryl pode-
ria insistir, perguntando para outro aluno: "Bom, nesse caso, isso quer dizer que o
sujeito é o quê?". Se o outro aluno responder "o sujeito é mãe", aí o Darryl pode
voltar ao aluno inicial e perguntar: "Bom, João, agora você me diz: qual é o sujeito
da sentença?". Como ele só tem de repetir a resposta, é praticamente impossível que
João tente escapar de novo e, assim, mantenha a ilusão de que ele não consegue res-
ponder. A probabilidade de que ele responda é muito alta, a não ser que tenha uma
atitude refratária (veja o quadro abaixo). Se ele não responder, significa que está de-
safiando o professor e, portanto, você deve reagir, estabelecendo uma consequência
e dando uma explicação: "João, você não precisa saber a resposta certa na minha
aula. Mas eu espero que você tente. Vamos conversar no intervalo".
O comportamento dos alunos pode ser oportunista e refratário, do tipo
"não sou obrigado, então vou fazer do meu jeito mesmo". Um número
muito menor de alunos vai persistir nesse comportamento quando você
tiver sido claro sobre o que espera deles. Cada vez menos alunos insistirão
nesse comportamento inadequado, na medida em que você persistir. Vamos
discutir isso melhor em O que fazer.
Antes de voltar ao João, uma firme repetição de Sem escapatória pode ser ainda
mais eficiente: "Diga a ele novamente, Davi. Qual é o sujeito?". Ou você mesmo
pode repetir a resposta: "João, o sujeito da sentença é mãe. Agora você me diz.
Qual é o sujeito?". Independentemente da abordagem que você adotar, a sequência
sempre termina com o primeiro aluno repetindo a resposta certa: "O sujeito é mãe".
No caso de Marcos, se o Douglas não responder e tentar imitar a apatia
do Marcos, você mesmo pode dar a resposta: "Classe, 3 vezes 8 é 24. Douglas,
qual é a resposta? Muito bem. Agora você, Marcos". Logo vamos ver algumas
das variações mais difíceis de Sem escapatória. Mas, antes, quero sublinhar
como essa técnica lhe permite garantir que todos os seus alunos se sintam res-
ponsáveis pelo aprendizado. Ela estabelece um tom de responsabilidade estu-
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dantil, honrando e validando os alunos que sabem a resposta, ao permitir que
eles ajudem seus colegas de maneira pública e positiva.
Também quero sublinhar que os exemplos que dei acima, e que são os pio-
res casos, são bastante raros. O tom de Sem escapatória na maioria das classes
é surpreendentemente positivo e académico. Usá-lo dá poder a você para levar
todos os alunos a dar o primeiro passo, não importa quão pequeno seja. Esta
técnica lembra os alunos de que você acredita na capacidade deles de aprender.
E o resultado é que os alunos ouvem a si mesmos dando a resposta certa. Com
isso, eles se tornam cada vez mais familiarizados com o sucesso escolar. Sem es-
capatória torna esse processo normal para os estudantes que mais precisam dele.
SEM ESCAPATÓRIA
Darryl Williams, da escola charter Brighter Choice para meninos, em Albany,
no estado de Nova York, demonstra Sem Escapatório duas vezes. Na primeira
vez, ele pede a um aluno para ler a palavra analisar\u2122. Quando o aluno não
consegue, Darryl insiste, dando uma pista até o aluno pronunciar o V
com som de "z". Como o próprio Darryl observa, parte do objetivo do dia é
entender algumas regularidades ortográficas como o uso do"s"e"ss". Portanto
é importante parar para ajudar o aluno na leitura, como ele faz.
Na segunda vez, quando o aluno enrosca na palavra perfeito, Darryl
pede a outro aluno que leia e depois volta ao primeiro:"Agora leia, Jair".
Nesse caso, não valia a pena parar a aula para discutir o erro, já que a
dificuldade do aluno tinha menos relação com o objetivo da lição do dia.
De qualquer forma, Darryl conseguiu estabelecer claramente o senso de
responsabilidade em sua sala de aula.
Há quatro formatos básicos para Sem Escapatória. Em seguida, apresento
exemplos; cada um deles mostra uma variação da sequência de João na classe do
10 O exemplo foi adaptado para uma regularidade ortográfica brasileira: o uso do "s" e "ss". Na
edição original deste livro, Darryl Williams usa, naturalmente, exemplos em inglês: a leitura de sufixos
quando os verbos são conjugados no passado ("acied").
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Darryl. Os quatro casos têm uma coisa em comum: a sequência começa com o
aluno incapaz de responder e termina com o mesmo aluno dando a resposta certa.
Isso garante que todo mundo caminhe junto em direção à aprendizagem efetiva.
l Formato 1: Você dá a resposta, o aluno repete a resposta.
Professor: João, qual é o sujeito?
*
João: Feliz.
Professor: João, o sujeito é mãe. Agora você me diz. Qual é o sujeito?
João: O sujeito é mãe.
Professor: Muito bem. O sujeito é mãe.
l Formato 2: Outro aluno dá a resposta; o primeiro aluno repete a resposta.
Professor: João, qual é o sujeito?
João: Feliz.
Professor: Quem pode dizer ao João qual é o sujeito da sentença?
Aluno 2: Mãe.
Professor: Muito bem. Agora você, João. Qual é o sujeito?
João: O sujeito é mãe.
Professor: Isso mesmo, o sujeito é mãe.
Uma variação deste método é pedir à classe toda, em vez de a um único aluno,
para dar a resposta certa (usando a Técnica 23, Em coro] e depois pedir ao primeiro
aluno que repita.
Professor: João, qual é o sujeito?
João: Feliz.
Professor: Vou contar até dois e todo mundo me diz qual é o sujeito da sentença.
Um, dois...
Classe: Mãe!
Professor: O quê?
Classe: Mãe!
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Professor: João. Qual é o sujeito?
João: Mãe.
Professor: Boa, João.
l Formato 3: Você dá uma pista; seu aluno usa-a para descobrir a resposta.
Professor: João, qual é o sujeito?
João: Feliz.
Professor: João, quando eu pergunto qual é o sujeito, estou perguntando de
quê ou de quem a sentença está falando. Agora, João, veja se isso
lhe ajuda a encontrar o sujeito.
João: Mãe.
Professor: Boa, João. O sujeito é mãe.
l Formato 4: Outro aluno dá a pista; o primeiro aluno usa-a para descobrir a
resposta.
Professor: João, qual é o sujeito?
João: Feliz.
Professor: Quem pode dizer ao João o que quero saber quando pergunto qual é o
sujeito?
Aluno 2: Você quer saber do que ou de quem a sentença está falando.
Professor: Sim, estou perguntando do que ou de quem a sentença está falando.
João, qual é o sujeito?
*
João: Mãe.
Professor: Muito bem, João. O sujeito é mãe.
Uso a palavra pista para indicar uma dica que oferece mais informação
útil ao aluno, de um jeito que o induz a seguir o processo correio de raciocínio.
Uma simples dica, em comparação, poderia oferecer qualquer informação.
Se eu pergunto "Alguém pode dar uma dica ao João para ajudá-lo a desco-
brir o sujeito?", um aluno pode dizer "Começa com a letra m". Esta dica
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com certeza ajudaria o João a adivinhar a resposta correta, mas ele não
aprenderia nada que o ajudasse a resolver a questão da próxima vez.
Quando você pede aos alunos para darem uma pista, trate de deixar claro
que tipo de pista seria útii.Três pistas são particularmente