Aula Nota 10 (Parte 1) - Doug Lemov
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Aula Nota 10 (Parte 1) - Doug Lemov


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que os meus.
Sejamos claros: a Sultana é tão firme quanto qualquer outro professor. Mas
ela é a mestra do engajamento, do sorriso como melhor ferramenta de ensino,
da alegria, porque ela simplesmente não consegue imaginar outro jeito de ser.
Talvez nenhuma outra aula tenha provocado tanta autocrítica (correta) em
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mim. E aqui está a melhor parte: alguns anos depois, Sultana foi promovida
a orientadora educacional na Leadership Prep fé está pensando em abrir sua
própria escola), o que de novo sublinha a conexão entre alegria e estrutura.
Jaimie Bríllante
Ela não é apenas a melhor planejadora de aulas que já conheci. Como Ju-
lie Jackson, ela planeja suas perguntas com exatidão: quais alunos ela vai
abordar e o que fará se eles responderem certo ou errado. Jaimie ensina a
escrever e gasta muito tempo em gramática. Sua apresentação engenhosa -
como tudo funciona, como as ideias se relacionam entre si, de que maneiras
o conhecimento pode ser sistematizado - resulta não apenas em excelente
desempenho dos alunos, mas quase todo visitante em sua classe nota que aca-
bou de aprender alguma regra gramatical graças à explicação de um aluno.
Uma das mensagens subliminares deste livro é o poder do planejamento. Se
algum professor, mais que qualquer outro, me "ajudou a ver como o nível de
planejamento pode dar resultados muito melhores do que antes imaginava,
essa professora é a Jaimie.
Roberto de Leon
Conversei com Roberto de Leon (Rob) pela primeira vez quando vi uma cami-
seta do time de beisebol Orioles, da cidade de Baltimore, pendurada no encos-
to de sua cadeira, na classe de 3° ano da escola charter Excellence, em Bedford-
-Stuyvesant. Embora compartilhemos uma lealdade aos Orioles e a Baltimore,
eu deveria ter percebido que a camiseta significava algo maior sobre o jeito do
Rob lecionar. Entre na classe dele em qualquer dia e você deverá ver os alunos
fantasiados com máscaras ou simplesmente mergulhados na interpretação de
um personagem, com a imaginação incendiada. Depois percebi que o uniforme
era apenas um dos muitos truques e fantasias que o Rob usa para dar vida à
leitura. E a leitura adquire vida mesmo, ritmada pelos resultados extraordiná-
rios do Rob (mais de 90 alunos seus foram considerados proficientes em leitura
na avaliação do estado de Nova York em 2008). A escola Excellence tirou o
primeiro lugar na cidade de Nova York em 2008.
DEFINIR O QUE FUNCIONA
Como escolhi os professores que estudei e as escolas que visitei? E o que signifi-
ca dizer que eles conseguiram fazer com que todos os seus alunos aprendessem,
independentemente de sua origem social? Como a minha medida principal eram
os resultados dos testes padronizados dos estados, vale a pena abordar alguns
Prefácio/ Introdução 35
equívocos no uso dessa medida, nem que seja só para sublinhar como é exemplar
o trabalho dos professores que inspiram este livro. (Em alguns casos, tam-
bém usei outros instrumentos de avaliação, como as avaliações normatiza-
das nacionalmente, a avaliação de letramento como o DIBELS5 e avaliações
diagnosticas internas usadas na Uncommon Schools para complementar as
avaliações estaduais).
Os resultados dos testes padronizados são necessários, mas não suficientes.
Sem dúvida, há uma miríade de habilidades e uma base ampla de conhecimento
que os alunos da educação básica precisam dominar, e muitas dessas coisas não
são medidas nos testes padronizados. Mas há também um conjunto de habili-
dades fundamentais medidas pelos testes, que são necessárias e que muitos dos
alunos carentes não dominam.
Um aluno meu, brilhante e apaixonante filho de uma mãe solteira que
mal falava inglês, conseguiu chegar ao Williams College6. Foi um triunfo para
ele e sua dedicada mãe, que contava histórias sobre emprestar livros de um
colega de classe em seu Haiti nativo, de forma que ela pudesse fazer a lição
de casa do lado de fora de uma loja que deixava a luz acesa à noite. Ele foi o
primeiro membro de sua família a chegar à faculdade e, no seu caso, à melhor
faculdade do país na área de humanidades. Durante uma visita no começo de
seus estudos-no Williams, ele me mostrou um ensaio que escrevera sobre Zora
Neale Hurston.7 Ele tinha abordado o assunto apaixonadamente com ideias
fortes, baseado em uma prosa que, às vezes, ocultava o significado ou caía em
um emaranhado sintático. A concordância entre verbo e sujeito era imperfeita.
Os comentários da professora foram direto ao ponto: era difícil acompanhar a
ideia. E sugeriu que meu aluno, M., levasse seu ensaio ao laboratório de reda-
ção para resolver esses problemas. Os comentários nem trataram das ideias de
M. sobre Hurston. Ele tinha feito grandes esforços sociais, monetários e emo-
cionais para chegar ao Williams. Embora sua análise de Hurston fosse boa, ele
às vezes não dominava o tipo de habilidades medidas em testes padronizados
(por exemplo, concordância entre verbo e sujeito), e isso o impedia de produzir
5 Do inglês Dynamic Indicator of Basic Early Literacy Skills (indicador dinâmico de habilidades
básicas de leitura na escolaridade inicial), DIBELS é uma prova que avalia a aquisição de habilidades
de leitura da pré-escola ao 6° ano.
6 Faculdade privada na área de Humanas, na cidade de Williams to wn, estado de Massachusetts,
nos Estados Unidos. Williams College é considerada a melhor faculdade nesta área nos Estados Uni-
dos pelos rankings elaborados pelas revistas US News, World Report e Forbes.
7 Zora Neale Hurston (1891-1960) foi uma folclorísta, antropóloga e escritora negra estadunidense.
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o tipo de trabalho que ele certamente podia produzir. Infelizmente, essa falha
também permitia que a professora evitasse discutir o conteúdo do ensaio, como
ela certamente fazia com estudantes que dominavam essa habilidade.
Então vamos partir do princípio de que os alunos precisam ter os dois ti-
pos de habilidade. Eles devem poder ler e discutir Shakespeare, mas também
devem poder ler um trecho que nunca viram antes e compreender o significado,
a estrutura e a técnica. Eles devem ser capazes de escrever um parágrafo curto
com argumentos que suportem a conclusão. Eles precisam saber resolver a equa-
ção e encontrar o x. A maioria das provas padronizadas estaduais faz um bom
trabalho em termos de medir essas habilidades e, embora alguns alunos ainda
despreparados para a universidade possam demonstrá-las, não existem alunos
preparados para a universidade que não possam demonstrar essas habilidades.
Também vale a pena notar que os professores que são bons em matéria de en-
sinar o que é requerido nos testes padronizados são os mesmos que são capazes de
ensinar habilidades de nível muito mais complexo. Eu sei disso porque, nas Uncom-
mon Schools, quando analisamos os resultados dos alunos em avaliações internas
muito mais difíceis do que os testes padronizados estaduais (por exemplo, avaliações
de redação), há uma forte correlação tanto nos professores como nos alunos cujos
resultados mostram o maior crescimento e o melhor desempenho nos dois tipos de
prova. Além disso, os professores da Uncommon Schools que obtêm os melhores
resultados nas avaliações estaduais são os mesmos cujos alunos obtêm os melhores
resultados no vestibular e se dão bem na universidade. Em suma, o sucesso do aluno
medido nos testes padronizados é uma previsão do sucesso deles não apenas na hora
de entrar na universidade, mas também na vida académica futura.
Finalmente, a correlação existente entre sucesso nas avaliações padroniza-
das e sucesso académico de longo prazo deveria ser instrutiva para nós. Com
frequência, encontro educadores que acreditam piamente que há um conflito
entre as habilidades básicas e o raciocínio de mais alto nível. Ou seja, eles acre-
ditam que quando você obriga os alunos a decorar a tabuada, por exemplo, você
está não apenas deixando de estimular conhecimento mais abstrato e profundo,
mas também está