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Sabrina 457- O caçador de Sonhos – Emily Ruth Edwards O CAÇADOR DE SONHOS Hunter's Snare Emily Ruth Edwards (Sabrina 457) Copyright: Emily Ruth Edwards Título original: Hunter's Snare Publicado originalmente em 1986 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra Tradução: Luís Carlos Borges Copyright para a língua portuguesa: 1987 Editora' Nova Cultural Ltda. Av. Brigadeiro Faria Lima, n.° 2.000 - 3.° andar CEP 01452 - São Paulo - SP - Brasil Esta obra foi composta na Artesílo Compositora Gráfica Ltd e impressa na Divisão Gráfica da Editora Abril S.A. Foto da capa: Keystone Disponibilização: Ana Ribeiro Digitalização: Ana Cris Revisão: Ana Ribeiro � CAPÍTULO I A brisa do estreito de Long Island sacudia os ramos das árvores que se debruçavam sobre a estrada tortuosa e tingia de sombra e luz as capotas dos automóveis que por ali transitavam. Nos espaços entre as copas das árvores, o céu exibia um azul brilhante, marcado apenas por algumas grossas nuvens que se moviam preguiçosamente. Uma tarde de verão em Connecticut deveria provocar sorrisos alegres e boa disposição nas pessoas, porém isso não acontecia com a motorista ao lado do automóvel vermelho estacionado no acostamento, que olhava à sua volta com o cenho franzido, deixando transparecer sua preocupação por ter furado o pneu traseiro. Samantha Abbott concentrava a atenção sobre a causa de seu descontentamento. Não havia ninguém por perto; por isso, a menos que passasse algum outro carro, ela teria que trocar o pneu sozinha, o que lhe seria altamente desastroso face à sua constituição extremamente feminina. — Depois de todo o cuidado que lhe dediquei, como você faz uma coisa dessas comigo? Como se em resposta, o pneu sibilou, murchando ainda mais. Sem graça, Samy sorriu. — Muito bem, muito bem. Acho que posso perdoá-lo. Apesar de tudo, ela se sentia bem-humorada. Estacionara o veículo próximo à curva daquela estrada estreita e, por isso, puxou o assento do motorista para a frente, colocando na parte de trás a sinalização de emergência. Abriu o porta-malas e, quando desatarraxava o estepe, ouviu o ruído do motor de um carro que se aproximava. "Ajuda a caminho!", pensou. Entusiasmada, ergueu-se rapidamente, batendo a cabeça na tampa do porta-malas. Praguejando, com a cabeça dolorida, afastou-se do veículo. Logo, porém, saltou de volta, pois o outro carro passou sem diminuir a velocidade a centímetros de seu corpo, causando-lhe um enorme susto. Indignada, Samy observou o Porsche prateado estacionar alguns metros à frente. Ao reconhecer o dono, sua irritação cresceu ainda mais. Por acaso aquele homem antipático não vira a sinalização de emergência? Só porque dirigia um luxuoso carro esporte pensava que era o dono da estrada? E por que, entre tantas pessoas no mundo, justamente Simon Radnor tinha de aparecer naquele momento? O semblante fechado, os braços cruzados, ela observou-o descer do Porsche. Com mais de um metro e oitenta, Simon tinha uma compleição robusta, que transmitia a impressão de muita força. Usava um terno finíssimo e tinha cabelos loiros e encaracolados emoldurando um rosto bronzeado, de traços duros, queixo quadrado, boca firme e um arrogante nariz romano. Seus traços eram marcantes e viris, bem nos padrões convencionais de beleza, o que entretanto não a fazia suspirar agora que estava em apuros. A verdade é que Samy antipatizara com Simon meses atrás, desde a primeira vez em que o vira. Não gostava de seu ar zombeteiro, do cinismo refletido em seus olhos, dos modos agressivos, que faziam com que seus pedidos soassem como ordens. E, acima de tudo, ela detestava a sensação de incerteza que tinha na presença dele. Enquanto Simon caminhava em direção a ela, Samy percebeu que ele olhava não para o seu rosto, como era de se esperar, mas sim para o colo, alguns centímetros abaixo. Só então percebeu que, ao cruzar os braços, seu decote, já bastante generoso, expusera uma porção alarmante de seus seios. Esquecendo completamente os desaforos que tinha na ponta da língua, ela descruzou os braços e lutou contra o rubor da face, sem muito sucesso. Enquanto isso, Simon percorreu com o olhar as longas e bronzeadas pernas descobertas pelo short. — Aqueles modelos recatados que você usa para trabalhar não lhe fazem justiça — ele comentou com admiração. — Eles não são recatados. São práticos! — disse Samy, referindo-se às discretas roupas que usava como recepcionista do consultório do Dr. Bohlen, conhecido médico da região. Simon deu de ombros e tirou o paletó. — Vou trocar o pneu para você — disse, no tom autoritário que tanto a irritava. Samy teve ímpetos de recusar a ajuda e ainda dizer-lhe poucas e boas. Mas, se ele agia desinteressadamente, não havia motivos para impedi-lo. A custo, reprimiu um sorriso. Simon parecia capaz de ler-lhe os pensamentos. — Vamos, beleza. Deixe de bancar a ofendida, segure meu paletó e vá para a sombra, enquanto eu troco o pneu. Sem uma palavra, Samy pegou o paletó, caminhou para a mureta que bordejava a estrada e sentou-se. Afinal, quem era ele para dar-lhe ordens como se ela fosse uma criança? Estivera prestes a ajudá-lo, porém, no momento, ficaria mais contente se ele derretesse ao sol. Samy dobrou cuidadosamente o paletó e colocou-o sobre o colo. Enquanto Simon trocava o pneu furado, ficou imaginando se ele não teria ascendência normanda. Porque, embora "Radnor" fosse um nome inglês, Samy sabia que os normandos haviam tido descendentes no País de Gales. Recentemente ela lera um livro sobre a Inglaterra medieval com um capítulo inteiro dedicado às lutas entre os barões normandos e as tribos galesas. Esses normandos eram cruéis, brutais e ambiciosos; faziam suas próprias leis e violentavam as mulheres de seus inimigos. Por isso, muitos galeses tinham sangue normando. Perdida em devaneios, Samy olhava fascinada para Simon Radnor. De repente, um arrepio percorreu-lhe o corpo, e ela, desviou o olhar. "Apesar dos tempos serem outros, ele poderia muito bem passar por um rude senhor normando!", ponderou. — Srta. Abbott! Samy ergueu o olhar, sobressaltada, com a impressão de que Simon Radnor chamara-a anteriormente. — Sinto muito perturbar seus sonhos. Troquei o pneu e gostaria de limpar as mãos. — Há uma toalha no carro, vou buscá-la — respondeu friamente. Ergueu-se, foi até o carro e tirou uma toalha do porta-luvas, estendendo-a para Simon. Ele limpou as mãos sem tirar os olhos dela. A seguir pediu o paletó. Desconcertada ante o olhar malicioso que ele lhe lançou, Samy ia agradecer, quando, para seu espanto, Simon atirou o paletó sobre a capota do carro e a tomou nos braços, silenciando qualquer protesto de sua parte com Um beijo que quase lhe tirou o fôlego. Ela tentou resistir, mas foi incapaz. Momentos depois, ele a libertou. Sem saber o que dizer, Samy recuou, com os olhos arregalados. — Para que não exista nenhuma dúvida, saiba que o beijo não foi nenhum pagamento pela troca do pneu. Apenas serviu para mostrar-lhe que aceito o desafio que você lançou desde a primeira vez em que nos vimos. — Você está louco! Não lancei nenhum desafio... Nunca mais faça isso! — Você parece uma gata selvagem: sempre me desafia quando passa por mim com seus olhos verdes e o nariz arrebitado. — Seu, seu... Não encontrando palavras suficientemente fortes para expressar sua fúria, Samy entrou no carro, batendo a porta com violência. Sua vontade era de arrancar o sorriso malicioso do rosto de Simon com um tapa, mas ele não receberia o castigo sem revidar. Em vez de seguir seus impulsos, deu a partida e saiu cantando os pneus em meio a uma nuvem de poeira. Olhou pelo retrovisor e, para sua satisfação, viu Simon Radnor sacudir a mão na frente do rosto, tossindo bastante. Minutos depois Samy chegou à sua casa, no povoado de Westfield. Enquanto caminhava até a porta de trás, olhou com orgulho o sobrado que por vinte e quatro anos fora seu lar. Sua vida mudararadicalmente há seis anos, quando perdera os pais num acidente automobilístico. Na época o advogado sugeriu a venda da casa para que ela dispusesse de dinheiro para financiar os estudos. Filha única, superprotegida e sempre cercada de atenções, ela fora incrivelmente afeiçoada aos pais. Com a morte deles e a inexistência de parentes próximos, seu lar transmitia-lhe a segurança que não encontrava num mundo que lhe parecia subitamente ameaçador. Por isso Samy resistiu à idéia da venda com firmeza, concordando apenas em transformar o primeiro andar num apartamento que lhe propiciaria uma fonte de renda. Apesar de a dor ter diminuído e a vida aparentemente voltar ao normal, Samy adquirira uma profunda necessidade de manter tudo numa rigorosa rotina, a fim de não correr riscos desnecessários com o que quer que fosse. De outro lado, não sentia a menor curiosidade em relação ao mundo, e se satisfazia em morar em Westfield, onde a vida era sempre igual. Samy abriu a porta e foi até a antiga sala de jantar da família, agora convertida em dormitório. Minutos depois, debaixo do chuveiro, recordou o beijo que Simon Radnor lhe dera. Imaginou que ele lhe implorava o perdão em virtude de seu deplorável comportamento. A idéia lhe pareceu atraente, mas não sabia como conseguir que ele fizesse isso. — Barão Radnor — pronunciou ela, concluindo que o título servia muito bem a Simon. A julgar pelo que ocorrera naquela tarde, sua atitude com mulheres era mais do que apropriada a seu caráter tirânico. Barão Radnor! Boa parte de Westfield, incluindo um número razoável de moças ingênuas, podia simpatizar com Simon Radnor. Entretanto, ele jamais conquistaria Samantha Abbott! Samy ainda guardava nítida na memória a lembrança do primeiro encontro dos dois. Simon levara a avó ao consultório onde ela trabalhava. Ela já ouvira falar dele, pois Simon fora o assunto principal das conversas do povoado desde que resolvera mudar a sede de sua empresa, a Radnor Computer Technologies, de Nova York para Westfield. As fofoqueiras do lugar tiveram trabalho extra, especialmente depois de descobrirem que ele tinha trinta e cinco anos de idade e era solteiro. Além disso, não se sabia da existência de parentes próximos dele, a não ser a avó. Simon erguera sua empresa praticamente do nada, transformando-a numa das líderes do ramo, e, além do mais, era um inveterado conquistador, sem nenhuma inclinação para compromissos. O fato de uma grande empresa se estabelecer no povoado desde o começo não agradou a Samy porque, quando uma companhia chegava, geralmente outras vinham atrás. E então o que aconteceria à sua amada Westfield? Parques industriais, shopping-centers, conjuntos habitacionais, mudanças de todos os tipos. Infelizmente, a maioria dos habitantes interessava-se mais nos impostos que a Radcom pagaria ao município do que nos males que traria consigo. Não seria exagero dizer que Sam decidira não gostar do homem responsável pela instalação da empresa antes mesmo de conhecê-lo. O sentimento fora reforçado no consultório, quando ele chegara para a consulta. Simon lhe lançara um olhar arrogante, indicando que dava mais valor à mobília do local que à sua pessoa. Mesmo assim, Samy forçou um sorriso para atendê-lo. — Posso ajudá-lo... Senhor? — Minha avó, Helen Radnor, marcou uma consulta com o Dr. Bohlen às duas horas. Teremos de esperar muito, senhorita... ? Antes que respondesse, Anne Jenkins, a enfermeira, abriu a porta e se dirigiu a ela: — Samy, o doutor pediu a entrada do Sr. Janowski. Samy assentiu e virou-se novamente para Simon Radnor, que a encarava com um olhar ousado. — Samy? — perguntou ele, as sobrancelhas erguidas. — Srta. Abbott — ela corrigiu, sem se desfazer do sorriso forçado. Normalmente não se importava em esclarecer que Samy era a forma reduzida de Samantha, um nome que achava pomposo. De qualquer forma, Simon Radnor não obteria dela nada além daquilo que exigia seu trabalho como recepcionista. — O dr. Bohlen atenderá só mais um paciente antes da sra. Radnor. Enquanto isso, será necessário preencher as fichas — disse ela, mal-humorada. Simon pegou as fichas que ela lhe estendia. — Diga ao dr. Bohlen que quero falar com ele após a consulta de minha avó... Ah, sim. Só por curiosidade... Srta. Abbott, é de mim que não gosta, ou do fato de minha empresa ter se instalado em sua pacífica cidadezinha? Várias vezes a impulsividade de Samy fora um pesadelo para seus pais. Após o acidente deles, esse traço de seu caráter desaparecera, porém naquele instante reapareceu espontaneamente. Ela arregalou os olhos e, com um ar extremamente cínico, perguntou: — Do que está falando, sr. Radnor? — Muito bem, Olhos Verdes — disse ele após um instante de silêncio. — Por enquanto vamos deixar isso de lado. "Este foi exatamente o meu erro", pensou Samy, saindo do chuveiro. "Se eu admitisse logo que detestava a idéia de a Radcom se mudar para Westfield, talvez ele me deixasse em paz", concluiu. Entretanto, apenas despertara a curiosidade dele, criando situações constran-gedoras durante freqüentes visitas ao consultório, ocasiões em que ela se sentia um estranho espécime sob um microscópio. Samy foi até a cozinha, serviu-se de um pouco de chá gelado e sentou-se à mesa, ainda refletindo. Talvez o beijo e a ameaça daquela tarde fossem apenas uma vingança por sua indiferença. Afora isso, dificilmente ele teria quaisquer outras intenções de conquistá-la. Enquanto pensava na audácia de Simon, Samy negligenciava outras possibilidades e, nem por um momento, levou em consideração a hipótese de que a perturbação que sentia com a presença dele se devesse a outra causa que não fosse a raiva. Além disso, por princípio, romances temporários não estavam em seus planos. Algum dia ela se casaria com um homem gentil, atencioso e confiável. Enquanto isso, apenas saía com um ou outro rapaz, sem se importar absolutamente com o fato de que nenhum deles se assemelhasse com aquele que sonhara como seu futuro marido. De qualquer modo, era inútil pensar no odioso Simon Radnor, pois ele jamais faria parte de sua vida. Quando estava prestes a se servir de mais chá, Samy escutou batidas na porta da frente. Ao abri-la, deparou com Kate, uma garota loira e sorridente, de trancas. Ela vestia um cafetã vistoso e trazia uma cesta de pão no braço. — Olá, Kate — cumprimentou alegremente. Kate Townsend, além de sua melhor amiga, era sua primeira e única inquilina. Professora de arte do segundo grau, a moça, apesar dos seus vinte e oito anos, ainda não se casara. — Estou aqui para dividir algumas calorias com você — anunciou a recém-chegada. — Nesta humilde cesta estão os especiais bolinhos de maçã e canela de Kate Townsend. — Você e os bolinhos são bem-vindos. Vamos para a cozinha. Tenho chá gelado prontinho. Às visitas de Kate sempre a alegravam muito. Aliás, ela contagiava com sua energia e entusiasmo, deixando todos ao seu redor descontraídos. Enquanto Samy providenciava o chá, Kate esticou-se numa cadeira, estendendo as pernas sobre outra. — Sua cozinha é um modelo — disse ela com um ar de aprovação, olhando para o papel de parede, os armários de madeira e o chão de tijolos aparentes. — Sem acúmulo de móveis, alegre e acolhedora. Na verdade, você fez um trabalho excelente em toda a casa. A sala de estar tem um toque de elegância, isso -para não falar nas maravilhosas antigüidades de família e no dormitório, que tem um toque de luxo decadente, O que mais se poderia desejar? Você deveria sair de seu emprego para se dedicar à decoração de interiores. No seu tempo livre você poderia decorar o meu. Samy, que ria da afetada descrição que Kate fazia do local, fez uma careta. — Que tempo livre? Hoje é meu primeiro dia de folga depois de dez dias. — Estranho... Aconteceu alguma coisa? Houve alguma epidemia em Westfield? — Não. É que Anne, a enfermeira, conseguiu uma colocação melhor e saiu. Temos andado como loucos para dar conta do serviço extra. — Não podemcontratar uma enfermeira temporária até encontrarem uma permanente? — Tentamos, mas sem sorte. Hoje Richard está em Nova York fazendo entrevistas. Talvez em breve consigamos uma outra. — A propósito, como vai o Adônis do mundo médico? — perguntou Kate, brincando com as trancas. — Com excesso de trabalho. Eu sempre tenho a impressão de que você não aprecia as qualidades mais refinadas de Richard. — Eu gosto dele. Qualquer mulher apreciaria mais de um metro e oitenta de beleza masculina absolutamente perfeita. — Kate, você é demais! Ele é um ótimo médico, um empregador consciencioso, além de um ótimo amigo. Na verdade, Richard Bohlen tinha todas as qualidades que uma mulher sensata desejaria num marido. Recentemente, Samy começara a considerar tal possibilidade com mais atenção. Afinal, eram bons amigos e trabalhavam em harmonia há dois anos. Talvez um relacionamento mais íntimo também desse certo. — Você zomba de Richard porque ele foi inocente demais para se enganar com Amanda Marlowe. Kate sacudiu a cabeça. — Apenas acho que ele poderia fazer algo além de andar por aí com aquela cara triste depois que Amanda o desiludiu, trocando-o por um velho rico. — Richard sofreu muito — defendeu Samy. — Além do mais, o que você esperava que ele fizesse? Desafiasse, o velho para um duelo? Kate riu e depois deu de ombros. — Acho que não. Na verdade, gosto muito de Richard, mas prefiro homens com um pouco da arrogância de um John Wayne. — Até mesmo John Wayne precisaria de toda sua arrogância para se dar bem com você. — Tem razão. — Kate assumiu um ar modesto e concluiu. — Gosto de homens fortes. Algum dia você admitirá que são mais confiáveis do que os garotinhos bonzinhos e sem paixão que estão por aí. — O que você está falando? Deus me livre! Ê uma pena que não pudéssemos trocar de lugar há uma hora atrás. Passei por uma situação que certamente você apreciaria muito mais do que eu. — O que aconteceu? —- perguntou Kate, entusiasmada. Samy relatou em detalhes o incidente, sem esquecer de contar à amiga a afinidade espiritual que descobrira entre Simon Radnor e os nobres normandos. — É justamente do que você precisa! — disse Kate. — Algo de excitante para animá-la. — Muito obrigada pela aprovação. Só que de coisas excitantes quem gosta é você, não eu. Por que você não faz uma investida? Já posso ver as manchetes: "Rico empresário assediado por bela mulher nas ruas de Westfield". — Seria adorável! Preciso convencer John a me apresentar a esse Simon Radnor. John Wolinski era o companheiro de Kate, Era um homem forte, com quase dois metros de altura, cabelos castanho-claros caídos sobre a testa. Tinha vinte e oito anos como Kate e se destacava ao lado dela, que também era bastante alta. John diplomara-se em engenharia e era doutor em computação. — Ê mesmo! — disse Samy. — Agora me lembro. Atualmente John trabalha para a Radcom. O que ele acha de Radnor? — Acha-o ótimo, o que não quer dizer nada. John elogiaria até Vlad, o Empalador, se ele fosse um especialista em circuitos integrados. — É disso que gosto nos homens; eles não se importam com detalhes que não sejam essenciais. Naquele instante o telefone tocou. Kate, que se encontrava mais próxima do aparelho, estendeu-o para Samy. — Alô? Oh, olá, Richard. Teve sorte? Certo, estou livre à noite, sim. Muito bem, vejo-o às oito. Até logo. Samy devolveu o telefone a Kate, que olhou-a com reprovação. — Não me diga que você está namorando Richard... — A mulher que se casar com Richard terá um bocado de sorte — disse Samy, ruborizando levemente. — Estranho... Ele precisa conversar comigo sobre algo importante. — Hummm... Hoje cedo eu ouvi dizer que Amanda Marlowe se divorciou e voltou para a casa dos pais. Resta saber apenas se ela voltou de mãos vazias ou com um bom dinheiro. — Oh, não! Você não considera Richard grande coisa, mas ele ficou muito ferido com o comportamento de Amanda. Ele realmente gostava muito dela e só agora superava o acontecido, Será que já soube disso? Por que quer falar comigo? — Talvez queira que você segure a mão dele. — Kate, não brinque com coisa séria e coma! Entretanto, Kate não estava longe da verdade. — Você pretende simular um noivado entre nós? — repetiu Samy, atônita, reparando no semblante preocupado de Richard. — Fale baixo! — preveniu ele, correndo os olhos pelas dependências suavemente iluminadas do Westfield Pub. — Deixe-me explicar, Samy. Eu me envolvi numa encrenca e, se você não me ajudar, farei papel de tolo. — Muito bem. Explique-se. Samy permaneceu em silêncio, enquanto Richard contou-lhe que havia encontrado Amanda Marlowe quando voltava de Nova York. — Ela se divorciou, Samy, e, se não me engano, pretende, se reaproximar de mim. Eu ainda a amo, é verdade, mas não suportaria perdê-la novamente caso alguém melhor apareça. — Você quer dizer alguém mais rico, não é? — Mais ou menos. Amanda não é tão calculista e fria como você imagina. Samy tinha certeza de que ela era assim mesmo, mas preferiu não insistir. Afinal ele acabara de confirmar seu amor por Amanda. De qualquer forma, depois dessa, ela teria de riscar Richard de sua lista de possíveis maridos. . — Acho que não resistiria à tentação, se ela estivesse disposta a reatar comigo. Por isso, eu lhe falei que nós estávamos praticamente noivos. — Richard, pelo amor de Deus! Onde você estava com a cabeça para lhe contar essa história absurda? Todos nessa cidade sabem que não existe nada entre nós. — Eu sei. Eu sei. É que eu entrei em pânico. Mas ninguém questionará isso. A maior parte de Westfield esperava o divórcio mais cedo ou mais tarde. — Entendi. Todos esperavam que eu o conquistasse logo após você romper seu noivado com Amanda. Certo? — Não. Eu disse que todo mundo, há muito tempo, esperava que eu a conquistasse desde que você começou a trabalhar comigo. Um sorriso carinhoso acompanhou aquela sutil declaração, ao mesmo tempo que tirou um suspiro de uma cliente sentada em uma mesa próxima. Cuidadosamente, Samy estudou os traços bonitos de Richard. Ele correspondia aos sonhos de boa parte das mulheres sensatas. Era estranho até que ela nunca deixara essa atração transformar-se em algo mais forte. — Sam? Você aceita? Não é um noivado oficial. Podemos acabar com tudo a qualquer momento. — Parece que você não conhece Westfield. Assim que nos vissem juntos duas vezes, muita gente especularia sobre nosso casamento. No entanto, de passagem, Samy pensou: "Se aceitasse logo, a notícia chegaria aos ouvidos de Simon' Radnor, o que, provavelmente, lhe pouparia alguns momentos de irritação”. — E daí? — Não sei, Richard. Com o cenho franzido, ela olhou à sua volta. Arregalou os olhos ao ver que, entrando no bar, estavam Amanda Marlowe e Simon Radnor. CAPÍTULO II Mágica ou não, a inesperada aparição de Amanda e Simon naquela hora à porta do bar fez Samantha responder impulsivamente à proposta de Richard. — Aceito, Richard — anunciou ela, ao mesmo tempo tomada por uma ponta de apreensão e de um entusiasmo infantil. Richard sorriu aliviado e segurou-lhe a mão. — Obrigado, Samy. Que tal um brinde para comemorar o acordo? — E ergueu o copo, sem notar a presença do outro casal. Samy vibrou, Uma cena romântica vinha bem a calhar e era algo que Simon e Amanda provavelmente não perderiam. Sorriu com doçura e encostou seu copo no de Richard. Esperou-o tomar o primeiro gole para então murmurar: — Não solte minha mão... Há pouco Amanda entrou no bar com Simon Radnor. Os dois estão vindo para cá. Richard enrijeceu o corpo imediatamente, e apertou a mão de Samy com força. Mas quando Amanda e Simon chegaram à mesa, ele fingiu surpresa diante do inesperado encontro. — Olá, querido — Amanda cumprimentou com voz doce. — E você, Samantha querida... Samy irritou-se por ser chamada pelo nome. Amanda sabia o quanto ela o detestava, pois, quando criança, foraatirada numa poça de lama por chamá-la de Samantha. Agora, depois de todos esses anos, Samy novamente sentia aquela irresistível vontade de repetir a façanha, ao perceber o olhar que o pobre Richard dirigia a Amanda. Evidentemente, jamais culparia Richard por se enfeitiçar por ela. Embora não gostasse da moça, Samy reconhecia que ela era muito bonita, com seus bem-cuidados cabelos ruivos, seus traços perfeitos e seus lindos olhos azuis. Especialmente naquela noite que ela exibia sua esbelta plástica num lindo vestido azul acinturado. De repente, um arrepio percorreu a espinha de Samy. É que Simon colocara a mão sobre o encosto da cadeira, resvalando levemente os dedos nos seus ombros nus. — Podemos sentar na mesma mesa? — perguntou Amanda. — Oh, sim! — concordou Richard. — É um prazer para nós. Só que estamos de passagem, pois eu prometi levar Samy a Janson's. Faz um bom tempo que não dançamos. Aquela era mais uma boa idéia de Richard. Certamente ele merecia aplausos. Amanda sentou-se à mesa enquanto Richard e Simon procuravam outras cadeiras ali por perto. — Estou surpresa em saber que você e Richard em breve ficarão noivos. Ele sempre a viu como uma irmã mais nova. O suave tom de voz de Amanda não enganava ninguém, por isso Samy preparou-se para a batalha. — Muita coisa mudou desde que você... foi embora. — Mas agora estou de volta. E ansiosa por renovar velhas amizades. — E iniciar novas? —- retrucou Samy, dirigindo o olhar para Simon. Era obrigada a confessar que a amizade dele com Amanda a intrigava. Onde e quando eles se conheceram? Todavia, antes que a ruiva respondesse à sua pergunta, os homens voltaram. — Aí estão vocês, queridos. Eu e Samantha conversávamos sobre o passado. Sorrindo, Richard ofereceu um drinque a Samy. No entanto, Simon lançou um olhar meio cínico a Amanda. Evidentemente ele sabia com quem lidava, e isso aguçava ainda mais a curiosidade de Sam. "Afinal, por que ele estava na companhia de Amanda?", questionou-se. Aparentemente, a mesma dúvida ocorreu a Richard, que perguntou; — Vocês se conhecem há muito tempo? — Não. Na verdade, acabamos de nos conhecer — disse Amanda. — Papai cuida de alguns aspectos legais para a empresa de Simon. Ele foi até em casa com alguns papéis justamente quando papai e mamãe estavam de saída para uma festa. Eu ia ficar sozinha logo na minha primeira noite de volta ao lar, por isso Simon teve pena de mim e me convidou para fazer-lhe companhia. Samy satisfez-se com a explicação, mas o alívio no rosto de Richard foi tão óbvio que ela se sentiu tentada a dar-lhe um leve empurrão de advertência por baixo da mesa. — Suponho que estejam comemorando a contratação de uma nova enfermeira —: continuou Amanda. —Richard contou-me que você tem trabalhado bastante. E você parece mesmo um bocado abatida. — Realmente estes dias ficamos sem enfermeira no consultório, e esta semana tornou-se uma loucura. Então resolvemos nos divertir. Richard conseguiu uma noite livre. Depois de algum tempo de conversas superficiais, Richard olhou o relógio e decidiu se retirar. — Foi bom encontrá-los, mas prometi levar Samy à Tanson's... — Vamos com eles, Simon? Ainda é cedo, e há séculos que não danço! — Talvez Richard e Samantha prefiram ficar sozinhos — respondeu Simon, dando de ombros. Richard olhou para Samy, como que implorando ajuda ou compreensão. Àquela altura, para ele seria extremamente rude concordar com Simon. Samy sentia vontade de esquecer as boas maneiras que seus pais ensinaram-lhe. Porém, Richard não parecia muito disposto a segui-la e garantiu ao outro casal que a presença deles era bem aceita. Assim, Samy concordou com um leve gesto de cabeça, embora amaldiçoasse mentalmente a Simon. Tinha certeza de que ele dissera aquilo com algum propósito. Só não sabia o que ele tinha em mente, e talvez a intenção fosse atrapalhar o programa dos "noivos". No caminho para a Janson's, Richard mostrou-se carinhoso e pediu desculpas a Samy. — Não imaginava que seria esta a noite de estréia de nosso "noivado", querida. De qualquer modo, obrigado. Samy começava a pôr em dúvida a sensatez do plano de Richard. Mas ele parecia tão grato, que ela não teve coragem de desistir. — Já que o espetáculo foi montado para Amanda, não vejo por que ela não deva ser a primeira a assisti-lo. Richard sorriu, meio sem graça. — Talvez não seja o momento mais apropriado para dizê-lo, mas fui reprovado no curso de arte dramática que fiz. — Não há com que se preocupar — tranqüilizou-o ela. — Não tem problema. É só olhar para mim como se me adorasse. Como era de se esperar, a Janson's estava lotada quando os quatro chegaram à porta. Ainda assim eles conseguiram um lugar razoavelmente confortável, no fundo, onde o barulho era menor. Pouco depois, Samy chegou à conclusão de que talvez fosse melhor estar sentada próxima à aparelhagem de som, onde era impossível conversar. Provavelmente teria dor de cabeça, mas não tanto quanto a que Amanda estava prestes a lhe causar. Assim que todos se sentaram, Amanda iniciou uma série de reminiscências, com algumas explicações ocasionais a Simon. Todas essas lembranças começavam do mesmo jeito: "Eu e Richard...". Sem resultado, Richard fez o possível para incluir Samy na conversa, mesmo porque, em razão de sua educação, não era páreo para a ruiva. Quando a garçonete veio atendê-los, Samy mudara de idéia quanto a beber apenas refrigerante, preferindo algo mais forte, já que Amanda insistia em polarizar as atenções. Como a garçonete demorava com as bebidas, Samy aproveitou uma das raras pausas no tagarelar incessante da moça e dirigiu-se a Richard. — Você prometeu dançar comigo. — É claro! — respondeu ele, erguendo-se. — Com licença. Samy adorava dançar, mas instantes depois notou que Richard continuamente olhava para o outro lado do salão. Sem que ele percebesse, ela tentou descobrir o que chamava a atenção do companheiro. Era Amanda, que dançava com Simon. Simon virou-se e pegou-a em flagrante, observando os dois. Samy desviou o olhar bruscamente, lutando contra o rubor que lhe subia ao rosto. Realmente aquele homem tinha um talento especial para deixá-la embaraçada. E Richard continuava hipnotizado por Amanda... — Richard! Pare de olhar para ela! Ao fim da dança, quando voltou para a mesa, Samy tomou um generoso gole de bebida. — Cansada? — perguntou Richard. — Um pouco. Você se incomoda em não dançar a próxima? — Não, de modo algum. Agora vou praticar um pouco meu olhar apaixonado. Richard inclinou-se sobre ela e assumiu uma expressão absolutamente idiota. Imediatamente Samy esqueceu a leve dor que castigava suas têmporas e riu. — Você parece um carneiro com dor de barriga! Ele riu, abraçou-a afetuosamente e deu-lhe um beijo na testa. Nenhum dos dois percebeu a companhia do outro casal, até a voz de Amanda soar um pouco mais alta do que o normal. — Vocês já se cansaram? Samy ergueu o olhar, ainda a tempo de perceber uma expressão estranha no rosto de Amanda. Se não a conhecesse melhor, seria capaz de jurar que a outra se magoada com a cena carinhosa que interrompera. — Não, não nos cansamos. Samy está apenas recuperando suas energias para a próxima dança. — Então dance comigo. Simon também quer descansar por alguns instantes e fará companhia a Samantha. Ela não se importará, não é mesmo, querida? É claro que ela se importava, mas receava que a recusa despertasse desconfiança em Richard. E como não podia explicar que não lhe agradava a idéia de ficar a sós com Simon, procurou demonstrar naturalidade e satisfação com a proposta. Assim que os outros dois foram para a pista, Simon sentou-se ao lado dela. — Pena que você não agarrou o doutor antes que surgisse uma rival, Olhos Verdes. Pelo que vi esta noite, suas chances não são nada boas. — Que indiscrição! Meu relacionamento com Richard não é de sua conta... É incrível! Não entendo como umapessoa tão adorável como sua avó tem um parente tão rude... — Não sou rude, muito menos indiscreto, Samantha. Sou sincero. E você deveria ser grata a Amanda. Ela vai livrá-la de cometer um erro terrível. — Casar com Richard nunca seria um erro. — Tenho certeza de que ele não seria um bom marido para você. Você tem um espírito apaixonado, e seu casamento com um homem pelo qual tem apenas afeição não daria certo. — Você não sabe nada sobre mim nem sobre o que sinto por Richard. Samy preocupava-se não só com o que Simon dissera, mas também com suas próprias reações. Ela fazia o possível para não jogar o drinque no rosto dele. Afinal, naquele mesmo dia era a segunda vez que ele conseguia deixá-la fora de si. — Você não me engana, Samy. Eu a vi com Richard — disse ele, dando a entender que apenas uma atenta observação bastaria para concluir que o que ela sentia por Richard não passava de uma simples afeição. — Além disso, sei um bocado de coisas a seu respeito através de minha avó. Repentinamente, Samy sentiu-se vulnerável. Ela sé afeiçoara a sra. Radnor com a mesma intensidade com que antipatizara com o neto. Como as consultas da velha senhora eram semanais, elas conversavam em várias oportunidades, Embora essas conversas não fossem íntimas, a observação de Simon deixou-a apreensiva. Era tolice sentir-se insegura. Que diferença fazia o fato de ele conhecer algo de sua vida? Não tinha nada a esconder. Além disso, conhecer algumas atitudes de alguém não significava necessariamente conhecer uma pessoa. — Esta conversa não tem propósito — anunciou ela com frieza. — Muito bem... Se você preferir, podemos mudar de assunto. — Não quero conversar sobre coisa alguma — retrucou ela, furiosa. Simon deu de ombros. — Vamos dançar, então. Antes que fosse rejeitado, Simon ergueu-se e segurou-lhe a mão como se ela fosse acompanhá-lo. Quando deu por si, pelo gesto espalhafatoso que ele fez, não lhe restou outra alternativa que não a de aceitar o convite. Mas, para aumentar sua irritação, a música suave e romântica substituíra o ritmo agitado que servira de trilha sonora ao tenso diálogo que mantiveram. — Eu não quero dançar — sibilou ela, entre dentes. Ele a ignorou e, sorrindo, disfarçadamente arrastou-a para o centro da pista, onde casais abraçados dançavam sob a luz suave. — Sei que está cansada, querida. Mas pode muito bem descansar enquanto dança. Tudo o que tem a fazer é colocar os braços em meu pescoço. Deixe o resto comigo. Normalmente a sugestão seria inaceitável. No entanto, um brilho de prazer nos olhos de Simon fez com que ela não reclamasse como pretendia. Era óbvio que ele achava a situação engraçada, mas não havia cinismo em seu rosto. Algo como uma zombaria carinhosa emprestava um calor humano à sua expressão, tirando-lhe a aparência prepotente que Samy tanto detestava. A custo, ela desviou o olhar do rosto dele, fixando-o sobre os ombros largos. Toda aquela força, que sempre lhe parecera ameaçadora, repentinamente surgia como um apoio convidativo e reconfortante, irresistível para sua cabeça, que latejava de tensão. Ao colocar os braços ao redor do pescoço de Simon, por um instante ela sentiu o corpo dele enrijecer-se. Depois não reparou mais nisso. Vagamente, imaginou que no dia seguinte ficaria furiosa consigo mesma. Mas, naquele momento, era delicioso simplesmente relaxar e encostar-se naquele corpo forte, quente... Simon Radnor franziu o cenho ao olhar para a cabeça apoiada de modo tão confiante sobre seu ombro. Abandonou suas apreensões e puxou-a ainda mais contra si. Ela provavelmente bebera mais do que ele notara, ou, então, a diabinha apenas tentava calar sua boca provocando-o. O pensamento fez com que sorrisse. Roçou os lábios suavemente contra uma mecha dos cabelos sedosos. Era realmente enlouquecedor abraçá-la daquele modo. Se ela soubesse o que ele pensava naquele instante... Do jeito que era, provavelmente o socaria em plena pista de dança. Certamente Samantha, com vinte e quatro anos, tivera experiências anteriores com pessoas do sexo masculino. No entanto, era de se supor que ela não soubesse o que era uma verdadeira paixão. Aparentemente, Samantha parecia disposta a se casar com Richard Bohlen, mas... ele não percebia nada além de uma certa afeição entre os dois. Simon deu uma olhada em Richard e Amanda, que dançavam a.alguma distância dali, completamente absorvidos um no outro. Mais um sinal estranho. Ainda mais conhecendo-se os antecedentes do caso. É que, apesar de quase nunca sair de casa, sua avó possuía um verdadeiro dom para obter informações. E fora ela quem lhe contara tudo sobre o relacionamento dos dois. Samantha podia ser sincera, mas Richard provavelmente buscava nela um antídoto contra Amanda. Samantha moveu levemente a cabeça, interrompendo os pensamentos de Simon. Ele correu os dedos pelos cabelos castanhos. Sua situação era semelhante à de Richard, Desde que vira Samantha pela primeira vez, sentira-se atraído por ela. No entanto, a atração tornara-se obsessiva, embora ela não fosse o tipo de mulher com quem costumava se relacionar, já que preferia as mais velhas e experientes. De mais a mais, ela pensava em casamento e não parecia disposta a ter casos passageiros. Revelar qualquer interesse pela moça no mínimo poderia encher-lhe a cabeça de idéias desconfortáveis... para ele. Pelo menos fora o que pensara no início. A situação se tornara um pouco diferente quando ele se vira procurando desculpas para ir ao consultório do dr. Bohlen. A solução era satisfazer seus impulsos e lidar com os problemas quando eles aparecessem. Afinal, não seria a primeira vez que correria riscos. Quanto àquele casamento iminente, esperaria para ver que rumo ele tomaria... A dor de cabeça de Samy tornara-se insuportável e ela decidiu pedir ajuda. Entretanto, no meio de todas aquelas pessoas que lotavam o salão, parecia-lhe impossível encontrar Richard. Além disso, relutava em abandonar a proteção dos braços aconchegantes de Simon. Só que nesse instante ele afrouxou o abraço. — Samantha? Odeio interromper este delicioso momento, mas a música parou e... O que foi, está se sentindo mal? Com os olhos semicerrados para proteger as pupilas dilatadas, Samy percebeu que Simon tinha o cenho franzido. Provavelmente pensava que ela estava bêbada. Abriu a boca para dizer-lhe o que sentia, mas a dor foi tanta que gemeu. — Querida, o que você tem? — perguntou ele com suavidade, preocupado por seu ar de sofrimento. Samantha fechou os olhos e balbuciou: — Não estou... bêbada. A cabeça dói... Richard... Não foi preciso dizer mais nada. Simon enlaçou-a pela cintura, levando-a até a mesa. Ao vê-los, Richard ergueu-se. — O que aconteceu? — Ela disse que sua cabeça está doendo — respondeu Simon, antes que ela falasse qualquer coisa. — Richard, estou com enxa... enxa... — Já sei, querida, enxaqueca — disse Richard, abraçando-a carinhosamente. — Vamos para casa. — Eu pago a conta — avisou Simon. — Quer a ajuda de Amanda? — Não é preciso. Kate está em casa. — Então espere aqui, Amanda. Volto num instante — disse Simon. "Mas que homem autoritário!", exclamou Samy consigo mesma. A menção do nome de Amanda fez com que ela lembrasse de que não se despedira. Richard já a levava embora, mas ela ainda se voltou para dizer: — Desculpe-me, Amanda. Boa noite. A moça pareceu-lhe preocupada. Que bobagem! Provavelmente se enganara. Richard murmurou alguma coisa ao seu ouvido enquanto se dirigiam à porta, mas Samy não lhe prestou atenção. — Sinto-me enjoada — gemeu ela ao saírem. — Richard, sente-a sobre este murinho e me dê suas chaves. Vou buscar seu carro — disse Simon. — Não! — exclamou Samy, irritada ante o tom rude e autoritário que ele usou. — Machão pretensioso! — murmurou. — Quieta, Samy — pediu Richard suavemente. — Simon está conversando comigo. Samy obedeceu, preferindo, dali por diante, concentrar-se apenas em controlar a náusea e a terrível dor que a dominava. Na manhã seguinte,a primeira coisa de que Samy teve consciência foi de que a dor intolerável se fora. Porém, a sensação de alívio logo se desvaneceu com a lembrança dos fatos que se passaram na noite anterior. Como fora concordar com o plano maluco de Richard? E tudo por culpa de Simon Radnor, que exercia uma influência perigosa sobre ela, despertando-lhe a impulsividade infantil. Agora teria de arcar com as conseqüências desse plano. Se voltasse atrás, ela e Richard fariam papel de tolos. Além disso, ainda era grata a Richard pela proteção que aquele falso noivado oferecia contra Simon. Com um gemido, Samy enterrou o rosto no travesseiro, mas, ao ouvir um ruído na cama ao lado da sua, ergueu-se bruscamente. A cabeça apoiada sobre uma das mãos, os cabelos loiros caindo-lhe pelos ombros, Kate estava deitada na cama, olhando-a. — Finalmente a Bela Adormecida acordou... Como se sente? — Bem melhor, obrigada. A enxaqueca passou — respondeu Samy, sentando-se. — O que você faz aqui? — Eu?... Brinco de anjo da guarda trazendo conforto aos aflitos... bajulando minha senhoria. Não se lembra de que eu estava aqui ontem à noite? Quem você pensa que a despiu e enfiou-a na camisola? — Agora eu me lembro vagamente de você me empurrar para a cama antes de Richard me dar uma injeção e eu dormir. — Exatamente. Por isso, passei a noite ao seu lado para tomar conta de você. E também para lhe comunicar em primeira mão que está sob ordens médicas. Hoje você deve ficar em casa e descansar bastante. — Obrigada pela companhia, Kate. Sua senhoria apreciou muito seu gesto. — Samy ergueu-se da cama. — Só que não posso ficar em casa hoje. A nova enfermeira só chega na semana que vem, e Richard está sozinho, sem ninguém para auxiliá-lo. — Pelo menos telefone a ele antes de sair. Samy olhou para o relógio e viu que eram oito horas. — Muito bem. Vou telefonar agora. Ele já está no consultório. Richard ficou satisfeito com a notícia de que Samy passava bem, mas insistiu para que ela permanecesse em casa. — Assim eu me sentirei menos culpado. — Que motivo você tem para se sentir culpado? — É que sua enxaqueca parece se relacionar com tensão emocional. Talvez devêssemos esquecer a idéia do noivado. — Agora não podemos — respondeu ela, esquecendo seus temores. — De mais a mais, foi Simon Radnor quem me deixou tensa e não o fato de simularmos um noivado. — Ah, sim... Que machão pretensioso. — De onde você tirou isso? — perguntou ela, engolindo em seco. — Não se lembra? Foi assim que você o chamou ontem à noite, quando estávamos no estacionamento da Tanson. — Oh, Richard. Será que ele escutou? — Para ser sincero, eu não posso responder — disse Richard, rindo. — Você apenas resmungou. Se ele tiver uma boa audição... — Não duvide — gemeu ela. — Simon provavelmente escuta um alfinete cair a vinte passos. — Imagino que "machão" seja por causa de seu ar dominador. Estou certo? — Mais ou menos — respondeu ela, de modo vago. — Bem, eu não me preocuparia com isso. Simon é uma boa pessoa. Além disso, duvido que ele tenha alcançado sucesso em uma área tão competitiva sem ter escutado nomes piores. A propósito, não se sinta, culpada por não trabalhar hoje. Amanda logo virá me ajudar. — Amanda Mariowe? — Sei que ela não tem experiência, mas pode muito bem atender a telefonemas e a clientes — explicou Richard na defensiva. — Amanda ficou preocupada com você ontem à noite. Depois que nos retiramos, ela telefonou pedindo notícias de seu estado de saúde. Quando eu disse que a dispensaria dos serviços de hoje, ela se ofereceu para substituí-la. — É mesmo? Samy pensou em oferecer uma interpretação menos favorável daquele "nobre gesto", apesar de se lembrar que, na noite anterior, Amanda preocupara-se com seu estado de saúde. — Ela mudou — insistiu Richard. — Sei que ontem à noite Amanda não se comportou muito bem, porém... ela estava diferente. Parecia... mais próxima, mais verdadeira. Na opinião de Samy, a verdadeira Amanda estivera em exibição em todo o seu esplendor e na melhor forma possível. Dizer que ela não se comportara bem, no mínimo era ser complacente. Mas por que discutir com Richard? — Pois bem. Diga-lhe que agradeço a atenção. E não se esqueça: você está apaixonado por mim. Não por ela. — Não esquecerei. Samy voltou ao quarto, com um sorriso nos lábios. — Ficarei em casa, Kate. Vamos preparar um desjejum cheio de calorias. Naquele dia, Kate estava em sua melhor forma, disposta a zombar da amiga. Samy deveria adivinhar que Kate acharia toda a situação muito engraçada. — Qual é o problema, Samy? — Kate perguntou ao saber do plano de Richard a respeito de fingir um noivado com ela. — Você não fere ninguém, fingindo que tem um relacionamento sério com ele. Mesmo que Amanda se arrependa, não lhe fará mal algum sentir um pouquinho de ciúmes antes de tê-lo de volta. Aliás, já está na hora de você agitar um pouco sua vida. Talvez Simon Radnor possa tirá-la de sua concha... — acrescentou. Kate nunca aprovara a vida monótona e sem riscos de Samy, mas reconhecia que deixá-la à mercê das garras de Simon talvez fosse demais. Por seu lado, Samy enrubesceu de vergonha ao se lembrar de que estivera realmente nas garras dele na noite anterior. E o pior: com seu pleno consentimento. Onde diabos tivera a cabeça para encorajá-lo? Nem mesmo a enxaqueca era desculpa para aquilo! Furiosa, Samy foi até o jardim, onde arrancou uma erva daninha do canteiro, quase trazendo consigo uma inocente margarida. Seu comportamento da noite anterior fora um verdadeiro absurdo... — Samantha! — Aquela voz atrás de si era conhecida. — O que você está fazendo? Samy respirou fundo ao reconhecer a voz de Simon. Enfiou a colher de jardineiro cuidadosamente na terra e ergueu-se devagar. Estava pronta a desfiar um rosário de queixas, mas não teve tempo. — Richard me disse que você ficaria em casa... descansando. O tom de voz e a expressão do rosto de Simon eram de desagrado. Medindo-a dos pés à cabeça, ele notava o rosto suado e a mancha de terra que lhe decorava o queixo. Como Samy não esperava receber ninguém, usava uma camiseta e um short velho. Por seu lado, ele estava muito elegante em seu terno cinza, imaculado, sem dúvida feito por um bom alfaiate. Samy sentia-se em desvantagem e, em conseqüência, mais irritada ainda. — O que faço não é de sua conta, sr. Radnor — observou ela, tentando aparentar altivez e dignidade. — Não é preciso tanto formalismo, Samantha. Meu nome é Simon. Ela não gostou do ar divertido que surgiu no rosto dele. Mas, já que Simon tocou na questão relativa aos nomes, ela aproveitou. — Meu nome é Samy. Simon sorriu e, por um momento, seus traços duros não exibiram o cinismo característico. E aquela alegre transformação masculina fez com que Samy sentisse uma incrível atração por ele. — Uma boa maneira de se impor — aplaudiu ele. — Mas, para tanto, você não precisa me chamar de sr. Radnor. Porém, antes de qualquer coisa, quero que saiba que, quando eu era garoto, tive uma cadela chamada Samy. É difícil chamá-la pelo mesmo nome. Você é tão diferente... O senso de humor era o ponto fraco de Samy. Não conseguiu reprimir um sorriso. — Bem... Não me ofenderei por não ser confundida com um cão. — Não será mesmo. Só que eu guardo muita saudade de Samy, pois ela era obediente e inteiramente devotada a mim. — Pode me chamar de Samantha. Não vou correr nenhum risco de ser confundida com ela. — Muito obrigado. Agora talvez me explique o que fazia em cima desse canteiro ao invés de descansar. — Francamente, Simon! Isso não é... — Não me diga que não é de minha conta. Ontem à noite você me pregou o maior susto. Agora eu tenho o direito de me preocupar. Espantada, Samy percebeu que não havia o menor sinal de zombaria no rosto dele. Evidentemente, não achava que ele fosse desprovido de emoções. Afinal, Simon era por demais afeiçoado à avó. Mas, na maior parte do tempo, pareciafrio e invulnerável, deixando-a completamente desarmada com aquela atitude. — Vamos beber alguma coisa — convidou ela, num impulso. — Já que discutiremos minha saúde, pelo menos podemos fazê-lo confortavelmente. Ele hesitou um pouco antes de concordar. — Boa idéia. Logo estavam na cozinha. — Um refrigerante, chá gelado ou algo mais forte? — Um refrigerante — ele respondeu, afrouxando o nó na gravata. Aquela típica atitude masculina, aliada à aparência intimidadora de Simon, puseram-na em pânico. Virou-se para a pia a fim de lavar as mãos e pensou em não ser ridícula. Do que tinha medo? De ser arrastada pelos cabelos até a cama? Suas reações pareciam tão primitivas quanto as dele. — Sente-se — ela convidou, pegando os copos. — Quem mora no andar de cima? — Antes que ela perguntasse como ele soubera que mais alguém morava ali, Simon acrescentou: — Minha avó disse que você era a dona da casa e que alugava a parte de cima. — Ah, sim. É Kate Townsend. Ela é professora de arte. — Samy estendeu-lhe o copo. — Richard mencionou o nome dela. — Exato. Ela me pôs na cama e passou a noite ao meu lado. À toa, é claro. Simon sentiu-se relaxar, após obter a informação que desejava. Imaginara Richard despindo-a. Mesmo sabendo que ele era médico e, talvez, amante de Samy. A idéia o perseguira como uma obsessão desde que se separaram na noite anterior. — Tenho certeza de que foi desnecessário. Você não faria traquinagens dormindo. — Não tenho quatro anos de idade — Samy observou, indignada. — Há seis anos cuido de mim mesma sem problemas. Estava no jardim há apenas meia hora, quando você chegou. Após um dia inteiro dentro de casa, eu precisava de um pouco de ar fresco e exercício. — É mesmo? A irritação de Samy se desfez ao ver o olhar divertido de Simon. — Você é terrível! Intrometido e mandão — acusou ela, disfarçando um sorriso, mas quando o viu sorrindo não se conteve. Novamente sentia-se atraída por ele, só que, ao invés de se surpreender, imaginou se não nutrira um preconceito contra Simon desde o começo. — Minha avó concorda com você. Segundo ela, todos os homens da família Radnor têm tendências autoritárias, e toda mulher sensata os considera irritantes. Samy riu. — E como se explica o fato de ela se casar com um? — Até hoje ela diz que meu avô aproveitou-se de um momento de fraqueza e a carregou para a igreja antes que recobrasse o juízo. — Uma declaração típica de sua avó — comentou ela, afetuosamente. — Adoro as visitas dela ao consultório. Isto é, quando disponho de algum tempo. Gosto de conversar com ela. Samy ficou levemente corada ao lembrar-se de que, no consultório, evitava ao máximo conversar com Simon. Ele percebeu seu embaraço. — Notei que está sempre ocupada — disse ele, maliciosamente. — Vovó também gosta de você. Ela pretende convidá-la para ir até em casa. Não o fez ainda porque não quer importuná-la. — Ora, que bobagem! Além disso, estou muito curiosa para ver a reforma que vocês fizeram na propriedade. Aliás, o resto do pessoal da cidade também está curioso. — Não sabia disso. Sendo assim, qualquer hora darei uma festa para satisfazer essa terrível curiosidade. — Ele se ergueu e colocou a cadeira no lugar. — Mas você não terá de esperar pela festa ou por um convite de vovó. — Como não? — perguntou ela, com maus pressentimentos, agravados ainda mais pelo sorriso maroto de Simon. —-Todos nós nos desapontamos com o encontro de ontem à noite. Foi tão curto... Por isso, hoje de manhã telefonei para o consultório para saber como você estava e convidei-os para que fossem conhecer a piscina no domingo à tarde. Richard disse que você não tinha compromisso. Amanda adorou a idéia. Samy abriu a boca sem saber o que dizer. Não gostaria de' que houvesse outra reunião dos quatro. Simon já sabia disso e esperara o momento certo para fazê-la cair na armadilha. Não havia como recusar o convite. — Oh, mas... mas... . E pensar que justamente agora ela começava a rever suas opiniões sobre aquele homem mesquinho, ardiloso, traiçoeiro... — Que vergonha, Samantha! O comentário pareceu tão apropriado, que Samy deu um sobressalto, imaginando se não estivera pensando alto. Olhou para ele, envergonhada, vermelha como pimenta. — Samantha, uma dama não usa esse tipo de linguagem nem em pensamentos — tornou ele, caminhando para a porta, sorridente. Antes de fechar a porta, voltou-se mais uma vez, apenas para falar: —- Não se esqueça: domingo à tarde. CAPÍTULO III Samy esfregou o queixo, indignada. Simon Radnor saíra de sua casa sem ao menos dizer até logo. Pelo visto, ele não desperdiçava seu precioso tempo trocando gentilezas com as pessoas. De qualquer forma, ela reconhecia que os modos abruptos de Simon eram charmosos, e marcavam sobremaneira sua personalidade. Os pensamentos de Samy foram interrompidos por batidas na porta da frente. Era Kate, que usava um elmo com chifres na cabeça! Fazia uma expressão hostil e ameaçava-a com uma lança enorme nas mãos. Nem mesmo o mau humor de Samy resistiu àquela inusitada aparição. — Sinto muito, garotinha. Não tenho doces no momento. Você chegou cedo demais para o dia das bruxas. — Vim para protegê-la do maléfico barão normando — informou Kate com expressão solene. — Proteger-me do barão, não é? Por que esperou que o vilão fosse embora antes de me socorrer? — perguntou Samy com um sorriso alegre. — Detalhes, detalhes... — respondeu a outra, sacudindo a lança em sua direção. — Então o homem que vi lá fora era Simon Radnor? — O próprio, primeiro e único. Vamos, Brunilda, vamos para a cozinha beber alguma coisa. Kate colocou a lança apoiada contra a parede, tirou o elmo fazendo uma careta e sentou-se na mesma cadeira que Simon desocupara. Samy ofereceu-lhe um refrigerante. — Usei essa coisa numa peça que montamos na faculdade. Está toda empoeirada. E então? O que desejava o seu nobre visitante? — Queria saber se eu estava viva. Normalmente as mulheres que dançam com ele não têm reações tão desconcertantes quanto a que eu tive na noite de ontem. — Você o assustou, não é? E o choque foi suficiente para que ele se arrependesse de seu comportamento? Samy riu do que a amiga dizia, mas, depois, refletindo melhor, reconheceu que Simon não fora nem de longe o homem cínico, arrogante e frio que ela conhecia, a não ser quando findara a visita saindo abruptamente. — Não sei... Com a mudança da Radnor para a cidade é possível que eu tenha criado uma predisposição contra ele. Além do mais, os modos abruptos de Simon também não o ajudaram muito... A verdade é que eu não confio nele. Ele é tão... tão... Sei lá o quê! — Entendo... Você se sente ameaçada. É compreensível. Eu também senti uma ligeira perturbação enquanto "discretamente" o observei pela janela. De fato, o homem talvez tenha muitos defeitos, mas sensualidade também não lhe falta. Samy remexeu-se desconfortavelmente na cadeira. — Você tem razão, Quando quer, ele tem um certo charme, — Charme?! O que charme tem a ver com sensualidade? Você chamaria Burt Reynolds de charmoso? Samy enrubesceu e apressou-se a mudar de assunto, informando a amiga da inauguração da piscina no domingo à tarde. Kate, brincalhona como sempre, sugeriu-lhe que pelo menos aproveitasse uma eventual distração de Amanda para afogá-la. Afinal, seria uma a menos a irritá-la. No domingo, após escolher um biquíni discreto e arrumar as coisas, Samy foi à janela esperar Richard. Na quinta-feira à noite, ele telefonara tão animado que Samy preferira não lhe confessar que o melhor era ter recusado o convite. No entanto, ela arriscara uma pergunta: — Você não se incomodará ao ver Amanda com outro? — Normalmente eu teria ciúmes, mas Amanda não parece nem um pouco interessada no machão, Samy. Ela só me preveniu de que ele estava de olho em você. — Quanta gentileza da parte dela! Naquele momento, Samy não saberia interpretar suas reações. O normal seria ficardesapontada, uma vez que o envolvimento entre Simon e Amanda resolveria um bocado de problemas. No entanto, já sabia que Amanda não se interessava por Simon. Samy experimentara um certo alívio ao escutar a previsão do tempo anunciando um fim de semana chuvoso. E, pelo menos por uma vez, tudo indicava que a previsão se realizaria. No sábado, Samy fora para a cama com um sorriso nos lábios, pois o tempo estava nublado e úmido. Infelizmente, porém, a forte chuva da noite limpara o céu, e o domingo amanhecera radiante e claro. Enquanto esperava por Richard na janela, mais uma vez sua capacidade para assimilar contratempos fez-se sentir. Sua atenção foi atraída por uma novidade no ninho de pintarroxos feito na árvore de frente à sua casa. Observava-o desde a primavera, quando o casal iniciara a construção do ninho. Agora a família tinha mais um membro, e dos mais famintos. Por mais que os pais o alimentassem, a pequena criatura continuava de boca aberta, pedindo mais. A cena restaurou-lhe o bom humor. Assim Samy recebeu Richard sorridente, permanecendo alegre durante o percurso até a casa dos Marlowe, aonde foram para pegar Amanda. A moça não estava pronta. Por isso a sra. Marlowe gentilmente convidou-os para esperar por ela na sala. Lá encontraram o sr. Marlowe, entretido com os jornais de domingo. Conversaram então sobre amenidades e assuntos passageiros, sem qualquer objetividade. Samy percebeu de imediato que os Marlowe julgavam tudo e todos de acordo com dois padrões: dinheiro e status. Samy era bem aceita aos olhos deles porque era uma Abbott, tradicional família da Nova Inglaterra. Por seu lado, Richard também foi aprovado, pois escolhera a universidade certa e provavelmente teria um futuro brilhante à frente. Durante a conversa, Samy lembrou-se do casamento de Amanda. Os pais dela não viram empecilho algum à sua realização. Pelo contrário, a riqueza e a posição social de Stuart Thompson ofuscaram qualquer outra consideração desfavorável que se fizesse contra ele. Com pais como aqueles, não era de admirar que Amanda tivesse uma noção de valores um tanto distorcida ... Finalmente, Amanda surgiu. Estava muito bonita, com um vestido leve, branco, que realçava seu lindo bronzeado. Não foi muito calorosa ao cumprimentar Samy, embora não houvesse nenhum sinal da mulher mal-educada daquela noite na Tanson's. Quando Amanda sentou-se no banco de trás do carro, Samy começou a admitir a hipótese de que ela realmente mudara. Seu comportamento decorria de ciúmes. Afinal de contas, mulheres melhores do que ela sentiam o mesmo. Ora, se até mesmo Simon Radnor tinha algumas qualidades, por que Amanda não poderia tê-las também? A mansão McDaniels, como era ainda conhecida em Westfield a casa dos Radnor, ficava a alguns quilômetros ao sul da cidade. A pequena viagem foi inteiramente tomada pela discussão sobre a conveniência ou não de se manter o nome do antigo dono para denominar uma propriedade. Desta vez Samy teve que se pôr do lado de Amanda, sendo ambas favoráveis a manter as tradições. Richard, ao contrário, achava isso uma bobagem: a mudança de dono devia implicar em mudança de nome também. Um caminho tortuoso conduzia à casa, construída em trinta acres de terra. Exceto pelas bordas da estradinha e dos jardins gramados ao redor da casa, o resto da propriedade exibia a vegetação selvagem originária da região. A distância era possível ver algumas árvores com porte respeitável. A casa original, construída em pedra em 1700, fora cuidadosamente alterada e ampliada, tornando-se uma bela mansão com vinte quartos, e se erguia imponente sobre uma elevação do terreno, sombreada por carvalhos. A velha srta. McDaniels, a última da família, não dispunha do dinheiro suficiente para manter a propriedade, tanto que, a última vez que estivera lá, Samy notara a falta de conservação do prédio. Agora, porém, o novo proprietário pretendia manter o lugar em ordem. As janelas brilhavam, as cercas vivas foram podadas, e a hera não cobria mais a casa inteira. — Um lugar e tanto — comentou Richard ao estacionar o automóvel sob a sombra de uma frondosa árvore. — Lá está o machão. — Richard! — sibilou Samy. —... o proprietário em pessoa para nos receber — emendou ele, sorrindo. Richard desceu do carro, cumprimentou Simon e abriu a porta do carro. — Samantha, Amanda, olá! — cumprimentou Simon, com sua costumeira mania de simplificar. Ele usava roupas descontraídas como Richard e, pelo menos para Samy, parecia mais jovem e atraente. — Entrem. Vamos cumprimentar vovó — convidou ele. — Ela está na sala de estar à espera. Depois, se vocês quiserem, posso lhes mostrar a casa. — Estou morrendo de curiosidade! — observou Amanda, entusiasmada. — Por fora a casa é maravilhosa. Aliás, este lugar é impressionante. A espaçosa sala de estar ficava à direita do hall de entrada. A sra. Radnor estava acomodada em uma poltrona confortável, com os pés pousados sobre um banco. Seus cabelos brancos foram cuidadosamente penteados de forma a manter o ar sóbrio, e só os olhos suavizavam a impressão de severidade que sua figura causava. — Vovó, seus convidados Samantha e Richard. E esta é Amanda Marlowe. — Muito prazer, srta. Marlowe. Creio que conheço seu pai. — A sra. Radnor voltou-se para os outros e cumprimentou-os com menos formalidade. — Olá, amigos. Como vão? Simon disse-me que vocês conseguiram uma nova enfermeira. — Ela começa na segunda-feira — informou Richard. — Ótimo. Vocês pareciam atônitos quando estive lá pela última vez. — A senhora não gostou, apenas porque não teve chance de fofocar com Samy — disse Richard, brincando. — Vou mostrar a casa a nossos hóspedes antes de levá-los à piscina. A senhora vem conosco, vovó? — Não, não. Eu iria apenas atrasá-los. Fiquem à vontade. Teremos tempo de conversar mais tarde. Simon conduziu-os através do hall, mostrando-lhes de início o pequeno elevador que instalara para a velha senhora: — Espero que tenham bastante apetite esta tarde — disse ele — Minha avó e a sra. Gessner, a governanta, planejaram um verdadeiro banquete para a hora do chá. Do hall ele os conduziu até uma sala de jantar, depois ao estúdio, a uma sala de estar e à biblioteca. As salas foram mobiliadas no estilo do século dezoito. Nos outros aposentos, não havia predominância de estilos, embora a elegância e o conforto conjugassem harmoniosamente entre si. O que mais agradou a Samy foi o estúdio de Simon, com suas paredes completamente tomadas por livros, a pesada escrivaninha de mogno e as enormes e confortáveis poltronas. A cozinha era funcional, de bom gosto e equipada com todos os utensílios domésticos. A seguir, o anfitrião levou-os ao porão. Lá havia uma sala para ginástica com sauna e uma oficina, onde, segundo Simon, ele "brincava de cientista maluco". A excursão pela casa terminou ali. Simon negligenciou o segundo andar, por considerá-lo apenas "uma série previsível de quartos e banheiros". Evidentemente Samy gostaria de visitá-los, mas disfarçou seu desapontamento, não contrariando a decisão. Afinal, há quem entenda que os dormitórios sejam partes íntimas de uma residência, não expostas à visitação. Ao voltarem do porão, Simon e Richard foram ao vestiário ao lado da piscina, enquanto que Samy e Amanda dirigiram-se para a pequena suíte, próxima à cozinha. O compartimento originalmente fora destinado à sra. Gessner, mas encontrava-se desocupado, pois a governanta dormia no segundo andar, perto da sra. Radnor. Surpresa, Samy relacionava-se bem com Amanda, a ponto de ambas conversarem animadamente, mesmo estando distantes de Richard. — Gostaria de saber quem decorou a casa — comentou Amanda. — Minha mãe quer reformar a sala de estar. — Pelo que ouvi da sra. Radnor, foram eles mesmos que fizeram tudo. — Verdade? Que estranho! Amanda surpreendeu-se com a resposta e disse que achara a decoração muito bem estudada para ter sido feita por leigos. Samy entendeu a observação de Amanda.Para alguém do círculo dos Marlowe, era uma novidade que pessoas ricas se encarregassem desse trabalho sozinhas. Após se trocarem, elas saíram pela cozinha, encontrando a governanta, uma senhora alemã de forte sotaque, gorda, baixinha e rosada que, após cumprimentá-las, sorridente, explicou-lhes como chegariam à piscina. As duas passaram pelo terraço da sala de estar e, entre sebes cuidadosamente aparadas, chegaram à piscina, de formato irregular, circundada por lajotas. O vestiário ficava ao lado, numa graciosa cabana rústica, de troncos, de modo que as instalações harmonizavam-se perfeitamente com a construção. Samy e Amanda ficaram fascinadas. — Um lugar lindo, não é? — Richard falou de dentro da piscina, — Que tal se juntarem a nós? A água esta uma delícia. Simon, também na piscina, interveio: — Só que, como bom anfitrião, devo preveni-las de que esqueci de ligar o aquecimento e que a chuva desta noite deixou a água um tanto fria. — Nesse caso, tomarei um pouco de sol — respondeu Samy, dirigindo-se para uma das espreguiçadeiras ao lado da piscina, — Pois eu vou entrar na água agora mesmo — anunciou Amanda, — Richard merece um bom castigo por tentar nos enganar. Sem mais uma palavra, Amanda jogou a sacola sobre a cadeira, tirou' o roupão e atirou-se à água, num mergulho perfeito, já que era uma ótima nadadora. Segundos depois, a cabeça de Richard desaparecia sob a água. Samy achou estranho ela não se importar de arruinar o cabelo. Será que fizera aquilo porque tinha certeza de que, usando aquele biquíni provocante, nenhum homem lembraria de olhar para seus cabelos molhados e despenteados? Enquanto observava Richard e Amanda, Samy não percebeu que Simon saíra da piscina. Porém, agora era impossível deixar de notá-lo. Ele vinha em sua direção. A visão das pernas musculosas, do peito largo, dos pêlos sedosos na pele bronzeada, a deixou hipnotizada, os olhos fixos nele. A natureza fora generosa com aquele homem, e ele sabia disso. — Deixe-me ajudá-la com esse roupão. Samy acordou dós devaneios e encontrou o olhar sensual de Simon. Enrubesceu e, num gesto inconsciente, como se sentisse ameaçada, puxou a gola de seu roupão, — Vamos lá! Não farei comentários maliciosos. — Muito nobre de sua parte — ela respondeu, embaraçada, permitindo que ele a ajudasse a despir a peça. O biquíni que Samy usava era branco e discreto, mas ainda assim ela se sentia nua na frente de Simon. — Muito bonito. Gostei da cor —r o comentou, calmamente. — Apanharei uma toalha para você colocar sobre o estofamento. É feito com material sintético... com o calor gruda na pele. Samy ficou observando-o afastar-se. Sem dúvida, ele tinha o estranho poder de perturbá-la. Ela o olhara como se nunca houvesse visto um homem com o peito nu, enquanto ele parecera mais interessado em seu traje de banho do que em suas formas! Um assobio fez com que Samy se voltasse para a piscina. — Gosto do que vejo — gritou Richard, sorrindo. Talvez por coincidência Amanda escolheu exatamente aquele momento para jogar água no rosto dele. Samy desconfiou da atitude dela. Não estava mesmo convencida de que Amanda houvesse mudado. Ainda observava os dois, quando Simon voltou. Sem fazer qualquer comentário, ele a encarou, desconfiado, estendeu uma toalha na espreguiçadeira de Samy e em outra ao lado. — Se quiser voltar para a água, não se incomode comigo — disse ela, ao vê-lo deitar-se. A frase descontraída que proferiu não foi nada convincente. — Relaxe, Samantha. Eu não mordo... Você gostou da piscina? — Muito bonita. O desenho dela enriquece a paisagem, ao invés de estragá-la. — Seu biquíni não faz o mesmo com você. — Você prometeu não fazer comentários maliciosos. Lembra-se? — Só enquanto você tirava o roupão. E por que você pensa que eu convido mulheres para banhos de piscina? Para examinar o corpo delas e fazer comentários. — E eu que imaginava que havíamos sido convidadas porque você queria boa companhia e conversa inteligente... — Samy deitou-se de bruços enquanto falava. — Vou bronzear as costas e ficar calada por algum tempo. — Quer que passe bronzeador nas suas costas? Samy olhou para Simon e viu que ele sorria malicioso. — Esse truque é velho, meu caro. — Eu sei. Mas trabalhei tanto na vida, que me desatualizei quanto às modernas técnicas de sedução. Samy percorreu o corpo dele com o olhar e comentou, com ironia: — Percebe-se que você tem trabalhado muito. — Já vi que perco o meu tempo tentando conseguir sua compaixão. O que acontece com as mulheres atualmente? — Estão ficando mais inteligentes. Simon levava a sério a posição de anfitrião e por isso Samy, aos poucos, começava a se descontrair e se mostrava muito simpática, muito embora a sensualidade dele fosse por demais provocante para passar despercebida. Ele, por sua vez, achava que as coisas caminhavam bem entre os dois. Era evidente que logo ela perceberia a impossibilidade de manter aquele noivado. Afinal Richard ainda amava Amanda. Por outro lado, Samy não parecia enciumada. Que jogo seria aquele? Simon era bastante perspicaz e sabia que a personalidade de Samy fora marcada pelo acidente ocorrido com os pais e que agora fazia o possível para apagar seu temperamento sensual e apaixonado. A reação dela era normal e compreensível, mas já estava em tempo de alguém libertá-la. E por que não Simon Radnor? Só que ele não faria nada por ela, caso não vencesse primeiro sua desconfiança. Mas isso só seria possível assim que ela desistisse daquele casamento insensato... — Ei, Samy! — O chamado de Richard quebrou o silêncio que se abatera entre os dois. — O que você acha de desafiarmos Simon e Amanda para uma partida de pólo aquático? — O que é que você tem na cabeça para lançar um desafio desses? — perguntou Samy, com o rosto contraído numa careta. — Preciso de reforços. Amanda está me fazendo de tolo aqui na piscina. Bem... Era hora de representar o papel de noiva amorosa. ― Já vou — retornou ela, erguendo-se. — Venha, Simon! — gritou Amanda. Quando se encaminhavam em direção à piscina, Samy olhou para trás a fim de saber se Simon havia atendido ao chamado de Amanda. Havia. E tinha um olhar perverso, algo em mente que Samy sabia o que era. Saiu correndo, mas não foi rápida o suficiente. Ele a alcançou e a ergueu nos braços. — Simon, não se atreva! — protestou, enquanto ele a carregava até a borda da piscina. O sorriso de Simon tornou-se ainda mais sádico, se é que tal coisa era possível. Samy agarrou-se ao pescoço dele, decidida a não ser atirada na piscina. Só que ele estava com outras idéias em mente. — Respire fundo, gatinha! — Sem mais uma palavra, ele se atirou à água. Ao sentir o contato da água fria contra sua pele superaquecida, Samy quase perdeu o fôlego e, por instantes, agarrou-se mais a Simon, buscando o calor de seu corpo. Por fim, desvencilhou-se. — Água de chuva coisa nenhuma! — reclamou ela. — Você jogou cubos de gelo na piscina! — Vamos, querida — chamou Richard, rindo. — Vamos jogar. Logo você estará aquecida. Durante vinte minutos os quatro brincaram com animação. Simon e Richard estavam sempre em vantagem; Samy, a menor dos quatro, era quem mais se esforçava. Quando Simon propôs um intervalo para descanso, ela saiu da piscina e desabou na espreguiçadeira. Enquanto os homens foram buscar as bebidas, Amanda sentou-se ao seu lado e perguntou-lhe em tom amigável: — Você vai sobreviver, Samy? Samy abriu os olhos. — Preciso recuperar o fôlego. — Sabe o que me ocorreu? Os homens pretendem monopolizar a bola. — É... Isso também me ocorreu na terceira vez em que Richard pulou na minha frente para agarrá-la. Amanda sorriu maliciosa antes de perguntar, insinuante: — Você já notou como é difícil evitar trombadas ali? Samy retribuiu o sorriso e piscou. — É mesmo, Amanda. E às vezes os homens são tão desajeitados, não? — É... Você cuida de Richard e eu de Simon. Assim eles não nos acusarão de mais nada. Samy concordou prontamentecom o plano. Nesse momento os dois voltaram. Richard sentou-se na espreguiçadeira em que Samy estava e ofereceu-lhe um copo de refrigerante. — Você parece um anjo encharcado — disse ele, brincando com uma mecha que caia sobre a testa de Samy. Simon, que puxara uma cadeira para perto do grupo, completou: — Um anjinho de Botticelli e uma Vênus de Ticiano. Parece que conseguimos obras de arte de dois mestres. E assim, conversando amenidades, descansaram por mais alguns instantes. Ao voltarem ao jogo, provavelmente eles tinham como certo que Amanda e Samy estariam com entusiasmo redobrado. Por isso, atiraram-se à partida com vigor. Só depois de alguns tombos e encontrões provocados pelas duas é que perceberam as verdadeiras intenções de Amanda e Samy. — Estão zombando de nós — anunciou Richard, franzindo o cenho. — Você tem razão — concordou Simon, percebendo que elas se afastavam para as bordas da piscina. — Pegue Amanda. Ela está mais perto de você. Samy estava quase fora da piscina, quando sentiu as mãos de Simon agarrá-la. ~ — Ora, Simon, foi só uma brin... Simon! Ele a ergueu acima da cabeça e, segundos depois, ela foi arremessada para o meio da piscina, espirrando água em todas as direções. Logo depois, Amanda caía ao seu lado. — Você vai ver! — gritou Samy. Ato contínuo, ela e Amanda saíram atrás dos dois. Embora Richard e Simon tomassem direções opostas, a perseguição < não durou muito tempo, pois Amanda logo alcançou Richard, uma vez que nadava melhor do que qualquer um deles. Simon, por sua vez, limitou-se a recuar até a borda dá piscina onde ficava de pé e Samy não. Assim que chegou perto, atirou-se ao pescoço dele, tentando derrubá-lo. Entretanto, Simon não se moveu um centímetro. Em vez disso, Samy ficou pendurada em seu pescoço. — Não precisava se atirar em cima de mim, querida. Era só pedir. Samy fuzilou-o com o olhar e tentou se desvencilhar. Contudo, o ímpeto do ataque deixara seus corpos bastante próximos, e qualquer movimento que fizesse apenas aumentaria a embaraçosa intimidade do contato. As risadas de Amanda e Richard indicavam que eles haviam feito "as pazes". Samy precisava escapar antes que a atenção deles se voltasse para ela. Para complicar ainda mais, ela se deu conta de que o calor que sentia e o ritmo acelerado de seu coração não decorriam apenas do exercício. Chocada, descobriu a verdadeira natureza de seu estranho comportamento: enquanto a mente abstinha-se de pronunciar o julgamento final, seu corpo já se decidira por Simon. O contato com aquele corpo rijo e vigoroso, a virilidade agressiva, o pescoço forte que ela segurava, as mãos firmes que pousavam em sua cintura... tudo conspirava contra ela. Aquele homem era uma ameaça: precisava fugir dele. — Não fique aí rindo, Simon — pediu Samy, percebendo um brilho malicioso nos olhos dele. — Ajude-me a ficar de pé. — Ah, sim... claro. Ainda sorridente, Simon carregou-a para a parte mais rasa. Assim que ela sentiu o chão, desvencilhou-se dele e nadou aliviada em direção à escada, a fim de sair da piscina. O grupo gastou o resto da tarde preguiçosamente, tomando sol e nadando, sem qualquer contato físico. Samy juntava-se à conversa ocasionalmente, mas a maior parte do tempo tentava se ajustar à nova situação. Agora era obrigada a considerar Simon sob um novo e incômodo ponto de vista. É que, com irritação, percebia seu olhar buscando insistentemente o corpo dele. Repentinamente Simon começava a parecer-lhe fascinante. Tinha que manter a cabeça no lugar. Esse tipo de atração costumava desaparecer rapidamente, e, de agora em diante, evitaria situações arriscadas como, por exemplo, encontros em piscinas...Por sorte, o suposto noivado com Richard, àquela altura, a protegia satisfatoriamente. Por volta das quatro e meia eles abandonaram a piscina e foram se trocar para o chá. Alguém se lembrara de colocar um secador de cabelos à disposição de Samy e Amanda, e em pouco tempo estavam prontas. O chá seria servido no terraço. Os homens estavam lá quando elas chegaram, e conversavam animadamente com a sra. Radnor. De outro lado, a sra. Gessner dava os últimos retoques na mesa, completamente tomada por sanduíches, tortas, doces e bolos. — Meu Deus! — exclamou Amanda. — Vou jejuar uma semana depois disso. — Vocês demoraram — comentou Richard. — Pensávamos que vocês haviam se perdido. — Ele sentiu sua falta, Samy — disse a sra. Radnor. — Bobagem — respondeu Samy. — Ele ansiava por se atirar à comida, isto sim. Todos riram, até mesmo Richard, que não se importava que zombassem de seu ótimo apetite. A sra. Gessner, que já tivera uma ótima impressão do "belo Herr Doktor", com aquele comentário o colocou num conceito ainda mais alto. — Fui eu que preparei tudo — ela disse sorridente antes de se retirar. — A sra. Gessner procura alguém com um apetite descomunal — informou a sra. Radnor. — Simon é uma tremenda decepção para ela. — Bem, eu farei o máximo possível para que a senhora Gessner sinta-se prestigiada —- disse Richard. — Vocês devem estar famintos depois de tanto tempo na piscina — disse a sra. Radnor. — Sirvam-se à vontade. Simon, você me traz um sanduíche e um pedaço de torta de chocolate, sim? Enquanto se dirigia para a mesa, Samy tentou esconder um sorriso. O "pedido" da sra. Radnor tinha o mesmo tom autoritário que Simon usava, Era engraçado escutar aquilo. — Você está com uma cara... — comentou Simon, ao seu lado. — Parece uma gata que acaba de tomar leite roubado. Samy, que olhava para a mesa, pensando por onde começar, sobressaltou-se. Porém, ao atinar sobre o que ele falava, não se conteve e riu, fazendo uma feição marota. — Sua avó está esperando. Ele ergueu uma sobrancelha. — Já entendi. Você acha interessante alguém me dar ordens. — Bem, Simon, você faz isso o tempo todo. — Já lhe expliquei que é uma característica dos Radnor, contra a qual não posso lutar. — É mesmo? — Claro. Por sua vez, vovó também é mandona. Por que não faz a mesma coisa? Seria divertido você me dar ordens. — É uma sugestão tentadora, mas duvido que Richard aprove. Além do mais, sou desobediente. Portanto, procurarei ignorar as suas ordens. É uma característica dos Abbott. — Não obedecer a ordens? — Não suportar tirania — corrigiu ela. — Praticamos isso desde a revolução. Simon sorriu e olhou para o prato dela. — Se você comer tudo o que colocou no prato, não terá condições de se rebelar. Samy seguiu o olhar dele e arregalou os olhos ao ver o que fizera. Enquanto conversava, distraidamente ela enchera o prato, até quase o seu limite. — Oh, não! Nunca comerei tudo isso! — Ora, pense em como deixará a sra. Gessner feliz. — Ah, sim, claro. Para voltar para casa eu iria rolando. Nem precisaria do carro. Por fim, Samy comeu o que conseguiu e, quando Richard convidou-a para uma volta no imenso jardim, ela gemeu e sacudiu a cabeça. — Não posso. Comi demais. Preciso descansar um pouco. — Vão você e Amanda — sugeriu Simon. — Enquanto Samantha se recupera, ficaremos aqui e faremos companhia para a minha avó. Após a saída de Richard e Amanda, a sra. Radnor comentou: — Essa jovem é bem mais simpática do que o pai. Samy concordou: — Ela mudou bastante desde o ano passado. — Qualquer uma mudaria — tornou a sra. Radnor. — Uma mulher que se casa e se divorcia em pouco mais de um ano precisa mudar seus conceitos. — Ela poderia evitar isso — disse Simon. — Se não estivesse cega pelo dinheiro de Stuart Thompson, com facilidade descobriria que ele é cruel com mulheres, chegando até a agredi-las fisicamente. Samy desconcertou-se com o tom enérgico e ríspido que Simon usara. Certamente ele nutria pouca simpatia por Amanda. E estava sendo injusto. Afinal, Amanda pagara por seu erro. Pensando no modo como Simon pensava e agia, Samy chegou à conclusão de que basicamente o cinismo dele dirigia-se às mulheres. Isso explicava o antagonismo que havia entre os dois. Ela o achara arrogante, maso que classificara como arrogância talvez fosse na verdade apenas um grande desdém com relação às mulheres. Talvez alguma o tivesse desiludido... CAPÍTULO IV Pouco tempo depois, a sra. Gessner chegou ao terraço e informou: — Sr. Radnor, o sr. Daniel Smith está ao telefone. Simon suspirou e levantou-se. — Com licença. Receio que eu demore um pouco. A sra. Radnor fez uma expressão de desagrado ao vê-lo desaparecer dentro de casa. — Negócios, sempre negócios! O rapaz tem trinta e cinco anos, e tudo o que fez até hoje foi dedicar-se àquela empresa! Com a mesma idade, o avô dele já havia constituído família. — Hoje as pessoas casam-se mais idosas — comentou Samy, reprimindo um sorriso. — Simon ainda é considerado jovem para se casar. — Eu entendo, mas o que me preocupa é sua falta de inclinação para o matrimônio. Ele fez fortuna muito cedo. Quando tinha vinte e cinco anos, já possuía mais do que precisava. E encontrou muitas mulheres que se interessavam mais pelo dinheiro do que por ele, por isso se indispôs contra o casamento. Aquilo explicava a má impressão que ele tinha de Amanda. Entretanto Samy não acreditava que alguns encontros com mulheres interesseiras causariam desprezo e desencanto tão grande quanto o que pressentia nele. Evidentemente não era da conta dela, mas Samy queria saber algo mais... — Eu quero que Simon encontre uma garota simpática como você e organize uma família. Ele tem um instinto protetor bastante forte, exatamente como o avô. Precisa ter alguém para cuidar, além de uma velha com problemas do coração. Tenho certeza de que ele daria um ótimo marido, exatamente como o meu William. As palavras dela deixaram Samy nervosa. — Eu e Richard... — Ah, sim! — a sra. Radnor interrompeu. — Você e Richard... Não sei o que vocês têm em mente mas, depois de vê-los juntos, tenho certeza de que não é casamento. É mais do que evidente que o doutor está de olho em Amanda Marlowe. E, francamente, não vi você fazer qualquer objeção a isso. Samy abriu a boca para dizer alguma coisa, todavia não conseguiu articular nada apropriado. — Não se preocupe, não vou denunciá-la. Além disso, mostrarei a meu neto que ele não é tão esperto quanto pensa. Os homens precisam de algumas lições de vez em quando. — Pode ser. Mas, por favor, não conte nada a ele, antes que eu dê o sinal verde. — Não se preocupe, querida. Não tenho pressa alguma. — Não tem pressa para quê, vovó? — perguntou Simon, que voltava naquele instante. — Se você acha correto abandonar seus hóspedes para atender a telefonemas de negócios, não espere que eles repitam a conversa especialmente para você. Simon sentou-se e, com um suspiro, olhou desalentado para Samy. — Viu como ela me provoca? Não tem o menor respeito pelo homem da casa. — Ê verdade — respondeu Samy. — E faz muito bem. — Você perguntou para a pessoa errada — disse a avó, rindo. — Samy tem bastante juízo. — Ela foi corajosa só porque a senhora está aqui para protegê-la. Simon sorriu de modo desconcertante e cheio de segundas intenções, enquanto Samy engolia em seco e desviava o olhar, saudosa dos tempos em que detestava Simon Radnor. Naquela noite, ao se preparar para dormir, Samy tentava ajustar-se à mudança no relacionamento com Simon, ou melhor, nas reações que ele lhe causara. Sinceramente esperava que ele não houvesse percebido as emoções que provocava. Até aquela tarde, Samy tinha certeza de que se pusera a salvo das garras dele. Nó entanto, a partir de então, sua confiança em si mesma recebera um grave golpe. A verdade é que estava acostumada a controlar as emoções e detestava sentir-se vulnerável. Mas, não podia negar, começava a apreciar a companhia de Simon. Ainda bem que havia Richard para protegê-la. Com o tempo, aquela forte atração por Simon desapareceria, ou então ela aprenderia a controlá-la. Enquanto isso, o evitaria tanto quanto possível. Samy deitou-se com tais planos, sem saber que Simon também traçava os seus, e que um deles era justamente não permitir que ela o evitasse. Na semana seguinte, Samy viu Simon Radnor pelo menos uma vez por dia. Quando ele e Richard não combinavam programas para a noite, Simon ia até sua casa levando doces da sra. Gessner, enviados pela sra. Radnor. O comportamento dele era impecável, gentil, respeitoso, inatacável. Em conseqüência, Samy perdeu definitivamente a paz de espírito. Pensou em pedir para Richard que dispensasse as saídas noturnas, mas não teve coragem. Eram as únicas ocasiões em que ele podia estar ao lado de Amanda sem se comprometer. Apesar de estar convencida de que Amanda não era a mesma, Samy compreendia a cautela de Richard. Na noite de sábado, os dois casais saíram para jantar e depois para dançar na Janson's. A segunda parte do programa não agradou Samy. Como previra, Richard dançava a 'maior parte do tempo com Amanda; com isso Simon ficava muito tempo com ela. E o pior, sempre as músicas lentas sobravam para ele. Precisava conversar seriamente com Richard sobre isso. Principalmente porque, numa ocasião dessas, ela relutara em abandonar o abraço de Simon ao final da seleção. E dessa vez não tinha havido nem a desculpa de uma enxaqueca. Como podia ela controlar as emoções quando sentia o coração bater desordenadamente e o corpo arder de desejo, dominado pela sensualidade daquele homem? — Richard e Amanda formam um belo par -— comentou Simon, enquanto dançava com Samy pela quarta vez. — Não acha? Samy olhou para os dois amigos que dançavam completamente absorvidos na contemplação um do outro. — Com essa pergunta, se não me engano, você quer insinuar que eu e Richard não formamos um belo par. Correto? — Correto. Veja, até no tipo físico eles combinam; ele é moreno, ela ruiva... Nós também combinamos: somos claros, ardentes... — Você é incrivelmente gentil, Simon. Simon riu da expressão de desagrado no rosto dela. Depois, assumiu uma expressão séria e perguntou-lhe: — Você não vai dificultar a situação deles, vai, Samantha? Creio que você já percebeu que ele está apaixonado por Amanda. — Cuide de sua vida, sim? — Além de tudo, é teimosa como uma mula — resmungou ele. Durante o intervalo seguinte, Simon surgiu com mais uma de suas surpresas: — Eu pretendo dar uma festa em breve. Samantha me disse que existe uma porção de pessoas curiosas para ver a reforma que fizemos na propriedade. — Que ótimo! — exclamou Amanda. — Quando será a festa? Quantas pessoas você vai convidar? — Daqui a duas semanas, e convidarei umas cento e cinqüenta pessoas. — Isso deixa pouco tempo para os preparativos — observou Samy. —- Não será trabalho demais para sua avó? — A maioria dos preparativos já foi iniciada, e vovó não fará nada a não ser aprovar os arranjos. Só que, para ter certeza de que ela não se incomodará, gostaria que você e Amanda recebessem os convidados. Mais uma bela cilada! É claro que Samy concordou, pois não gostaria de decepcionar a sra. Radnor. Só que não o fez com o mesmo entusiasmo de Amanda. Durante o resto da noite, Samantha controlou a situação de modo a dançar apenas mais uma seleção com Simon. Mas não pôde controlar a mulher desconhecida, ousada, ardente que se manifestava cada vez com maior freqüência em seu íntimo. Permitiu que ele a apertasse contra si mais do que seria conveniente e, o que devia ser uma dança, acabou por se tornar um abraço ao som de música. Sem dúvida, um escândalo para uma mulher supostamente noiva. No dia seguinte, longe da influência maléfica de Simon Radnor, Samy lamentou-se com Kate, queixando-se de seu comportamento vergonhoso e indecente: — Sou descendente de gerações de habitantes típicos da Nova Inglaterra, Kate. Pessoas de fibra e de princípios morais rígidos, incapazes de sucumbir ante uma tentação. — Ora, deixe disso. Nem todos os habitantes da Nova Inglaterra foram assim. Do contrário, Hawthorne nunca teria escrito A Letra Escarlate. — Você é mesmo um grande conforto para mim.— Mas é verdade. Havia bruxas, missas negras, adúlteras, pecados terríveis. A Nova Inglaterra estava cheia de pessoas normais. — brincou Kate. — Por favor, Kate, fale sério. — Está bem. Já que você insiste... Por que não acaba com esse falso noivado com Richard? Se fizesse isso, você não veria Simon Radnor com tanta freqüência. Richard está seguro com relação a Amanda? — Está, mas prefere manter a farsa por mais algum tempo. Não posso abandoná-lo agora. De mais a mais, esse compromisso com Richard serve de proteção para mim. — Seria mais coerente você recusar qualquer convite de Radnor. Não precisaria de proteção alguma. — Pois sim! — Além disso, essas saídas a quatro podem causar outros problemas... O povo já está falando certas coisas. — Só faltava essa! O que estão dizendo? — Bem, a opinião geral é de que a insidiosa serpente Amanda está prestes a agarrar Simon Radnor por causa do dinheiro, ou então de que planeja arrancar o simpático dr. Bohlen da pobre Samantha Abbott. Samy tinha perfeita consciência da propensão dos habitantes locais pára se meterem na vida alheia, mas nos últimos dias preocupara-se com tantas coisas que nem ao menos se dera ao trabalho de imaginar o que os fofoqueiros da cidade pensavam sobre os passeios dos "pares trocados", como Kate intimamente os apelidara. Agora, porém, começava a pensar no assunto, até porque imaginava um possível final feliz para Amanda e Richard. Certamente o passado de Amanda não a tornara uma pessoa querida na cidade, por isso, sem hesitação, muitos acreditariam que ela "roubara" o noivo de Samy, algo desagradável não só para ela, como também para os demais envolvidos. Infelizmente, pelo menos no momento, Samy não encontrava uma solução para o problema. Ao ser informado de suas apreensões, Richard não se incomodou, embora concordasse em parar com as saídas a quatro durante algum tempo. Uma decisão fácil de ser executada, pois Simon pretendia se ausentar a negócios. Quando soube que Simon estaria fora da cidade por uma semana, Samy sentiu-se aliviada. Enfim teria uma semana de paz, sem se preocupar com uma possível investida de Simon! No entanto, após dois dias de calma e paz, sentia-se terrivelmente entediada. A rotina que conservara anos a fio agora a aborrecia. Seria possível sentir falta da perturbadora presença de Simon? Assim que esse alarmante pensamento apresentou-se, Samy procurou rejeitá-lo, mesmo porque, às vezes, ele era uma companhia agradável, embora pusesse abaixo suas defesas, abalando seu autocontrole. Simon a deixava confusa; acima de tudo tinha a audácia de invadir até seus sonhos! Por isso, àquela altura, estava mais do que satisfeita por ele estar longe por algum tempo. Após explorar todos os ângulos da questão, Samy tratou de se concentrar em assuntos mais prosaicos, como, por exemplo, o que vestir na festa. Kate encontrava-se às voltas com este problema, uma vez que John fora convidado. Desta forma, elas combinaram e foram juntas até Stamford fazer compras. Na volta, Samy queixava-se de ter sido influenciada por Kate a comprar um vestido caríssimo e extremamente ousado. — Nunca deveria ter comprado este vestido — ela comentou, dirigindo-se ao estacionamento. — Meu saldo nunca mais será o mesmo. Eu nem sei como aparecer em público vestida de modo tão indecente! — Esta roupa não é indecente — retrucou a outra. — Além disso, ficou muito bem em você. Quanto ao caimento, Kate estava certa. O problema era o modelo, sem alças, que causava muita insegurança a Samy, pois parecia que o vestido cairia a qualquer momento. Dias depois, vestindo-o para a festa, Samy examinava sua aparência frente ao espelho. Suas faces estavam rosadas, e seus olhos verdes brilhavam de ansiedade. Ela não admitiria que sua agitação tinha algo com o encontro com Simon. Muito menos admitiria que usava aquele vestido vermelho e sensual para impressioná-lo. Ao invés disso, procurava convencer-se de que a gárgantilha de pérolas que usava emprestava à roupa uma aura de respeitabilidade. Quando Richard chegou, sua reação foi tão entusiástica que novamente ela se viu em dúvida: deveria sentir-se envaidecida ou desconfiar da ousadia de seu traje? Por via das dúvidas, assim que Richard deixou o carro para buscar Amanda, Samy tratou de dar alguns puxões no vestido para ter certeza de que ele estava firme. Richard não demorou a retornar, já na companhia de Amanda, que parecia esfuziante num vestido de seda branca e negra, preso apenas em um dos ombros. — Samantha querida, seu vestido é sem dúvida algo arrasador. — Oh, sim, arrasador. Só que minha naturalidade também está completamente arrasada. Fico o tempo todo tentada a puxá-lo mais para cima. — Que bobagem, querida! Conheço o costureiro. Nada do que ele faz cai. A começar pelos preços. — Só você mesmo, Amanda — comentou a outra, rindo. — Você também está "arrasadora". Ao chegarem à mansão McDaniels, um jovem manobrou o carro para Richard no estacionamento, enquanto outro empregado conduziu-os diretamente à sra. Radnor, que os esperava muito elegante. Após os cumprimentos, ela chamou Samy de lado: — Dê uma voltinha para que eu veja melhor seu vestido, querida. Samy obedeceu-a prontamente. — Lindo! — concluiu a velha senhora. — Se fosse vinte anos mais jovem, eu o copiaria. Samy sorriu, deliciada, e então percebeu que havia mais alguém na sala. Voltou-se. Simon estava à porta, lindo em seu smoking preto. Seus olhares se encontraram, e um arrepio de excitação percorreu o corpo dela. Nesse instante o olhar de Simon desceu até o decote, e ele franziu a testa, contrariado. — Que diabos você está usando? — perguntou ele, ameaçador. Ao ouvirem a voz de Simon, os outros se voltaram. Só que ele trazia os olhos brilhantes de raiva, preferindo ignorar os outros dois. A súbita agressividade pegou Samy de surpresa. — Um vestido, ora — respondeu ela em voz baixa. É claro que não tentava ser engraçada. Simplesmente não sabia o que dizer. No entanto, Richard começou a rir. Só que Simon não mostrou o mesmo senso de humor. Ele mesmo espantou-se diante de sua reação possessiva e ciumenta, — Sei que é um vestido. Mas não há nada segurando essa coisa. — Francamente, Simon! — protestou Amanda. — É um vestido maravilhoso, e Samantha está ótima com ele. — Amanda está certa — disse a sra. Radnor, juntando-se à defensora de Samy. — Além do mais, ela tem todo o direito de usar o que bem entender. — Sem dúvida, ela vai agradar a todos os homens com menos de noventa — replicou Simon. A magia inicial de Samy começava a transformar-se em raiva. Quem era Simon para criticá-la, fazendo-se de puritano? E que importância tinha a opinião dele, afinal? — O vestido é perfeitamente seguro — informou ela com desdém. — Eu nunca usaria uma roupa que fosse cair. Há elásticos segurando-o. — Seria melhor que os elásticos estivessem à vista — retrucou ele, virando-se abruptamente para Richard antes que Samy respondesse. — Vamos beber alguma coisa no estúdio. No momento elas não precisam de nós. Além disso, parece que esta noite não será nem um pouco agradável. Enquanto os dois se retiravam, Samy ficou imóvel, dividida entre a vontade de atirar um vaso em Simon, e a de sair correndo para chorar em algum canto. ' — Não ligue para Simon — aconselhou a sra. Radnor. — Às vezes os homens implicam com coisas tão sem importância... Na década de vinte, o meu William ficou três dias sem falar comigo só porque usei um corte de cabelo diferente. — Por um momento imaginei que ele pediria para que você fosse trocar de roupa na sua casa — disse Amanda, rindo. — Se ele fizesse isso, teria uma decepção — replicou Samy. Neste momento, lembrou-se de que Richard deveria tê-la defendido, pois, em tese, ele estava apaixonado por ela. "Será que Simon havia reparado naquela falha? Amanda, pelo menos, se percebera o fato, não parecia surpresa", refletiu. Na meia hora seguinte, as três mulheres supervisionaram os preparativospara a festa. Depois visitaram a cozinha e a área coberta onde ficariam as bebidas. A sra. Gessner organizara tudo muito bem, e, mesmo assim, a sra. Radnor sugeriu para que Samy e Amanda fossem de vez em quando à cozinha. — As pessoas gostam que seus esforços sejam apreciados, não importa o quanto estejam pagando a elas. Eu mesma irei até lá mas, enquanto isso, vocês duas poderiam me poupar de algumas caminhadas. Os Radnor receberiam os convidados no terraço, e um bar fora instalado em um canto. Na outra extremidade ficaria a pequena orquestra contratada para animar a festa, sobrando bastante espaço para os que quisessem dançar. Os bancos foram estrategicamente colocados para aqueles que preferissem uma conversa amena e confortável longe do barulho. Dentro, o salão do primeiro pavimento estaria à disposição dos convidados, e apenas um dos quartos de hóspedes seria oferecido às mulheres para colocarem seus casacos. Por volta das nove horas começaram a chegar os primeiros carros. Amanda tratou de buscar os homens no estúdio, enquanto Samy instalava a sra. Radnor em uma cadeira do terraço. — Pelo menos desta vez levo alguma vantagem nas proibições médicas. Não fossem elas, eu teria que ficar de pé horas a fio. Amanda retornou com Simon e Richard pouco antes dos primeiros convidados. Só Simon ficou a postos para receber os recém-chegados. Os demais se afastaram. — Vamos experimentar o Planter's Punch — sugeriu Amanda. — Comum ou super? — perguntou o sorridente barman, quando Richard pediu-lhe três copos de ponche, — Ficamos com o comum — pediram Amanda e Samy em coro. — Bem, eu vou experimentar o super — respondeu Richard. Após tomar um gole, Richard respirou fundo e sorriu. — Agora sei como aqueles plantadores do Caribe sobrevivem ao calor. Eles combatem fogo com fogo. Aos poucos o terraço foi enchendo de gente. As duas garotas começaram a circular por entre os convidados. As reações ao vestido de Samy variavam da curiosidade das mulheres à fascinação entre os homens. Quanto aos convites maliciosos que lhe fizeram, na grande maioria eram apenas de brincadeira. Por volta das dez horas, Samy foi à cozinha e à área onde era servida a comida. Tudo corria bem. Ao voltar, procurou por Amanda e Richard, só que não os localizou. Samy reclinou-se aliviada contra uma coluna. Tudo corria da melhor maneira possível. O terraço estava repleto de alegres convidados, que quase faziam mais barulho que os músicos. O barman não tinha sossego. As luzes instaladas no gramado estavam acesas, fazendo com que pequenos grupos explorassem os jardins. Quando pensou em se encontrar com a sra. Radnor, ela percebeu Simon vindo em sua direção. Por um instante, sentiu vontade de desaparecer entre a multidão. A mágoa que Simon lhe causara forçava-a a admitir que desejara que ele aprovasse seu vestido. Era um fato que a deixava, ao mesmo tempo, zangada e preocupada. Não sentia vontade nenhuma de conversar com ele, mas não pretendia fugir, mesmo porque ele a encontraria facilmente se quisesse. Assim, ela ficou à espera do assédio de Simon. — Minha avó dispensou-me do posto de anfitrião. Venha dançar comigo. O tom de voz dele era autoritário como sempre. Mas, de qualquer forma, um convite para dançar era a última coisa que Samy esperava. Antes que ela se apercebesse do que estava acontecendo, ele lhe segurava o braço e caminhava em direção à pista. — Simon! — resmungou por entre os dentes. — Quando se convida uma mulher para dançar, espera-se a aprovação dela. E se eu não quiser dançar? — Por que acha que não esperei pela resposta? — respondeu ele, cumprimentando os que encontrava pelo caminho sem dar-lhe maiores explicações. — Quando não se pretende uma resposta negativa, não há motivo algum para esperar a resposta. — Você é mesmo um... Simon tomou-a nos braços, impedindo-a de continuar seu protesto. Encostou os lábios em seu ouvido e murmurou: — Eu não iria permitir que você dançasse com alguém antes de ter certeza de que seu vestido está bem firme. Samy empertigou-se, zangada. — Relaxe, Samantha. Não vou começar outra briga. Já recebi uma descompostura de minha avó. Ela não respondeu. Tinha outros motivos para se preocupar. Lutava contra a crescente excitação que sentia desde os primeiros movimentos dos lábios de Simon roçando-lhe a orelha, e que crescia à medida que seus corpos se aproximavam. Os braços fortes de Simon apertavam-na cada vez mais. Dizia a si mesma que iria resistir, entretanto seu corpo tratava de desmenti-la. Quando a música chegou ao fim, Simon soltou-a lentamente e olhou com satisfação para seus olhos verdes e sonhadores. Depois, analisou criticamente o vestido e sorriu malicioso. ― Até agora, tudo bem . Pode dançar, mas não vá passear no escuro. ― Seu ...seu... Samy ainda procurava um adjetivo adequado para dirigira a Simon, quando um rapaz aproximou-se, convidando-a para dançar. Ela lançou um último e furioso olhar a Simon antes de aceitar o convite com um sorriso. Algumas danças depois, Samy recusou um convite e entrou na casa. Ao passar pela sala de estar, viu a sra. Radnor sentada no sofá, cercada por alguns convidados. Lançou-lhe um olhar inquiridor e recebeu em troca um sorriso. Estava tudo bem. Foi à cozinha, onde a sra. Gessner informou-lhe que Amanda não aparecera ali há mais de uma hora. Voltando para o terraço, Samy pensava no que motivara aquele descaso por parte de uma pessoa que sempre levava a sério seus compromissos e deveres sociais. Avistou Amanda num canto, conversando com os pais. Repentinamente, a sra. Marlowe abraçou a filha com um sorriso de alegria. O sr. Marlowe, também sorridente, afastou-se. Amanda tentou detê-lo, mas sem sucesso. O que estaria acontecendo? Quando chegou perto dos músicos, o sr. Marlowe disse algo a um deles, e imediatamente a música parou. — Por favor! — gritou o sr. Marlowe. — Senhoras e senhores, peço sua atenção por um momento. — Que diabos ele está fazendo? Ao ouvir a voz alterada a seu lado, Samy voltou-se. Era Richard, que trazia dois copos nas mãos. — Segure isto — pediu ele, antes de se enfiar entre a multidão, em direção a Amanda, que discutia com a mãe. — Sua atenção, por favor! — repetiu o sr. Marlowe. — Tenho uma notícia que muito me envaidece. Sinto-me feliz e orgulhoso em anunciar o noivado de minha filha Amanda com o dr. Richard Bohlen. "Oh, meu Deus!", pensou Samy. "O que o idiota está falando?" Os aplausos fizeram com que ela se recuperasse do choque. Sua mente começou a trabalhar em ritmo vertiginoso. Provavelmente Richard e Amanda conseguiram se entender depois da última vez que Samy os vira. Provavelmente Amanda contara aos pais, e, sob o efeito da bebida, o sr. Marlowe esquecera todas as regras de bom comportamento e anunciara o noivado da filha, que mal acabara de se divorciar. Agora, o máximo que Samy poderia fazer era agir com naturalidade, para evitar comentários de que Amanda lhe roubara o noivo. Assim, ela assumiu uma expressão alegre e correu de encontro ao casal, que recebia cumprimentos de alguns convidados. — Amanda, estou tão contente! — exclamou, abraçando a outra. — Não consegui detê-lo — sussurrou Amanda. — Eu sei — asseverou Samy, antes de erguer a voz. Até que enfim Richard tomou uma atitude. Samy virou-se para Richard e deu-lhe um beijo no rosto. — Obrigado, Samy. A seguir, ela deu lugar às outras pessoas que pretendiam conversar com o casal. Afastou-se e foi passear pelo terraço, determinada a demonstrar aos convidados que realmente estava feliz com o noivado dos amigos. Encontrou-se com duas notórias fofoqueiras da vizinhança, a sra. Bates e a srta. Beasley. Samy não era tola. Tinha certeza de que ainda haveria muita especulação sobre a revelação surpreendente feita pelo sr. Marlowe, embora poucas pessoas tivessem coragem de fazer perguntas. Só que a srta. Beasley tinha... — Samy, querida... Nós achávamos que você e o dr. Bohlen... Vocêssaíam sempre juntos, não é? — Nossa, quanto equívoco da parte de vocês. Pelo que vejo, nossas saídas em grupo confundiram todo mundo — respondeu Samy, sorrindo, — Eu estava sempre com Simon Radnor, não com o dr. Bohlen. Talvez devêssemos ter anunciado. Samy estava prestes a dizer "quem saía com quem", para que não houvesse confusão, porém a sra. Bates interrompeu-a. — Viu? Eu não disse? O doutor sempre foi apaixonado por Amanda Marlowe. — E virou-se para Samy outra vez. — Seria maravilhoso se você e o sr. Radnor também anunciassem o noivado hoje. Você deve estar ansiosa para prendê-lo o mais rápido possível, não é mesmo? — Mas... Mas, eu não... — Ah, e lá vem o felizardo! — saudou a sra. Bates. — Oh, sr. Radnor, Samy nos contou que para breve podemos esperar um novo casamento, Simon enlaçou a cintura de Samy e, com a voz macia, replicou: — É mesmo? Ela não conseguia abrir a boca. Um torpor começou a invadi-la. Sentiu vagamente a chegada de mais uma pessoa à cena. — Sra. Radnor, espero que esteja satisfeita com a novidade — disse a srta. Beasley. — Samy é uma ótima garota. Todos nós gostamos muito dela. Simon apertou ainda mais a cintura de Samantha. Só que ela, desistindo de lutar contra a tontura que a dominava, sentiu tudo rodar à sua volta... CAPÍTULO V Lentamente Samantha abriu os olhos. Richard estava inclinado sobre ela, e ao vê-lo lembrou-se logo do que havia ocorrido. — Oh Richard, a sra. Bates... Richard afastou-se um pouco e disse a alguém que estava perto; — Por favor, traga uma xícara de chá com bastante açúcar e um sanduíche, sim? Ainda indisposta, Samy fechou os olhos por alguns instantes. Ao abri-los novamente, passeou a vista ao redor. Haviam-na deitado no sofá de couro do estúdio da residência. De pé, ao seu lado, com a expressão severa, estava Simon. — Foi tudo um mal-entendido — balbuciou ela. — Não fale muito, Samantha — ordenou ele. — Conversaremos quando você estiver recuperada. — Assim é melhor — observou Richard. — Seu rosto já está tomando um pouco de cor. Como se sente? — Uma jovenzinha da era vitoriana — respondeu ela, com um sorriso débil. — Bem, pelo menos você não desmaiou porque seu espartilho estava muito apertado. O que foi que aconteceu? — Algo parecido — interpôs Simon, antes que ela respondesse. — Eu a segurava com força, e ela não podia, respirar. Quando ela tentou reclamar, pensei que queria apenas um espaço na conversa da sra. Bates e da srta. Beasley. Ah, então foi por isso que ela mencionou a sra. Bates quando voltou a si. Samy chegou a abrir a boca para desfazer o engano, mas Simon impediu-a novamente, — De agora em diante, serei mais cuidadoso. Eu havia esquecido de quanto Samantha é... delicada. — Mas... — Não se culpe tanto — disse a sra. Radnor, também presente, mas fora da visão de Samy. — Ela não é tão delicada assim. Não é sempre que uma jovem fica noiva. Tenho certeza de que a emoção também contribuiu para o desmaio. — Mas... — É verdade, Samy? — exclamou Richard. — Então foi isso que a srta. Beasley disse quando você desmaiou! Eu não havia entendido. Novamente Samy queria protestar, mas Simon lançou-lhe um olhar tão ameaçador, que ela desistiu imediatamente. Não fazia a menor idéia do porquê de ele querer manter o mal-entendido, mas algo lhe dizia para nâo contrariar Simon naquele momento. — Parabéns, amigo — continuou Richard, apertando a mão de Simon. — Bem que Amanda me alertou que vocês dois acabariam juntos. — Nunca duvide da intuição de uma mulher — disse Amanda, que entrava naquele instante com uma bandeja. — A notícia já chegou à cozinha, e a sra. Gessner está em êxtase, sabendo que terá mais uma boca permanente para alimentar. Ela colocou a bandeja na mesa em frente do sofá e continuou: — Samantha querida, tenho de confessar que admiro sua originalidade. Nunca soube de ninguém que anunciasse um noivado desmaiando. O que aconteceu? Desmaiou de felicidade ou de arrependimento? — Samy foi obrigada a sorrir, mas não se atreveu a olhar para Simon. — Não responda. Não quero embaraçá-la. Apenas beba seu chá. Depois, vamos deixá-los sozinhos para uma conferência de família. — Creio que ela já está bem, Amanda — disse Richard. — Coma um pouco, Samy, e descanse. Quando o casal saiu, pouco depois, Samy sentia-se bem disposta para enfrentar a "conferência de família", que foi aberta pela sra. Radnor. — Vocês devem ter muito o que conversar, por isso não vou ficar por muito tempo. Mas quero lhe dizer, Samy, que a notícia me deixou muito feliz e que esperarei com ansiedade pelo momento de recebê-la na família. Suspeito que você não tivesse a intenção de participar a notícia hoje, mas posso adivinhar o que aconteceu. Samy olhou para Simon e percebeu que a ordem era falar o menos possível. — É mesmo? — perguntou ela, cautelosa. — Oh, sim. Ouvi alguns comentários depois do espetáculo que deu o pai de Amanda. Imagino que você se atrapalhou ao tentar convencer aquelas duas fofoqueiras de que Amanda não roubou Richard de você. — Realmente, aquelas duas têm tendências de tirar conclusões precipitadas... — Bem, minha querida, não se preocupe mais com isso. Você e Amanda garantiram o sucesso da noite. Imagine só: numa só festa, dois anúncios inesperados de casamento! Samy sorriu a contragosto, enquanto a sra. Radnor se despedia. — E você, Simon, cuide bem dela. Não quero que desmaie outra vez. — Não se preocupe, vovó — assegurou ele, gentilmente, enquanto a levava até a porta. — Por que não vai se deitar? Teve uma noite cansativa. Amanda cuidará de tudo até que eu e Samy voltemos à festa. — Obrigada, querido. Estou mesmo cansada. Boa noite para vocês. Simon trancou a porta e voltou-se para Samy. — Simon, eu quero explicar... — Fique quieta e coma os sanduíches, Samantha. Preciso de uma bebida. Depois talvez eu tenha condições de ouvi-la sem sentir vontade de sufocá-la outra vez. — Sem dizer mais nada, ele caminhou até o bar e serviu-se de um uísque. Qualquer apetite que Samy pudesse ter desapareceu imediatamente. Suas piores suspeitas confirmaram-se: Simon estava furioso. Mas por que ele não corrigira o mal-entendido, nem permitira que ela o fizesse? Sem dúvida, ele percebera que tudo não passara de um engano... Ou será que não? Perdida em cogitações, Samy serviu-se, quase sem notar, de um sanduíche. Enquanto isso, Simon tentava controlar sua irritação. E conseguiu, em parte. Estava mais zangado consigo mesmo do que com Samantha. Recentemente, começara a achar que ela fosse como sua avó, uma dessas raras mulheres que não se deixavam fascinar pelo poder do dinheiro. Devia ter sido menos ingênuo. Agora havia caído na armadilha. Samantha, ao contrário de Amanda, não cultuava a religião do dinheiro e nunca mostrara nenhum tipo de avidez por bens materiais. Parecia interessada apenas em segurança. E no entanto, além de status e luxo, dinheiro também representava segurança. Simon franziu o cenho e olhou para o fundo do copo. Tinha de ser justo! Até aquela noite, Samantha nunca mostrara algum interesse por ele ou por seu dinheiro. Mas a perda de Richard e de um futuro seguro talvez a tivessem levado a mudar de atitude. Por outro lado, era evidente que ela não se sentia magoada ou surpresa com Richard e Amanda. "Seria a hipótese de sua avó correta? Samantha quisera apenas silenciar comentários maldosos, e as duas fofoqueiras é que haviam chegado a conclusões- precipitadas?", questionou-se. Sim, aquilo fazia sentido. Ela não seria tão boa atriz a ponto de enganá-lo por tanto tempo. Mas... até que seria irônico... A Samantha que ele tentara despertar poderia ter emergido com audácia suficiente para tentar agarrá-lo! Era preciso tomar providências para que ela não se sentisse tentada a fazer aquilo novamente. Bastaria representar um pouco e Samantha cairia na armadilha que havia preparado para ele... Quando Simon juntou-se a ela de novo, não parecia mais querer estrangulá-la. Contudo, sua expressãoera dura e hostil. Samantha achou que seus temores tinham fundamento. Ele devia ter chegado à conclusão de que ela era mais uma mulher ávida |5or seu dinheiro. Um julgamento humilhante, mas quase inevitável, considerando-se a atitude de Simon em relação às mulheres e à situação comprometedora em que ela o pusera. Simon não sabia ainda que seu noivado com Richard era falso... E seria melhor que não soubesse naquele instante. — Sente-se melhor? — perguntou ele, com uma voz suave e irônica. — Só vou me sentir bem quando essa confusão estiver esclarecida. Por que me impediu de explicar tudo? — Calma. Chegaremos lá num instante. Primeiro quero que você me explique a... "confusão". O jeito dele estava longe de ser encorajador, mas, de qualquer modo, Samy respirou fundo e começou a se explicar: — Contei às duas fofoqueiras que, em nossos passeios, eu estava sempre com você. Não queria que elas acusassem Amanda. A sra. Bates interrompeu-me no meio de uma frase e, quando dei por mim, ela já estava falando em noivado. — E, naturalmente, você não quis ser rude e dizer-lhe que estava enganada. — Você chegou antes que eu pudesse fazê-lo. — Ah, sim. Agora me lembro. A sra. Bates a aconselhava a me agarrar assim que pudesse. E logo depois anunciou o nosso noivado. Muito interessante! — A sra. Bates é incapaz de repetir qualquer coisa do mesmo modo que a ouviu. Ela sempre acrescenta algo. Se você vivesse aqui há mais tempo, já teria aprendido a não acreditar no que ela diz, antes de verificar os fatos. Elas não são maldosas, mas adoram fofocas. Simon sorriu. — Quer dizer então que a situação não passa de um lamentável mal-entendido... Nunca lhe passou pela cabeça que, na falta de Richard, você teria segurança ao lado de um homem que não detesta, afinal. — Foi tudo um mal-entendido — disse ela furiosa. — E tenho dúvidas quanto a sua última frase. Simon teve de usar todo o seu autocontrole para não dar gargalhadas. Descobriu que, apesar da raiva, estava começando a se divertir. Samantha parecia uma gata furiosa, com o cabelo desarrumado, os olhos brilhantes de ira. — Você não espera que eu acredite nessa história ridícula... — Não me interessa se você acredita ou não! — gritou ela, erguendo-se. — E não pretendo ficar aqui e ser insultada! Estava a meio caminho da porta quando sentiu-se erguida no ar. Espantada, percebeu que ele a carregava nos braços, de volta para o sofá. Uma vez sentada, e passada a surpresa inicial, ela tentou se erguer novamente. Ele, porém, a impediu. — Samantha, querida, lembre-se: você precisa descansar. Ordens do médico. Simon queria provocá-la. Não adiantaria nada tentar fugir. — Você é tão culpado quanto eu por esta situação. — "É tudo sua culpa!" — disse ele, em falsete. — A eterna reclamação feminina! — Não fomos nós as inventoras disso. Lembre-se de Adão e Eva. De qualquer modo, se você não tivesse me apertado tanto, eu teria resolvido tudo. E você? Por que não esclareceu tudo? — Nada teria me dado mais prazer, se minha avó não tivesse i entrado justamente quando a sra. Bates anunciava a grande novidade. Infelizmente, ela está louca para que eu me case. Ficou j tão contente com a notícia, que não tive coragem de desmentir. Além disso, toda a agitação da festa, seu desmaio... poderiam ser demais para ela. — É... realmente — Samy foi obrigada a concordar com ele. — Mas como vamos explicar a todas as pessoas lá fora que tudo não passou de um engano? — Não vamos — respondeu ele, com um sorriso cínico. Samy arregalou os olhos. Ele, provavelmente, bebera tanto ponche quanto o sr. Marlowe. — Simon, todas as pessoas pensam em noivado como a véspera do casamento. — Correto. E se dissermos a eles que não estamos noivos, faremos papel de tolos. Talvez você não se incomode, mas, na minha posição, não posso parecer tolo em situação alguma. Isso deixaria nervosas as pessoas com quem faço negócios. — E o que você tem em mente? Está planejando casar-se comigo só para não deixar nervosos os seus clientes? — Não. Sugiro apenas um falso noivado. A menos que você tenha uma solução melhor. — Poderíamos muito bem contar a todos o que realmente aconteceu. — O quê? A história maluca que você me contou? Acha que alguém acreditaria? — A história pode ser maluca, mas é verdadeira. — Mesmo que seja, você teria coragem de ir até o salão e tentar convencer os convidados? Por mais absurdo que parecesse, ela não tinha. Também não queria fazer papel de tola. Além disso, ela também era parcialmente culpada. — E quanto tempo duraria esse noivado falso? — perguntou ela, ignorando uma voz no fundo de sua mente, que lhe dizia que ainda se arrependeria de aceitar aquele plano. — Alguns meses. Pouca coisa. — Meses? É impossível, Simon! — E não será um noivado falso; será real. Ê claro que não precisa temer: não terminará em casamento. Mas, se você o considerar falso, não conseguirá convencer ninguém. — Simon, não posso... — Claro que pode! — Eu não vou... — Vai sim, Samantha. Samy começava a ficar irritada. Por que ele não permitia que ela chegasse ao fim de, pelo menos, uma frase? — Simon, quer me deixar... Desta vez, a interrupção foi de natureza diferente. Sem nenhum aviso, ele pousou os lábios sobre os dela, num beijo feroz e apaixonado. Pronta a empurrá-lo, Samy colocou-lhe as mãos no peito, quando ele a abraçou com firmeza. Pela segunda vez no mesmo dia, sentia a cabeça girar. Porém, desta vez, a sensação era, sem dúvida, muito agradável. Samy tinha perfeita consciência de que deveria resistir com todas as forças àquele ataque. E continuava a dizer que o faria a qualquer instante. Mas... Para que ter pressa, se as mãos que lhe acariciavam o corpo punham-na em fogo, e a língua quente que lhe invadia a boca entreaberta fazia com que seu sangue fervesse nas veias, e a pressão daquele corpo viril contra o seu provocava-lhe reações desconhecidas e deliciosas? O desejo de resistir desapareceu aos poucos, perdendo-se num mar de sensação pura. Quando seus lábios se separaram, a frustração tomou conta de Samy. Estendendo os braços, ela o puxou contra si. Nada era mais importante naquele momento. Ao sentir que ele resistia, abriu os olhos levemente e murmurou-lhe o nome. — Você é uma feiticeira — sussurrou ele, a voz carregada de desejo, a custo reprimido. — E me faz esquecer que... Samantha, você vai me ajudar a manter essa farsa, não vai? — Simon... — Diga que sim, querida, diga. — Sim. Ele se ergueu bruscamente — Eu vou domá-la, feiticeira. Você nunca desejou tanto um homem, não é? Quando eu a tiver, não se importará com mais nada além de mim. A atmosfera de sensualidade que a envolvia desfez-se abruptamente. Humilhada, ela percebeu que Simon pusera abaixo suas defesas. Por alguns momentos esteve prestes a explodir de raiva, mas depois se convenceu de que fora justamente por falta de controle que aquele episódio lamentável acabara de ocorrer. Com visível satisfação, Simon a observava, notando-lhe a perturbação. Ela não podia dar-lhe aquele prazer. Assim, reuniu todas as forças de que dispunha, descerrou os pulsos e ajeitou os cabelos com aparente calma. — Estou bem impressionada com a sua habilidade, Simon, mas não precisa ser tão presunçoso. — Você é muito severa, querida. De qualquer modo estou satisfeito em obter sua cooperação. — Fui coagida. Ele estendeu a mão e ajudou-a a pôr-se de pé. — Samantha, não abuse de sua sorte. Você nos enfiou nesta confusão com sua mentira, e não vai se safar tão facilmente, Não pode voltar atrás só porque o resultado lhe desagradou. — Quantas vezes preciso dizer. Foi tudo um... —... um mal-entendido. Já ouvi isso. De qualquer modo, nada teria ocorrido se você não juntasse nossos nomes. Nesse ponto, Simon acertara. Samy admitia isso. Além disso, ela não queria que ele recomeçasse com seus métodos de "persuasão". Por ora o melhor era mesmo aceitar aquela proposta malucae pensar em alguma coisa para mais tarde. — Muito bem. Eu concordo, mas com uma condição. O noivado é apenas uma farsa para o público. Não admito que se aproveite da situação. — Não se preocupe, Samantha. Não farei nada que você não queira que eu faça. Samy não gostou muito das palavras que ele escolhera, mas preferiu não fazer comentários. — E sua avó? Vai contar a verdade a ela, não vai? — Depende de como ela se sentirá amanhã. Se for possível, direi tudo... A propósito, se alguém perguntar, pode dizer que seu anel de noivado chegará na semana que vem. — Um anel? Simon, você está levando isso muito longe. — Os acessórios são importantes, Samantha. O anel vai ajudá-la a sentir-se noiva. E pode conservá-lo como uma lembrança depois que tudo terminar. — Pois bem. Vou usar o anel, mas é bom você comprar um que possa ser devolvido, porque eu certamente não vou conservá-lo. Aquilo era demais! Será que Simon achava que podia suborná-la com jóias? Pois ela teria muito prazer em provar-lhe que não era do tipo que se compra. Seria ótimo, num futuro não muito distante, poder atirar-lhe aquele maldito anel no rosto. Simon, por seu lado, estava satisfeito. Samy tomara a oferta como um insulto, confirmando sua opinião de que não era uma mulher ambiciosa, no sentido mais comum da palavra. Mesmo assim, tratou de não demonstrar o que pensava. — Faça como achar melhor. Agora creio que é tempo de voltarmos à festa. Tenho certeza de que todos estão ansiosos para nos cumprimentar. — Preciso retocar a maquilagem. Encontro-me com você dentro de cinco minutos. Ele não se opôs. Mostrou-lhe um caminho pelo jardim para que. ela evitasse a frente da casa, cheia de pessoas. Para seu grande alívio, o quarto de hóspedes estava vazio. Teria condições de se recompor antes de representar seu novo papel: noiva de Simon Radnor. — Como fui me enfiar numa encrenca assim? — resmungou ela, enquanto penteava os cabelos. Sua vida de moça sensata e equilibrada estava arruinada, e tudo o que ela parecia capaz de fazer era tomar medidas paliativas. Cada vez que tentava lidar com o problema central, Simon Radnor, tudo ficava pior do que antes. Samy contemplou sua bela imagem refletida no espelho e quase não se reconheceu. A emoção, a impulsividade pareciam guiar sua vida com a mesma freqüência da racionalidade. Bastava ver a reação que tivera ante o que qualquer pessoa em seu juízo perfeito consideraria uma ameaça. "Por que não recusara categoricamente aquele falso noivado? Por que vacilara e deixara que ele a manipulasse a vontade?", refletiu. Corou ao lembrar dos métodos usados por Simon. Como pudera corresponder àquele beijo depois de ter sido humilhada, acusada de se vestir de modo indecente e de induzi-lo ao casamento por dinheiro? Era incrível, mas a cada vez que ele a tocava, agia como uma tola apaixonada. Samy suspirou. Precisava enfrentar os convidados e não meditar sobre assuntos deprimentes. A situação não poderia tornar-se pior do que já estava. E mesmo que piorasse, ela sempre poderia pedir emprestados o elmo e a lança de Kate. Minutos depois, ao descer as escadas, Samy não viu Simon, mas a dona da lança estava na sala, ao lado de John. — Aí vem ela, Kate. Olá, Samy. Antes mesmo que Samy pudesse abrir a boca, Kate agarrou-a pelo braço e a conduziu à sala de jantar, que se encontrava vazia. — Que história é essa de noivado com Simon Radnor? — perguntou ela à queima-roupa. — Eu mal conheço o homem. Samy olhou para John e sorriu, antes de comentar: — Nem mesmo minha mãe seria tão severa. — Também acho — concordou John. — Vivo dizendo a Kate que ela deveria ter filhos. Assim não arrumaria tempo para atormentar os amigos. — Mas fique certo de que encontraria tempo para atormentar o pai de meus filhos — ameaçou Kate. — Estou disposto a me arriscar — replicou ele. — Ora, feche a boca. Não estou pronta para o casamento. Além disso, dois noivados em uma noite são mais do que suficientes. Mesmo que um deles seja apenas um boato. Samy, enquanto isso, sorria. Pela milésima vez ouvia aquela discussão. Kate sempre dizia que não se casaria antes dos trinta anos, pelo menos. Há vários meses John tentava fazê-la mudar de idéia. — Você ficou mesmo noiva de meu estimado chefe? — perguntou John, encerrando a discussão. — Acho que sim. — Talvez seja melhor perguntar a Simon — disse John. — Samy parece não ter muita certeza. — Ele vai comprar o anel esta semana — observou Samy, ainda evitando qualquer resposta direta. À história tinha algo de estranho, pelo menos para Kate, que perguntou novamente: — Como e por quê? Samy procurou uma resposta convincente. Estava em maus lençóis. Para Kate iria dizer a verdade, mas, e para John, o que diria? Seu dilema terminou com a chegada providencial de Simon. — Aí está você, querida. Estava imaginando onde poderia estar escondida. John apressou-se a felicitar o patrão. Logo após, apresentou-lhe Kate. — Creio que já se encontraram antes... — Sim. de passagem — confirmou Simon. — Samantha fala muito de você. — Samy também fala muito de você — disse Kate, o olhar decididamente ambíguo. — Mas devo dizer que estou surpresa com o noivado. — Samy não me deixou outra escolha — replicou ele, para divertimento de John e indignação de Samy. Kate deu um de seus sorrisos francos. — Bem, ela tem idade suficiente para tomar suas próprias decisões. Mas não gostaria que você pensasse que ela está sozinha no mundo só porque não tem parentes próximos. — Ainda bem que eu planejei espancá-la apenas uma vez por semana. Tudo indicava que uma verdadeira batalha ia se travar entre os dois, mas, como John permanecesse imperturbável, Samy nem pensou em intervir. Estava farta de tentar consertar situações desagradáveis e acabar por torná-las ainda piores. Contudo, Kate deu-se por satisfeita em fazer apenas aquela ameaça velada a Simon. — Mulheres e tapetes sempre ficam melhores depois de uma surra — caçoou John. — Eu disse que era um erro dar-lhe o Manual do porco chauvinista de presente — falou Kate a Samy. — Pois eu acho um golpe muito baixo usar os presentes que se recebe de uma pessoa contra ela. John piscou para Simon. — É bom preveni-lo. Qualquer homem que tente sustentar sua "superioridade natural" deve tomar cuidado com essas duas. — Você parece ter sobrevivido. — Tato e diplomacia — explicou John. — Além de uma ou outra retirada estratégica. — Terei isso em mente — disse Simon. — Agora receio que seja hora de Samantha e eu praticarmos um pouco de tato e diplomacia com os convidados. — Preferia praticar uma retirada estratégica — comentou ela com um suspiro. — Tudo o que tem a fazer é ficar vermelha e sorrir recatadamente — aconselhou John. — Deixe que seu amo e senhor faça o resto. — O que John tem hoje, Kate? — perguntou Samy. — Ele adorou o ponche... Mas não se preocupe. Amanhã de manhã iremos visitá-lo e apreciar a ressaca. Durante a ausência deles, a sala havia ficado cheia de pessoas que queriam cumprimentar os noivos. Ao vê-los entrar, todos os rostos se voltaram para eles. Se Simon não a tivesse segurado pelo braço, Samy certamente teria saído correndo. — Erga o queixo — sussurrou ele. Ela sorriu. Repentinamente, Simon deixara de ser uma ameaça à paz e tornara-se uma fonte de segurança. Na maior parte do tempo ela fez exatamente o que John sugerira: deixou a conversa por conta de Simon. Passada a fase dos cumprimentos, Samy conseguiu relaxar. Desde que haviam falado com John e Kate, Simon vinha mostrando seu lado mais simpático e charmoso. Tanto que ela se sentia extremamente à vontade com ele, esquecida dos insultos que ele lhe dirigira. É claro que tinha havido momentos de desconforto, quando recebera votos sinceros de felicidade da parte de amigos, lembrando-a de que estava enganando pessoas de quem gostava. Ainda assim, era difícil deixar de sentir um prazer inofensivo diante dos olhares invejosos das outras mulheres. Se Simon notavasua reação, provavelmente atribuía-a a um interesse por seu dinheiro, Mas a verdade é que para ela a fortuna dele era apenas um acessório. Poucas mulheres seriam capazes de pensar primeiro em dinheiro ao olhar para Simon. — Você parece contente — comentou ele, no terraço, enquanto ela se apoiava preguiçosamente sobre uma coluna. — O pior já passou. É por isso que estou contente. Naquele momento ouviram vozes familiares. — Oh! Acho que fiquei contente antes do tempo. Lá vêm a sra. Bates e a srta. Beasley. — Vamos nos esconder no jardim? — Desculpe, mas disseram-me para não ir passear no escuro. Simon olhou na direção das duas fofoqueiras e sorriu. — Ê bom saber que você está aprendendo a obedecer a ordens. Não houve tempo para réplica. As causadoras da maior surpresa da noite chegaram naquele instante. CAPÍTULO VI Na manhã seguinte, Samy relembrava o episódio apoiada no enorme carvalho do jardim. Nunca saberia o que esperar de Simon. De repente, ele se transformava num companheiro agradável, simpático. Mas, quando ela já se acostumava a esse novo Simon, ele voltava a agredi-la, fazendo acusações sem propósito. Agora que considerava mais calmamente o assunto, Samy distinguia uma ponta de ciúme na reação dele diante de seu ousado vestido. Portanto, não era o caso de se sentir magoada, mas de se preocupar. Ciúmes seriam uma indicação de que ele tinha algo mais em mente do que divertir-se às suas custas. Talvez fosse até bom que ele agora a imaginasse interessada em dinheiro. Isso arrefeceria o ardor dele. Samy estava cada vez mais intrigada com o desprezo que ele parecia nutrir pelas mulheres. Mais do que nunca, ela se convencia de que não conhecia toda a verdade. E ainda que conhecesse, nada mudaria: Simon duvidava dela. Lembrou-se das palavras de Kate, que não achava que isso fosse um problema: — Duvido que Simon a considere realmente interesseira e ardilosa — disse ela. — Se ele acreditasse nisso, não teria sido tão bom com você. — É o que você pensa. A raiva passou depois que ele conseguiu me provocar bastante. Simon tem certeza de que sou uma mentirosa. — Bem, ele deve ser cego, então. Qualquer pessoa com essa carinha faceira é obviamente honesta, sincera e pura de coração. Ao ouvir rumores na folhagem da árvore, Samy franziu o cenho. Ao olhar para cima, viu um esquilo, aparentemente nem um pouco satisfeito com sua presença no que considerava seus domínios. — Está bem, meu caro, está bem. Eu saio. Minutos depois, sentada à mesa da cozinha enquanto tomava café, Samy riu, pensando que precisava perder a mania de conversar sozinha. Era ridículo, embora não deixasse de ser engraçado ser expulsa do próprio jardim por um esquilo. Na noite anterior, Simon a fizera de tola. O que estaria para acontecer agora? Seria expulsa de casa por uma formiga, talvez... Pensando bem, não havia motivos para riso. Desde que aceitara o plano maluco de Richard, parecia incapaz de controlar a própria vida. É claro que era bom vê-lo com sua querida Amanda, mas o resultado não tornava o plano menos imprudente. Pelo visto, Richard recuperara a felicidade juntamente com Amanda. E depois a aconselhara a contar toda a verdade a Simon. Sem dúvida um conselho sensato, se a situação fosse normal, o que estava longe de ser. Porque Simon, ao invés de considerar a história engraçada, iria ver nela mais uma prova de sua natureza ardilosa. Por que aquele homem surgira em sua vida? Para perturbá-la? Ê verdade que, antes dele, Samy vivia prisioneira da rotina. Mas gostava daquela rotina! Havia algum mal nisso? Agora, ali estava ela, preocupada em plena manhã de domingo. Acordara decidida a encontrar uma saída para seu noivado falso, mas seu pensamento insistia em se voltar para assuntos secundários. Qualquer um poderia até imaginar que ela não desejasse escapar daquela confusão, o que seria, é claro, ridículo. Era verdade que se sentia mais... viva, mais vibrante, quando estava com Simon, b que não queria dizer absolutamente nada. Afinal, diziam que viver perigosamente tinha o mesmo efeito... Dando de ombros, Samy decidiu deixar o assunto de lado por algum tempo. Leria o jornal para se distrair... Cerca de uma hora depois, enquanto fazia palavras cruzadas, o telefone tocou. — Olá, Samantha, você está livre hoje à noite? "Que atrevimento, começar uma conversa de modo tão brusco", pensou. Mesmo reconhecendo imediatamente a voz de Simon, ela ia perguntar quem era. Ao invés disso, contra-atacou com outra pergunta, tão abrupta quanto a dele. — Por quê? — Minha avó não se levantou hoje e insiste em dizer que está apenas descansando da festa. De qualquer modo, não tive coragem para lhe contar a verdade. Ela gostaria de conversar com você. Tem quase certeza de que você virá hoje aqui. Uma suposição mais do que natural, não acha? Não era exatamente a idéia que Samy fazia de um domingo perfeito, mas ela não tinha escolha. — Sim, estou livre. — Ótimo. Você se importaria se eu não fosse buscá-la? A sra. Gessner está de folga, e eu não gostaria de deixar vovó sozinha. — Não, de modo algum. — Muito bem. Então esteja aqui por volta das seis e meia. Você conversa com vovó, e depois poderemos jantar. Eram exatamente seis e meia quando Samy desceu do carro na frente da casa de Simon. Bem vestida, a aparência calma de modo algum denunciava a agitação que sentia. Estava apreensiva não só quanto ao comportamento de Simon, mas, principalmente, quanto à entrevista com a sra. Radnor. Sentia-se culpada mentindo para a boa senhora e também receava falhar em seu,s dotes de atriz. Simon abriu-lhe a porta, vestido de modo informal, porém, como sempre, impecável. O sorriso com que a recebeu tranqüilizou-a. — Minha avó acabou de jantar e está à sua espera. Quer falar com você em particular. — Sozinha? Simon, você não pode ir comigo? E se ela fizer perguntas? E se eu não for convincente? — Calma — pediu ele, sorrindo. — Você se sairá bem. Não se trata de uma inquisição. Além disso, você não precisa convencê-la. Ela já se convenceu. Parte da confiança dele pareceu fluir através do calor reconfortante das mãos que a tocavam. Simon tinha de fato aquela capacidade surpreendente de acalmá-la. Uma pena que geralmente se empenhasse em fazer o contrário. — A única pessoa que precisa ser convencida é você — disse ele, com um brilho malicioso nos olhos. — Não creio que você acredite que estamos realmente noivos. Preciso trabalhar nisso. Vamos começar com um cumprimento digno de noivos. Samy começara a se afastar antes mesmo que Simon terminasse de falar. No entanto, ele não precisou usar de muita força para reaproximá-la. —- Simon, não — ela protestou, enquanto ele a abraçava. E Simon aproveitou a chance de beijar seus lábios entreabertos. Por alguns segundos, ela ainda tentou uma fraca resistência. Em breve, porém, estava novamente enfeitiçada pela sensualidade marcante daquele homem, fascinada pelo contato de seu corpo, pelo perfume masculino, pelas mãos fortes que a acariciavam. Quando Simon ergueu a cabeça, contemplou o rosto ruborizado de Samy e fez um sinal de aprovação. — Assim está melhor. Agora parece realmente que você acaba de cumprimentar seu noivo. Afastando-se, Samy tentou assumir uma expressão altiva. — Quer, por favor, mostrar-me o caminho até o quarto de sua avó? — Venha por aqui, querida — convidou ele, indicando a escada. — Se continuar com o nariz empinado, vai tropeçar nos degraus. Samy ignorou a provocação. Ao chegarem ao pavimento superior, Simon caminhou até uma porta parcialmente aberta e bateu levemente antes de fazer a noiva entrar. A sra. Radnor estava sentada em uma grande cama com dossel. Após cumprimentá-la, Samy olhou ao redor e percebeu que os móveis refletiam o gosto de cinqüenta ou sessenta anos atrás. — Pelo que vejo, trouxe seu lar consigo — comentou ela com um sorriso. — Tem razão, querida. Tenho alguns desses móveis desde que me casei. Não me sentiria em casa sem eles. Sente-se,por favor. Simon, pode ir. Volte dentro de quinze minutos. Assim que ele fechou a porta, a sra. Radnor olhou para Samantha. — A cor de seu batom fica bem melhor em seus lábios do que nos de Simon... E não é preciso corar, querida. —Eu... — Você está nervosa, e não é pelo que eu falei. — Sra. Radnor, eu... — Eu sei, eu sei. Tudo aconteceu rápido demais, e agora você está tendo dúvidas, mas não quer me preocupar, não é isso? — Bem... — Creio que será uma esposa perfeita para Simon. Também acho que ele será um bom marido. Mas você precisa sentir-se segura de si. E não deve sentir-se mal em minha presença. Sabe muito bem que gosto de você. — Obrigada, sra. Radnor. — Ainda assim, é meu dever contar-lhe algumas coisas que irão ajudá-la a compreender melhor Simon. Sei que ele mesmo acabará por contá-las, mas acho que você precisa tomar conhecimento delas agora. Samy achava que não tinha, direito de ouvir confidencias sobre a vida pessoal de Simon, mas o que podia fazer para evitá-las? E tinha de confessar que... sentia-se um bocado curiosa a respeito. — Quando Simon tinha doze anos, a mãe dele abandonou o pai por causa de um antigo namorado que se tornara bastante rico. Meses depois, o pai morreu no mar. Para piorar as coisas, houve rumores de suicídio, mesmo depois de se ter provado que o fato não passou de um acidente. — Pobre Simon... — Depois disso, Alice, a mãe de Simon, quis que ele fosse morar com ela e o novo marido. Mas Simon não queria mais vê-la, e conseguimos persuadi-la a deixá-lo conosco. A sra. Radnor sacudiu a cabeça, desalentada, antes de prosseguir: — Alice não era uma pessoa ruim. Era apenas fútil, infantil e gostava de agitação. David estava iniciando seu próprio negócio e passava muito tempo fora de casa. Quando o antigo namorado surgiu, prometendo-lhe o Paraíso, Alice foi uma presa fácil, cansada que estava de sua vida aborrecida. — Simon acha que ela o abandonou por dinheiro? — Sim. E, em sua cabeça, o abandono do lar e a morte do pai estão ligados. Senti pena de Alice. Ela era uma boa mãe, a seu modo, e amava Simon. Provavelmente não achava que fosse perdê-lo ao separar-se do marido. Com o passar do tempo Simon deixou de odiá-la, mas nunca mais permitiu que ela se aproximasse. — Ela ainda é viva? — Não, morreu há vários anos. — O que a senhora me contou explica a opinião tão pouco favorável às mulheres que Simon tem. — É verdade. Mas, não foi só por causa da mãe. A má impressão foi reforçada mais tarde. Quando ele tinha apenas vinte e três anos, sua empresa já era próspera e as mulheres não lhe davam sossego. Até mesmo a noiva de um grande amigo... — E ele concluiu então que todas as mulheres estão atrás de dinheiro. — Todas, não — respondeu ela, sorrindo carinhosamente. Samy enrubesceu, e sentiu-se culpada mais uma vez. — Ê claro que, depois do comportamento de Alice, ele se convenceu de que a maioria das mulheres é assim. Encontrou várias assim... A natureza humana é fraca, você sabe. — Pobre Simon! — Não se deixe impressionar muito por isso. Eu queria apenas que você soubesse o motivo pelo qual ele, às vezes, parece tão desconfiado e teimoso. Mas, por favor, não comente nada do que eu disse, esta conversa deve ficar apenas entre nós duas. — Claro que sim! Quando deixou a sra. Radnor, minutos mais tarde, Samy desceu as escadas propositalmente devagar, tentando colocar suas idéias em ordem antes de encarar Simon. Agora que conhecia a história inteira, podia compreender por que ele tinha uma opinião tão ruim sobre as mulheres e por que era tão apegado à avó. A perda dos pais também fora bastante dolorosa para Samy, mas ela pelo menos podia lembrar-se deles com amor e respeito. Era irônico. Naquela mesma manhã ela achara que não faria diferença alguma descobrir a verdade. Estava enganada. Fazia muita diferença. Ele agora lhe parecia mais humano, mais vulnerável ... Porém não devia se deixar levar pela nova visão que tinha dele. Simon não era mais um garotinho em busca de consolo. Era um homem adulto, perigosamente atraente, com uma idéia de consolo um tanto diferente da sua. Além disso, podia agora perdoá-lo por pensar mal dela, mas não podia esquecer que a opinião dele sobre as mulheres continuava a mesma, o que a trazia novamente a uma questão delicada: por que ele estava sendo tão simpático com ela? Gostaria de acreditar, como Kate, que Simon a respeitava, mas... o mais provável era que ele tivesse algum objetivo em mente, como, por exemplo, seduzi-la. Seria uma pena, pois iria sair desapontado. Era melhor não perder a calma, já que estava enredada naquele noivado. O melhor seria aproveitar. Afinal, o Simon gentil era bem mais interessante do que o Simon furioso. Chegando a essa conclusão, Samy começou a procurá-lo nos aposentos do andar inferior. Encontrou-o sentado na cozinha, com um copo na mão, lendo uma revista. — Chegou bem a tempo de tomar um drinque antes de comermos. Samy sentiu o delicioso aroma da comida. — Você está cozinhando? — perguntou, incrédula. — Por que não? Há algum problema? — Não... acho que não. Conheço uma porção de homens que gostam de cozinhar. Hum... que gostoso! — E ela aspirou o cheiro da comida novamente. — Ei! Você está requentando as sobras de ontem! — Meu Deus, mas que nariz igualzinho ao de Samy. Samy encarou-o, confusa, até atinar com o que ele dizia. — Ah, sim! Samy, a sua cadela, — Talvez você e a outra Samy tenham mais em comum do que eu imaginava. — Não se esqueça de que ela era devotada e obediente. Ele não disse nada. Apenas deu-lhe um sorriso malicioso. — Sente-se, Samantha. Vou trazer-lhe um drinque. Logo ele voltou com um copo de sherry. — Achei que poderíamos comer aqui mesmo — disse, sentando-se. — Isto é, se você não se importar. Posso preparar a mesa para você na sala de jantar. — Não, não é preciso. — Ótimo. Eu queria mesmo companhia para o jantar. — Uma recompensa por ter se sacrificado no fogão. — Só por causa disso, vou preparar um jantar para você qualquer dia desses. — Bife com batatas cozidas? — Acredite ou não, querida, eu sei cozinhar. Minha especialidade é spaghetti. — Isso não conta. A menos que você mesmo faça o molho. — Eu faço. Tenho uma autêntica receita italiana, bem velha. — Onde conseguiu? — De um velho italiano... autêntico também. — Só me faltava essa. — Bem, minha cara, só para aprender a me respeitar, levante-se e coloque a mesa enquanto pego a comida. O jantar transcorreu em harmonia. Simon comportou-se muito bem, e a conversa fluiu calmamente em torno dos aspectos menos polêmicos da festa da noite anterior, sobre o trabalho de Simon e outros assuntos corriqueiros. Só após terem tirado a mesa é que Samy percebeu que ele não lhe fizera perguntas sobre a entrevista com a avó. Tocou no assunto. — Sua avó percebeu imediatamente que havia algo errado. — E então? — E ela acha que estou nervosa por causa do noivado. — Você realmente não gosta de enganar minha avó, não? — É claro que não. Gosto muito dela, e não me agrada enganá-la, principalmente com relação a um assunto que significa tanto para ela. — Também não gosto disso. Vou contar-lhe a verdade assim que for seguro. Após tomarem café os dois subiram para visitar a sra. Radnor, que ainda estava acordada e disposta a conversar. Quando finalmente deixaram o quarto, após as dez horas, Samy avisou que precisava ir embora. Simon percebeu que ela o temia, por não haver outra pessoa entre eles, e preferiu não provocá-la. Não convinha estragar uma noite tão agradável. Ainda assim, ela não escapou de um beijo de boa-noite. Na segunda-feira, à tarde, Simon telefonou para o consultório, informando que sua avó não estava bem. Richard ficou de visitá-la. Mais tarde, Simon informou a Samy que Richard não encontrara nada de errado com a velha senhora. — Ele acha que deve ser um pouco de cansaço. Mas, como ela não sente dor alguma, e precisa ir ao hospital no próximo domingo para fazeralguns exames, Richard sugeriu que ficassemos de olho nela e deixássemos que descansasse o quanto quisesse. — Richard é um ótimo médico. Não tem com que se preocupar. — Então concorda que não devemos deixá-la nervosa, certo? Samy assentiu, sabendo perfeitamente o que ele queria dizer com aquilo. O noivado continuava de pé. — Alegre-se, querida. Pelo menos você está salva. Seu dia de folga não será gasto em casa. — Explique-se. — Vovó queria convidá-la para almoçar no seu dia de folga, mas eu disse a ela que estávamos pensando em visitar Old Sturbridge. Ela insistiu em que não mudássemos os planos. — E se eu já tivesse planos para minha folga? — perguntou Samy, irritada. — Ora, não se faça de difícil, Samantha. É óbvio que você não os tem. E você mesma me disse que eu deveria conhecer o lugar. Old Sturbridge Village, em Massachusetts, era a reconstrução de um povoado americano, entre os anos de 1790 e 1840. Desde criança, era um dos passeios favoritos de Samy. Ela havia descrito o lugar para Simon com bastante entusiasmo. — Bem... faz um bocado de tempo que não vou até lá. E você deve mesmo conhecer o lugar. — Creio que isso significa "sim". Vou buscá-la pouco antes das nove. Quando Simon chegou, na quarta-feira de manhã, Samy já estava pronta. Acordara cedo, sentindo toda a ansiedade de uma criança diante da perspectiva de um passeio. — Uma mulher pontual! — exclamou ele, fingindo espanto. — Essas coisas acontecem de vez em quando. Ele sorriu. Enquanto colocava o carro em movimento, disse de modo casual: — Seu anel está no porta-luvas. Samy, que esperava que ele mudasse de idéia quanto ao anel, abriu cautelosamente a caixinha gravada. Dentro, havia um magnífico anel de esmeralda! A pedra era de um verde brilhante, montada sobre ouro finamente modelado, formando um conjunto que lembrava uma jóia renascentista. — Simon, eu não posso usar isso! — Estranho, Tinha quase certeza de que você gostaria, — É claro que gosto! Ele é lindo, finíssimo! Fino demais para ser usado como simples acessório em uma encenação. É extravagante demais. — E como acha que as pessoas, inclusive minha avó, reagiriam se eu lhe desse um anel comum e barato? — Mas e se alguma coisa acontecer com ele? — Está no seguro. E, de qualquer modo, é seu, Não é um empréstimo pelo qual precise sentir-se responsável, se é isso que a preocupa. — Já lhe disse que só aceitaria o anel se pudesse devolvê-lo depois. Quando se termina um noivado, devolve-se o anel. E você insiste em que isto é um noivado de verdade. — Faça como quiser. Mas, se mudar de idéia, pode ficar com ele. Simon tinha nos lábios o sorriso cínico, cheio de desprezo, que Samy tanto odiava. Gostaria de atirar-lhe aquele anel no rosto e mandá-lo para o inferno. — Não faça essa cara, Samantha. Você parece um querubim mal-humorado. — Não gosto que zombem de mim! Já é ruim demais ter rosto de criança. Não é preciso que os outros me chamem de querubim para complicar tudo. — Desculpe, Samantha — disse ele, rindo com vontade, e fazendo-a rir também. Quando finalmente conseguiram controlar as risadas, Simon aumentou a velocidade, que diminuíra devido às gargalhadas. — Você é uma ameaça à segurança no trânsito... Por que não experimenta o anel? Samy ainda pensou em protestar, mas desistiu, Ele já pusera abaixo todas as suas objeções. E depois, por que estragar o clima agradável que nascera entre ambos? Assim, ela colocou o anel, não se espantando muito por perceber que servia perfeitamente. Depois de observar o anel em seu dedo, ela o cobriu com a outra mão, como se temesse ser hipnotizada pelo verde brilhante da pedra. Olhou pela janela. O tempo, que estivera um pouco encoberto, começava a melhorar. O dia prometia ser lindo... CAPÍTULO VII — Pronta para servir de guia, Samy? — perguntou Simon, ajudando-a a descer do carro no estacionamento arborizado em frente ao povoado. — Sim. Já tenho até mesmo um itinerário a seguir. Vamos começar pelas residências. São os lugares que costumam ficar mais cheios. Não sei se virão muitas pessoas hoje aqui. — Vamos lá. Após pagarem a entrada, os dois seguiram por uma estradinha de terra. Ali, os únicos ruídos que perturbavam a calma do campo eram o piar dos pássaros, o zumbido dos insetos e, vez por outra, o som de vozes humanas. Uma carroça, guiada por um homem com roupas do início do século XIX, passou por eles. — Aqui tentam reproduzir um povoado antigo em funcionamento — explicou Samy, após retribuir o sorriso que o carroceiro lhe dirigiu. — É bastante comum ver pessoas em trajes de época trabalhando por aqui, demonstrando técnicas artesanais. — Você disse que todos os edifícios foram reconstruídos aqui, não é? — Todos, menos um ou dois. Eles foram construídos em várias partes da Nova Inglaterra, entre 1700 e a primeira metade do século passado. — Esta é a Fenno House — informou ela, ao se aproximarem de uma casa de madeira envelhecida pelo tempo, com janelas pequenas. — É a mais velha daqui. — Construída em 1704 — completou ele, olhando o folheto que pegara na entrada. — Não é muito bonita. — Ê pouco mais do que uma cabana. As pessoas que a construíram estavam mais preocupadas em defender-se dos índios do que em fazê-la bonita, janelas grandes não seriam de grande valia. — Só para os índios — concordou ele. — Na verdade, esta se parece menos com um forte do que outras casas do período que vi em fotografias. Havia algumas em que o segundo pavimento era maior do que o primeiro, e dispunham de aberturas por onde os moradores podiam atirar em quem tentasse arrombar a porta, sem se expor. — Muros de castelos também tinham isso, não é? — Sim. E com barris de óleo pronto para ser esquentado e despejado sobre os invasores. — Que horror! O interior era definitivamente espartano para os padrões modernos, com o chão nu, pouca mobília e assentos sem estofamento. E, apesar do calor moderado do dia, a casa era fresca, quase fria. Sempre que entrava ali, Samy perguntava-se se durante o inverno ela conservaria o calor tão bem quanto conservava o frio durante o verão. — Gostaria de trocar de lugar com os donos dela? — Simon perguntou, enquanto examinavam uma cama com um colchão feito de palha. Samy imaginou-se com um longo vestido negro e uma touca branca, costurando em frente a uma lareira, enquanto Simon, usando calça e camisa rústicas, fumava um longo cachimbo de argila. A visão desapareceu de repente, e ela se irritou ao perceber que estava corada. — Só por algum tempo, para sentir de verdade como era a vida naquela época. Mas não gostaria de viver no passado, não. — Seria interessante tentar... Só não entendo por que você ficou vermelha. Aparentemente ele não esperava resposta, e Samy resolveu não surpreendê-lo com uma. A Fitch House, construída em 1737, era a próxima casa do programa a ser visitada. Apesar de possuir um traçado diferente, era tão rude quanto a Fenno House, por dentro e por fora. O mesmo não se poderia dizer da Richardson House, de 1748, que tinha janelas mais largas e em maior número. — É bem mais confortável para o meu gosto, mas ainda assim eu colocaria mais alguns tapetes e almofadas se tivesse que viver nela. Samy contou-lhe que a mansão onde ele vivia fora provavelmente construída na mesma época. — Sim, mas não creio que a casa original fosse tão elaborada quanto esta. — Se acha esta casa elaborada, precisa ver a General Salem Towne House. A General Salem Towne House estava situada na margem ao lago. Construída em 1796, tinha o interior decorado com entalhes, dos lambris ao consolo da lareira, e móveis igualmente sofisticados. A casa parecia exatamente o que era: a residência de um rico fazendeiro do século XVIII. — É bonita, mas muito formal — comentou Samy, enquanto visitavam a sala de estar. — Um arranjo muito rígido. A sala de estar de sua casa é bem mais confortável. Lá pelo menos eu não me sentiria como se estivessecometendo um sacrilégio se resolvesse tirar os sapatos e me deitar numa poltrona. — Você seria bem-vinda — disse ele. — Pode fazer isso em todos os meus móveis, quando quiser. — Muito generoso de sua parte, mas era apenas uma hipótese. Eu conservo os pés no chão quando estou na casa dos outros. — Um a zero para você. E nem ao menos ficou vermelha. — Ê que estou começando a me acostumar com você. Num dos lados da casa havia um jardim com calçamento de tijolos, sebes cuidadosamente aparadas e uma profusão de flores. Os dois se detiveram para contemplar o lago que brilhava ao sol do meio-dia. — A água me hipnotizou — disse Samy, e, apontando para a direita, mostrou: — Se olhar por entre as árvores, verá a ponte coberta. Eu sempre a atravesso quando venho a Sturbridge. Havia uma igualzinha no caminho para a casa de meus avós quando eu era pequena. Simon olhou a ponte de relance e voltou sua atenção novamente para Samantha. Percebeu-lhe a expressão melancólica no rosto enquanto falava da infância. Ela parecia tão vulnerável às vezes... Pela primeira vez ocorreu-lhe pensar no que aconteceria a ela quando tudo terminasse entre os dois. Sim, porque, afinal de contas, todos os casos têm um fim... A preocupação durou pouco tempo. Como Samy mesmo lhe dissera, tomara conta de si mesma durante anos e não precisava que os outros se preocupassem com ela. Sem dúvida, logo surgiria um homem disposto a dar-lhe a aliança que ele não pretendia dar. E ele, então, tendo conseguido o que queria, não se importaria em vê-la nos braços de outro. — Vamos? — perguntou ele com uma certa rudeza. Ela surpreendeu-se. — Estou pronta há bastante tempo. Simon desviou uma mecha de cabelo que caía sobre os olhos dela e sorriu. — Descobri que estou morrendo de fome. Que tal comermos um pouco? — Ótimo! — concordou ela, pensativa. Um singelo e delicado gesto que, vindo de qualquer outro homem, seria um sinal de afeição. Mas certamente Simon não sentia nada por uma mulher que ele acreditada interesseira. Provavelmente gestos de carinho faziam parte de suas técnicas de sedução. — Precisamos voltar ao carro antes — avisou ele. — Por quê? Esqueceu alguma coisa? — Não, mas nosso almoço está lá. A sra. Gessner preparou uma cesta para nós. — É um belo dia para um piquenique, mas será que vou conseguir me mover depois? — Eu a vigiarei. Não deixarei que coma demais. Após pegarem uma enorme cesta de vime e uma toalha, os dois se dirigiram à área reservada para piqueniques. Uma das mesas de madeira estava livre, mas Samy preferiu estender a toalha sobre a grama, à sombra de uma árvore. — Minha mãe costumava dizer que usar uma mesa numa ocasião dessas era o mesmo que comer fora de casa, e não um verdadeiro piquenique. — E aqui está um convidado inevitável — disse ele tirando uma formiga da toalha. — Contanto que elas não ataquem o pedaço que eu estiver comendo, podem experimentar as migalhas. — Samy terminou de desempacotar a comida. — Quantas pessoas você disse que haveria aqui? A sra. Gessner pôs comida suficiente para um batalhão. — Ela queria ter certeza de que haveria algo de que você gostasse. — Sei... O que você quer? — Frango e salada mista. — Só? Não sei como a sra. Gessner não pede demissão. — Acho que me considera um desafio. Samy fixou o olhar sobre o rosto de Simon, enquanto ele tentava tirar a rolha de uma garrafa de vinho. A sra. Gessner não seria a única mulher a considerá-lo um desafio. Qualquer uma poderia se ver tentada a romper aquela barreira de desconfiança e cinismo. Ela, naturalmente, era esperta demais para cair em tal armadilha. — Onde estão os copos? — perguntou Simon, erguendo a face, iluminada por um sorriso encantador. Samy sentiu o coração saltar dentro do peito e estendeu-lhe os copos, as mãos subitamente trêmulas. Depois pegou o copo de vinho que ele enchera e passou-lhe o prato de comida, "Seria mesmo tão esperta como pensava? Ou era tola demais e caíra naquela armadilha amorosa sem nem mesmo perceber, aceitando um noivado absurdo?", questionou-se. — Samantha? — Quê? — ela piscou, sobressaltada. — Onde você estava? — perguntou ele, sorrindo. — Eu... estava apenas pensando naquilo que você disse... sobre trocar de lugar com nossos antepassados. — A menos que os seus tivessem criados, você passaria por maus momentos. As tarefas domésticas eram trabalho duro naquele tempo, e as mulheres precisavam ser tão fortes quanto seus maridos. "Simon não teria muitos problemas", pensou ela. olhando o corpo másculo e vigoroso deitado sobre a relva. Notara na festa que nem mesmo John, com seu porte atlético, conseguia eclipsar a impressão de força que emanava dele. "Como era bom aninhar-se entre aqueles braços, sentir aquele corpo contra o seu..." Nesse instante, sua mente finalmente aceitou o que o seu corpo e o seu coração já tinham aceitado havia muito tempo: estava apaixonada por Simon! — Pare de pensar no passado e coma — sugeriu ele, interrompendo seus pensamentos mais uma vez. Ela sorriu. O que era estranho... Deveria estar aterrorizada pela revelação, mas sentia-se aliviada em reconhecer a verdade e mais determinada do que nunca a aproveitar aquele dia. — Tem razão. O dia está muito bonito para que se perca tempo em cismas. Durante o resto da tarde Samy continuou a evitar pensamentos incômodos. Desejava Simon mais do que nunca, e isso, em vez de embotar as reações, parecia avivá-las. As cores das flores pareciam-lhe mais fortes, o aroma suave da grama pairava no ar, e o sol acariciava-lhe a pele. Samy não conseguia lembrar-se de nenhuma outra ocasião em que se sentisse tão alegremente viva. Como era de se esperar, Simon apreciou muito as oficinas de ferreiros onde eram feitas demonstrações de ofícios tradicionais. E, ainda que sua atenção se dividisse entre as demonstrações e a contemplação de Simon, este pareceu não notá-la. Das oficinas, eles foram para os moinhos, e destes para a fazenda que funcionava nos limites do povoado. Ali, Simon surpreendeu-a mais uma vez, conversando com um dos trabalhadores sobre métodos de plantação e colheita. — Um primo de minha avó tinha uma fazenda na Pensilvânia — explicou ele. — Eu costumava trabalhar lá durante o verão, na época em que estava no colégio. — Gostou de fazer isso? — Sim, bastante. O trabalho é duro, mas gratificante. Era um mundo inteiramente novo para um garoto de Nova York. — Provavelmente foi bom para mantê-lo longe de encrencas — disse ela, sorrindo maliciosamente. — Nem tanto — respondeu ele, mais malicioso ainda. Quando voltavam da fazenda, resolveram passar pela ponte coberta, onde seus passos ecoavam dentro da estrutura de madeira. — Imagino que, ao construir essa cobertura, a intenção era proteger a ponte contra as intempéries, para que ela durasse mais — comentou ele. — Mas acho que também deveria ser um lugar bem conveniente para namorados. — É verdade. A ponte coberta perto da casa de meus avós tinha o nome de Kingston, mas todos os habitantes chamavam-na de "Ponte dos Beijos". Simon estacou. Tomou-a nos braços e sorriu. — É uma vergonha deixar desaparecer as velhas tradições. Ele a estava provocando novamente, mas Samy não pôde responder com o protesto costumeiro. O desejo de ser tocada por ele era mais forte do que qualquer outra coisa, entreabriu os lábios num convite mudo. O que começou como uma brincadeira por parte dele tornou-se algo mais sério quando Simon sentiu que ela não o repeliria: apertou-a fortemente contra o corpo e não encontrou resistência. Para Samy não importava o que Simon pudesse pensar a respeito de sua atitude. Naquele instante, nada mais tinha importância a não ser o prazer de expressar um amor que não podia revelar em palavras. Acariciava-lhe as costas, sentia-se deliciada com seu perfume másculo... Foi obrigada a despertar de seu devaneio ao ouvir som de vozes que se aproximavam. Relutante, ele a deixou desvencilhar-se. Caminharam silenciosamente em direção à família que entravana ponte naquele instante. Ao saírem do outro lado, Simon olhou para o relógio. — Quatro e meia, já! Vamos embora? — Vamos — concordou ela, tentando ocultar a decepção. — Não se sentia inclinada a partir e encerrar aquele dia maravilhoso. No entanto, precisava lembrar-se de que tinham ainda uma longa viagem pela frente. — Gostaria de voltar aqui outra vez — comentou ele no estacionamento. — Há algumas coisas que quero examinar com mais tempo. — Sempre há algo de interessante para se ver. Ela reprimiu o pensamento deprimente de que na próxima vez aquele noivado já estaria terminado, e que Simon por certo voltaria com outra pessoa. Não queria terminar o dia dominada pela tristeza. Haveria bastante tempo para isso depois... Às oito e meia, após uma viagem agradável, seguida de um gostoso jantar, Simon estacionou em frente à casa de Samy. O dia repleto de emoções, o vinho, o jantar, tudo contribuía para que ela se sentisse exausta. Por isso ela não conseguiu evitar um bocejo. — Parece que você vai para a cama cedo hoje — comentou ele, acariciando-lhe os cabelos. Entre um bocejo e outro, ela o convidou para tomar um café. — Não, obrigado. Você pegaria no sono antes de prepará-lo. Fica para a próxima vez, gatinha. A propósito, viajo amanhã para Las Vegas. Vou a uma convenção. Não é algo que me agrade, mas preciso ir. Só nos veremos outra vez no domingo. Samy respondeu com outro bocejo, o que o fez sorrir. — Não se preocupe. Vou fazer de conta que você ia dizer que sentiria minha falta. Simon acompanhou-a até a porta, esperou que ela a abrisse e deu-lhe mais um beijo, conseguindo, mais uma vez, deixá-la trêmula. — Tenha bons sonhos, Samantha. — Tentação! — sussurrou ela, sorrindo, enquanto ouvia o motor do carro que se afastava. Como poderia dormir depois de um beijo como aquele? E ele adivinhara: iria mesmo sentir-lhe a falta. E muito. Ainda assim, acreditava que seria melhor se ele ficasse longe por algum tempo. Precisava pensar, cuidadosamente, na nova situação... Na manhã seguinte, Samy acordou bem cedo, radiante de felicidade. Pouco depois, perguntava-se o motivo disso. Era verdade que estava, pela primeira vez na vida, apaixonada. Também era verdade que se sentia uma nova mulher. Mas, e daí? O que o futuro reservava para ela? O que poderia esperar de Simon? O dia no escritório foi cansativo, e várias vezes ela se surpreendeu contemplando o anel de noivado. Nessas ocasiões, sorria, imaginando um final feliz, escolhendo o nome dos dois primeiros filhos que teria com Simon... Mas ao final do expediente estava convencida de que a situação era um caso perdido. Felizmente encontrou Kate à sua espera em casa, pronta para ouvir o relato de seu dilema com a máxima atenção. Após ouvir tudo, comentou: — Oh, Samy, estou muito satisfeita em saber que você finalmente saiu da sua couraça de cautela. Às vezes eu imaginava que você nunca se arriscaria a se apaixonar. Para consolá-la, faço minhas as palavras de um grande filósofo do beisebol: "Nada está acabado antes do fim". Estar preparada para o pior é uma coisa. Agora, convencer-se de que o pior é inevitável é outra bem diferente. — Sei disso, mas, mesmo que ele não tenha opinião ruim a meu respeito, também não me deve achar um modelo de virtudes. — E desde quando o amor depende da virtude da pessoa amada? Amanda certamente não era nenhum anjo quando Richard apaixonou-se por ela. No entanto, reconheceu o quanto Amanda é capaz de amar. — Richard não tem medo de apaixonar-se. Simon tem, E bastante. — De qualquer modo, ainda acho que ele não é um caso perdido... A propósito, não sei se já percebeu, mas, pelo menos por enquanto, as intenções dele não são exatamente... das mais "nobres". O que pretende fazer, se é que posso perguntar? — Estou presa a esse "noivado" enquanto a sra. Radnor não souber da verdade, e portanto não posso deixar de vê-lo com freqüência. E, mesmo que pudesse, creio que não o evitaria. Quero estar com ele a maior parte do tempo... Mas, por mais que eu o ame, não desejo ter apenas um caso com ele. Sei que isso é antiquado, mas não quero ser apenas um divertimento passageiro, nem mesmo para Simon... Acho que eu e a srta. Beasley somos as únicas virgens com mais de vinte e um anos em Westfield. — Não duvido. Mas isso não interessa. O que importa é que você faça o que julga certo e melhor para você, Se isso a faz parecer antiquada... paciência! Algumas pessoas têm opiniões diferentes. — Ainda assim, há um problema... Quando Simon me beija, eu geralmente esqueço todas as minhas boas intenções. — Quer dizer que o terrível "Barão" reduz a pó seus nobres princípios? — Ao perceber que Samy não achava a situação nem um pouco engraçada, Kate resolveu falar sério. — Anime-se! Talvez o noivado esteja desfeito antes que ele se decida a atacar. Afinal de contas, pode ser arriscado para ele iniciar um caso nas atuais circunstâncias. Como era de se esperar, tal argumento foi mais bem-sucedído. Devido talvez a um hábito profundamente enraizado de ser cautelosa, Samy não acreditava que Simon não fosse um caso perdido, como pensava Kate. Naturalmente, este ceticismo não a impediu de devotar cada minuto dos dias seguintes à lembrança dele. Às vezes, ficava intrigada. Como podia amar um homem capaz de provocar-lhe reações tão contraditórias, ora despertando raiva profunda, ora um desejo enlouquecedor. Ele a irritava e em seguida fazia com que risse. Era cínico, prepotente e exasperante, e, no entanto, a vida sem ele parecia estéril e despida de encantos. Quando o telefone tocou na manhã de domingo, Samy correu para atendê-lo. Pensando melhor, resolveu esperar que ele tocasse mais algumas vezes. — Você se comportou bem enquanto estive fora, Olhos Verdes? — Eu sempre me comporto — respondeu ela, contendo-se para não dar vazão à alegria de ouvir a voz de Simon. — A vida numa cidade pequena deve ser mais sem graça do que eu imaginava. — Como foi a viagem? — Proveitosa, mas aborrecida... A propósito, obrigado por telefonar para minha avó todos os dias. — Ora, não foi nada. Eu sabia que ela estaria sentindo sua falta. Samy enrubesceu. Tinha de confessar que não havia telefonado movida apenas por intenções nobres. O fato era que a sra. Radnor, com um pouco de encorajamento, falava a maior parte do tempo sobre Simon. O resultado era que Samy agora conhecia coisas muito interessantes da vida dele, que iam desde suas notas na escola até seus pratos favoritos. — Hoje à tarde vou levá-la ao hospital. Por que não vem conosco? Poderíamos jantar depois. — Oh, sim, eu vou — ela aceitou, feliz. — Sua avó não parece muito animada a fazer check-up anual. — É verdade. Ela o descreveu esta manhã como dois dias de tortura e prepotência. Espero que sua presença consiga distraí-la pelo caminho. Pego-a antes das sete. E vista-se de modo informal. Para não deixar a sra. Radnor esperando por muito tempo, antes das sete Samy já estava à espera, sentada na varanda. Ao ver o carro chegar, trancou a porta e foi ao encontro deles. Simon, ainda assim, veio encontrá-la a meio caminho do carro. Segurou-lhe o queixo e deu-lhe um beijo rápido. — Você deveria ter esperado dentro de casa. Mal podia esperar para dizer-lhe um olá em particular. — Você nunca diz olá. A resposta dele foi uma sonora gargalhada. — Foi muita gentileza ter vindo — disse a sra. Radnor quando Samy acomodou-se no carro. — Não consigo entender por que devo ser trancada como uma criminosa quando me sinto tão bem. — É mais fácil fazer os exames no hospital — disse Simon. — E um check-up anual é apenas uma questão de bom senso. Além disso, a senhora não tem andado muito bem. — Só porque não saí da cama durante alguns dias? Tirei férias. E provavelmente serei obrigada a tirar outras depois de passar dois dias no hospital. — Vovó está irritada porque eu a fiz prometer que não intimidaria os funcionários do hospital. — Eu não prometi nada. Disse que tentaria. Não tenho a mínima intençãode aturar fedelhos sessenta anos mais novos do que eu chamando-me pelo primeiro nome e conversando comigo como se eu estivesse em minha segunda infância. Chegando ao hospital, que ficava na cidade ao norte de West field, eles acompanharam a velha senhora até o quarto, onde sobre a cômoda, havia um grande ramalhete de flores. — Obrigada, Simon — disse a sra. Radnor. — Elas realmente alegram o ambiente. Ele sorriu e saiu do quarto, dizendo que logo estaria de volta. Samy ficou olhando para a porta que se fechava, pensando em como ele era gentil e atencioso quando queria. — Simon foi conversar com a enfermeira chefe — informou a sra. Radnor com um brilho malicioso no olhar. — Só para ter certeza de que serei tratada, com o devido respeito. E também, é claro, para pedir que o chamem caso eu crie problemas. — A senhora realmente gosta de provocar os outros, não é mesmo? — perguntou Samy, rindo. — Quando se tem a minha idade, não sobram muitos divertimentos — respondeu ela, sem o mínimo remorso. — Além disso, é bom lembrar as pessoas que não se perde o juízo junto com os dentes. No fundo, eles gostam disso. Ficam com menos medo de envelhecer. Já no carro, Samy repetiu essas observações para Simon. — Vovó tem razão. Eu estava mesmo conversando com a enfermeira — concordou ele, — Eu a provoco muito e brinco com ela, mas o antigo médico já me dizia que ela era uma das pacientes favoritas do hospital. Minutos mais tarde, Samy ficou intrigada. O caminho que tomavam não conduzia a nenhum restaurante que ela conhecesse. — Onde vamos jantar? — Em casa. — Mas eu pensei ter ouvido que a sra. Gessner estaria de folga. — É verdade. Estou apenas cumprindo minha promessa. Vou cozinhar para você. O que fazer? , pensou Samy. Uma noite inteiramente a sós com Simon prometia ser deliciosa, mas também apresentava perigos. "Mesmo assim, por que não aproveitar aquela chance de passar momentos agradáveis com Simon? Se não o fizesse, certamente se arrependeria depois", concluiu. — Quer dizer então que vou provar aquele famoso molho de spaghetti? — Exatamente. A breve hesitação de Samantha não passara despercebida a Simon. Após o passeio em Old Sturbridge, ele acreditara que ela resolvera finalmente deixar de reprimir seus impulsos. Havia sido mais expansiva e receptiva naquele dia, especialmente quando ele a beijara sobre a ponte. Uma pena que ele tivesse partido no dia seguinte. Acabara por dar tempo a ela para pensar e reerguer suas defesas. Tudo bem... Ele trataria de pô-las abaixo novamente. Sabia que Samy não iria resistir por muito tempo à atração que sentia por ele. Em breve, ela desistiria de lutar... Ao entrar em casa, ele a ajudou a tirar o casaco, roçando levemente os dedos no ombro dela. Fingiu não perceber o arrepio que lhe percorreu o corpo. — Você cuida da salada enquanto preparo o spaghetti. Quer um avental? — Só vou precisar de avental quando começar a comer. Sempre que como spaghetti acabo com a roupa manchada. — E com essa roupa clara, as manchas ficarão uma beleza... Eu devia tê-la prevenido de que teríamos comida italiana. — Não há problema. Vou comer devagar. Assim também apreciarei melhor o seu fantástico molho. — Ótimo. Os ingredientes para a salada estão na geladeira! Vou buscar uma tigela e uma faca. Ela estava cortando alface, quando ele voltou com um copo de vinho. — Para abrir seu apetite — murmurou ele, antes de sair. Samy franziu o cenho por um instante. Depois tomou um gole. Estava começando a ver segundas intenções em cada gesto de Simon. Uma verdadeira paranóia... Durante o jantar, Samy continuou a ser atormentada por uma forte atração por Simon. Os olhos dele pareciam brilhar com uma luz toda especial quando se detinham sobre ela: efeito da luz, provavelmente, A voz masculina parecia enriquecida por alguma qualidade que a acariciava e fazia tremer: sem dúvida a acústica do lugar. E sempre que a ouvia falar, ele parecia contemplar sua boca como se a imaginasse em contato com a dele: quem sabe a conversa dela era fascinante... Seria isso mesmo? — Tenho sorvete e alguns doces da sra. Gessner, se você quiser sobremesa. — Obrigada, Simon. Só café. Quando os dois terminaram de arrumar a cozinha, o café já estava pronto, e Simon sugeriu que o tomassem na sala de estar. Samy, que pretendia sentar-se em uma das poltronas, terminou ao lado de Simon, no sofá em frente à lareira. A sala permanecia fresca durante a maior parte do verão, talvez devido à construção em pedra. O certo é que, ao inclinar-se para pegar a xícara da bandeja, Samy sentiu um arrepio. — Acho que vou pegar meu casaco. — Continue sentada. Vou acender a lareira. — Fogo? Em pleno verão? — Por que não? A lenha está cortada, pronta para ser usada. — Nesse caso, não vou reclamar. Após acender o fogo, Simon ligou o aparelho de som. Logo depois, os acordes da Sonata ao Luar de Beethoven fizeram-se ouvir no aposento. — Adoro essa música — observou ela, tentando controlar o nervosismo que começava a dominá-la. É claro que agora Simon tinha as mãos livres e não havia mais uma mesa entre os dois, mas a sonata de Beethoven não era exatamente a música certa para uma sedução, além do que, ele também não tentava amolecê-la com conhaque. — É uma de minhas favoritas também — respondeu ele, sentando-se e estendendo as pernas. —: Por que não tira os sapatos e coloca os pés para cima? Tenho a impressão de que você está pronta para sair correndo. Samy enrubesceu, sentindo-se meio tola ao perceber que estava rígida e ereta na beirada do sofá. Assim, aceitou a sugestão dele e tentou forçar o corpo a relaxar. — Assim está melhor. — Ele estendeu a mão e tocou os pés de Samy, quase fazendo-a derrubar o café. — Seus pés parecem gelo. Vou buscar um cobertor. — Meus pés e mãos estão quase sempre frios. Não é preciso. Estou muito bem. Por fim, acabou arrependendo-se por não permitir que Simon fosse buscar o cobertor. Ele começou a massagear-lhe os pés, presumivelmente para aquecê-los. Era só o que faltava para que pudesse relaxar... — Mãos frias, coração quente — disse ele sorrindo, fazendo com que o órgão em questão desse saltos no peito de Samy. — Mãos frias, circulação ruim — corrigiu ela. Sem motivos, pois, pelo menos naquele instante, seu sistema circulatório estava funcionando bem até demais, a julgar pela rapidez com que o calor das mãos dele espalhava-se por seu corpo inteiro. Tinha os olhos fixos sobre as mãos musculosas e fortes que lhe massageavam os pés e que subiam imperceptivelmente até os tornozelos. Uma parte de sua mente dizia-lhe que o fizesse, a parar, mas a outra já se encontrava inevitavelmente prisioneira j de uma fascinação irracional, como a de um pássaro olhando uma serpente. Escutava apenas vagamente a música e o crepitar do fogo na lareira. Sua atenção estava quase totalmente voltada para ele, para o toque perturbador daquelas mãos... CAPÍTULO VIII — Relaxe, Samantha — Simon pediu suavemente. — Você está muito tensa. "Ele deve estar brincando! Como posso relaxar?", pensou Samy, os olhos fixos nos braços musculosos cobertos de pêlo, nas mãos fortes que a acariciavam. Tão intensa era sua concentração, que nem ao menos percebeu que ele se aproximava cada vez mais. — Deixe-me pegar isso antes que você derrube. — O que... o que você está fazendo? — Acabo de tirar a xícara de sua mão para que você não derrube o café quando eu beijá-la. — Mas... E seus lábios se encontraram num doce beijo. Finalmente o nervosismo que ela sentia começou a desaparecer, pois o motivo dele era a ansiedade. Durante todo o tempo desejara que ele a abraçasse e beijasse como fazia naquele momento. Simon afastou-se devagar, levantou-se e, gentilmente, ergueu-a nos braços. Colocou-a sobre o sofá e em seguida deitou-se ao lado dela. O beijo que lhe deu desta vez foi mais apaixonado, mais sensual, e Samy correspondeu com o mesmo ardor. Ao perceber queela o queria, Simon hesitou por instantes e quase recuou. Sentia-se como um caçador que, após perseguir por muito tempo uma criatura arisca e tímida, no momento do sucesso hesita em agarrar o prêmio. Suas dúvidas desapareceram quando as mãos dela acariciaram-lhe o peito e as costas. Os dois abraçaram-se então com mais força, os corpos ardendo de desejo. Os dedos hábeis de Simon desabotoaram a blusa de Samantha e logo tiraram-lhe o sutiã, libertando-lhe os seios, que ele beijou com sofreguidão. Seguindo o exemplo dele, Samy, o coração batendo violentamente, tirou-lhe a camisa e correu os dedos pelo peito forte e musculoso, sentindo a firmeza daquele corpo. Minutos depois, envolvida por um prazer crescente, ela o viu desabotoando a calça. Imediatamente estendeu a mão para impedi-lo, percebendo então o quão excitado ele se encontrava. Um começo de pânico a envolveu quando ele afastou-lhe a mão e começou a descer o zíper. — Simon, não. — Está tudo bem, gatinha — murmurou ele, a voz carregada de desejo, — Há tanto tempo á desejo... Deixe-me amar você. — Não. Oh, Simon, não! Ao sentir que ela resistia, Simon usou de força para mantê-la imóvel. Levou algum tempo até que se desse conta de que a mulher que tinha nos braços, e que até ali correspondera com ardor igual aos seus avanços, não estava disposta a ir adiante. Transtornado pelo desejo, sentiu-se tentado a exigir o que queria. Enquanto isso, apreensiva, ela observava as transformações que se operavam no semblante dele. Primeiro, viu-lhe a palidez, depois, o ar sombrio e furioso, o aspecto ameaçador. Estava em uma posição vulnerável e sabia disso. — Mais um de seus truques, Samantha? — perguntou ele, um sorriso cruel nos lábios. — Talvez eu a curasse dessa mania de me provocar se a possuísse agora. O que esperava que eu fizesse? Que eu me casasse com você só para satisfazer este desejo que provocou em mim? Ou será que você quer me punir por esse falso noivado? — Não! Você está errado e deveria saber disso! — É mesmo? Você não seria a primeira mulher a usar o sexo como arma. E usa muito bem, sua feiticeira de olhos verdes. Agora não quer continuar, não é mesmo? Mas eu posso fazer você mudar de idéia. Talvez não dê muito trabalho... Afinal, tudo ia indo muito bem. Você me queria. — Ela teve de baixar os olhos diante do sorriso irônico que ele lhe deu. — Simon, por favor... Finalmente ele a libertou. Ergueu-se, pegou as roupas que jogara no chão e atirou-as sobre ela. — Vista-se — ordenou, antes de deixar a sala. Samy apressou-se em obedecer, tão rapidamente quanto seus dedos trêmulos o permitiam. Apenas quando estava completamente vestida é que se atreveu a olhar ao redor. Simon havia desaparecido. Ela hesitou por alguns instantes antes de sair da saía. Ao escutar o som do chuveiro, foi apressadamente para a cozinha, onde vestiu o casaco e bebeu com avidez um copo de água. Ao voltar, viu-o de cabelos e camisa úmidos, como se ele houvesse tomado banho sem se preocupar em enxugar-se. — Tenho certeza de que compreenderá se eu resolver encerrar esta noite deliciosa um pouco mais cedo e levá-la para casa. O sarcasmo na voz dele era insuportável. Samy tinha plena consciência de que seria melhor manter a boca fechada, mas sentiu a necessidade de se explicar. — Simon, eu... — Não, Samantha! Fique calada. No caminho de volta à cidade, ele dirigiu com uma expressão de ira controlada no rosto. ignorou-a completamente. Samy lutava para reter as lágrimas. Por fim desistiu e deixou-as correr livremente pelas faces, receando chamar a atenção dele se tirasse o lenço da bolsa e as enxugasse. Quando estacionou na frente da casa de Samy, Simon quebrou o silêncio, numa voz fria, completamente destituída de emoção. — Minha avó deve voltar do hospital na quarta-feira de manhã, e então eu lhe explicarei tudo sobre o noivado. Pode contar aos outros a história que quiser, contanto que deixe bem claro que tudo terminou. Só espere até que minha avó seja informada. — Eu nunca faria nada para magoar sua avó. — Duvido que tenha qualquer oportunidade daqui por diante — disse ele, dando de ombros. — Simon, deixe-me explicar. Por um instante, ele pareceu hesitar. Mas apenas por um instante. — Sua porta está aberta, Samantha. Era o fim das esperanças. Simon não permitiria que ela falasse. Samy saiu do carro, procurou as chaves na bolsa e as encontrou no instante em que o carro partia. O resto da noite foi trágico. Muito infeliz, Samy adormeceu ao amanhecer. Acordou terrivelmente deprimida. Quase telefonou para Richard dizendo que estava doente e não iria trabalhar. Acabou desistindo. Ficar em casa seria insuportável. Por sorte, as segundas-feiras eram sempre dias agitados, com bastante trabalho. Ninguém pareceu notar que o sorriso dela não combinava muito bem com o rosto empalidecido e com às sombras escuras ao redor dos olhos. Embora não sentisse vontade de conversar com Kate, ao chegar em casa Samy encontrou a amiga desenhando no jardim. A uma simples pergunta dela sobre a noite anterior, começou a chorar. Kate levou-a para a cozinha, fez com que ela se sentasse e deu-lhe uma caixa de lenços. Quando Samy conseguiu se controlar, ela já tinha tomado todas as providências para servir o chá. A chaleira apitava no fogo. — Os ingleses deixaram marcas indeléveis nesse país — comentou a amiga. — Sou viciada em café como todos os americanos, mas, nestas ocasiões, procuro a lata de chá como que por instinto. Com uma reconfortante xícara de chá à sua frente, Samy relatou tudo o que ocorrera na noite anterior. Mesmo a despeito de sua relutância, em falar, sentiu-se bem mais aliviada depois de fazê-lo. — Parece que o seu "Barão" não é tão esperto assim. Do contrário, teria percebido há muito tempo como você é inexperiente. — Eu não lhe dei muitas pistas para notar isso. Pelo contrário. Não sei como consegui detê-lo. — Provavelmente teve um ataque súbito de pânico. — Nunca vi ninguém tão fora de si como ele ficou. — Ê porque você nunca tinha visto um homem frustrado antes. Um chicote e uma cadeira são muito úteis nessas ocasiões. E um pouco de presença de espírito para não se deixar impressionar pelos rugidos da fera. — Não posso depender de ataques de pânico para me livrar de encrencas — Samantha sentenciou. Na terça-feira, contudo, a depressão de Samy começou a ceder lugar à ira. Ao se recordar de que quase implorara por uma chance de dar explicações, a raiva aumentava ainda mais. Por que deveria dar explicações, justificar seu comportamento? Não tinha culpa se ele sempre chegava a conclusões erradas. Além disso, fora ele quem tentara seduzi-la. Se alguém devia explicações, esse alguém era ele. A atitude de Simon viera apenas confirmar as impressões que tivera ao conhecê-lo. Simon era um cavaleiro medieval nascido em época errada, um machista que considerava qualquer mulher desacompanhada como uma presa legítima. Se ele esperava que ela se debulhasse em lágrimas por sua causa, com certeza ficaria decepcionado. Samantha Abbott não se deixaria, abater por um homem tão arrogante! É verdade que ainda sofria quando seu olhar repousava sobre o anel que ele lhe dera, mas a raiva servia-lhe de escudo contra a terrível sensação de perda que á dominava. Na quarta-feira de manhã, Samy ficou deitada por algum tempo, imaginando o que poderia fazer em seu dia de folga e tentando não relembrar o que fizera na semana anterior. Precisava de um trabalho duro, que a ajudasse a passar o tempo e que a deixasse exausta. Passou em revista as tarefas desagradáveis que tinha a seu dispor e finalmente decidiu-se a limpar os armários da cozinha, forrando-os com o papel novo que comprara havia três meses. Uma hora mais tarde, Samy estava na cozinha, rodeada de um balde com água e sabão, esponjas, papel, régua e tesoura. Decidiu começar pela parede que tinha armários de uma ponta a outra. Só interrompeu o serviço para o almoço, quando havia terminado duas paredes. Faltava apenas mais uma.Apesar de ter deixado as portas e janelas abertas, o cheiro de amoníaco ainda estava forte na cozinha; assina resolveu comer nos degraus que davam para o jardim. Graças a Deus não tinha armários nas quatro paredes, pensou ela, suspirando ao sentar-se. Nunca mais reclamaria por não ter espaço suficiente para guardar suas coisas. Pretendia descansar um pouco após comer, mas, assim que conseguiu relaxar, seus pensamentos mostraram uma forte tendência em avançar por caminhos proibidos. Tudo parecia conduzir a Simon. Olhou para os canteiros de flores e lembrou-se do dia em que ele quase a matara de susto. O carro na garagem a fez recordar o dia em que ele trocara o pneu furado na estrada. Sem dúvida, descansar naquelas circunstâncias não era fácil. Assim sendo, logo estava de volta ao trabalho. Tinha agora de arrumar o armário acima da geladeira, o mais difícil de todos, já que só podia alcançá-lo subindo na pia e inclinando-se sobre a geladeira. Após várias viagens para cima e para baixo, Samy terminou o serviço. Estava se preparando para descer pela última vez quando escutou ruído de pessoas, logo seguidos por uma voz familiar: — Samantha, que diabos pensa que está fazendo? Alarmada, ela deu um grito e perdeu o equilíbrio, caindo para trás. Sua queda terminou abruptamente entre dois braços fortes, que a enlaçaram. — Diabos, Samantha! Está querendo se matar? — Simon praticamente berrou em seu ouvido. — Eu estava indo muito bem até você quase me matar de susto. Solte-me, seu... seu assassino! — Ah, é? E se alguma outra, coisa a assustasse e não houvesse ninguém por perto para segurá-la? — ele segurou-a pelos ombros com firmeza. — De agora em diante, terá de tomar mais cuidado. — Ah, é? Simon sacudiu a cabeça e sorriu. — Não é assim, Samantha. Você deveria dizer: "Quem vai me obrigar a tomar cuidado?" Aí eu responderia: "Eu". E você perguntaria outra vez: "Ah, é?". Samy tentou manter-se irritada, mas, como de costume, não teve sucesso. — Você esqueceu uma parte, Simon: "Você e mais quem?" — Não esqueci. Pretendo lidar com você sozinho. Samy respirou fundo. Tinha de fazer alguma coisa, antes que a alegria lhe tirasse o controle. Se ele estava ali para continuar o que iniciara no domingo, era bom desencorajá-lo o mais rápido possível. — O que está fazendo aqui, Simon? — perguntou ela secamente. — Tive uma longa conversa com minha avó hoje de manhã — ele respondeu, após alguma hesitação. — Ela está bem, então? — Está... Ela sabia tudo sobre o falso noivado. E desde o começo. — O quê? Mas... como? — Vovó estava perto da janela quando você falou com as duas fofoqueiras. Ela confirmou que suas palavras foram mal interpretadas. Disse que você ficou tão desconcertada que ela chegou a vir em seu auxílio, mas ao chegar à varanda eu já estava lá. Percebeu que eu menti por causa dela, e decidiu continuar com a farsa. Até mesmo fingiu estar exausta e abatida para que o noivado continuasse por mais tempo. — Mas, por quê? — Vovó sabia que eu estava interessado em você, mas temia que minha falta de inclinação para o casamento impedisse meu amor por você. Assim, ela achou que um "empurrãozinho" na direção certa poderia ser útil. — Só mesmo ela... — comentou Samy, sorrindo. — Ainda bem que você acha engraçado. Não achei muito divertido quando me lembrei do que lhe disse na festa. — Posso compreender — replicou ela, baixando o olhar. — Era mesmo difícil acreditar na história que lhe contei. Ela não parecia muito verossímil. — É muita generosidade de sua parte, especialmente depois do que aconteceu na noite de domingo. — Simon, eu não tinha intenção de provocá-lo. Fui apenas estúpida demais para perceber que... — Eu não diria estúpida. Creio que ingênua seria a palavra mais apropriada. Nunca achei que você tivesse muita experiência com homens, mas desde domingo estou inclinado a imaginar que não teve nenhuma. Samy ficou vermelha como pimenta. — Estou certo, não é mesmo Olhos Verdes? — Sim. E o. que você queria que eu fizesse? Que eu dissesse: "Oh, querido, a propósito, eu ainda sou virgem?" Não é o tipo de informação que se dá em uma conversa casual. —- No domingo não estávamos tendo uma conversa casual. Você poderia ter evitado um bom susto. — Você teria acreditado em mim, por acaso? — Acho que não — reconheceu ele. — Você vai ser generosa o suficiente para me perdoar? — Você quer que eu o perdoe por tentar fazer amor comigo ou por ter ficado zangado quando eu o impedi? — perguntou ela, ao mesmo tempo em que se afastava. Simon deu um passo à frente na direção dela. — Por ter ficado zangado. Ainda pretendo fazer amor com você. Samy engoliu em seco e afastou-se mais um pouco, logo seguida por ele. Pelo menos não podia acusá-lo de desonestidade. Continuou recuando e imaginando um modo definitivo de fazê-lo entender que desperdiçava seu tempo, até que, de repente, percebeu que não havia mais espaço atrás de si. Estava encurralada contra a pia. — Simon, fique onde está. — Precisamos tratar de seus nervos, gatinha. — Ele tinha um largo sorriso. — Não é saudável ficar tão tensa. — Você está invadindo meu espaço pessoal. Isso sempre faz com que as pessoas se sintam desconfortáveis. — Desconfortáveis? Você está tremendo como vara verde. — Não ria de mim, seu arrogante, prepotente, convencido... — Machão pretensioso — sugeriu ele, deixando-a boquiaberta. — Isso mesmo! — Por quê? — Porque você manda e não pede nada. Parece um barão da Idade Média. Simon achou a história mais engraçada do que ofensiva. — Então você acha que eu estaria melhor vivendo na Idade Média? Bem, devo concordar que seria bem mais fácil lidar com você. Bastaria tê-la carregado para o meu castelo logo depois de tê-la visto. — Mas não estamos na Idade Média — apressou-se ela a dizer, amedrontada pelo olhar dele. — Não vou permitir que ninguém me carregue para lugar algum. Portanto, se está com "idéias" na cabeça, esqueça. Em meio ao discurso dela, Simon começara a beijar-lhe suavemente o pescoço. — Tem certeza? — murmurou ele, sem interromper o que fazia. — Tenho! — Que mentira! Ela estava confusa, excitada, sem saber o que fazer, mas sentindo que devia falar alguma coisa, ainda que não tivesse muito sentido. Mas foi ele quem falou: — Minha avó contou-me mais uma coisa. — O quê? — Que você está apaixonada por mim. — O quê?! — Espantada, Samy quase subiu na pia. — O que você falou? — Minha avó disse que você está apaixonada por mim — repetiu ele, calmamente. — De onde diabos ela tirou essa idéia? — Ela disse que se eu gastei um tempo enorme para perceber que estava apaixonado por você, o que ela poderia ter me dito há muito tempo, provavelmente eu só perceberia no Natal que você também estava apaixonada por mim. Ela achou óbvio o que sentíamos e comentou que já estava perdendo a paciência conosco. — E você... está... ? — Sim, estou. Desesperadamente apaixonado por você. Samy abraçou-o. — Simon, eu te amo tanto! Ela não pôde dizer mais nada. Os dois se beijaram com todo o ardor de pessoas apaixonadas, murmurando frases desconexas. Quando se julgaram capazes de uma conversa com um mínimo de coerência, Simon foi sentar-se na poltrona da sala de estar e pôs Samy no colo. — Não seria mais confortável no sofá? — perguntou ela, acariciando-lhe os lábios com os dedos. — Confortável demais — retrucou ele. — Minhas intenções são as mais nobres possíveis, mas não sou de ferro. Aliás, se você não se comportar bem, terá de mudar de poltrona. — É tão difícil compreender os homens... Você gasta semanas tentando fazer com que eu me comporte mal, e, quando começo a fazer isso, muda de idéia. — Dentro de duas semanas você poderá se comportar mal. E terá bastante incentivo de minha parte. — Por que duas semanas? — É quando pretendo que se case comigo. Duas semanas, talvez um dia a mais oua menos. — Casar? Em duas semanas? — Poderia ser daqui a uma semana, mas, como pretendo carregá-la para um lugar razoavelmente deserto, onde talvez fiquemos por um bocado de tempo, resolvi colocar os negócios , em dia e dar um pouco de tempo a Richard para que encontre uma substituta, pelo menos temporária, para você. O que será difícil, já que você é insubstituível. — É claro que sou. A menção do nome de Richard, contudo, fez com que ela se lembrasse de que ainda não havia contado a verdade a Simon sobre seu relacionamento com o médico. — Simon... já que você mencionou Richard... Nós não estávamos realmente noivos. Era apenas uma encenação para confundir Amanda. — Hummm... Richard foi esperto dessa vez. E você teve receio de contar a verdade. Obrigado por confiar em mim agora. — Simon, eu te amo. — Não consigo entender muito bem como pode me amar depois de tudo o que lhe fiz. Mas, de qualquer modo, não porei em questão minha boa sorte. E pretendo tê-la bem segura antes que lhe sobre tempo para outros pensamentos. — Tal avô, tal neto. Mas você não está esquecendo de nada? — Duvido. Nós, os "Barões Machistas", nunca esquecemos de nada quando se trata de raptar donzelas. — Muito bem, senhor "Barão". Aproveite bem este rapto, pois será o último. — Eu sabia! Não é à toa que você tem olhos verdes. Mas, vamos, diga do que me esqueci. — Você ainda não pediu para que eu me case com você. — E quem disse que você tem escolha? — Após beijá-la para impedir que respondesse, Simon assumiu um ar sério. — Eu a pedirei em casamento. Samantha, mas antes quero dizer-lhe algo. — O quê? — Eu achei que meus sentimentos por você eram uma espécie de obsessão e, depois de domingo, resolvi curar-me de uma vez por todas. Mas, por mais que tentasse, não consegui tirá-la da cabeça. A idéia de não vê-la mais era dolorosa e não pude mais me enganar. Tive de admitir que, enquanto estive tentando agarrá-la, eu é que fui aprisionado. Queria correr até aqui e pedi-la em casamento, mas tão tinha coragem. — Você queria casar-se comigo antes mesmo de saber toda a verdade? — Sim. Se você estivesse interessada em meu dinheiro, seria bem-vinda, contanto que me aceitasse junto com ele. Sabia também que você não era totalmente indiferente a mim. Estava disposto a correr riscos. Talvez algum dia você viesse a me amar. — Fico satisfeita por ter me contado tudo isso. — E então? Quer se casar comigo? — Oh, querido... Não tenho escolha. Eu te amo mais do que imaginava ser possível, e é claro que quero estar a seu lado para sempre. Ele a apertou contra o corpo. — Não vai se arrepender, querida. A voz de Simon estava carregada da costumeira arrogância, mas Samantha não se importou. "Baronesa Radnor", pensou ela, enquanto seus lábios se uniam. "Até que não soa mal..." Não! Sara não iria permitir que ele confundisse as coisas. Entre os dois não haveria beijos de fogo nem carícias loucas... FIM Entre o amor e a ilusão, uma mulher só tinha uma escolha possível. Intrigado, Simon observava a moça de biquíni que caminhava com sensualidade em direção a Richard, os olhos inquietos evitando os seus. Ele poderia jurar que Samantha não amava aquele homem, ainda que fossem noivos, ainda que ela fizesse de tudo para provar que o queria loucamente. Samantha não amava Richard. Do contrário não teria estremecido em seus braços, quando a enlaçara na piscina, num doce e inesperado abandono, esquecendo o compromisso que a ligava a outro. Ou teria? � � PAGE �20�