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GASTROENTEROLOGIA CIRÚRGICA – AULA 04 – VARIZES ESOFÁGICAS Primeiro de tudo precisamos relembrar a vascularização do esôfago, o que é o sistema porta e como ele funciona. 1. VASCULARIZAÇÃO DO ESÔFAGO O esôfago é irrigado tanto em sua parte superior quanto em sua parte inferior por ramos diretos da aorta. Porção cervical Ramos da artéria tireóidea inferior (ramo do tronco tireocervical) Porção torácica Ramos esofágicos das artérias brônquicas, das artérias intercostais, e artérias esofágicas diretamente da porção descendente da aorta Porção abdominal Ramos das artérias frênicas inferiores e da artéria gástrica esquerda (ramo do tronco celíaco). A drenagem vai para o sistema ázigos. As veias intercostais do lado direito recebem as veias esofágicas e desembocam na veia ázigos, e ela drena para a veia cava superior. No lado esquerdo temos a hemiázigo acessória, que recebe as veias intercostais esquerdas e ramos esofágicos. Essas veias geralmente não são visíveis. 2. SISTEMA PORTA A veia esplênica se junta com a veia mesentérica superior formando a veia porta. 75% do fluxo sanguíneo venoso vem da veia porta e 25% vem da veia hepática. O sistema porta é um sistema venoso entreposto entre duas redes capilares: Capilares esplâncnicos: que receberem os nutrientes dos enterócitos no intestino e formam no final a veia porta. Capilares sinusóides hepáticos: também se confluem e formam no sistema venoso que chega a veia cava e assim retorna ao coração. A pressão no sistema venoso portal em condições normais é muito baixa (cerca de 5 – 10 mmHg). No fígado há fileiras de hepatócitos e capilares sinusóides hepáticos. Os capilares sinusóides ficam muito próximos dos hepatócitos e realizam trocas com eles, e ao final se confluem formando a veia hepática que chega a cava inferior. Entre os hepatócitos e os capilares há o espaço de Disse, e dentro dos capilares sinusóides há as células de Kupffer (macrófagos). No espaço de Disse, há as CÉLULAS ESTRELARES, que normalmente armazenam vitamina A. Estas células possuem origem miofibroblástica, conseguindo assim realizar a mesma função dos fibroblastos, ou seja, produzir colágeno. No entanto, ela só realiza essa função caso seja estimulada. Quando há algum agente agressor lesando os hepatócitos, causa liberação de mediadores químicos que vão estimular as células de Kupffer (macrófagos). Estas células reconhecem que o fígado está sendo agredido, e assim liberaM mediadores químicos que atraem linfócitos para esta área. Os linfócitos liberam citocinas para atrair mais linfócitos, porém estas citocinas agem nas células estrelares, estimulando-as a produzir colágeno, que será depositado no espaço de Disse. Quando ocorre esse depósito de colágeno, causa uma dificuldade de trocas entre hepatócitos e capilares sinusóides, impedindo inclusive a regeneração dos hepatócitos. Esse aprisionamento das substâncias dentro do hepatócito formam os chamados nódulos de regeneração, característicos da cirrose hepática. No fígado também ocorre fagocitose de microorganismos e desativação de toxinas antes que caiam na circulação sistêmica. Ainda ocorre armazenamento da glicose para formação de glicogênio hepático, e aminoácidos para a síntese proteica. O sistema porta se conecta a circulação sistêmica em vários pontos, como: sistema ázigo, sistema umbilical, sistema retroperitonial e sistema retal. Estes sistemas existem porque o sangue pode retornar por eles invés do sistema porta. Estas veias não são muito utilizadas, e são veias com calibre menor. Caso começasse a passar muito sangue por elas, elas ficariam congestionadas, causando aparecimento de varizes. Normalmente o fluxo vai para o sistema porta por ser um sistema com baixa pressão. (Sangue vai do local com maior pressão para o de menor pressão). Não existe resistência. Em condições normais, quando há um aumento de fluxo sanguíneo no sistema porta, há somente um aumento discreto (ou nenhum aumento) de pressão portal, isso ocorre devido à dilatação passiva (elevada complacência) dos vasos intra e extra-hepáticos, que possuem baixa resistência e assim não deixam a pressão aumentar. 3. HIPERTENSÃO PORTAL Síndrome caracterizada por obstrução ao fluxo sanguíneo e aumento da pressão no sistema venoso porta hepático (mais de 10mmHg) e desenvolvimento de circulação colateral. PRÉ-HEPÁTICA Trombose de veia esplênica Trombose de veia pulmonar Trombose de veia porta INTRA-HEPÁTICA Esquistossomose Cirrose alcóolica Doença veno-oclusiva Hepatites PÓS-HEPÁTICA Trombose de veia hepática Insuficiência cardíaca Trombose de veia cava inferior A direção do fluxo sanguíneo portal depende da resistência. A resistência nos vasosintra-hepáticos é baixa, porém a resistência nos vasos colaterais é menor do que nos vasos intra-hepáticos Então quando há uma resistência maior nos vasos intra-hepáticos (como na cirrose hepática), a circulação se desvia do caminho normal (sistema porta) e vai para outros sistemas, formando as circulações colaterais gastro-esofágicas, colaterais retroperitoniais, colaterais hemorroidárias, colaterais umbilicais. Os colaterais são criados porque estes sistemas não foram feitos para suportar grande quantidade sanguínea como o sistema porta. A circulação colateral desencadeia a formação de varizes, que podem causar hemorragias ou desvio do sangue portal do fígado. Quando a circulação vai para o sistema ázigo e são criados os vasos colaterais gastro-esofágicos, estes são chamados de VARIZES ESOFÁGICAS. Uma das grandes causas de morte nos pacientes com cirrose é a hemorragia digestiva alta, onde ocorre rompimento das varizes esofágicas. Lembrar que nesse paciente com cirrose ocorre uma diminuição da síntese dos fatores de coagulação porque o fígado não está trabalhando corretamente. A vasoconstricção dos sinusoides ocorre não somente por obstrução da veia porta, mas pode ser também pela falta de produção de substâncias do fígado Isso causa uma vasodilatação da circulação periférica (esplâncnica) Como aumenta a circulação esplâncnica, pode causar esplenomegalia. O baço é responsável pela hemocaterese das hemácias, e quando há esplenomegalia, ocorre hiperesplenismo, ou seja, aumenta o sequestro e morte das hemácias. Ocorre também aumento da destruição das plaquetas, levando a plaquetopenia. Esse tipo de paciente pode ter hemorragia pela falta de plaquetas. 4. QUADRO CLÍNICO DO PACIENTE 4.1. SINAIS DE INSUFICIENCIA HEPÁTICA Icterícia Vai ocorrer dificuldade de excreção da bile, e isso causa acúmulo de bilirrubina (fígado não consegue metabolizá-la). Desnutrição, edema Ocorre quando o fígado não é mais capaz de produzir albumina. Sem a albumina vai reduzir a pressão coloidosmóstica do capilar, e vai haver transudação. Telangectasias Também devido ao estrogênio. Ginecomastia Isso ocorre no homem porque há um desvio da produção de testosterona, formando estrogênio. Ascite Devido à hipertensão portal vai ocorrer ocorre aumento da pressão hidrostática no capilar, e devido a esse desequilíbrio entre as pressões capilares, haverá uma saída de líquido do capilar (pressão hidrostática), chamada de transudação, que leva a ascite. Encefalopatia O desvio do sangue portal faz com que as toxinas e bactérias acabem caindo direto na circulação sanguínea, podendo causar sépsis, e, além disso, como a amônia não passa pelo fígado, ela não será transformada em ureia, e a amônia é tóxica, podendo causar encefalopatia hepática. Hepato espleno megalia O acúmulo de sangue no baço faz com queele aumente de tamanho e além disso, o baço é responsável pela hemocaterese das hemácias, e quando há esplenomegalia, ocorre hiperesplenismo, ou seja, aumenta o sequestro e morte das hemácias. Ocorre também aumento da destruição das plaquetas, levando a plaquetopenia. Esse tipo de paciente pode ter hemorragia pela falta de plaquetas. Circulação colateral: Isso porque devido a hipertensão porta o sangue não consegue chegar corretamente, se desviando para as demais veias. Varizes esofágicas Dilata a veia gástrica esquerda, a gástrica curta, e inverte o fluxo, passando pela veia esofágica, dilatando-a também, para assim chegar ao sistema ázigos. Cabeça de medusa Ocorre recanalização do sangue para a veia umbilical (cabeça de medusa), ou veias do retroperitônio e assim o sangue chega a veia esofágica, vai para a veia ázigos e chega a veia cava superior. Hemorróidas Aumenta pressão da veia mesentérica inferior e o fluxo retorna para o sistema retal, podendo formar hemorróidas. 5. CLASSIFICAÇÃO DE CHILD PUGH – IMPORTANTE!!! A gravidade do paciente e risco de sangramentos/complicações depende do quadro clínico do paciente, podendo ser classificado de acordo com a tabela: Avalia quadro de insuficiência hepática. Faz a somatória e verifica se é A, B ou C. A 5 a 6 pontos B 7 a 9 pontos C 10 a 15 pontos 6. DIAGNÓSTICO Além da observação do quadro clínico do paciente, o exame mais importante que temos é a ENDOSCOPIA DIGESTIVA ALTA. 6.1. ENDOSCOPIA DIGESTIVA ALTA É possível verificar se há varizes de pequeno, médio ou grande calibre Caso realize endoscopia do estômago, é possível verificar se há varizes na cárdia (devido a dilatação da veia gástrica esquerda). A endoscopia ainda é boa porque ela além de diagnóstica pode ser curativa (veremos a seguir). Existem alguns aspectos que podemos observar das varizes através da endoscopia digestiva alta que são preditivos de possibilidade de ruptura e sangramento, que chamamos sinais vermelhos. Vergão Cor cereja Hematocisto – bola de sangue Rubor difuso Quando tiver estes sinais, deve fazer terapia prévia antes que haja ruptura da variz. 7. FATORES DE RISCO DE RUPTURA DAS VARIZES ESOFÁGICAS Fatores clínicos - função hepática comprometida, Child B ou C, etiologia da cirrose (principalmente se for alcoolica) Fatores hemodinâmicos – pressão portal > 12 mmhg, Pressão de variz > 15 mmhg Fatores endoscópicos – varizes acima de 5 mm, aspecto das varizes ( com sinais avermelhados ) Outros – infecção, uso de anti-inflamatórios e abuso de álcool 8. TRATAMENTO DAS VARIZES ESOFÁGICAS O tratamento das varizes esofágicas é preferencialmente CLÍNICO, ou seja, com medicamentos. O medicamento de escolha é o beta-bloqueador PROPRANOLOL Diminui os batimentos cardíacos, e ainda causa vasoconstricção esplâncnica. Na hipertensão porta alem da obstrução mecânica (fibrose) tem-se aumento do fluxo (vasodilatação esplâncnica) e isso piora a hipertensão porta. 8.1. TRATAMENTO DAS COMPLICAÇÕES – RUPTURA DE VARIZES Quando o paciente tem ruptura de varizes esofágicas, ele chegará ao pronto socorro apresentando: HEMATÊMESE e MELENA (enterorragia). Nesse caso devemos fazer o ABCDE no paciente, fazer estabilização hemodinâmica e respiratória. Para estancar a hemorragia temos três opções: medicamentos, endoscopia, ou cirurgia. 8.1.1. TERAPIA FARMACOLÓGICA Terlipressina (análogo a vasopressina) Octreotide (análago a somastotatina) Vasoconstricção Inibidor de bomba de próton (omeprazol) Diminuindo a acidez gástrica, diminui o refluxo e a irritação das varizes. Cerca de 40% dos pacientes para de sangrar somente com essa terapia medicamentosa. Porém caso não pare, é feito o tratamento endoscópico com a ligadura elástica. 8.1.2. TERAPIA ENDOSCÓPICA 8.1.2.1. LIGADURA ELÁSTICA Isso foi o que o professor disse: Identifica o ponto sangrando e faz a ligadura elástica. Com a ponta do endoscópico acopla os fios elásticos fixando-os. Traciona os fios e amarra as varizes. Porém, eu encontrei na internet uma explicação bem legal sobre a ligadura elástica e coloquei aqui (porque entendi melhor assim o procedimento): 8.1.2.2. ESCLEROSE ENDOSCÓPICA Isso foi o que o professor disse: Identifica o ponto de sangramento, e injeta substancia especial esclerosante na variz para que ela não sangre (profilaxia) ou pare de sangrar. Porém, eu encontrei na internet uma explicação bem legal sobre a esclerose endoscópica e coloquei aqui (porque entendi melhor assim o procedimento): 8.1.3. TAMPONAMENTO COM BALÃO DE SENGSTAKEN BLAKEMORE Esse tipo de tratamento é utilizado quando não há possibilidade de fazer ligadura elástica das varizes, ou fez esclerose endoscópica e ressangrou, ou é um Child C (nesse caso a endoscopia esclerótica pode piorar o quadro). Procedimento: Pega uma sonda vesical e passa pelo nariz indo até o estômago, insufla o balão gástrico, puxa a sonda e prende e depois insufla o balão esofágico Faz compressão mecânica das varizes para parar o sangramento. Depois de 24 a 48h vai desinflando o balão. 8.1.4. DERIVAÇÃO PORTO SISTÊMICA POR VIA TRANSJUGULAR Quando o sangramento não é resolvido por medicamentos, ligadura elástica, endoscopia esclerótica e nem balão esofágico, faz-se a derivação porto Sistêmica por via transjugular. É passado um stent por via jugular passando pela veia cava inferior, veia hepática, e passa um guia para tentar achar ramo da veia porta para ligar Diminui diretamente a pressão da veia porta para a veia hepática. Pode causar lesão hepática por sangramento, e com o tempo esse stent pode obstruir. Achei na internet a explicação assim: Uma agulha é introduzida na veia hepática até se atingir um ramo venoso principal da veia porta colocando-se, a seguir, um fio guia. Cria-se o trajeto no parênquima hepático através da dilatação de um balão e coloca-se prótese de metal criando a derivação 9. TRATAMENTO CIRÚRGICO 9.1. QUANDO INDICAR? Sangramento varicoso refratário a tratamento medicamentoso e endoscópico Hiperesplenismo sintomático (recorrência de sangramento ou infecção) Nesse caso como o baço está aumentado ele destrói os leucócitos e pode causar mais infecções Faz esplenectomia. Trombocitopenia severa (plaqueta < 10.000 mm ) Encefalopatia - refratária 9.2. ANASTOMOSE PORTO CAVA Para diminuir a pressão porta, ainda pode-se fazer uma anastomose entre a veia porta e veia cava inferior diretamente. Porém o produto absorvido no intestino não passa pelo fígado, vai direto para a veia cava, podendo piorar encefalopatia. 9.3. DESCONEXÃO ÁZIGO-PORTAL Desconecta o sistema da veia porta do sistema da veia cava superior Porque o sangue do sistema ázigo vai para a veia cava superior, e assim o sangue não passa pela circulação venosa esofagogástrica. Faz-se ainda retirada do baço para diminuir o fluxo, e faz ligadura entre veia gástrica esquerda e veia gástrica curta Diminui o fluxo para a veia esofágica e ela diminui de calibre. 9.4. DERIVAÇÃO ESPLENORRETAL DISTAL A veia esplênica é anastomosada na veia renal Isso leva o sangue direto para a veia cava superior, e diminui o fluxo na veia mesentérica superior e veia porta. Achei essa explicação na internet: Ao seccionar-se a veia esplênica próximo à veia porta e confeccionar-se sua anastomose com a veia renal esquerda, o sangue esplênico em vez de drenar para a porta, drena para a circulação sistêmica, cuja pressão é muito mais baixa. Com isso, a pressão intra-esplênica torna-se menor e o baço reduz o seutamanho. Através dos vasos esplenogástricos, que conectam o fundo do estômago ao pólo superior do baço há a derivação do sangue do território das varizes para dentro do baço e deste, pela veia esplênica, para a veia renal e cava inferior. Com essa derivação, os níveis pressóricos esofagogástricos tornam-se menores e reduz-se o risco de sangramento.