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0 CONHECIMENTO ECOLÓGICO TRADICIONAL DE AVES DA COMUNIDADE CUIABÁ MIRIM, PANTANAL DE MATO GROSSO RUTH ALBERNAZ SILVEIRA Dissertação apresentada à Universidade do Estado de Mato Grosso, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais para a obtenção do título de Mestre. CÁCERES MATO GROSSO, BRASIL 2010 1 RUTH ALBERNAZ SILVEIRA CONHECIMENTO ECOLÓGICO TRADICIONAL DE AVES DA COMUNIDADE CUIABÁ MIRIM, PANTANAL DE MATO GROSSO Dissertação apresentada à Universidade do Estado de Mato Grosso, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais para a obtenção do título de Mestre. Orientadora: Profª Drª Carolina Joana da Silva CÁCERES MATO GROSSO, BRASIL 2010 2 Ruth Albernaz Silveira CONHECIMENTO ECOLÓGICO TRADICIONAL DE AVES DA COMUNIDADE CUIABÁ MIRIM, PANTANAL DE MATO GROSSO Essa dissertação foi julgada e aprovada como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Ciências Ambientais. Cáceres-MT, 20 de março de 2010. BANCA EXAMINADORA _________________________________________________________ Profª Drª Carolina Joana da Silva Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT Orientadora _________________________________________________________ Profª. Drª. Joana Aparecida Fernandes Silva Universidade Federal de Goiás - UFG _________________________________________________________ Prof. Dr. Waldir José Gaspar Universidade Federal de São Carlos – UFSCar _________________________________________________________ Prof. Dr. Heitor Queiroz de Medeiros Universidade do Estado de Mato Grosso 3 DEDICATÓRIA Aos ribeirinhos de Cuiabá Mirim, que me ensinaram a olhar os pássaros com a poética de Manoel de Barros... A todas as pessoas que amo, que me inspiram a ser o que sou... Ao Félix e Reinaldo, com a alegria do nosso amor. 4 AGRADECIMENTO ESPECIAL Sou grata a minha orientadora e amiga, professora Carolina Joana da Silva, pelos bons ensinamentos e amizade ao longo de todos esses anos... 5 AGRADECIMENTOS À Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT, pelo espaço acadêmico oferecido e pela oportunidade de crescimento intelectual. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, pela bolsa de estudos concedida. Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais - PPGCA e ao Centro de Estudos de Limnologia, Biodiversidade e Ecologia - CELBE pela estrutura ofertada ao programa. À Profª. Drª. Carolina Joana Da Silva, pelo apoio intelectual e encorajamento contínuo, por seu exemplo de dedicação, organização e competência em Ecologia e atenção especial à pesquisa em Etnoecologia. Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais - UNEMAT: Carolina Joana Da Silva, Heitor Medeiros de Queiroz, Aumeri Bampi, Stela França, Manoel dos Santos Filho, Carlos Teodoro Irigaray, Germano Guarim Neto, Carla Galbiati, Mônica Josene, Elias Renato da Silva Januário, Maria Aparecida, pela consideração e ensinamentos. Aos professores Dr. Elias Renato da Silva Januário, Dr. Heitor Queiroz de Medeiros pelas contribuições na aula de Qualificação. Aos amigos queridos da ciranda do Mestrado, Wilkinson Lopes Lázaro, Rosália Valençoela, Hilton Marcelo Souza, Everaldo Soares, Mairo Camargo, João Severino, Korotowi Ikpeng, Ângela Pinheiro, Arlene Alcântara, Lilian Machado, Hébia de Paula, Laura Justiniano, Maiuá Txicão Ikpeng e Marcos Arruda, pelas discussões valiosas em sala de aula, pelo convívio e amizade. À professora Carla Galbiati, pela coordenação do Mestrado. À Ediléia e Ricardo, pela presteza na Secretaria do Programa. 6 Aos meus pais: Iracema Albernaz e Simondes Fraga Silveira, por toda energia ancestral ancorada no meu sistema e pelos ensinamentos da vida. Aos meus irmãos consangüíneos, Keila, Simondes e Nelson, pela oportunidade de nos relacionarmos como família. Ao meu companheiro Reinaldo Gaspar Mota, pelo amor que nos nutre, amizade, companheirismo e apoio ao meu crescimento profissional. Ao Félix, meu filho amado, que me ensina todos os dias que é necessário aprender a arte de conviver e “aceitar a vida como ela é”. À Acelina Rondon minha prima-irmã, aqui representando todos meus parentes, pelo amor que nos une. Ao Pedro Paulo e Carolina pelo amor, amizade e por serem um porto seguro na minha vida. À minha amiga-irmazona do coração Imara Quadros, que estamos sempre de mãos dadas nessa caminhada, pela amizade sincera e carinho para comigo. Aos queridos amigos Heitor e Cely pelo apoio, amizade e animadas conversas em Cáceres. À Michèle Sato, amiga querida, que tanto me ensina a respeito de inúmeras coisas, como a caminhada na Educação Ambiental, sou grata por participar do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental-GPEA/UFMT. À Yara Galdino pelos toques dado na escrita científica e pela amizade. À lika - Liete Alves pela bela amizade que tecemos sempre por meio de horas e horas de conversas na nossa fome por cultura, diversão, arte e ecologismo... À Regina Silva e Michelle Jaber, nossos corações estão sempre ligados. 7 À Cris Campos, por estar sempre me lembrando que é necessário sermos excelentes quando nos propomos fazer algo. À Iris Viana, por me apresentar a comunidade Cuiabá Mirim e pela oportunidade de conhecê-la melhor e poder construir uma boa amizade. Ao Jaime Rufino, amigo querido, que sempre me incentivou a estudar desde quando começamos a graduação em Biologia em 1990. Aos amigos Teodoro e Maria Irigaray, Marília e Pierre Girard, Cristiane Façanha e Everton, Ana Hein, Josué Ribeiro, Maria Antônia Carnielo, Shirley Marcato e todos os amigos que sempre estiveram comigo. Ao Rodrigo Morais pelos ensinamentos do ANTROPAC e por ter me mostrado que “é necessário superar os limites metodológicos para realizar a escrita”. Às pessoas de Cuiabá Mirim, em especial, Dona Ursolina e Seu Salvador, Seu Biró e Dona Benedita, Seu Lúcio e Dona Ana Rosa, Seu Sebastião e Dona Maria, Seu Flávio, Seu Bic e Dona Ana Gonçalina, Dona Escolástica, irmã Benta e Seu Tote, Seu Martinho, Dona Adelina, Dona Maria Aparecida e Seu Ivan, Nhô Gon, Domingos e Nega, Maria e Angela. E a toda a comunidade de CUIABÁ MIRIM. Às crianças de Cuiabá Mirim, aqui representadas por Milaine e Darlan, que me ensinaram os caminhos daquele espaço de “con-vivência”. Aos amigos do curso da Universidade da Flórida, Robert Buschbacher, Wendy-lin Bartels, Simone Athayde, Renato Farias, Francisco Stuchi, Elineide Marques, Maria do Socorro, Walterlina Brasil, André Baby, Mônica Grabert, Taravy Kaiabi, Kátia, Isabela, Thaissa, Frederico e Paula Bernasconi. À Deus – fonte de Luz, Amor e Vida e aos meus Guias Espirituais. 8 SOBRE A AUTORA Deixei uma ave me amanhecer. Manoel de Barros Ruth Albernaz Silveira, nascida sob o signo de câncer, é nativa de Chapada dos Guimarães-MT, Bioma Cerrado, onde nascem águas que alimentam o Pantanal. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT. Integrante da Rede Mato-grossense de Educação Ambiental - REMTEA. Compõe a equipe do Instituto de Ecologia e Populações Tradicionais do Pantanal- ECOPANTANAL. Possui experiência principalmente nos seguintes temas: arte-educação ambiental, sustentabilidade, conservação da biodiversidade, saúde e ecologia. Desenvolve trabalhos de arte a partir de fibras vegetais da Amazônia, cerrado e Pantanal e elaboração de papéis artesanais. Foto: Reinaldo Mota 9 Ninho que aninha Sonhos Esperança de continuidade No canto do beija-flor (Ruth Albernaz) 10 ÍNDICE Lista de abreviaturas, siglas e símbolos 14 Lista de tabelas 15 Lista de figuras 16 Resumo 18 Abstract 20 1. Introdução Geral 21 1.1. Referências bibliográficas geral 2. Capítulo I - Conhecimento ecológico tradicional de aves 28 32 Resumo 33 Abstract 34 2.1. Introdução 35 2.2. Material e Métodos O Pantanal Métodos Pesquisa de campo Pré-teste Entrevista estruturada Quem come quem Observação Participante Processamento dos dados 37 37 41 41 42 43 44 45 45 2.3. Resultados Perfil dos informantes Rede Social Conhecimento ecológico tradicional de aves Etnocategorias de aves Conexões com a paisagem Conexões de sobrevivência humana Conexões de comportamento Conexões estéticas Conexões de sobrevivência 48 48 50 52 54 55 59 60 61 63 11 Rede alimentar das aves 68 2.4. Discussão 2.5. Considerações Finais 73 78 2.6. Referências bibliográficas 79 3.0. Capítulo II - Etnoindicadores climáticos 83 Resumo Abstract 84 85 3.1. Introdução 86 3.2. Material e Métodos Área de estudo Pantanal: aspectos físicos e biológicos Pantanal de Cuiabá Mirim Métodos 90 90 90 94 95 3.3. Resultados e Discussão Significações culturais e ecológicas de Cuiabá Mirim Etnocalendário social: tempo de escola e tempo de festas Etnocalendário sócio-ecológico: tempo de pescar, plantar e colher Etocalendário sócio-ecológico: tempo de enchente-cheia-vazante Etnoindicadores climáticos Fauna Flora Indicadores de alterações climáticas 99 99 100 104 107 108 112 113 116 3.4. Considerações Finais 121 2.6. Referências bibliográficas Webliografia consultada 122 128 4.0. Capítulo III – As aves na Cosmologia Pantaneira 129 Resumo 130 Abstract 131 4.1. Introdução 132 4.2. Material e Métodos A comunidade de Cuiabá Mirim Métodos 135 135 136 12 Percursos sobrevoados 136 4.3. Resultados e Discussão 138 4.4. Considerações Finais 147 4.5. Referências bibliográficas 147 Considerações Finais Gerais 150 Anexos 153 13 LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS BAP: Bacia do Alto Paraguai CAPES: Coordenação de Aperfeiçoamento de Profissionais do Ensino Superior CET: Conhecimento Ecológico Tradicional EMBRAPA: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária IPCC: Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas MT: Mato Grosso ODM: Objetivos do Milênio OMM: Organização Meteorológica Mundial ONU: Organização das Nações Unidas PNUMA: Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PPGCA: Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais UNEMAT: Universidade do Estado de Mato Grosso UNESCO: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura WWF: World Wildlife Fund 14 LISTA DE TABELAS Tabela 1. Modelo de entrevista semi-estruturada 44 Tabela 2. Origem dos informantes e tempo de residência em Cuiabá Mirim 48 Tabela 3. Fragmento do anexo I. Análise de lista livre do conhecimento das aves 53 Tabela 4. Análise de Consenso Cultural das etnoespécies de aves 54 Tabela 5. Tabela geral: Etnocategorias e quantidade de espécies 55 Tabela 6. Etnocategoria quanto ao vôo 56 Tabela 7. Etnocategoria quanto ao habitat 58 Tabela 8. Etnocategoria de aves que servem como alimento 60 Tabela 9. Etnocategoria quanto ao comportamento 60 Tabela 10. Etnocategoria quanto à aparência 62 Tabela 11. Etnocategoria de aves que podem ser criadas em casa 62 Tabela 12. Etnocategoria quanto ao hábito alimentar 65 Tabela 13. Lista associada de aves e peixes 72 Tabela 14. Avifauna etnoindicadora de mudanças temporais 111 Tabela 15. Etnoindicadores climáticos 115 Tabela 16. Percepção das mudanças climáticas do Pantanal 117 Tabela 17. Etnoindicadores simbólicos 142 15 LISTA DE FIGURAS Figura 1. Arte do Chão. Série Imagética Pantaneira 32 Figura 2. Imagem da área de estudo no Pantanal 39 Figura 3. Vista da Baía Siá Mariana, próximo à comunidade 40 Figura 4. Leito antigo do Rio Cuiabá 40 Figura 5. Observação participante na comunidade 47 Figura 6. Distribuição das profissões dos informantes 49 Figura 7. Rede social dos informantes 51 Figura 8. Urubu alimentando 61 Figura 9. Cabecinha vermelha e bem-te-vi 64 Figura 10. Rede alimentar: interação aves-plantas-bichos-terra-água 69 Figura 11. Cadeia alimentar com fluxo de energia direcional 70 Figura 12. Cadeia alimentar, interação animal-planta-mineral 70 Figura 13. Cadeia alimentar envolvendo organismos aquáticos, áreas úmidas e terrestres 71 Figura 14. Etnoespécies ocupando o mesmo nicho interação animal- vegetal-mineral 71 Figura 15. Rede alimentar envolvendo mineral-vegetal-animal-ser humano 71 Figura 16. Entardecer no inverno, baia de Siá Mariana 84 Figura 17. Ninhos de Japuíra 95 Figura 18. Menino com pássaro e menina limpando lambari 102 Figura 19. Festa no Pantanal 104 Figura 20. Categoria de sinais-chave das aves 110 16 Figura 21. Arte do chão I. Série Imagética Pantaneira 129 Figura 22. Interconexões do universo cosmológico dos ribeirinhos pantaneiros de Cuiabá Mirim 139 Figura 23. Sinais-chave das aves etno-indicadoras simbólicas 141 Figura 24. Imagem de Sebastião Mendes 145 17 RESUMO ALBERNAZ-SILVEIRA, Ruth. Conhecimento Ecológico Tradicional de aves da Comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertação – Mestrado em Ciências Ambientais). O conhecimento ecológico tradicional é um sistema de conhecimento que reflete a adaptação das populações humanas em seu ambiente. Este trabalho apresenta o Conhecimento ecológico tradicional – CET de aves pelos pantaneiros da Comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso, Brasil. A área de estudo localiza-se no Município de Barão de Melgaço, próximo ao sistema das baías de Chacororé e Siá Mariana. Os conhecimentos tradicionais de comunidades do Pantanal desenhados pela intrínseca relação com o ciclo das águas trazem no seu bojo a forte expressão da cultura local, onde o modo de vida expressa importantes informações para a construção de sociedades sustentáveis. O conhecimento ecológico tradicional de 22 pantaneiros foi desvelado num processo dialógico, por meio de uma abordagem metodológica híbrida de cunho qualitativo e quantitativo pelo viésda gestão e educação ambiental. Para a coleta de dados foi utilizado técnicas como Listas Livres, Observação Participante, Entrevistas Estruturadas e Semi-estruturadas. Os informantes identificaram cento e oitenta e oito (188) etnoespécies de aves e as etnocategorizaram de acordo com o hábito alimentar, hábitat, a aparência, comportamento, as que podem ser criadas em casa e as que servem para alimentação humana. No cotidiano da comunidade foi observado os etnocalendários ligados ao sistema sócioecológico, evidenciando atividades sociais como: o tempo de escola e tempo de festas e as atividades de sobrevivência como pesca e roça, moldados pelo tempo das águas, nas fases: enchente-cheia-vazante-estiagem. Foram levantadas as aves etnoindicadoras climáticas e outros componentes bióticos e abióticos e a percepção dos informantes em relação às alterações climáticas. A comunidade estudada demonstrou amplo conhecimento a respeito das aves, com riqueza de detalhes e percepção ecossistêmica, onde o fazer e o saber fazer são moldados pela 18 relação com a natureza, contornados pela capacidade de adaptação e pelos processos de resiliência ao longo do tempo. Estudo a respeito do conhecimento Ecológico Tradicional das comunidades do Pantanal sobre as aves e suas relações com o clima são importantes ferramentas para o acesso às informações, de modo rápido, seguro, eficiente e de baixo custo. O enfoque de pesquisas que contempla o saber ecológico das comunidades tradicionais vem sendo reconhecido e valorizado por se tratar de conhecimento de longo prazo, que se perpetua através da transmissão oral entre gerações. Palavras-chave: Pantanal, Conhecimento Ecológico Tradicional, aves. Orientadora: Profª. Drª. Carolina Joana da Silva, UNEMAT; 19 ABSTRACT ALBERNAZ-SILVEIRA, R. Traditional Ecological Knowledge of birds in the Cuiabá Mirim Community, Pantanal of Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertation – Master in Environmental Science). The traditional ecological knowledge is a knowledge system that reflects the adaptation of human population at their environment. This work presents the Traditional Ecological Knowledge – TEK of birds by the pantaneiros of Cuiabá Mirim Community, Pantanal of Mato Grosso, Brazil. The studied area is located in the city of Barão de Melgaço, near Siá Mariana and Chocororé bays. The traditional knowledge of Pantanal communities pictured by the intrinsic relationship with the water cycle, bring along a strong expression of the local culture, where the way of life expresses important information to build a sustainable society. The traditional ecological knowledge of 22 pantaneiros1 were revealed through a dialogic process, by a hybrid methodological approach, with a qualitative and quantitative character, by the environmental education and management bias. For the data collection it was used techniques like free lists, Participant observation, structured and semi structured interviews. The informers identified a hundred and eighty eight bird ethno species and ethno classified them according to feeding habit, habitat, appearance, behavior, those that can be home breed and those that work as human food. In the community quotidian it was observed an ethno calendar linked to the socio-ecological system, becoming evident activities as: school time and party time and the survive activities like fish and agriculture molded by the water time, in the phases: filling - flood – receding – dry. Ethoindicator birds weather, biotic and abiotic components and the informers perception concerning to the climate changes were raised up. The community studied showed up a wide knowledge 1 Pantaneiros is a term that refers to all those who live in Pantanal. 20 about birds, with a lot of details and an ecosystemic perception, where knowing and doing are molded by the relationship with the nature, outlined by the capacity of adaption and by the capacity of readaptation of the environment after being through a stressing situation. Studies about the traditional ecological knowledge of Pantanal communities about birds and their relation with the weather are important tools to the access to informations, rapidly, safely, and on a low cost. Researches with an approach that contemplates the ecological known of the traditional communities are being recognized and valorized because it concerns to a long term knowledge that is perpetuated through the oral transmission among generations. Key - words: Pantanal, traditional ecological knowledge, birds. Advisor: Teacher Carolina Joana da Silva, UNEMAT; 21 1. INTRODUÇÃO GERAL Eu queria crescer pra passarinho... (Manoel de Barros) É desafiador pensar e praticar o processo de aprendizagem e pesquisa numa perspectiva inter/multidisciplinar como o Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT vem corajosamente se propondo. O mesmo Programa organizou sua primeira publicação coletiva intitulada “Gestão e Educação Ambiental: água, biodiversidade e cultura” organizada por Santos e Galbiati (2008) onde foi apresentada a estrutura conceitual e experiencial, objetivando a formação de profissionais direcionados ao manejo e planejamento ambiental e à incorporação efetiva da dimensão social ao lado da ecológica no tratamento da questão ambiental. Desconstruir-se para (re)construir novos paradigmas, na busca de superar uma concepção positivista de ciência, de educação e de trabalho acadêmico, lançando um olhar particular sobre o meio ambiente e a sustentabilidade enquanto abordagem holística que entrelaça-se pelo viés da Gestão e Educação Ambiental onde somos sujeitos históricos, cognoscentes e ecológicos no processo de aprendizagem o qual está sempre em construção. Primeiramente buscou-se uma reflexão em Carvalho (1992), que coloca que o diálogo entre saberes de várias ordens, não apenas no âmbito disciplinar, mas com outras formas de conhecimento dotadas de lógicas culturais próprias, incitam a hibridização de conhecimentos, entendendo-se que uma “nova cientificidade implica uma profunda reflexão sobre a ciência tradicional.” No texto “O vôo da águia: reflexões sobre método, interdisciplinaridade e meio ambiente,” Brügger (2006) discute a construção do conhecimento e cita Hanna Arendt a qual argumenta que a “mudança do „por que‟ e do „o que‟ para 22 o „como‟ implica que os verdadeiros objetos do conhecimento já não são coisas ou movimentos eternos, mas processos e, portanto o objeto da ciência já não é a natureza ou o universo, mas a história de como vieram a existir a natureza, a vida ou o universo”. Na abordagem multidisciplinar, é necessário estabelecer um estado permanente e constante de Educação Ambiental, para que possa ser provocado um diálogo – debate generalizado. Wallace (2002), quando nos alerta que todos nós devemos reconhecer que as questões ambientais são também questões sociais, e que tais abordagens ainda não se encontram nas principais pautas de discussões. A Educação Ambiental é uma necessidade educacional contemporânea, na perspectiva de viabilizar a compreensão da necessidade de uma nova relação com o ambiente. É com ela que se pode ter a possibilidade de conhecere reconhecer a diversidade e a interação do mundo vivo, e assim desenvolver uma relação, outra, do indivíduo com o ambiente. Sato (2004) indica que a Educação Ambiental deve levar a uma formação mais cidadã. Por sua vez, a Gestão Ambiental é entendida essencialmente como um processo de mediação de conflitos de interesses. Reflexão sobre a construção de comunidades com sustentabilidade ecológica nos remete a Capra em Conexões Ocultas (2003, pág. 58) que coloca: [...] não precisamos inventar comunidades humanas sustentáveis a partir do zero, mas podemos modelá-las seguindo os ecossistemas da natureza, que são as comunidades sustentáveis de plantas, animais e micro- organismos. Uma vez que a característica notável da biosfera consiste em sua habilidade para sustentar a vida, uma comunidade humana sustentável deve ser planejada de forma que, suas formas de vida, negócios, economia, estruturas físicas e tecnologias não venham a interferir com a habilidade inerente à Natureza ou à sustentação da vida. 23 No campo da sustentabilidade esta pesquisa está em consonância com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD, a Declaração do Milênio, aprovada pelas Nações Unidas, em 2000, onde seus países membros assumiram metas como a erradicação da pobreza e o compromisso com sustentabilidade do Planeta. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) são um conjunto de 8 macro-objetivos, com metas e indicadores precisos, a serem atingidos pelos países até 2015, por meio de ações concretas dos governos e da sociedade na busca pela solução de alguns graves problemas da humanidade. Dentre esses objetivos está o de garantir a sustentabilidade ambiental. O documento constitui o maior estudo internacional realizado envolvendo as interações entre os ecossistemas e o bem-estar humano, em escala regional a global, reconhecendo que pessoas e ecossistemas interagem no tempo e no espaço. Neste contexto, este trabalho foi desenhado no tempo e no espaço dos pantaneiros na perspectiva da etnoecologia, ancorado no conceito de Conhecimento Ecológico Tradicional (CET) que foi definido por Berkes e Folke (1998), como um corpo cumulativo de conhecimento, práticas e crenças sobre as relações dos seres vivos com seu ambiente, evoluído através de processos adaptativos e repassado através das gerações por transmissão cultural. Este conhecimento ecológico tradicional difere do conhecimento ecológico científico, por ser amplamente dependente de mecanismos sociais locais (BERKES et al., 2000), podendo complementar o conhecimento científico através de experiências práticas da vivência dentro do ecossistema e das repostas às mudanças ambientais (BERKES et al., 1998). Considera-se aqui o conceito de comunidade tradicional, o qual foi definido por Diegues (2005) como: No Brasil existem duas categorias de populações tradicionais: os Povos Indígenas e as Populações Tradicionais não Indígenas. Uma das características básicas dessas populações é o fato de viverem em áreas rurais onde a dependência do 24 mundo natural, de seus ciclos e de seus produtos é fundamental para a produção e reprodução de seu modo de vida. A unidade familiar e/ou de vizinhança é também uma característica importante no modo de vida dessas populações que produzem para sua subsistência e para o mercado. O conhecimento aprofundado sobre os ciclos naturais e a oralidade na transmissão desse conhecimento. No artigo 3º do Decreto Presidencial número 6.040, publicado no Diário Oficial da União, no dia 07 de fevereiro, 2007, povos e comunidades tradicionais são considerados como: grupos culturalmente diferenciados, que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas geradas e transmitidas pela tradição. Segundo Colchester (2000) as comunidades tradicionais são grupos étnicos que tem uma identidade diferente da nacional, tira sua subsistência do uso dos recursos naturais e não é politicamente dominante. De maneira complementar, Berkes et al (2000) coloca que são comunidades cujas vidas dependem do manejo de recursos naturais e do seu conhecimento ecológico tradicional. Neste contexto, Arruda (2000) relaciona Cultura Rústica como à cultura presente em populações localizadas em regiões menos povoadas, com recursos naturais abundantes, o que possibilitou a sobrevivência e reprodução desse modelo sociocultural de ocupação e exploração dos recursos naturais, com especificidades de acordo com as características histórias e ambientais. O autor afirma que as formas de manejo do ambiente nestas populações, denominadas como “tradicionais”, adquirem maior visibilidade em meio à valorização das questões ambientais. 25 Como construir um trabalho científico quanti-qualitativo onde os sujeitos da pesquisa possam ser reconhecidos e poderão se expressar de fato, e não a projeção do pesquisador? Inúmeras reflexões são fundamentais. O estudo do conhecimento de comunidades tradicionais pode ser abordado sob vários enfoques científicos, desde a etnobiologia, etnoecologia, etnobotânica, etnozoologia, etnoornitologia, ecologia cultural, e ecologia humana, como forma de adaptação dos grupos humanos ao ambiente ou a antropologia, através de uma abordagem histórica (KOERDELL, 1983). Segundo este autor é através da cultura que as populações mantêm-se nos ecossistemas. Em consonância, Begossi (1993) também coloca que o conjunto complexo de interações que as culturas humanas mantêm com os animais pode ser abordado por meio de diferentes recortes científicos, a depender da linha teórica considerada. Pesquisas com comunidades tradicionais do Pantanal com abordagem etnoecológica vêm sendo desenvolvidas desde 1995 (Da Silva e Silva) e mais recentemente no grupo de pesquisa liderado pela primeira autora, com conceitos de Ecologia e Etnoecologia aplicados ao Pantanal. O Pantanal Mato-grossense é regulado pelo pulso de inundação que é previsível e de longa duração, porém, sujeito as variações anuais da pluviosidade (DA SILVA e ESTEVES, 1995). O conceito de pulso de inundação ressalta que durante a cheia, as áreas alagáveis recebem águas e material dissolvido e em suspensão dos rios e lagos conectados, da chuva, e da subida temporária do lençol freático. Alguns organismos aquáticos migram ativamente ou são transportados passivamente para as áreas alagáveis, outros desenvolvem-se a partir de estágios de dormência. Mudanças naturais e antrópicas do pulso de inundação têm efeitos grandes para a estrutura e funcionamento do sistema, e afetam os serviços prestados pelos sistemas para a paisagem e as populações humanas (JUNK e DA SILVA, 1999; JUNK e DA SILVA, 2003). 26 É nesse ambiente moldado pelo ritmo das águas que as comunidades tradicionais ribeirinhas da Bacia do Alto Paraguai vivem criando e recriando a cultura pantaneira. Cada fase deste movimento – enchente, cheia, vazante e estiagem – tem suas características próprias e traz para aqueles que lá vivem um modo de pensar, sentir, olhar e agir único que, portanto, devem ser considerados quando políticas de manejo e conservação desta bacia são propostas (Da SILVA e SILVA, 1995). No Pantanal de Mato Grosso, estudos de natureza etnobiológica contemplam ainda: relações ambientais e educativas no cotidiano da Comunidade Ribeirinha de Porto Brandão, Pantanal de Barão de Melgaço – MT (REIS, 1996); AspectosComportamentais da Arara Azul (Anodorhynchus Hyacinthinus) na Localidade de Pirizal, Município de Nossa Senhora do Livramento, Pantanal de Poconé (PINHO, 1998); Impactos das Políticas Públicas sobre os Pescadores Profissionais do Pantanal de Cáceres - Mato Grosso (MEDEIROS, 1999); Tradição e Ruptura: cultura e ambiente pantaneiro (CAMPOS FILHO, 2002); Percepção das mudanças naturais e antrópicas no sistema hídrico do Rio Cuiabá na comunidade de Sitio Santa Rita (SIMONI, 2004); Análise de Stakeholder no Sistema de Baías Chacororé-Siá Mariana, caracterizando e identificando os principais grupos de interesse que operam neste sistema (SILVEIRA, 2004); Educação Ambiental e Etnoconhecimento: parceiros para a conservação da diversidade de aves pantaneiras (OLIVEIRA JÚNIOR e SATO, 2006); Água na gente e gente na água: o caminho das águas em São Pedro da Joselândia (PIGNATTI et al., 2007); Práticas de cura de benzedores em comunidade tradicional do Pantanal de Mato Grosso (MOTA, 2008); Na comunidade de Cuiabá Mirim o grupo de pesquisa “Conceitos em Ecologia e Etnoecologia do Pantanal” liderado por Da Silva vem realizando amplas pesquisas como: A casa e a paisagem pantaneira percebida pela comunidade tradicional Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso (GALDINO, 2006; GALDINO e DA SILVA, 2009); Conhecimento Ecológico Tradicional da 27 pesca pela comunidade Cuiabá Mirim – Barão de Melgaço, Pantanal Mato- Grossense (MORAIS, 2006); Rio Cuiabá: espaço de vida da comunidade de Cuiabá Mirim, Pantanal Mato- Grossense (VIANA, 2008). No cenário atual, pesquisas abordando o Conhecimento Ecológico Tradicional - CET das comunidades do Pantanal sobre as aves e suas relações com o clima e com o ciclo hidrológico são importantes ferramentas para o acesso ao conhecimento, de modo rápido, seguro, eficiente e de baixo custo, sabendo-se que ainda existe uma carência de pesquisas consolidadas nesse viés. Esta pesquisa tem a intenção de verificar o Conhecimento Ecológico Tradicional da comunidade Cuiabá Mirim sobre as aves – a riqueza de etnoespécies e etnocategorias – e os etnoindicadores climáticos. O desenho deste trabalho será apresentado em forma de Capítulos. O primeiro Capítulo contempla a rede social dos informantes, a lista de etnoespécies de aves, bem como, as etnocategorias e a rede alimentar das espécies mais citadas. O segundo apresenta as aves etnoindicadoras climáticas e outros componentes bióticos e abióticos que a comunidade reconhece como etnoindicadores climáticos naturais e de alterações no clima do Pantanal. O terceiro Capítulo aborda a simbologia da comunidade ligada às aves, tecendo um diálogo com o imaginário local visando contribuir com a identidade Pantaneira dos que vivem em Cuiabá Mirim. O formato da dissertação, onde são colocados resumos e referências bibliográficas em todos os capítulos atende as normais atuais do Programa de Mestrado da UNEMAT. Este trabalho recebeu o apoio por meio de bolsa de estudos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. 28 1.1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GERAL ARRUDA, R. S. V. Populações tradicionais e a proteção de recursos naturais em unidades de conservação. Rev. Ambiente e Sociedade, São Paulo: ano II no. 5. 2000. BEGOSSI, A. Biodiversity, family income and ecological niche: a study on the consumption of animals at Búzios Island. Ecology of Food and Nutrition. 1993. BERKES, F.; COLDING, J.; FOLKE, C.; Rediscovery of traditional ecological knowledge as Adaptive Management. In: Ecological Aplications, 2000. BERKES, F.; FOLKE. C. Linking Social and Ecological Systems: Management Practices and Social Mechanisms for Building Resilience. Cambridge University Press, Cambridge. 1998. BERKES, F.; KISLALIOGLU, M.; FOLKE, C.; GADGIL, M.; Exploring the basic Ecological Unit: Ecosystem-like Concepts in Traditional Societies. Ecosystems. 1998. BRÜGGER, P. O vôo da águia: reflexões sobre método, interdisciplinaridade e meio ambiente. Educar, Curitiba, n. 27, Editora UFPR. 2006. CAMPOS FILHO, L. V. S. Tradição e ruptura: cultura e ambiente pantaneiros. Cuiabá: Entrelinhas, 2002. CAPRA, F. As conexões ocultas. São Paulo: Cultrix. 2003. CARVALHO, I. C. M. Educação, meio ambiente e ação política. In: ACSELRAD, H. (Org). 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Dissertação de mestrado. UNEMAT. 2008. 32 CAPÍTULO I CONHECIMENTO ECOLÓGICO TRADICIONAL DE AVES “... Acho que as águas iniciam os pássaros Acho que as águas iniciam as árvores e os peixes E acho que as águas iniciam homens, Nos iniciam, E nos alimentam e nos dessedentam, Louvo esta fonte de todos os seres, de todas as Plantas, de todas as pedras, Louvo as natências do homem do Pantanal...” (Manoel de Barros) Figura 01: Arte do Chão. Série Imagética Pantaneira. Imagem: Ruth Albernaz, 2009. 33 RESUMO ALBERNAZ-SILVEIRA, Ruth. Conhecimento Ecológico Tradicional de aves da Comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertação – Mestrado em Ciências Ambientais) Esta pesquisa apresenta o Conhecimento ecológico tradicional-CET de aves pela comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso-MT. A área de estudo localiza-se no Município de Barão de Melgaço, com aproximadamente 97,5% de terras inundáveis no período das cheias. Para coleta de dados utilizou-se de métodos como: entrevistas estruturadas e semi-estruturadas, lista livre, observação participante e diário de campo. Foram entrevistados 22 moradores da comunidade. Os informantes citaram 188 etnoespécies de aves. O grupo estudado mostrou amplo conhecimento ecológico tradicional a respeito das aves, incluindo categorias relacionadas a morfologia, hábitos alimentares, hábitats e comunicação. Esses conhecimentos são transmitidos oralmente ao longo das gerações. A cultura pantaneira é rica em saberes sobre as aves, de forma que a mesma poderá contribuir significativamente para a implementação de políticas públicas que contemplem a gestão participativa do Pantanal e ações em Educação Ambiental voltadas para a conservação do bioma. Palavras-chave: Pantanal, Conhecimento Ecológico Tradicional, Aves. Orientadora: Profª. Drª. Carolina Joana da Silva, UNEMAT; 34 ABSTRACT ALBERNAZ-SILVEIRA, R. Tradicional Ecological Knowledge of birds in the Cuiabá Mirim Community, Pantanal of Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertation – Master in Environmental Science). This research presents the birds Traditional Ecological knowledge in the community of Cuiabá Mirim, Pantanal of Mato Grosso - MT - CET The studied area is located in the city of Barão de Melgaço, with almost 97,5% of flooded área during the flood period. The data collection used methods like: structured and semi- structured interviews , free list, participant observation, camp dairy. Twenty two people from the community were interviewed. The informers quoted 188 bird ethno species. The studied group showed off a wide ecological traditional knowledge about the birds, including concepts related to morphology, feeding habits and communication. This knowledge is orally transmitted over the generations. Pantanal‟s culture is rich in knowledge about birds, so that it can contribute significantly to the implementation of public policies that include the participatory management of Pantanal and environmental education focused on the biome conservation. Key - words: Pantanal, Traditional Ecological Knowdledge, Birds. Advisor: Carolina Joana da Silva, UNEMAT; 35 2.1. INTRODUÇÃO O conhecimento tradicional é definido por Diegues (2000) como saber e o saber fazer, a respeito do mundo natural e sobrenatural, gerado no âmbito da sociedade não urbana/industrial e transmitido oralmente de geração em geração. Alguns autores preferem designar como conhecimento local, colocando como um conhecimento hibridizado com os novos discursos da globalização e da sustentabilidade. Segundo Leff (2005, pág. 332-333): Nas culturas tradicionais, o conhecimento, os saberes e os costumes estão entrelaçados em cosmovisões, formações simbólicas e sistemas taxonômicos, através das quais classificam a natureza e ordenam os usos de seus recursos; a cultura atribui desta maneira valores-significado à natureza, através de suas formas de cognição, de seus modos de nomeação e de suas estratégias de apropriação de recursos. Com a intenção de compreender os conhecimentos ecológicos a respeito das aves pelos pantaneiros da comunidade Cuiabá Mirim, considerado como parte integrante de um sistema sócio-ecológico complexo, foi planejada e desenvolvida a presente pesquisa, buscando um diálogo entre as Ciências Biológicas e Sociais, pelo viés da Etnobiologia/Etnoecologia. A Etnobiologia origina-se da antropologia cognitiva, em particular da etnociência, que busca entender como o mundo é percebido, conhecido e classificado por diversas culturas humanas. A Etnobiologia tem como objetivo analisar a classificação das comunidades humanas sobre a natureza, em particular sobre os organismos (BEGOSSI, 1993). Complementarmente, a Etnoecologia pode ser vista como um campo de pesquisa (científica) transdisciplinar, que estuda os pensamentos (conhecimentos e crenças), sentimentos e comportamentos, que intermedeiam as interações entre as populações humanas que os possuem e os demais 36 elementos dos ecossistemas que as incluem, bem como os impactos ambientais daí decorrentes (MARQUES, 2001). Em “aspectos históricos e conceituais da etnoornitologia”, Farias e Alves (2007, pág. 92) conceituam a etnoornitologia como: “Conjunto de estudos em que se busca compreender as relações cognitivas, comportamentais e simbólicas entre a espécie humana e as aves.” Alguns desafios podem aparecer ao longo da pesquisa, onde o investigador defronta ao lidar com outras culturas, refletindo para não correr o risco de impor suas próprias idéias e categorias culturais a seus informantes ou consultores culturais, como descrença, desagrado, reprovação (POSEY, 1987). O mesmo autor ainda aponta para a importância da qualidade e não da quantidade de dados e alerta para grande desvantagem dos pesquisadores em campo, quando estes já trazem suas hipóteses de pesquisas formuladas, em que conceitos etnocêntricos podem estar inseridos, transformando a pesquisa em uma mera projeção do pesquisador. Pesquisas realizadas abordando a biodiversidade de aves na perspectiva ecológica e Educação Ambiental em área de abrangência do Pantanal de Mato Grosso, podem ser elencadas: O canto de Céu Aberto e de Mata Fechada (CATUNDA, 1994); Sucesso reprodutivo de tuiuiú Jabiru mycteria (Aves: Ciconiidae) no Pantanal de Poconé-MT (OLIVEIRA, 1997); Estrutura de Comunidades de Aves como Base para Monitoramento da área de influência da APM Manso, Chapada dos Guimarães, MT (SONODA, 2001); Efeitos bióticos e abióticos de ambientes alagáveis nas assembléias de aves aquáticas e piscívoras no Pantanal (OLIVEIRA, 2006); O conhecimento local dos moradores das comunidades pantaneiras de São Pedro da Joselândia e Barra do Piraim (MT, Brasil) sobre a avifauna pantaneira (OLIVEIRA JÚNIOR e SATO, 2007);Avifauna (OLIVEIRA, 2009). Estudos no Pantanal vêm levantando a vasta biodiversidade de animais e plantas, onde já foram identificadas mais de seiscentas e cinqüenta e seis 37 (656) espécies de aves (MORRISON, 2008). A diversidade biológica é elemento essencial para o equilíbrio ambiental, já que, sob a perspectiva ecológica, quanto maior a simplificação dos ecossistemas, maior a sua fragilidade. 2.2. MATERIAL E MÉTODOS O PANTANAL O Pantanal sul-americano é um sistema sócio-ecológico complexo regido pela movimentação das águas, uma das principais rotas migratórias das aves nômades, conectando territórios multinacionais, abrangendo a Bolívia, o Paraguai, e sua maior área encontra-se no Brasil, nos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A área de abrangência do Pantanal é de aproximadamente 150.355 km². Desse território, as áreas inundáveis compreendem a maior parte do Pantanal e são marcadas por uma variabilidade climática interanual, caracterizada por duas estações distintas: uma seca (maio a setembro) e outra chuvosa (outubro a abril). O relevo é de baixíssima declividade de 0,7 a 5 cm/km no sentido norte-sul e entre 7 e 50 cm/km no sentido leste-oeste que, associado à distribuição de chuvas periódicas na Bacia do Alto Paraguai, explica o fenômeno das cheias anuais (IBGE, 2009) . Esta sazonalidade é marcada pelo processo ecológico denominado como pulso de inundação, desenhado por um ciclo mono-modal tendo uma variação de amplitude de até cinco metros e de duração entre três a seis meses (JUNK e DA SILVA, 1999). Quanto ao ritmo das águas e a presença indígena na região, Lévi-Strauss (1996, pág.154) comenta: Ao contrário do que parece, a água do Pantanal é ligeiramente corrente; arrasta conchas e limo que se acumulam em certos pontos onde a vegetação se enraíza. Assim, o Pantanal está coalhado de tufos de vegetação chamado „capões‟, onde os 38 antigos índios estabeleciam seus acampamentos e onde descobrimos vestígios de sua passagem. A pesquisa foi desenvolvida na Região da Bacia do Rio Cuiabá, um dos principais contribuintes da planície pantaneira. A área está localizada no Município de Barão de Melgaço, na comunidade ribeirinha Cuiabá Mirim, assentada na margem direita do Rio Cuiabá (coordenadas geográficas S 16° 20‟ 51” e W 55° 57‟ 35”), próximo às Baías de Sinhá Mariana e Chacororé (Figuras 02 e 03). A comunidade Cuiabá Mirim conta com aproximadamente 274 moradores pertencentes a 48 famílias. As residências estão distribuídas acompanhando a margem do Rio Cuiabá (figura 04), quando os filhos vão casando-se, constroem suas casas próximo da casa dos pais, pois a comunidade dispõe de um “espaço pequeno” de terras. 39 Figura 02: Imagem da área de estudo no Pantanal; Fonte: Grupo de Pesquisa Conceitos em Ecologia e Etnoecologia do Pantanal. Adaptação: satélite Landsat. Cuiabá Mirim 40 Figura 03: Vista da Baía Siá Mariana, próxima à Comunidade Cuiabá Mirim. Foto: Ruth Albernaz, 2009. Figura 04: Vista do leito antigo do Rio Cuiabá, o qual corre água somente no período da cheia. Foto: Ruth Albernaz, 2009. 41 2.2. MÉTODOS A escolha da abordagem híbrida de cunho qualitativo e quantitativo se configurou como uma boa opção metodológica. A pesquisa compreendeu três fases de execução: levantamento e leitura das fontes bibliográficas para a construção do referencial teórico, pesquisa de campo, processamento de dados e redação. Para a abordagem qualitativa utilizou-se de técnicas como entrevistas estruturadas, semi-estruturadas e observação participante. Na abordagem quantitativa, entrevistas estruturadas (lista livre). A análise dos dados quantitativos foi realizada utilizando o “software ANTROPAC 4.0” (BORGATTI, 1996), onde foi analisada a ocorrência de consenso cultural nas informações. A escolha dos entrevistados foi feita por meio da amostragem Bola de Neve Snowball Sampling (CAULKINGS e HYATT, 1999; BERNARD, 2002), utilizada para a elaboração de redes sociais, onde pode-se observar os níveis de comunicação e interação entre as pessoas. O uso de redes sociais, em trabalhos com comunidades tradicionais é indicado por Vogl, et al. (2004), os quais usaram essa técnica nas suas pesquisas no México, Áustria e Bornéo. PESQUISA DE CAMPO A inserção ao campo contou com o apoio da pesquisadora Viana2, que já havia feito sua pesquisa de Mestrado na comunidade e integra a equipe do Grupo de Pesquisa liderado pela orientadora3 deste trabalho. O primeiro contato realizado na comunidade foi com o Sr. Salvador, pessoa influente na comunidade, pescador aposentado, que apóia os pesquisadores, inclusive hospedando-os em sua casa. Ele foi o primeiro informante para este trabalho. 2 Pesquisadora Msc. Iris Viana realizou a dissertação de mestrado: Rio Cuiabá: espaço de vida da Comunidade Cuiabá Mirim, 2008, UNEMAT. 3 Profª Drª Carolina Joana da Silva lidera o Grupo de Pesquisa Conceitos Ecológicos e Etnoecológicos aplicados a Conservação da Água e da Biodiversidade do Pantanal. 42 As entrevistas foram realizadas a partir dos nomes que foram indicados na rede social. Em função das atividades profissionais, como empregos em pousadas da região do Pantanal, pescadores profissionais que ficam longos períodos fora da comunidade e não estavam disponíveis para as entrevistas, foi necessário elaborar dois critérios de escolha dos informantes: 1) os nomes mais indicados na rede social; 2) pessoas da rede social que estavam disponíveis para serem entrevistadas. As entrevistas semi-estruturadas seguem um diálogo livre (VIERTLER, 2002) em que o pesquisador se apóia em uma lista com tópicos e questões que devem ser abordados na entrevista (BERNARD, 2002). As entrevistas semi-estruturadas foram usadas com o objetivo de obter informações detalhadas sobre o tema da pesquisa. As entrevistas estruturadas têm tópicos fixos (VIERTLER, 2002) que delimitam as informações desejadas e geralmente contribuem para a quantificação dos dados (HUNTINGTON, 2000). Nesta pesquisa utilizou-se a listagem livre, um modelo de entrevista estruturada, em que o informante faz uma lista de itens de um domínio cultural de interesse do pesquisador (VOGL et al., 2004), neste caso das aves conhecidas pelos informantes da Comunidade Cuiabá Mirim. Quanto ao registro de dados, as entrevistas foram gravadas com a permissão prévia dos informantes por meio de gravadora e filmadora SONY e fotografado algumas atividades da observação participante. É indicado o uso de gravador na realização de entrevistas para que seja ampliado o poder de registro e captação de elementos de comunicação de extrema importância, pausas de reflexão, dúvidas ou entonação da voz, aprimorando a compreensão da narrativa (SCHRAIBER, 1995). PRÉ-TESTE Na primeira visita à comunidade, após a conhecer algumas famílias da comunidade, foi realizado um pré-teste com dez (10) pessoas, para assegurar que 43 as perguntas da lista livre estavam elaboradas de forma compreensível, tanto em linguagem êmica quanto ética4. O pré-teste, ou estudo piloto, é usado para verificar a estrutura e a clareza do roteiro, por meio de uma entrevista preliminar com pessoas que possuam características semelhantes a da população alvo, ou mesmo com pessoas da mesma comunidade a ser estudada (TRIVIÑOS, 1987). ENTREVISTAS ESTRUTURADAS Para categorizar a nomenclatura genérica das aves, levando-se em consideração a linguagem local, evitando ainserção de uma definição pré- estabelecida, foram elaboradas duas perguntas, de acordo com o contexto: Quando havia alguma ave por perto, de forma que o informante pudesse visualizá-la, perguntou-se: o que é aquilo? Para as entrevistas realizadas a noite e/ou quando não havia nenhuma ave no ambiente, perguntou-se qual a nomenclatura utilizada para: como o senhor(a) conhece os bichos que voam, tem bico e penas? A terceira pergunta teve o objetivo de elaborar a lista livre de etnoespécies conhecidas pelos informantes, dessa forma foi perguntado: quais o(a) pássaros (ou passarinhos) o(a) senhor(a) conhece? (LISTA LIVRE). Ao final da entrevista foi pedido ao informante que ele(a) indicasse nomes de pessoas que ele(a) julgasse saber sobre o assunto relativo às aves, com a finalidade de construir a rede social e realizar as próximas entrevistas: quem são as pessoas que o(a) senhor(a) indica para conversar sobre os passarinhos? Durante a coleta de dados quantitativos (lista livre), os informantes forneceram dados qualitativos que categorizavam as etnoespécies quanto ao: vôo, aparência, hábito alimentar, hábitat, comportamento, os pássaros que podem criar em casa, os que servem para comer. Após a primeira etapa de entrevistas, partiu-se para a análise de dados no software ANTROPAC 4.0 para verificar se havia consenso cultural. 4 Marques (2001) conceitua a linguagem êmico/ ético, como sendo a do informante/pesquisador. 44 QUEM COME QUEM (REDE ALIMENTAR) Na segunda etapa das entrevistas, ocorreu o aprofundamento das informações de cunho qualitativo a respeito do conhecimento tradicional da rede alimentar de 38 etnoespécies de aves que estavam no consenso cultural. Essa técnica foi desenvolvida por Wallace (1983) que estudou o conhecimento tradicional de uma comunidade em Pagan Gaddang, a respeito da rede alimentar, onde ele coloca que estudar o conhecimento tradicional é mais rápido para saber o que está acontecendo no ecossistema, porque as pessoas que vivem naquele ambiente conhecem mais a respeito das relações da fauna e flora local do que o pesquisador visitante. Nessa etapa, buscou-se uma abordagem com entrevistas que o diálogo fluísse de forma que se pudesse conseguir mais detalhes do objeto da pesquisa (Tabela 01): Tabela 01: Modelo de entrevista. PERGUNTA RESPOSTA O que o Tuiuiú come? “Peixe tipo mussum e cambatoá”; O peixe que o tuiuiú come, come o quê? “Uns come inseto e mussum come outro peixe”; O inseto que o peixe come, come o quê? “Lodo e água”; Quem come o tuiuiú? “Jacaré e gente”; Quem come o jacaré que comeu o tuiuiú? “Só a onça”. Quem come a onça que comeu o jacaré? “Ah difícil, só o urubu que come a onça morta”. E quem come o urubu?... ... 45 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE Na técnica observação participante, o pesquisador se entrega ao acompanhamento do cotidiano do informante, podendo detectar referenciais culturais que sejam significativos para a interpretação daquele objeto estudado (VIERTLER, 2002). Na observação participante, é preciso atentar para o aspecto ético e para o perfil íntimo das relações sociais, ao lado das tradições e costumes, o tom e a importância que lhes são atribuídos, as idéias, os motivos e os sentimentos do grupo na compreensão da totalidade de sua vida, verbalizados por eles próprios, mediante suas categorias de pensamento (QUEIROZ, 2007). Neste trabalho, a observação participante serviu para buscar informações complementares a respeito do objeto de pesquisa, auxiliando principalmente nos dados qualitativos e tecendo uma relação de confiança com a comunidade para adentrar no universo da pesquisa. A técnica conhecida como observação participante foi realizada em todas as visitas à Comunidade, em atividades relacionadas aos afazeres do cotidiano: acompanhamento das mulheres para a limpeza de peixes na beira do rio; lavagem de roupas; pescaria com crianças; “bate papo” enquanto pescador consertava os “petrechos” de pescaria; colheita de frutos junto com as mulheres; observação de passarinho; colheita de folha de sarã para fazer chá e colheita de outras plantas medicinais em quintal; colheita de couve em horta plantada no barranco do Rio Cuiabá; visita à casa do principal ancião da comunidade, com 103 anos, para ouvir as histórias da origem de Cuiabá Mirim, entre outras atividades (Fig.05). PROCESSAMENTO DOS DADOS Para processar as Listas Livres foi usado o software ANTHROPAC 4.0 (BORGATTI, 1996). A Lista Livre foi analisada pelo Índice de Saliência de Smith, que analisa os modelos cognitivos, através da freqüência e da ordem das respostas (BORGATTI, 1996a). Em um domínio cultural típico, existem na lista alguns itens principais, que 46 muitas pessoas mencionaram, e muitos itens que foram pouco mencionados ou mencionados apenas uma vez (itens idiossincráticos). De forma ideal deveria ser encontrada uma quebra entre os elementos centrais (citados por muitos informantes) e os elementos idiossincráticos (BORGATTI, 1996b). Em seguida foi realizada a Análise de Consenso (ROMNEY et al., 1986), na qual a Lista Livre foi analisada pelo: (1) grau de acordo entre informantes sobre o domínio do conhecimento; (2) respostas típicas; (3) a proximidade das respostas dos informantes às respostas típicas. Nesta pesquisa a Análise de Consenso foi utilizada para verificar quais aves que eles conhecem e quais etnoespécies estão inseridas no domínio cultural (CAULKINS e HYATT, 1999; BORGATTI, 1996) ou culturalmente típicas (CHRISTANELL, 2003). As repostas culturalmente típicas são definidas pelos informantes e pelo consenso cultural sobre o que está sendo pesquisado. As respostas mais freqüentes representam melhor o consenso cultural do que respostas idiossincráticas (BORGATTI, 1996a; BERNARD, 2002). Borgatti (1996a) coloca que o conceito uma cultura (one culture) é o pressuposto para o uso da Análise de Consenso. Para este autor não podem coexistir duas culturas bem definidas dentro de uma comunidade, e as possíveis variações no conhecimento dos informantes numa comunidade, existem por causa de experiências pessoais. Para estes autores isto demonstra a variação e a diversidade cultural. Caulkins e Hyatt (1999) descrevem dois tipos de acordo (ou desacordo) nos domínios culturais: coerente, onde ocorre um alto grau de consenso cultural, e incoerente, onde ocorre baixo consenso cultural entre os informantes. 47 Figura 05: Observação participante na Comunidade. Fotos: Milaine, Iris Viana, Ruth Albernaz, 2009. 48 2.3. RESULTADOS PERFIL DOS INFORMANTES O universo da pesquisa realizou-se com 22 informantes integrantes da rede social, cuja faixa etária variou entre 29 a 103 anos. Quanto ao gênero são 05 mulheres (22,7%) e 17 homens (77,3%). O estado civil está distribuído entre: dois solteiros (♂♂), dois viúvos (♂♀) e dezoito casados (4♀, 14♂). Todos os informantes (100%) nasceram no Município de Barão de Melgaço, nas seguintes localidades (tabela 02): Tabela 02: Origem dos informantes e tempo de residência em Cuiabá Mirim. Local de Nascimento Nº pessoas Tempo de residência em Cuiabá Mirim (anos) Barão de Melgaço (cidade) 01 30 Cuiabá Mirim 01 33 Estirão Cumprido 04 30/43/47/37 Atibaia 04 40 /48 /40/23 Usina Flexas 05 27/30/30/38/30 Porto General 02 53 /53 Fazenda Espírito Santo 02 41/38 Boca da Pedra 01 28 Guató 01 30 Porto Brandão 01 32 49Quanto à profissão, a maioria dos entrevistados se auto-identificaram como pescadores profissionais (82%), embora desenvolvessem outras atividades como: criação de gado, plantio de roça (na piracema), piloteiro de barco para pousadas, guia de turismo, trabalho temporário em pousada. Apenas dois informantes se identificaram como lavrador (9%), sendo um lavrador-aposentado. Das cinco mulheres entrevistadas, apenas uma colocou a atividade de dona-de-casa (4%) como profissão, e um comerciante (5)% (figura 06). A comunidade dispõe de uma porção pequena de terra que fica ao longo da margem direita do Rio Cuiabá, limitando o espaço para o desenvolvimento de atividades como a criação de gado e roças, de maneira que a atividade pesqueira se transformou ao longo dos anos, na principal atividade de subsistência por ser a alternativa de maior disponibilidade de recursos e baixo custo. Figura 06: Distribuição das profissões dos informantes. 82% 9% 4% 5% Profissão Pescador Lavrador Dona de casa Comerciante 50 REDE SOCIAL A rede social resultou em um emaranhado de conexões humanas com 51 (cinqüenta e uma) pessoas, onde cada entrevistado indicou outras pessoas. A rede social serviu para a escolha dos informantes que foram entrevistados e para a observação de como o fluxo de relações sociais se configura no âmbito da comunidade. Os homens foram predominantes com 40 (quarenta) indicações e 11(onze) mulheres. O primeiro entrevistado foi Seu Salvador, a partir dele foram entrevistadas mais 21 pessoas. O informante mais indicado por outros para ser entrevistado foi o Sr. Salvador com cinco indicações, seguido de Belmiro (Biró) e Benedito (Pitó) ambos com quatro indicações. A mulher mais indicada foi D. Escolástica, 76 anos (três indicações) (Figura 7). As relações na comunidade são abertas e bem distribuídas, a maioria das pessoas da rede social foi indicada por apenas um informante, podendo observar uma riqueza de possibilidades de indicações, sendo que muitas vezes os componentes da rede social que encontram-se na periferia da rede, apresentam características de conexão com as outras sociedades. 51 DODÔ BENTO TOTÓ GONÇALO SAMUEL NEGA DOMINGOS FLÁVIO SALVADOR CECÍLIO TOTÓ JOANA LÚCIO MARCINHO PEDRINHO LUZIA PITÓ BIRÓ JOÃO SONIA EDENIL BIZI JÚLIO IVAN MARIA BENEDITA MARTINHO ANA ROSA ANTONIO GONÇALVES LUIZ C. JOSÉ TROMBONE LOURENÇO BIC JOANA RITA SEBASTIÃO MANOEL EDINHO CARLITO ANGÍ DILNEY ELOIO XINO PEDRINHO CARLINHO LOURENÇO TOTE BENEDITO EUZÉBIO MARIA APARECIDA URSOLINA ADELINA FRANCISCO MARIA PADILHA ESCOLÁSTICA Figura 07: Rede social dos informantes de Cuiabá Mirim. Os nomes marcados foram entrevistados. 52 CONHECIMENTO ECOLÓGICO TRADICIONAL DE AVES Todos os informantes (100%) consideraram que os animais que possuem penas, bico, voam e põem ovos são denominados de forma indistinta de pássaros ou passarinhos: “pra nós tudo esses que avoa no céu, é pássaro ou passarinho e quando tem vários junto é um bando de pássaro” (SCS, 63 anos, ♂). Foram registradas na lista livre dos informantes cento e oitenta e oito etnoespécies de aves (anexo I), incluindo um mamífero: morcego (Ordem Chiroptera) que foi indicado três vezes “Morcego é bicho, mas é passarinho.” (AGQ, 63 anos, ♂). A lista livre é uma ferramenta utilizada para demonstrar o domínio cultural sobre algo, sendo o número total das etnoespécies indicadas pelos informantes A análise do consenso cultural indicou trinta e oito etnoespécies a partir do índice de Smith, apresentado na tabela 03. As etnoespécies que apresentaram os índices de saliência mais elevados foram: Tuiuiú (0.788), cabeça seco (0.779), garça (0.740). 53 Tabela 03: Fragmento do anexo I. Análise de lista livre das etnoespécies dentro do consenso cultural, de acordo com informantes de Cuiabá Mirim (índice de Smith). Etnoespécie de aves Pista taxonômica Frequên cia % de resposta Ranque Índice Smith's TUIUIU Jabiru mycteria 20 95 10.500 0.788 CABEÇA SECO Mycteria Americana 19 90 7.263 0.779 GARÇA Casmerodius albus 20 95 12.300 0.740 MUTUM Crax fasciolata 19 90 15.316 0.637 ARANCUÃ Ortalis canicollis 18 86 16.222 0.600 PAPAGAIO Amazona sp 18 86 17.278 0.562 BAGUARI Ardea cocoi 18 86 17.444 0.561 PIRIQUITO Psitacidae 18 86 22.500 0.512 JURUTI Leptotila sp 20 95 23.750 0.506 COLHEREIRO Platalea ajaja 13 62 13.769 0.461 CABECINHA VERMELHA Paroaria sp 16 76 19.750 0.451 BIUÁ Phalacrocorax sp 12 57 13.333 0.440 MASSA BARRO Furnarius rufus 14 67 19.643 0.410 BEM-TE-VI Pitangus sulphuratus 14 67 23.071 0.387 JAÓ Crypturellus Undulatus 16 76 28.500 0.361 ANHUMA Chauna torquata 12 57 21.833 0.357 BEIJA-FLOR Trochilidae 15 71 26.533 0.353 MARRECA Anatidae 16 76 30.750 0.341 ROLINHA Columbina sp 15 71 28.467 0.334 SARACURA Aramides cajanea 15 71 31.467 0.349 SOCÓ Tigrisoma lineatum 10 48 13.800 0.324 SABIÁ Turdus sp 13 62 27.692 0.322 POMBA Columba sp 11 52 21.545 0.310 JACUTINGA Pipile pipile 11 52 25.545 0.308 ANDORINHA Hirundinidae 12 57 24.917 0.294 PIXARONE Saltator coerulescens 11 52 24.909 0.291 CANARINHO Fringilidae 12 57 27.083 0.277 MARTIM-PESCADOR Coraciformes 13 62 32.231 0.273 PIRIQUITO BARROSO Myiopsitta monachus 11 52 26.636 0.273 GALO DA CAMPINA Fringilidae 11 52 30.273 0.276 BIUATINGA Anhinga anhinga 10 48 26.400 0.268 TUCANO Ramphastos toco 11 52 28.364 0.262 URUBU Coragyps atratus 10 48 27.300 0.262 QUÁ Nycticorax nycticorax 11 52 29.727 0.240 JAPÚ Psarocolius decumanus 11 52 29.364 0.225 TAIAMÃ Phaetusa simplex 11 52 31.455 0.221 CAFEZINHO Jacana jacana 11 52 34.636 0.215 MARACANÃ Ara nobilis 11 52 34.000 0.212 54 A Tabela 04 mostra o resultado da Análise de Consenso, indicando que o primeiro fator (itens do consenso cultural) foi três vezes maior do que o segundo fator (demais itens da lista) apontando para um consenso cultural a respeito das etnoespécies de aves. A mesma também apresenta o valor de Pseudo-Reability que explica a variabilidadeou grau de acordo entre os informantes. O valor padrão para concordância entre os informantes necessita ficar na faixa entre 0.9 e 1.0. Nesta pesquisa o valor obtido foi de 0.946 caracterizando a existência de uma uniformidade entre as respostas. O consenso cultural concentrou-se em trinta e oito etnoespécies de aves. Tabela 04: Análise de consenso Cultural das etnoespécies de aves conhecidas pelos informantes (Pseudo-Reability = 0.946) FATOR VALOR RAZÃO 1 9.727 8.670 2 1.122 2.116 3 0.530 11.379 ETNOCATEGORIAS DE AVES Os informantes agruparam as etnoespécies de aves em oito macro- etnocategorias distribuídas em cinqüenta e nove etnogrupos, de acordo com as conexões ecológicas e culturais que eles apresentaram, sendo que muitas delas (etnoespécies) ocupam lugar em várias etnocategorias, correspondendo a trezentas e oitenta e uma indicações (tabela 05). Os grupos categóricos que mais de destacaram foram: “quanto ao hábitat”, com cento e vinte e oito etnoespécies distribuídas em oito diferentes habitats “lugares” (tabela 07), seguido das associadas ao “hábito alimentar das aves” com cento e nove etnoespécies distribuídas em 20 categorias alimentares (tabela 12), como demonstra a tabela geral (tabela 05): 55 Tabela 05: Tabela Geral: Etnocategorias e quantidade de etnoespécies. MACRO-ETNOCATEGORIA ETNOCATEGORIA Nº DE ETNOESPÉCIE Quanto ao vôo 04 37 Quanto ao hábito alimentar 20 109 Quanto ao habitat 08 128 Aparência 03 22 Os que podem criar em casa 01 15 Os que servem para comer 01 15 Quanto ao comportamento 02 40 Total de indicações 59 381 CONEXÕES COM A PAISAGEM A conexão com a paisagem pantaneira foi desenhada pelos informantes a partir das etnocategorias: quanto ao vôo dos pássaros e quanto aos lugares onde os pássaros vivem. Na etnocategoria quanto ao vôo (tabela 06), os informantes agruparam em relação a estratos aéreos e terrestres: voam alto, baixo, passarinhos que são mais terrestres e passarinhos que voam alto, mas ficam mais tempo no chão. O grupo com maior quantidade de etnoespécies foi dos que “voam mais baixo”, com 24 aves, como apresentado na tabela 06. 56 Tabela 06: Etnocategoria quanto ao vôo ETNOCATEGORIA AVES Pássaros que voam alto andorinha, tuiuiú, cabeça seca, biuatinga, urubu; Pássaros que voam mais baixo papagaio, arara, piriquito, cabecinha vermelha, baguari, socó, garça branca, garça morena (maria faceira), garça real, frango d‟água, cafezinho, curió, canarinho, sabiá, joão pinto, japuíra, japu preto (joão congo), beija- flor, bem-te-vi, tucano, açari, trinca ferro, pica-pau grande da cabeça vermelha, pica-pau do campo da cabeça amarela; Passarinhos que ficam no chão Juruti, jaó, perdiz, saracura ; Pássaros que voam alto mas ficam mais tempo no chão Mutum, arancuã, rola cinzenta, rola branca. Os informantes definiram alguns lugares5, relacionando-os às aves como parte integrante daquela paisagem, “tem passarinho que é da beira do rio (ER, 75 anos, ♀)”, dando um sentido de pertencimento daquela determinada etnoespécie ao lugar, que são unidades de paisagem conhecidas e identificadas pelos ribeirinhos, porém, sem a denominação de paisagem. Os informantes demonstraram ter uma compreensão ecossistêmica, relacionando o lugar onde os pássaros vivem com a disponibilidade de alimento, com a nidificação e com o hábito alimentar. Cognições estabelecidas por um dos informantes em relação a etnoespécie Carão: “carão vive das lesmas do pantaná, come caramujo e minhoca, por isso é brejeiro...(ER,75 anos, ♀)”, dessa maneira 5 Os lugares podem ser considerados como unidades de paisagem. Estudo realizado por Galdino (2006) na mesma comunidade levantou através do conhecimento tradicional dezessete lugares ou unidades da paisagem pantaneira. 57 pode-se evidenciar a conexão entre o habitat e o hábito alimentar, mostrando a importância do nicho trófico enquanto relação de sobrevivência. Os informantes descreveram os lugares da seguinte maneira: “Beira d’água, baía e beira do rio é os lugá onde tem mais água, no barranco, dentro das baía e os bicho fica o dia todo junto com a água” (GS, 51 anos, ♂). “Brejo é aqueles lugá aberto que fica molhado o tempo todo cheio de isca e frieira” (BRL, 53 anos ♂). “Firme é lá pra trás (em relação ao rio), que fica seco o tempo todo” (BRL, 53 anos ♂). “As praia só aparece quando o rio ta baixo, nas seca,fica umas areia bem branquinha, nós planta batata lá, aí tem uns bicho que bota ovo e fica lá” (LR, 52 anos, ♂). “As mata fechada é onde tem os pau alto, nas beira do rio e em outros lugar” (URN, 67 anos, ♀). “Os que fica no sarã. Sarã é umas planta que fica no barranco do rio, ajuda a não desbarrancá e nós bebe o chá dela, tipo mate” (GCS, 51 anos, ♂). “O que vive no ar , é aqueles que a gente vê eles no céu voando, fazendo redemoinho, diz que eles vêm de longe” (GCS, 51 anos, ♂). A tabela 07 apresenta a etnocategoria quanto ao hábitat, onde o grupo dos que vivem na mata fechada apresentou o maior número de aves. 58 Tabela 07: Etnocategoria “quanto ao Hábitat”. ETNOCATEGORIA AVES Os da beira d‟água, baía e beira do rio cabeça seco, tuiuiú, colhereiro, garça, biuá, baguari, taiamã, martim, marreca, pato do mato, biuatinga; Os da mata fechada mutum, arancuã, jacu, jacutinga, jaó, saracura, nambu, rola, pomba, juruti do pantanal, urubu, cracará (cabeça chato), gavião, beija-flor, marriquitinha, sabiá; Os do brejo cafezinho, patinho d‟água, batuirinha, saracura, carão, quero quero, cabecinha vermelha ou josé fita, galo da campina, chapéu veio e vira unha; Os do firme pavão, coruja, urutau, rolinha; Os que ficam na praia gaivota, batuíra; Os que ficam no sarã sicuíra, anu preto, anu branco, cabecinha vermelho, bica de prata, sanhaço, sabiá; O que vive no ar Andorinha; Os que vivem no cercado ou campo quero quero; "As garças descem nos brejos que nem brisas Todas as manhãs". (Manoel de Barros) 59 CONEXÕES DE SOBREVIVÊNCIA HUMANA Dentre as etnoespécies, foram indicadas 15 aves que os entrevistados categorizaram como “os que servem para comer” (tabela 08), ou seja, para alimentação humana. Segundo relato de um dos informantes: “naquela época que não existia supermercado, nós comia o que tinha por aqui mesmo, agora é só ter dinheiro e correr em Barão [...]” (ARS, 64 anos ♂). Outro informante relatou, “antigamente eu comia os passarinho, hoje já nem como mais, tá fácil de comprar comida na venda [...]” (US, 67 anos, ♂). Das aves, o mutum parece ser a que eles consideram mais saborosa, “nós gostamos de tudo, mas mutum é gostosa, parece frango, é só fazê bem fritinho. Mas tuiuiú também é bom [...]” (US, 67 anos ♀). Ao observar três garotos na beira do rio Cuiabá, depenando e tirando as vísceras de uma ave, um dos garotos disse: “isso que nós tamo limpano é pombo do mato, vamo fazê pro almoço, é gostoso [...] Nós comemo vários passarinho [...]” (garoto de treze anos). Eles relataram que pegam os pássaros para comer atirando com “funda”6 ou fazendo arapuca7 de madeira para capturar os bichos, que ficam no firme. “Lá pro firme que é bom de pegar aqueles passarinho maiorzão, tipo mutum e juruti” (garoto,doze anos). 6 Funda ou estilingue é uma arma feita por crianças e adultos, com forquilha de galho de árvore. E o pelote (a bala) é de pedra arredondada. O ato de atirar com a funda é denominado de pelotear. 7 Arapuca é uma armadilha feita geralmente pelos adultos para prender as aves. Arma-se a arapuca e coloca-se alimento como isca para prender as aves. 60 Tabela 08: Etnocategoria “os que servem para gente comer”. ETNOCATEGORIA AVES Os que servem para gente comer cabeça seco, garça, baguari, socó, quá, jaó, papagaio, arara, tuiuiú, pato, arancuã, mutum, jacutinga, juruti, pomba; CONEXÕES DE COMPORTAMENTO Os informantes agrupam algumas aves em função do comportamento social e sexual, como: “tem uns que só vive de bando, anda de grupo como aqueles piriquitinho verde, já os massa barro vive de dois, com a companheira [...]” (US, 67 anos ♀). Foram citadas 12 etnoespécies que vivem em grupo e 28 que vivem em casal (tabela 09). Tabela 09: Etnocategoria quanto ao “comportamento”. ETNOCATEGORIA ETNOESPÉCIES Em grupo piriquitinho verde , piriquito barroso, pomba trucal , japuíra, anu preto grande canjiqueiro, anu preto pequeno, papagaio, maracanã, ararinha verde, nandaia, pássaro preto, xexéu; Casal bem-te-vi, joão-de-barro, pardalzinho, canarinho amarelo, pombo, juruti, pombo, rolinha (miudinha) de vez em quando em grupo, curió marronzinho, curió preto com costa branca, curió cor de canário, curió branco, amarelo, preto c/coleira branca, bico de prata, arancuã, jacutinga, jacu, mutum (fêmea carijó e macho carijó de branco), joão pinto, jaó, papagaio, maracanã, 61 nandaia, pássaro preto, xexéu, arara vermelha, arara azul e arara amarela. CONEXÕES ESTÉTICAS Os pantaneiros expressam o encantamento que eles têm pelo lugar onde vivem, alguns cantam músicas de siriri que retrata as belezas do Pantanal e outros expressam: “eu gosto de viver aqui, aqui é um lugar bom, tem muitas beleza [...]” (URS, 67 anos, ♀). As conexões com as aves foram expressas de diversas maneiras, inclusive categorizando-as pela aparência (tabela 10), onde algumas foram consideradas “bonitas” principalmente em função da cor da plumagem e forma anatômica: “o que eu acho bonito é coeeiro, bem cor de rosinha, piriquito também [...]” (ARS, 48 anos, ♀). A definição de feiúra não está ligada somente à forma física, mas a outros fatores, como o hábito alimentar (figura 08), “urubu e cracará, os dois são feio, come carniça e o outro come os pintos dos outro” (BS, 59 anos ♂). Figura 08: Urubu alimentando-se do jacaré morto, Rio Cuiabá. Foto: Ruth Albernaz, 2009 62 Tabela 10: Etnocategoria quanto à “aparência”. ETNOCATEGORIA AVES Pela boniteza tuiuiú, cabeça seco, massa barro, cabecinha vermelho, beija-flor, papagaio, maracanã, piriquito, mutum, pato, arancuã, nhana cocá e sabiá; Os que tem a cor parecida rolinha, pomba e juruti; Pela feiúra muié véia, coruja, gavião, morcego, urubu e cracará. Ainda no contexto das relações estéticas, algumas aves compõem a ambiência da casa. Foram apresentadas 15 aves como etnocategoria “os que podem ser criados em casa”, pois consideram bonitos para enfeitar a casa, podendo alguns serem “amansados” e outros além de bonitos, servem como alimento (pomba, jaó, juruti, pato) (Tabela 11). Tabela 11: Etnocategoria “os que podem ser criadas em casa”. ETNOCATEGORIA AVES Os que podem ser criados em casa Papagaio, piriquito, pato, marreca, cardeal, galo da campina, pixororé, pardal, bica de prata, bico curto, pomba, juruti, jaó, saracura, pica-pau. 63 CONEXÕES DE SOBREVIVÊNCIA A etnocategoria quanto ao hábito alimentar (tabela 12) apresentou-se de forma mais ampliada e com maior riqueza de detalhes. Os informantes, ao relatarem sobre os hábitos alimentares das aves, acrescentaram de forma interligada algumas particularidades do comportamento e ecossistema para a obtenção do alimento, em relação a: Horário: “os que se alimenta de rato, lagartixa e outros bichinho, saem para comer a noite” (GS, 51 anos ♂). Lugares8: “Os que se alimenta de ervas e bichinho ficam na beira da lagoa para encontrar o alimento [...]” (ERS, 75 anos ♀). “A anhuma come folha, mas é brejeira [...]” (SRS, 63 anos ♀). “Esses que comem peixinho, gostam de vivê no brejo [...]” (GS, 51 anos ♂). “cabecinha vermelha gosta de ficar em redor de casa para comer arroz na panela da gente, eles são manso [...]” (URS, 67 anos ♀), (figura 08). Estratégias para obtenção de alimento: “Os que comem frieira, vão chuçando o chão” (GS, 51 anos, ♂). “Martim-pescador fica caceteando o pexe no pau, pra matá e comê” (SRS, 63 anos, ♂). Algumas etnoespécies que são consideradas como cardápio das aves, foram descritas pelos informantes da seguinte maneira: 8 Lugar como extensão do acontecer ecológico parafraseando Milton Santos (1997) que conceitua lugar como a extensão do acontecer homogêneo ou do acontecer solidário e que se caracteriza por dois gêneros de constituição: uma é a própria configuração territorial, outra é a norma, a organização, os regimes de regularização. 64 “bichinho existe na água, a gente não vê ele, mas os inseto come ele, deve de existir e esses bichinho come barro e o barro come a água [...]” (GS, 51 anos ♂). O “bichinho” é descrito como um ser invisível, semelhante a um inseto que eles não enxergam, mas existe para alimentar outro no ecossistema. “Frieira vive no barro, é parecida com uma minhoca, mas não é minhoca, é menor que minhoca, mais fina e dá só na época que o barro tá molhado [...]” (GS, 51 anos ♂). “As isca viva é aqueles tuvira, cambatoá, caramujo, caranguejo [...]” (SRS, 63 anos, ♂). As “iscas vivas” são peixes pequenos, caramujos e caranguejos que os pescadores utilizam para pescar e vender para os turistas. Figura 09: Cabecinha vermelha e bem-te-vi alimentando-se na panela, varanda de uma residência em Cuiabá Mirim. Foto: Ruth Albernaz, abril/2009. 65 Tabela 12: Etnocategoria “quanto ao hábito alimentar”. ETNO CATEGORIA CATEGORIA CIENTÍFICA AVES Os que comem rato, lagartixa e outros bichinhos Carnívoro joão curutu, urutau, coruja de orelha, coruja do peito branco, coruja buraqueira, coruja caburezinho; Os que comem ervas e bichinhos Herbívoro- insetívoro anhuma, quero quero, vira unha, batuíra pernilongo, batuíra colerinha, marreca, curicaca; Os que comem peixe Piscívoro tuiuiú, cabeça seco, biuá, socó boi, socó galinha(come cobra também), garça, baguari, sicuíra, quá, biuatinga, colhereiro, martim-pescador, cafezinho, saracura,tabuiaiá, garça branca, garça real cinza, garça real amarelada com bico cinza, sicuíra, marreca, quá; Os que comem isca viva ( tuvira, cambatoá, caramujo, caranguejo) Piscívoro tuiuiú, cabeça seca, tabuiaiá, colhereiro, baguari, biguá, saracura, socó; Os que comem frutas e minhocas Onívoros mutum, arancuã, jacutinga, jacu, pomba, jaó, ema, siriema, rolinha, papagaio, piriquito, baitaca, nandaia, piriquito barroso, tucano, acari, graia, cabecinha vermelha, pardalzinho, canarinho, bica de prata, pixororé, arara amarela, arara azul, arara vermelha, quero quero;Os que comem frutas e insetos Frugívoro- insetívoro bem-te-vi, joão-de-barro, piriquitinho verde, piriquito barroso, pardalzinho, canarinho amarelo, pombo juruti, pombo rolinha (miudinha), pomba trucal, curió 66 marronzinho, curió preto com costa branca, curió cor de canário, curió branco, amarelo, preto c/ coleira branca, bico de prata, japuíra, anu preto grande canjiqueiro, anu preto pequeno, arancuã, jacutinga, jacu, mutum, joão pinto, jaó, papagaio, maracanã, ararinha verde, nandaia, pássaro preto, xexéu, arara vermelha, arara azul e arara amarela; Os que comem frutas e sementes Frugívoro – granívoro arancuã, mutum, tucano, papagaio, piriquito, cabecinha vermelha, pixororé (flor e fruta), japu, galo da capina, bica de prata, curió, bico curto, sariema, arara, japuíra, rolinha, jacutinga, mutum, jacu, jacu goela; Os que comem sementes Granívoro jaó, juruti, rolinha, curió, bico curto, arancuã; Os que comem frieira Insetívoro curicaca, vira unha; Os que comem insetos e minhocas Insetívoro curicaca cinza, curicaca (preta, branca, marrom), vira unha , frango d‟água ( dobra o capim para fazer ninho) tem azul, esbranquiçada e marrom, saracura; Os que comem inseto d‟água Insetívoro patinho, cafezinho, frango d‟água, marreca, pato grande; Os que comem inseto no seco Insetívoro pioró, massa barro, sabiá, saracura, andorinha; Os que comem caramujo Malacófagos carão (vive das lesmas do pantanal, come caramujo e minhoca), quero quero, cabecinha vermelha ou josé fita, galo da campina, chapéu veio e vira unha; Os que comem Carnívoro gavião caramujeiro, muié véia, gavião 67 cobra, peixe e filhos de outros pássaros preto, gavião marrom, gavião carijó, gavião có (carijó e grita co), pinhé (come filhotes), cracará; Os que comem outros passarinhos e cobras Carnívoro caburezinho, kriquiri, gavião pinhé, tucano; Os que comem fruta e o filhote dos outros Carnívoro tucano, açari (parece tucano, mas é meio marrom, peito amarelado e listrado); Os que comem galinha Carnívoro coruja, urutau e joão curutu; Os que comem melzinho, pólen da flor e da flor Nectívoro- herbívoro beija-flor, marriquitinha, pixororé (flor); Os que comem aranha, baratinha dágua e arroz do campo Insetívoro- granívoro pato, marreca; Os que comem folha Herbívoro Anhuma. 68 REDE ALIMENTAR DAS AVES A rede alimentar das aves foi construída a partir do relato do conhecimento ecológico dos informantes a respeito de trinta e oito etnoespécies mais indicadas e que foram consideradas como consenso cultural a partir da análise do ANTROPAC 4.0. Associada à trinta e oito etnoespécies foi realizada as perguntas da técnica “quem come quem”, A partir das respostas foi elaborado a rede alimentar da figura 10, na perspectiva pedagógica de demonstrar o emaranhado de conexões estabelecidas em um ecossistema pantaneiro. A configuração da rede alimentar apresentada contemplou aves, peixes, mamíferos, répteis, plantas nativas e exóticas e elementos minerais como: barro, areia, pedregulho, chuva e água. As setas foram colocadas no sentido predador-presa, na perspectiva de quem come quem. A energia é transferida no sentido contrário, presa- predador, ou seja, o predador se beneficia da energia da presa. 69 Figura 10: Rede alimentar: interação aves-plantas-bichos-terra-água [As setas estão indicadas no sentido predador-presa]. TUVIRA CARANGUEJO GENTE ONÇA JAGUATIRICA URUBU GAMBÁ CABEÇA SECO BAGUARI BARATA D‟AGUA MUTUM AREIA TUIUIÚ COLHEREIRO MARRECA GAVIÃO JACARÉ BEM-TE-VI ROLINHA COBRA CANINANA PIRIQUITO FRUTAS ARANCUÃ PEIXES PAPAGAIO MILHO TUCANO MASSA BARRO INSETO DO CHÃO SABIÁ CABECINHA VERMELHA GENIPAPO BEIJA-FLOR SARACURA JAÓ MINHOCA FRUTA DE CANELEIRA POMBA ANHUMA ISCAS BARRO INSETO D‟ÁGUA QUERO QUERO GARÇA FOLHA DE BATATA LAMBARI ÁGUA SEMENTES FLOR LODO INSETINHO CHUVA CUPIM BICHINHO FORMIGA MADEIRA PEDREGULHO AREIA DA PRAIA FRIEIRA 70 As redes alimentares apresentadas pelos informantes mostraram a transferência do alimento (energia) de um nível para outro nível trófico a partir dos produtores, através de cadeias alimentares, cuja complexidade é variável. Informações de diversos elementos interacionais apareceram, podendo ser construídos alguns modelos, oriundos das conexões estabelecidas através dos relatos que estão exemplificados nas figuras de 11 a 15 (que foram elaboradas de múltiplas maneiras, demonstrando as várias possibilidades pedagógicas): Figura 11: Cadeia alimentar citada pelos informantes, com fluxo de energia direcional, interação entre animal-mineral. Figura 12: Cadeia alimentar citada pelos informantes, com fluxo de energia direcional, interação animal-vegetal-mineral. ONÇA JACARÉ SICUÍRA PIQUIRA ÁGUA jacaré tuiuiú e outros isca viva inseto dagua e cupim madeira terra Consumidor secundário 71 Figura 13: Cadeia alimentar envolvendo organismos aquáticos, áreas úmidas e terrestres, relação trófica entre animal-vegetal. Figura 14: Cadeia alimentar com espécies ocupando o mesmo nível hierárquico na interação animal-vegetal-mineral. Figura 15: Rede alimentar envolvendo mineral, vegetal, animal e ser humano. ONÇA JACARÉ MARTIM- PESCADOR SARDI NHA F RUTA DA SARDINH EIRA GENTE ONÇA E JAGUATERICA MUTUM CANELEIRA INGARANA FIGUEIRA BARRO Produtor Consumidor primário Consumidor secundário (ave) Topo de cadeia Consumidor primário 72 Os informantes demonstraram conhecer bem o comportamento das aves, apresentandouma lista associada de algumas espécies, situando-as no mesmo nicho relatando a respeito do comportamento de algumas etnoespécies e especificando as estratégias para se alimentarem, como é o caso do Martim- pescador: “Martim, fica caceteando o peixe até matá e comê” (GS, 51 anos, ♂). Tabela 13: Lista associada de aves/peixes: “quem come quem”. AVES PISCÍVORAS PEIXES Tuiuiú e cabeça seco rubafo, sardinha, cambatoá; Garça e colhereiro sardinha, lambari; Biuá e biuatinga bagre, carra carra, rapa canoa; Socó e baguari filhote de piranha, sardinha, jijum; Taiamã e Sicuíra Taiamã come só as piquirinhas; sicuíra come piquira, filhote de rubafo; Martim-pescador e biuá lambari, sardinha, bagre. 73 2.4. DISCUSSÃO Todos os informantes desta pesquisa têm sua origem no Município de Barão de Melgaço, sinalizando uma estreita relação com o Pantanal, com rico conhecimento sobre o assunto tematizado nesta pesquisa. A maioria dos entrevistados se autoidentificaram como pescadores profissionais, expressando que existe uma relação de dependência com os serviços ofertados pelo Rio Cuiabá. A rede social demonstrou que as indicações contemplam um bom número de pessoas, configurada de forma aberta, não havendo concentração de indicação em um único informante. Os resultados em relação ao conhecimento da riqueza de aves concentraram- se em cento e oitenta e oito (188) etnoespécies9 que sinalizam a ligação dos pantaneiros e pantaneiras com as aves e o ambiente, demonstrando conexões ecológicas que fazem parte do bojo do conhecimento tradicional. A compreensão dos informantes a respeito das aves se apresentou de forma sistêmica, com amplo grau de consenso cultural em relação às aves, incluindo trinta e oito etnoespécies dentro do consenso cultural. As aves são sem dúvida um dos grupos mais conhecidos e as pessoas costumam conferir-lhes nomes que geralmente se relacionam com características marcantes como comportamento, forma, cor ou manifestações sonoras (FARIAS e ALVES, 2006). Para Marques (2001, pág.52) qualquer sociedade humana estabelece as seguintes conexões básicas: “toda e qualquer sociedade humana estabelece seis conexões fundamentais: cosmológica, geológica e hidrológica, botânica, zoológica, humana e sobrenatural.” 9 As etnoespécies de pássaros são espécies de aves consideradas aqui por poderem receber mais de um nome, de acordo com os apelidos dados pela comunidade, sendo etnoespécie morcego entendida como pássaro pelos informantes. 74 As conexões estabelecidas pelos informantes foram: conexões com a paisagem, conexões de sobrevivência humana, conexões estéticas, conexões de sobrevivência das aves e a rede alimentar (conexões mineral-vegetal-animal). Os informantes classificaram e agruparam as etnoespécies de aves em oito macroetnocategorias distribuídas em cinqüenta e nove etnocategorias, de acordo com as conexões ecológicas e culturais que eles apresentaram, sendo que muitas das etnoespécies ocupam lugar em várias etnocategorias, correspondendo a trezentas e oitenta e uma indicações de aves. As macro-etnocategorias indicadas pelos informantes relacionam-se com o tipo de vôo, o comportamento, a aparência, hábitat, hábito alimentar, os que servem como alimentação humana e os que servem para serem criados em casa. Pesquisa com abordagem semelhante foi realizada por Giannini (1991) com grupos indígenas que nomeavam e classificavam as aves, através de princípios de sistemas classificatórios com base na morfologia, cantos, hábitat e, principalmente, por meio da compreensão dos mitos. No mesmo sentido, pesquisa abordando as classificações com perspectiva multidisciplinar foi realizada por Jensen (1985) estudando sistemas classificatórios de aves, realizados com grupos indígenas na região norte do Brasil. Nesse estudo, foi observado um sistema hierárquico de classificação das aves utilizando descontinuidades naturais, semelhantes a aquelas reconhecidas na sistemática Lineana, e um sistema de classificação social. Nesta pesquisa, a etnocategoria quanto ao hábitat, “onde os pássaro vive”, demonstra a conexão com os habitats, sendo listado oito (8) lugares de onde os “pássaros pertencem”, numa abordagem ecossistêmica rica em detalhes de comportamento e interações intra-específicas: comportamento, estratégias para conseguir alimento (forrageamento e predação) e interespecíficas: rede alimentar e disputa do nicho trófico (disputa de território, predação). 75 Os “lugares” indicados podem ser também compreendidos como as unidades de paisagem10 do Pantanal. Os “lugares” onde houve os maiores números de etnoespécies citadas foram: mata fechada com dezesseis etnoespécies e em seguida um grupamento de lugares denominados “beira d‟água, baía e beira do rio” que eles colocaram juntos em função das etnoespécies movimentarem entre esses espaços, indicando onze etnoespécies. O brejo foi o terceiro lugar mais citado com dez etnoespécies. “brejo fica nesse lugar mais baixo e fica sempre molhado, com isca, caranguejo [...]” (SRS, 63 anos). Essas aves encontradas no brejo alimentam- se de insetos aquáticos e de pequenos peixes. “No Ritmo das águas do Pantanal” escrito pelas pesquisadoras Da Silva e Silva (1995), com pesquisa realizada na região de Mimoso é uma densa descrição do modo de vida dos pantaneiros e contempla os diversos ambientes, havendo semelhança na descrição de brejo e iscas que vivem no brejo, citando as mesmas etnoespécies encontradas em Cuiabá Mirim. Pesquisa realizada por Galdino (2006) revela que na mesma comunidade (Cuiabá Mirim) foram identificadas dezessete unidades de paisagem para obtenção de recursos vegetais para a construção da casa pantaneira, sendo que brejo, baía, firme, rio, lagoa, morro, mata e corixo, obtiveram um provável consenso cultural entre os informantes. No Pantanal, em relação à abundancia de espécies, Nunes e Tomas (2008) colocam que as aves aquáticas predominam na comunidade de migrantes e nômades na planície do Pantanal. Entre os migrantes intercontinentais as aves aquáticas representam 56,4% das espécies que invernam no Pantanal. Devido à complexidade dos sistemas naturais, é extremamente difícil compreender com exatidão o papel que as espécies desempenham na funcionalidade dos ecossistemas e até que ponto as diferentes espécies podem sobrepor na sua contribuição em determinada função particular de um ecossistema 10 O conceito de paisagem é definido por Metzger (2001) como “um mosaico heterogêneo formado por unidades interativas, sendo esta heterogeneidade existente para pelo menos um fator, segundo um observador e numa determinada escala de observação”. 76 (HOBBS et al., 1995). É, no entanto possível identificar grupos de espécies que desempenham papéis mais relevantes no funcionamento de um dado ecossistema (HECTOR et al., 2001). A rede alimentar elaborada pelos informantes contemplou a hierarquização dos diversos níveis da teia alimentar, onde foi demonstrado o conhecimento ecológico das aves, estabelecendo o vínculo existente entre um grupo de organismos presentes no ecossistema, os quais são regulados pela relação predador-presa. É através da rede alimentar, ou cadeia trófica, que é possível a transferência de energia entre os seres vivos. Existem basicamente dois tipos de cadeia alimentar, as que começam a partir das plantas fotossintetizantes e as originadas através da matéria orgânicaanimal e vegetal (PINTO COELHO, 2000). O maior número de etnoespécies indicadas estava na etnocategoria “os que comem frutas e insetos” (trinta e três etnoespécies) indicando que estão em dois níveis tróficos, se alimentando de produtores (frutas) e alimentando de consumidores primários (inseto). Pesquisa semelhante foi realizada por Magalhães (1990) no Município de Nossa Senhora do Livramento que apresentou uma teia alimentar a partir do capão como unidade ecossistêmica e a descrição dos informantes sobre as relações tróficas. Foram citadas 15 etnoespécies de aves como fonte de dieta dos ribeirinhos, podendo constatar a interdependência entre seres humanos/aves/ambiente na teia alimentar e o amplo grau de adaptação da cultura pantaneira refletida na culinária que, mesmo tendo o peixe como principal fonte de proteína, possui uma diversificação nas fontes, diminuindo a pressão sobre o pescado. Outras comunidades tradicionais utilizam aves na dieta alimentar como relatado por Hanazaki (2001) no estudo a respeito de “ecologia de caiçara: uso de recursos e dieta” verificando que na região do litoral sul de São Paulo as etnoespécies de sabiás são amplamente consumidas pelas comunidades caiçaras. 77 Para conservação das práticas tradicionais, Primack e Rodrigues (2001, pág. 282) discutem sobre as políticas de conservação, e ressaltam a difícil missão de se planejar políticas públicas que contemplem a diversidade cultural e acrescentam: Cada espécie de planta, grupo de animais, tipo de solo e paisagem quase sempre tem uma expressão lingüística correspondente, uma categoria de conhecimento, um uso prático, um sentido religioso, um papel em um ritual, uma vitalidade individual ou coletiva. Salvaguardar a herança natural de um país sem resguardar as culturais que lhe tem dado vida, é reduzir a natureza a algo sem reconhecimento, estático, distante, quase morto. 78 2.5. CONSIDERAÇÕES FINAIS O conhecimento ecológico tradicional de aves vem sendo repassado ao longo das gerações, auxiliando no processo de adaptação e resiliência às perturbações sociais e ambientais que vem ocorrendo no Bioma Pantanal. Nesse sentido, a biodiversidade e o ambiente do Pantanal parecem oferecer condições para que a comunidade de Cuiabá Mirim adapte-se às mudanças operadas em seu meio físico e social e disponha de recursos que atendam a suas novas demandas, porém as pressões externas são fatores contínuos que ameaçam a continuidade do padrão cultural. É necessário reconhecer a existência entre as comunidades tradicionais, de outras formas, igualmente racionais de perceber a biodiversidade, além das oferecidas pela ciência moderna, considerando que este conhecimento assegura o acesso rápido a informações elementares para pesquisas científicas e monitoramento da biodiversidade, além de dar subsídios à população local na defesa de “seu lugar”. Estudos desta natureza trazem no seu bojo a esperança de dar visibilidade ao conhecimento ecológico tradicional, em espaços de diálogo para a implementação de políticas públicas que garantam a sustentabilidade dos pantaneiros e pantaneiras. 79 2.6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEGOSSI, A. 1993. Ecologia Humana: Um Enfoque Das Relações Homem- Ambiente. INTERCIENCIA 18(1): 121-132. URL: http://www.interciencia.org.ve BEGOSSI, A. Biodiversity, family income and ecological niche: a study on the consumption of animals at Búzios Island. Ecology of Food and Nutrition. 1993. BERNARD, R. Research Methods in Anthropology: Qualitative and Quantitative Approaches. Almira Press, New York. 2002. BORGATTI, S. P. ANTHROPAC 4.0. Natick, MA: Analytic Technologies, 1996a. BORGATTI, S. P. ANTHROPAC 4.0 Methods Guide. Natick, MA: Analytic Technologies. 1996b. CAULKINS, D.; HYATT, S. B. Using Consensus Analysis to Measure Cultural Diversity in Organizations and Social Movements. In: Field Methods. 1999. 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Imagem: Ruth Albernaz, julho de 2009. 84 RESUMO ALBERNAZ-SILVEIRA, R. Conhecimento Ecológico Tradicional de aves da Comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertação – Mestrado em Ciências Ambientais). Este trabalho apresenta o Conhecimento ecológico tradicional – CET de aves pelos ribeirinhos da Comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso, Brasil. O Conhecimento Ecológico Tradicional de 22 pantaneiros foi desvelado num processo dialógico, por meio de uma abordagem metodológica híbrida de cunho qualitativo e quantitativo pelo viés da gestão e educação ambiental. Para a coleta de dados foi utilizado técnicas como Listas Livres, Observação Participante, Entrevistas Estruturadas e Semi-estruturadas. No cotidiano da comunidade foi observado os etnocalendários ligados ao sistema sócioecológico, evidenciando atividades sociais como: o tempo de escola e tempo de festas e as atividades de sobrevivência como pesca e roça, moldados pelo tempo das águas, nas fases: enchente-cheia-vazante- estiagem. Foram levantadas as aves etnoindicadoras climáticas e outros componentes bióticos e abióticos e a percepção dos informantes em relação às alterações climáticas. A comunidade estudada demonstrou amplo conhecimento a respeito das aves, com riqueza de detalhes e percepção ecossistêmica, onde o fazer e o saber fazer são moldados pela relação com a natureza, contornados pela capacidade de adaptação e pelos processos de resiliência ao longo do tempo. Estudo a respeito do conhecimento Ecológico Tradicional das comunidades do Pantanal sobre as aves e suas relações com o clima são importantes ferramentas para o acesso às informações, de modo rápido, seguro, eficiente e de baixo custo. O enfoque de pesquisas que contempla o saber ecológico das comunidades tradicionais vem sendo reconhecido e valorizado por se tratar de conhecimento de longo prazo, que se perpetua através da transmissão oral entre gerações. Palavras-chave: Pantanal, Conhecimento Ecológico Tradicional, aves. Orientadora: Profª. Drª. Carolina Joana da Silva, UNEMAT; 85 ABSTRACT ALBERNAZ-SILVEIRA, Ruth. Traditional Ecological Knowledge of birds in the Cuiabá Mirim Community, Pantanal of Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertation – Master in Environmental Science). The traditional ecological knowledge is a knowledge system that reflects the adaptation of human population at their environment. This work presents the Traditional Ecological Knowledge – TEK of birds by the ribeirinhos11 of Cuiabá Mirim Community, Pantanal of Mato Grosso, Brazil. The traditional ecological knowledge of 22 pantaneiros were revealed through a dialogic process, by a hybrid methodological approach, with a qualitative and quantitative character, by the environmental education and management bias. For the data collection it was used techniques like free lists, Participant observation, structured and semi structured interviews. In the community quotidian it was observed an ethno calendar linked to the socio-ecological system, becoming evident activities as: school time and party time and the survive activities like fish and agriculture molded by the water time, in the phases: inundation - flood – receding – dry. Ethoindicator birds weather, biotic and abiotic components and the informers perception concerning to the climate changes were raised up. The community studied showed up a wide knowledge about birds, with a lot of details and an ecosystemic perception, where knowing and doing are molded by the relationship with the nature, outlined by the capacity of adaption and by the capacity of readaptation of the environment after being through a stressing situation. Studies about the traditional ecological knowledge of Pantanal communities about birds and their relation with the weather are important tools to the access to informations, rapidly, safely, and on a low cost. Researches with an approach that contemplates the ecological known of the traditional communities are being recognized and valorized because it concerns to a long term knowledge, that is perpetuated through the oral transmission among generations. Key - words: Pantanal, traditional ecological knowledge, birds. 11 Ribeirinhos is a term that refers to all those who live in Pantanal. 86 3.1. INTRODUÇÃO A regulação climática do Planeta Terra envolve muitas discussões gerando grandes polêmicas, em função das crenças, interesses e valores dos envolvidos. O fenômeno das mudanças climáticas vem sendo considerado por muitos estudiosos no assunto como a mais séria ameaça para toda a vida do planeta, com impactos adversos sobre o ambiente, a saúde, a segurança alimentar, as atividades econômicas, recursos naturais e infra-estruturas físicas. As mais recentes descobertas científicas, apresentadas no Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas12 indicam, com 90% de certeza, que apesar das variações naturais do clima global, o aumento da concentração de gases do efeito estufa emitidos por fontes antropogênicas está alterando significativamente o equilíbrio do sistema do clima e seus efeitos já são observados, tornando necessárias, portanto, imediatas açõespreventivas, de curto, médio e longo prazos, dada a inércia do sistema climático. As preocupações com as mudanças climáticas começaram ganhar evidência a partir da década de 1980, quando pesquisas científicas sobre a possibilidade de mudança do clima em nível mundial despertaram interesses crescentes no público e na comunidade científica em geral. Em 1988, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) estabeleceram o Intergovernamental Panel on Climate Change [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC]. O IPCC tem a missão de apoiar com trabalhos científicos as avaliações do clima e os cenários de mudanças climáticas para o futuro. As alterações do equilíbrio climático podem ser causadas por quatro fatores principais. Três deles dizem respeito a mudanças no nível de concentração, na 12 Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima - Mudança do Clima 2007. Quarto Relatório de Avaliação do IPCC. No âmbito da quarta avaliação feita pelo IPCC da situação atual do conhecimento da mudança do clima, apresentam-se o Sumário para os Formuladores de Políticas do Grupo I - a Base das Ciências Físicas, o Sumário para os Formuladores de Políticas do Grupo II - Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade e o Sumário para os Formuladores de Políticas do Grupo III - Mitigação da Mudança do Clima. 87 atmosfera, de elementos muito importantes: os gases de efeito estufa; os aerossóis e a radiação solar; o quarto fator diz respeito a transformações nas características da superfície terrestre (ARTAXO, 2008). Pesquisas indicam as conseqüências a médio e longo prazo em função das alterações antrópicas que influenciam o clima global: O efeito do desmatamento e das mudanças climáticas afeta o ciclo hidrológico em todas as escalas de tempo: em escalas de tempo de dias a meses, levam a mudanças na incidência de inundações; em escalas de tempo sazonais a interanual, mudanças nas características da seca é a principal manifestação hidrológica; e em escalas de anos a décadas, as teleconexões nos padrões de circulação global atmosférica, ocasionadas pela interação oceano-atmosfera, afetam a hidrologia de algumas regiões, especialmente nos trópicos, por diferentes eventos, entre eles o El Niño (NIJSSEN et al., 2001, pág. 14). A rica biodiversidade do Pantanal aliada a exuberante beleza cênica são fatores que influenciaram o reconhecido como Patrimônio Nacional pela Constituição de 1988 e como Área Úmida de Importância Internacional pela Convenção Ramsar13 . Em 2000, foi designado como Reserva da Biosfera, pela UNESCO14, como Patrimônio Natural da Humanidade, oferecendo uma oportunidade única para a conservação da biodiversidade em conjunção com o desenvolvimento sustentável. 13 DECRETO Nº 1.905 DE 16 DE MAIO DE 1996 promulga a Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, especialmente como Habitat de Aves Aquáticas, conhecida com Convenção de Ramsar, de 02 de fevereiro de 1971. 14 UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. 88 Referindo-se ao seu valor biológico e ao seu estado e prioridade de conservação, pesquisas apontam que o Pantanal é uma região de “grande significância global, vulnerável e com altíssima prioridade para a conservação em escala regional”. A Declaração do Milênio enfoca as pressões sócio-ambientais impostas aos diversos biomas no mundo, em especial os impactos potenciais das mudanças climáticas globais. Diversos autores tem relatado e discutido os impactos das mudanças climáticas globais associados a esses biomas, como Alverson et al. (2002); Cramer et al., (2004); Davis et al. (2003); Opdam e Wascher, (2004); Meira (2009), entre outros. O Pantanal Mato-Grossense concentra uma das maiores riquezas biológicas de aves, das quais as aves aquáticas são as mais evidenciadas (DA SILVA et al, 2001; JUNK et al., 2003). As aves são reconhecidas em diversos estudos, como boas indicadoras de mudanças ambientais naturais, podendo ter um papel importante como indicadoras das atuais mudanças climáticas global. Neste Bioma ocorrem inúmeras espécies de aves aquáticas, tanto neotropicais – que se distribuem desde o Caribe até o sul do continente sul- americano – como as neárticas, espécies que têm suas áreas reprodutivas na América do Norte, desde o ártico até o México (MORRISON et al., 2008). Os mesmos autores ainda constataram que, em escala global, nas diferentes rotas migratórias conhecidas, as aves aquáticas e limícolas15, encontram-se ameaçadas e com declínio populacional ente 33% a 68%. Neste estudo, os etnoindicadores climáticos contemplam as aves e aspectos bióticos e abióticos que são conhecidos pelos pantaneiros e pelas pantaneiras, fazendo parte do arcabouço do Conhecimento Ecológico Tradicional-CET ou mesmo podendo ser considerado por alguns autores como sabedoria popular local. Quando se utiliza a expressão sabedoria popular, é a partir da idéia entrelaçada com a 15 Espécies que vivem em substratos lodosos, costeiros, sejam de água doce ou salgada. 89 perspectiva do senso comum. Geertz (1997) conceitua senso comum como um sistema cultural, como um corpo de crenças e juízos, com conexões amplas. Nesse sentido, busca-se inspiração em Leff (2001) que define o ambiente como uma visão das relações complexas e sinérgicas gerada pela articulação dos processos de ordem física, biológica, termodinâmica, econômica, política e cultural. Este conceito ressignifica o sentido do habitat como suporte ecológico e do habitar como forma de inscrição da cultura no espaço geográfico. O mesmo autor afirma: O conhecimento local não é apenas o arsenal de técnicas e saberes construídos pela prática. O conhecimento local não soma as condições empíricas a estudos abstratos. Não é submissão de particularidades locais a racionalidades universais dominadoras e hegemônicas. O conhecimento local é construído por significados elaborados através de processos simbólicos que configuram estilos étnicos de apropriação do mundo e da natureza (LEFF, 2001, pag.336). Considerando-se as configurações do saber como construções locais, inseparáveis de seus instrumentos e de seus invólucros, onde tudo aquilo que se vê depende do lugar em que foi visto, e das outras coisas que foram vistas ao mesmo tempo (GEERTZ, 2002). O conhecimento das aves enquanto etnoindicadores climáticos na Comunidade de Cuiabá Mirim, no Município de Barão de Melgaço, Mato Grosso é identificado como um importante elemento cultural, presente no campo social e ecológico. Neste estudo foram consideradas as relações dos pantaneiros com os aspectos culturais, sociais, bem como características ecológicas próprias do Pantanal. Dessa forma, a valorização do espaço e suas interações se tornam indispensáveis. A “descrição densa", proposta pelo método etnográfico, proporciona a abordagem de diversos elementos pertencentes ou envolvidos nestas práticas. Buscou-se interpretar os aspectos subjetivos, a partir da percepção dos ribeirinhos em seus relatos no processo inter-relacional da pesquisa. A análise das ações no cotidiano permite definir os códigos que estruturam o pensamento e conferem um 90 significado ao mundo observado. O saber popular ou senso comum fundamenta as práticas cotidianas (GEERTZ, 1989). A partir dos relatos das fontes orais16 emmeio ao seu cotidiano, baseando na observação do comportamento das aves em seu contexto ambiental, e suas interpretações ancoradas nos elementos culturais, buscou-se compreender suas significações, bem como, o conhecimento sobre as aves para decifrar a realidade simbólica, atribuindo significados, segundo as normas sociais e culturais deste grupo. As aves e outros etnoindicadores climáticos bióticos e abióticos surgem como importantes elementos ecológicos integrados à realidade cultural deste grupo humano que interage constantemente com as alterações ambientais e climáticas. Este trabalho se desenha a partir do Conhecimento Ecológico Tradicional- CET de aves pela comunidade Cuiabá Mirim relacionado a etnoindicadores climáticos, levando-se em consideração a temporalidade, bem como, os relatos de fontes orais em relação as alterações climáticas local. Para conhecer melhor o ritmo sócio-ecológico da comunidade, buscou-se observar os etnocalendários estabelecidos através das práticas coletivas dos ciclos onde eles interagem. 3.2. MATERIAIS E MÉTODOS 3.2.1. ÁREA DE ESTUDO PANTANAL: ASPECTOS FÍSICOS E BIOLÓGICOS O Pantanal situa-se no maior sistema alagável contínuo de água doce do Planeta, região central da América do Sul, na Bacia do Alto Rio Paraguai – BAP apresentando vasta biodiversidade, beleza cênica e rico processo histórico de ocupação. Com superfície de aproximadamente 150.355 km² de área (IBGE, 2009). Alguns autores defendem a idéia de vários pantanais subdividindo este território de acordo com suas características geográficas. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA considera que o Pantanal é dividido em onze 16 Neste capítulo adotou-se a nomenclatura fontes orais em substituição a informantes. 91 regiões, denominados em sua maioria, de acordo com rios ou povos da região. Assim, do sul para a região norte, temos o Pantanal de Porto Murtinho, Nebileque, Aquidauana, Miranda, Abobral, Nhecolândia, Paiaguás, Paraguai, Barão de Melgaço, Cáceres e Poconé. No Estado de Mato Grosso, dentro dos limites do Pantanal estão os municípios de Cáceres, Poconé, Nossa Senhora do Livramento, Santo Antônio do Leverger e Barão de Melgaço (ALLEM e VALLS, 1987). De acordo com Da Silva (1990), Barão de Melgaço é o município que possui a maior área dentro dos limites pantaneiros, uma vez que 99,2% de seu território encontram-se dentro dos limites do Pantanal. A área territorial de Barão de Melgaço compreende aproximadamente 11.662 KM². Desta superfície, cerca de 97,5% são terras inundáveis na época de cheia do Pantanal. O clima no Pantanal, Tropical Úmido (AW), com a temperatura média anual de 35°C e a umidade relativa 82%, caracteriza-se por apresentar uma estação chuvosa no verão, que acontece entre os meses de outubro a abril, contrastando com a estação seca, no inverno, entre maio a novembro. Geologicamente o Pantanal vem sendo formado há cerca de sessenta milhões de anos, desde o soerguimento do escudo brasileiro. Com a orogênese da cordilheira dos Andes, houve fragmentações do escudo em blocos desnivelados, um desses blocos é o Pantanal. O Pantanal integra-se em uma falha de contacto entre o escudo brasileiro e o sistema andino, constituindo-se ao longo do tempo numa fossa de afundamento cuja base, do período Quaternário, estaria sob o nível do mar (AB‟SABER, 1988). Segundo Del‟Arco (1996) o relevo pantaneiro, cujas altitudes variam de 80 a 150 metros, está diretamente conectado às águas oriundas das terras altas, dos planaltos ao seu redor. Estas montanhas, morros ou chapadas, com altitudes variáveis entre 200 a 1.000 metros, emolduram com suas bordas o entorno da superfície pantaneira: ao norte a Chapada dos Parecis, ao sul a Serra da 92 Bodoquena a leste o Planalto Central Brasileiro e a Oeste, para além do Chaco, a formação Andina. As águas que descem desses planaltos em leques aluviais, moldam neste ambiente geológico, a Formação Pantanal, que se deu por deposições sedimentares em diferentes formas e texturas. Trata-se, portanto, de uma vasta planície aluvial da Bacia do Alto Paraguai - BAP, com alternância fluvial que determina as vazantes e cheias (CARVALHO, 1984). As baixas terras pantaneiras são constituídas por 92,5% de solos pouco férteis e bastante inundáveis, típicos de área úmida (solos hidromórficos), o que compromete a agricultura local. De acordo com Alho (1992), no Pantanal de Mato Grosso, janeiro é o mês mais quente do ano, com temperatura média entre 28 a 29 º C. No mês de julho a temperatura média cai significativamente oscilando em torno de 17 º C no sul e 22 ºC na região norte do Pantanal. Esta variação se dá pela presença de frentes frias vindas da região sul do continente. Durante o mês de julho, por poucos dias há a predominância desses ventos frios, ocasionando brusca queda de temperatura. Nos períodos chuvosos, as águas vindas das regiões mais elevadas no entorno do Pantanal, transbordam dos leitos dos rios, inundando grande parte das terras pantaneiras. Principal formador do Pantanal Mato-grossense, o Rio Paraguai tem como um de seus maiores afluentes o Rio Cuiabá, que percorre aproximadamente 828 km desde sua cabeceira à foz, drenando aproximadamente 100.000 km² de superfície, o que corresponde à cerca de vinte por cento da Bacia do Alto Paraguai. A dinâmica do Rio Cuiabá é caracterizada pela marcante alternância em processos naturais de erosão e deposição de sedimentos. Este processo forma ao longo de seu canal principal, diferentes biótopos, tais como praias (bancos de areia), baixios, remansos, corredeiras, cachoeiras e poços. Os diversos níveis naturais de flutuação contribuem para a construção e composição destas variadas paisagens, graças à marcante sazonalidade Essa diversidade de biótopos é parte da paisagem 93 pantaneira, o que faz deste rio um componente vital para esta grande área úmida denominada Pantanal (DA SILVA e SILVA, 1995). Esta dinâmica rede fluvial se explica pelo conceito de pulso de inundação do Pantanal. Junk e Da Silva (1999) consideram o período de inundação como aquele cujas áreas alagáveis recebem as águas e outros elementos dissolvidos ou suspensos, oriundos das chuvas, degelo e da elevação temporária do lençol freático. Este material é conduzido por rios e lagos interconectado, nesta trama hídrica. Segundo os autores, este pulso de inundação é previsível e de longa duração, sujeito a variações anuais e plurianuais. Esta força que regula o fluxo longitudinal de matéria orgânica faz com que este transporte esteja relacionado à quantidade e qualidade da água, aos nutrientes dissolvidos e ao material em suspensão. Este dinamismo de inundações periódicas contribui significativamente para a biodiversidade do Pantanal. Os processos biológicos ocorridos na planície inundável se adaptam e readaptam ao habitat que se alternam entre períodos ora secos, ora inundados. Denominado por Eitten (1990) e Sarmiento (1983) de Savana Hiper Sazonal, estas áreas inundadas anualmente no Pantanal Mato-grossense, apresentam um complexo vegetacional constituído por mosaico de diferentes ecossistemas, onde coabitam elementos de quatro províncias fitogeográficas da América do Sul: Amazônica, Cerrado, Chaco e Mata Atlântica. A comunidade de Cuiabá Mirim está estabelecida em áreas alagáveis do Rio Cuiabá, cuja dinâmica das águas está integrada ao sistema hídrico do Pantanal. As inundações periódicas no Pantanal têm sua origem em fatores de ordem natural tais como: a uniformidade topográfica,os fracos desníveis de drenagem e a predominância de litologias sedimentares recentes. Estas reduzem o escoamento das águas superficiais resultantes das chuvas periódicas anuais que caem na bacia do Alto Paraguai, principalmente nos seus afluentes superiores (ALVARENGA et al., 1984). 94 PANTANAL DE CUIABÁ MIRIM O Pantanal de Mato Grosso é um sistema complexo de ambientes que envolvem diversas culturas, ampla diversidade biológica, sendo as aves muito destacadas pela abundância e beleza que compõem o cenário da paisagem pantaneira, porém o foco deste diálogo está no contexto da comunidade ribeirinha de Cuiabá Mirim. A comunidade de Cuiabá Mirim constrói e transforma o seu viver, conforme seu jeito de ver, sentir e pensar o mundo (figura 17). A comunidade está localizada na margem do Rio Cuiabá, onde periodicamente é inundada, de maneira adaptativa foram construídos muros de arrimo próximo à margem do Rio, que eles denominam de açudes. Pesquisas anteriores descrevem que a origem da comunidade Cuiabá Mirim está diretamente ligada à história da Fazenda Flexas, que inicialmente era uma das grandes produtoras e beneficiadoras de cana-de-açúcar da região, onde os primeiros moradores foram trabalhadores desta fazenda no campo, nas plantações de cana-de-açúcar, ou no beneficiamento de produtos. Atualmente nesta fazenda é praticada a pecuária de corte (GALDINO, 2006; MORAIS, 2006; VIANA, 2008). Nas conversas realizadas com as fontes orais, um dos anciões da comunidade trouxe à memória um relato da época que trabalhavam na lavoura de cana-de-açúcar e relembrou episódios onde a relação patrão-empregado era muito próxima da escravidão, relatando que trabalhadores apanhavam no tronco, por serem considerados indisciplinados. Outro informante coloca que quando a Usina Flexas “faliu”, os trabalhadores foram “despejados” no local onde hoje é a Comunidade de Cuiabá Mirim, e relata que naquela época não tiveram nenhuma negociação dos direitos trabalhistas e as famílias tiveram que buscar alternativas para se adaptarem à nova realidade. 95 Figura 17: Ninhos de Japuíra próximo a comunidade Cuiabá Mirim. Foto: Ruth Albernaz. Abril, 2009. 3.2.2. MÉTODOS Este trabalho apresenta uma abordagem de cunho qualitativo na perspectiva etnográfica, ancorado em “Interpretação das Culturas de Clifford Geertz (1998) e Pescando Pescadores de José Geraldo Marques (2001), lançando mão de ferramentas da antropologia e da etnobiologia. Para Martins e Bicudo (1989), a pesquisa qualitativa pode ser vista como pesquisa fenomenológica, para outros autores, o qualitativo é sinônimo de etnográfico (TRIVIÑOS, 1987), já Bodgan e Biklen (1994) consideram como sendo um termo do tipo guarda-chuva que pode incluir outros estudos, por outro lado há um sentido bem popularizado de pesquisa qualitativa, identificando-a como aquela que não envolve números, isto é, na qual poderia considerar como sinonímia de não-quantitativo (ANDRÉ, 2008). Para Sato e Souza (2001), a orientação etnográfica posiciona-se claramente em favor da não dicotomização entre as etapas de coleta e análise de "dados," 96 configurando-se o "estar no campo" como um constante diálogo entre a natureza do objeto, os objetivos do trabalho e o que o campo "fala”. Buscou-se na pesquisa, uma adequada construção do diálogo espontâneo com os moradores de Cuiabá Mirim. Este relacionamento foi construído em processo de mútuo respeito e progressiva confiança, aspectos que contribuíram na obtenção das informações levantadas durante este trabalho na Comunidade, espaço representado por uma realidade empírica a ser estudada a partir de concepções teóricas que fundamentam o objeto da investigação. O principal período de coleta de dados estendeu-se entre os meses de Novembro de 2008 a Outubro de 2009. Nesta pesquisa para a coleta de dados, utilizou-se de métodos como entrevistas semi- estruturadas (VIERTLER, 2002), relatos orais e observação participante. O relato oral é utilizado como importante forma de obtenção de dados sobre o conhecimento ecológico tradicional de etnoindicadores climáticos e aspectos do cotidiano. O relato oral é uma forma de abordagem aos comportamentos, valores, emoções relacionados à subjetividade do informante (QUEIROZ, 1987). O discurso do sujeito, enquanto ator social, assume relevância através do relato oral que aborda na essência a estrutura da "linguagem", permitindo-se a compreensão de fenômenos sociais. Os relatos orais, enquanto discursos narrativos dos sujeitos proporcionaram nesta pesquisa a obtenção de informações sobre o modo de vida dos ribeirinhos em meio ao ambiente natural, social, histórico e cultural de Cuiabá Mirim. Tais relatos facilitaram a expressão de conteúdos vivenciados pelas fontes orais no processo interacional com seu ambiente, em particular com os etnoindicadores considerados nesta pesquisa. Para a obtenção dos relatos orais utilizou-se entrevistas abertas com a descrição de experiências com o ambiente pantaneiro, considerando-se tais relações como um espaço material e simbólico, onde interagem as ribeirinhas e ribeirinhos pantaneiros, sujeitos desta pesquisa. 97 As entrevistas semi-estruturadas ou semi-abertas caracterizam-se por possuírem itens ou tópicos fixos e itens flexíveis desenvolvidos de acordo com o encaminhamento da entrevista, cujas questões são contempladas na investigação (VIETLER, 2002). Para tanto, desenvolveram-se roteiros de entrevistas aplicadas com 22 pessoas da comunidade. Para orientar esse diálogo, foi elaborado um roteiro básico com as seguintes perguntas: -Quais os sinais o(a) senhor(a) conhece que indicam que irá mudar o tempo de seca para o tempo de chuva? -Quais os sinais o(a) senhor(a) conhece que vai mudar o tempo de chuva para o tempo de seca? -Quais os sinais o(a) senhor(a) conhece que o rio vai encher? E vazar? -De quando o senhor era criança até agora, existe alguma diferença no clima? Qual? Por quê? A aplicação das entrevistas semi-estruturadas facilitou à pesquisadora, a obtenção de dados sobre o universo de significados subjetivos de cada fonte oral. A abordagem desse universo exige, segundo D‟olne (2001), um esforço incessante de respeito aos referenciais e fenômenos alheios. A postura receptiva neste diálogo com as fontes orais facilitou a obtenção de dados e a compreensão dos fenômenos inquiridos. Nesse sentido a contribuição de Malinowski (1984) ressalta a importância para uma coleta de dados tanto detalhada quanto diversificada. Um etnógrafo que se propõe a estudar somente religião, ou somente tecnologia ou somente organização social abre apenas um campo artificial de pesquisa e seu trabalho estará seriamente deficiente. Desta forma a observação participante utilizada neste trabalho foi fundamental, oferecendo um complemento de dados não referenciados nos relatos orais. A observação participante é, segundo Bogdan e Taylor (1975), um processo investigativo caracterizado por intenso relacionamento social interativo entre o 98 investigador e os sujeitos, no meio destes, durante o qual os dados são recolhidos de forma sistemática. Neste processo foram observadas as formas relacionais do sujeito da pesquisa com seu ambiente, seu comportamento social no cotidiano, sua relação com a temporalidade, locais onde se dão as práticas cotidianas do convívio sócio-familiar, manejos de utensílios, objetos e ferramentas utilizadas no cotidiano, bem como terminologias e forma de linguagens relacionadas ao tema da pesquisa. A observação participante foi utilizada nesta pesquisa comoinstrumento utilizado para se conhecer o cotidiano dos moradores entrevistados da comunidade de Cuiabá Mirim, perspectivando um diálogo êmico /ético, onde será descrito como “significações culturais e ecológicas”. Dessa forma, a observação participante permitiu que adquirisse informações nem sempre verbalizadas, facilitando a compreensão de aspectos sobre a relação dos ribeirinhos com o ambiente em meio à temporalidade cíclica das águas do Pantanal na Comunidade de Cuiabá Mirim. Para Gans (1998) este método permite ao pesquisador uma percepção aproximada das pessoas, isto é, a observação participante permite um estudo direto sobre o cotidiano das pessoas, enquanto outros métodos se limitam ao relato do que as pessoas dizem sobre seu cotidiano. Malinowski (1984) indica que o observador cientificamente treinado perpasse o registro superficial de detalhes e valorize através desta técnica os fenômenos importantes que não podem ser registrados através de questionários ou documentos, mas que possam ser observados em sua plenitude real. No que diz respeito a esta pesquisa, a técnica de observação participante contribuiu para que se obtivessem significativos dados sobre a relação do ser humano e o ambiente pantaneiro, fonte de conhecimento ecológico onde se inserem os elementos bióticos e abióticos enquanto etnoindicadores climáticos. Durante o transcorrer da coleta de dados, foram observados os seguintes conteúdos para mergulhar no objeto da pesquisa: relacionamento entre as mulheres durante a limpeza de peixes na beira do rio; Atividade das mulheres durante a lavagem de roupas; brincadeiras e pescaria com crianças; comportamento dos pescadores nos preparativos da pescaria; atitudes das mulheres durante a colheita 99 de frutos; comportamento dos informantes durante “passeios para ver passarinho”; visita à quintais onde as mulheres apresentaram as plantas cultivadas, principalmente as de uso medicinal; visita a horta plantada no barranco do Rio Cuiabá; visitas às casas dos moradores e do principal ancião da comunidade, na época com 103 anos, quando se ouviam as histórias da origem de Cuiabá Mirim e da Usina das Flexas. 3.3. RESULTADOS E DISCUSSÃO SIGNIFICAÇÕES CULTURAIS E ECOLÓGICAS DE CUIABÁ MIRIM A significação anima a palavra, como o mundo anima meu corpo, graças a uma surda presença que desperta minhas intenções, sem desdobrar-se diante delas (Merleau-Ponty). As significações da cultura dos ribeirinhos pantaneiros de Cuiabá Mirim trazem em sua expressão, o modo de viver no espelhamento do ritmo do ciclo das águas do Pantanal, desenhando e reinventando seu cotidiano a partir da dinâmica da natureza. Neste ritmo pantaneiro, uma marcação temporal importante está ligada às fases de enchente-cheia-vazante-estiagem, estabelecendo um etnocalendário17 interligado entre as atividades sociais, econômicas e ecológicas. “Aqui nós acompanha as água [...]” (SRS, 63 anos, ♂). O etnocalendário apresentado em diálogos com as fontes orais da comunidade demonstraram que as atividades cotidianas contemplam vários aspectos culturais e ecológicos, que aqui serão descritos os mais evidentes nos relatos. Para Geertz (1989, pág. 15): Cultura se configura como uma teia de significados que o ser humano cria e permanece eternamente amarrado, entrelaçando os fios significantes, tramados pelos componentes do grupo social no seu tempo em seu espaço, ambiente de vida cotidiana. O principal elemento a ser analisado no etnocalendário da comunidade Cuiabá Mirim, diz respeito ao tempo, onde se pode considerar um dos fatores mais 17 Etnocalendário, utilizou-se essa nomenclatura para designar o calendário da comunidade Cuiabá Mirm. 100 abstratos, mas desenhado por tipos cíclicos distintos como o tempo de Chronos18, o tempo histórico, o tempo circular, o tempo da lua (em suas fases), o tempo climático, o tempo de antes e de agora, tempo de escola, tempo de festas de santo, tempo de pesca, tempo de roça, tempo das águas, entre outras temporalidades. Em “La Nouvelle Alliance: métamorphose de La science”, as autoras tecem uma reflexão: Cada ser complexo é constituído por uma pluralidade de tempos, ramificados uns nos outros segundo articulações sutis e múltiplas. A história, seja a de um ser vivo ou de uma sociedade, não poderá nunca ser reduzida à simplicidade monótona de um tempo único, quer esse tempo cunhe uma invariância, quer trace os caminhos de um progresso ou de uma degradação. (PRIGOGINE e STENGERS, 1997, pág. 211). Tratando do tempo, no discurso da identidade e a racionalidade ambiental, Leff coloca: O tempo que forja um futuro sustentável não é só aquela dimensão do tempo inerente a eventos e processos externos e objetivos, mas um tempo fenomenológico: o tempo que constrói a história, o tempo que toma corpo em identidades que configuram sentidos existenciais, que mobilizam processos sociais e emancipam vontades de mudança; o tempo que desencadeia o mundo com novos significados que organizam o material e o simbólico no encontro da ecologia com a cultura. (LEFF, 2001, pág. 42). ETNOCALENDÁRIO SOCIAL: Tempo de escola e tempo de festas “no meu tempo não tinha escola, agora precisamos fazer um esforço para que nossos filho aprenda a lê e escrevê, pois o mundo ta mudando e o que nós sabe fazê é pescá e o pexe tá acabando, o que eles vão fazê? [...]” (SRL, 48 anos, ♂). Nesses cenários, entre o passado, o presente e o futuro, nas relações paradigmáticas, o pantaneiro expressa sua preocupação com as mudanças ambientais, refletidas na escassez do pescado, principal fonte de sobrevivência das 18 Chronos: na mitologia grega é considerada a personificação do tempo. 101 comunidades tradicionais ribeirinhas. Como uma alternativa para o futuro a educação formal surge como uma possibilidade de resiliência frente às pressões externas ao longo do tempo. A Escola Municipal de Cuiabá Mirim atualmente (2009) conta com aproximadamente setenta alunos e três professores, que lecionam para as turmas do 1º ao 7º ano do ensino fundamental, se configura como um importante espaço de aprendizado formal e não-formal. Lá os jovens interagem, (re)produzem as relações sociais cotidianas no “tempo de aprendizado” como espaço de possibilidades de diferentes práticas sociais, culturais, religiosas e econômicas. Em diálogo com os professores, foram relatadas as dificuldades para dar continuidade às atividades escolares, segundo eles o apoio da prefeitura municipal é incipiente. Os professores contam apenas com giz, quadro negro e um aparelho de som para instrumentalizar as aulas, pouco compensadoras diante do baixo salário. Atualmente, todos os três professores tem suas casas fora da comunidade, sendo este um dos fatores desestimulantes: “nós professores que temos que consertá as coisas que quebra na escola, o encanamento de água só tá funcionando porque fomos lá e consertamos, a prefeitura não aparece [...] Se acharmos uma colocação em Barão não vamos voltar pra cá, porque aqui gastamos muito para vir de barco”. (A. S., 33 anos, ♂). A escola encontra-se em um momento de aparente fragilidade, correndo risco de ser fechado, o que levaria os alunos a procurar alternativas para o próximo ano letivo (2010). O lábil ritmo no tempo da escola sobrevive pelo esforço de todos e de cada um, pois maior esforço haveria se seguissem o calendário escolar na escola da Comunidade do Estirão Comprido, onde seria necessário navegar “rio acima” por volta de 30 minutos:“se os professores desiste de dar aula, não sei como vai ser [...]” (M. S., 30 anos, dois filhos na escola, ♀). Observa-se que a aprendizagem se dá de diversas formas, em múltiplos espaços e em temporalidades distintas: no momento das brincadeiras as crianças reproduzem as práticas paternas, quando banham-se nas águas do Rio Cuiabá, 102 quando acompanham seus pais na pesca, quando vão caçar passarinho para comer: “[...] três garotos na beira do rio, limpando uma ave, e cortando-a em pedaços, disseram que se tratava de um pombo do mato e aquele pássaro seria o almoço deles, disseram também que costumavam pegar as aves peloteando19 ou fazendo armadilhas.” Figura 18: Menino com pássaro e menina limpando lambari. As práticas religiosas se evidenciam como atividades importantes no contexto social, marcada por dois grupos cristãos: a Igreja Católica e a Igreja Evangélica Assembléia de Deus. O grupo católico realiza algumas festas de santo, sendo a mais movimentada, a festa de São Pedro - padroeiro dos pescadores, protetor da pesca e controlador das chuvas - cabendo ao Santo uma função notoriamente ecológica. As festividades dedicadas aos diversos santos são freqüentes e seguem o calendário pré-estabelecido de acordo com as tradicionais datas dos santos católicos. Para a festa de São Pedro, os fiéis começam preparar a festa com antecedência à data, pois é necessário construir um local adequado para o festejo. Os homens se reúnem para o “muxirum”20 da construção do salão, geralmente localizado na casa de um dos festeiros. O salão é construído com madeiras colhidas 19 Pelotear ou estilingar significa atirar pedra com uma arma feita com forquilha de madeira, presa com uma borracha de pneu de bicicleta ou outra borracha flexível,geralmente. 20 Muxirum é a realização de atividades coletivas que também pode ser denominada por mutirão. 103 na redondeza e o telhado feito com folhas que são denominadas por “palhas” das palmeiras de acuri (Scheelea phalerata Bur.) ou de babaçu (Orbignya oleifera Bur.). As mulheres se reúnem para fazer os doces caseiros de frutas que são cultivadas nos quintais21, como laranja, mamão e alguns bolos. Os enfeites decorativos da festa, também são atividades designadas para as mulheres, que fazem bandeirolas semelhantes às usadas em festas de São João, enfeitando o altar e montam um mastro com a imagem do Santo: “Nós se reúne muitos dias antes para prepará todas as coisa da festa, é muito divertido, fazemos o almoço pra todo mundo pra facilitá o trabalho, fazemos um panelão de feijoada e a gente se reúne várias vezes porque tem muito serviço.” (A. G. S., 62 anos, ♀). As festas de São Pedro mobilizam boa parte da comunidade que se prepara para receber nesta ocasião os moradores de outras localidades vizinhas. Nessa oportunidade as rezas, cultos, devoções, cânticos sacros misturam-se aos bailes e danças de siriri e cantos do cururu. “Quando termina uma festa, os festeiro já começa arrecadá as prenda pra festa do ano seguinte, nós ganha novilha, as comida tudo [...] É a festa mais esperada do ano.” (C. M. S., 53 anos, ♂). No contexto pantaneiro, pesquisa realizada por Albernaz-Silveira e Quadros (2009, pág. 25) comentam que “a poética pantaneira está manifesta principalmente pela poesia, música, religiosidade, mitos e materializada de múltiplas maneiras por meio de artefatos, objetos, culinária e arquitetura.” No tempo das festas de Santo, a musicalidade se faz presente, os ritmos tradicionais se renovam nos cantos dos cururueiros, nos ensaios do siriri realizados a noite, reunindo jovens e adultos de ambos os sexos, que queiram participar das danças. Dia de Santo é dia sagrado, geralmente não se desenvolvem outras atividades de trabalho se não ligadas às festividades comemorativas ao Santo do dia. Desde cedo os homens soltam fogos e fazem rodadas de cururu com suas 21 Definido por Amorozo (2008) como espaço de usos múltiplos que fica próximo à residência do grupo familiar. 104 letras poéticas próprias do pantanal, que incluem aves numa conexão ave- religiosidade-dança: Nandaia, Nandaia vamos todos nandaiar Ó meu padre Santo Antônio venha me ensinar dançar. Se não servir essa, ponha essa outra, para a senhora moça... (E. L., 75 anos, ♀) Figura 19: Festa no Pantanal. Imagem de Nilson Pimenta (acrílico sobre tela). ETNOCALENDÁRIO SÓCIO-ECOLÓGICO: tempo de pescar, tempo de plantar e tempo de colher A Comunidade de Cuiabá Mirim traz a força de sua identidade cultural como uma comunidade de pescadores e lavradores. A grande maioria das pessoas, tanto homens como mulheres, se auto-identificam como pescadores profissionais e lavradores: “aqui, nós tudo somos ribeirinho e somos pescador e lavrador (URS, 67 anos, ♀)”. Eles passam a maior parte do tempo em atividades que estão 105 diretamente ligadas com o ambiente natural, e são adaptados ao ciclo das águas. A pescaria é uma atividade cotidiana, de todas as idades (Anexo II), onde pode ser visto a todo o momento alguém indo ou voltando da pesca. Os pescadores desenvolveram variadas estratégias de pesca que foram estudadas por Morais (2006) onde identificou vinte e uma (21) estratégias dentro do domínio cultural da comunidade Cuiabá Mirim. É raro o dia que eles não se alimentam do peixe, pois a base do cardápio da comunidade é peixe, arroz e mandioca. No calendário próprio da comunidade, existe o tempo da pescaria mais intensa e o tempo de “piracema” quando se faz respeitar a legislação ambiental do Estado e suspender temporariamente as atividades pesqueiras (novembro a março). Em alguns relatos, eles evidenciaram a questão do cumprimento das Leis Estaduais de pesca, “temos que cumprir as lei, se não, não sobra pexe prôs nossos neto [...]” (SCS, 63 anos). Esse cuidado em se respeitar o ciclo reprodutivo dos peixes ou tempo da “piracema" reflete as práticas sustentáveis presentes na comunidade de Cuiabá Mirim, bem como, o respeito pelo ciclo da natureza e sua preocupação com o futuro em relação à sustentabilidade local. Outro relato aponta a preocupação com o ciclo reprodutivo dos peixes e as alterações ambientais: “Se tiver fora da piracema e a gente começa achar algum tipo de pexe com ova, a gente dá um tempo daquele pexe, vai pescá outro por alguns dias, pois ta tudo mudando [...]” (SRS, 63 anos ♂). No contexto da pesca no Pantanal, Da Silva e Silva (2008) salientam que a cultura pantaneira através dos tempos aparece como um princípio ativo para o desenvolvimento das forças produtivas, em um paradigma alternativo de sustentabilidade e indicam que a pesca representa a principal atividade produtiva (social e econômica) das comunidades tradicionais pantaneiras. 106 Quando começa o período das chuvas e da piracema, os moradores buscam atividades ligadas ao plantio de roça e manejo de outros espaços e atividades diversas, dão mais atenção à pequena criação do gado, pois as famílias ocupam o escasso espaço físico de terras firmes disponíveis para a comunidade. Estas alternativas econômicas para a sobrevivência e manutenção de cada grupo familiar é fruto da adaptação à realidade que se constrói conforme os recursos disponíveis, o entendimento e as necessidades locais. Como afirma Brandão (1985), cultura diz respeito a toda humanidade, mas ao mesmo tempo a cada uma das sociedades. “no tempo das roça, nós planta banana, milho, mandioca, batata, abóbora, maxixe, melancia, feijão e outras sementeque a gente tivé na época, mas nos últimos tempo o cateto qué comê tudo... Nós acompanha o tempo da lua, cada plantação tem um jeito de plantá [...]” (BRS, 50 anos, ♀). As roças são plantadas para a subsistência da família e os excedentes são geralmente vendidos ou trocados na própria comunidade ou em comunidades vizinhas, como Conchas e Estirão Comprido, onde moram muitas pessoas que são “parentes” das famílias de Cuiabá Mirim, “esses povo tudo da beira do Rio é parente [...]” (URS, 69 anos, ♀). Quanto ao tempo da roça, pesquisa realizada na mesma comunidade por Viana (2008) descreve a atividade da roça como uma atividade de subsistência e de um período longo de preparo por se tratar de “roça de toco”, que é um sistema que se usa pouca tecnologia, apenas machado para abrir as áreas para plantio e é necessária a rotação dessas áreas. Ao acompanhar com uma das moradoras para conhecer a roça da família, foi mostrado ao longo do caminho etnoespécies de aves que ocupam diversos ambientes (Anexo III). Entre a casa (à margem do rio Cuiabá) e a roça pode-se observar várias unidades de paisagem que foram categorizadas pela moradora como: brejo, cercado, mata fechada e firme. “tem muitos passarinho que gosta de ficá no caminho e na roça, como piriquito, cabecinha vermelho tem muito, tucano, açari, papagaio, bico curto, ararinha verde, rolinha, galo da campina, jacu goela, ih! Tem um monte que é de ficá na roça [...]” (BS, 50 anos, ♀). 107 Galdino (2006) descreve as unidades de paisagem levantadas pela comunidade e discute a relação dos moradores de Cuiabá Mirim com os recursos vegetais para a construção da casa pantaneira. A autora coloca: [...] a subsistência é uma relação chave entre o pantaneiro e o ambiente, de maneira que, os pantaneiros de Cuiabá Mirim desenvolvem várias atividades de subsistência como: agricultura, extração, coleta, pesca, caça, pecuária de pequena escala e manufaturas de casas, canoas e apetrechos de pesca. (GALDINO, 2006, pág. 45). Em um estudo sobre o campesinato goiano descreve os diversos modos de adaptação à temporalidade de plantar, colher e comer e aponta “[...] é de uma dependência original e direta dos recursos da natureza o que faz com que o lavrador avalie o seu ambiente segundo critérios muito definidos de utilidade para a subsistência (BRANDÃO, 1981, pág. 49).” ETNOCALENDÁRIO SÓCIO-ECOLÓGICO: Tempo de enchente-cheia-vazante- estiagem “O patinho d’água, ele faz o ninho numa certa altura, bota, choca, a hora que sair o filho, a água tá encostando no fundo do ninho. Olha a altura (do ninho) que quando tirá o filho a água tá encostando.” (BRS,51 anos ♂). Este é o etnocalendário que permeia todos os outros. Em meio ao ciclo das águas, o morador do Pantanal integrado e dependente das forças da natureza, reproduz entre as secas e cheias pantaneiras suas atividades do sobreviver. Na interação com este ciclo que se perpetua ao longo do tempo, internaliza no próprio existir o ritmo do ambiente. Este constante processo de adaptação, entre as fases das águas, traz ao pantaneiro e pantaneira a versatilidade de sobreviver em seu próprio lugar, desenvolvendo estratégias diversas, adaptadas ao cotidiano, sincronizado com o tempo. Seja no tempo de pescar, de plantar, de colher e de festar, essa variação de ritmo pautada entre a seca e a chuva perpetua nos moradores do Pantanal saberes 108 diversos sobre o manejo do lugar. Aprende-se a observar e reconhecer na natureza seus múltiplos elementos, seus ritmos, sinais e significados, símbolos e signos. Aprende-se a reconhecer, na relação com o próprio tempo, as transformações cíclicas que se reproduzem no comportamento entre as espécies, como o vôo das aves no período migratório, seu ciclo reprodutivo, as vocalizações dos pássaros e seu comportamento, buscando prever o que há de vir. ETNOINDICADORES CLIMÁTICOS “andorinha, quando tá arrumado pra chovê, fica assanhado, fazendo verão” (CMS, 53 anos, ♂). Na comunidade Cuiabá Mirim, algumas aves podem ser consideradas como etnoindicadores, muitas vezes são colocadas como mensageiras para essa cultura que se reinventa, inserida em um ambiente com rica diversidade biológica, permeada pelos quatro elementos (ar-água-fogo-terra) que pulsam naquele espaço regido pelo ritmo das águas. Nessas interconexões ribeirinhas e ribeirinhos pantaneiros percebem as mudanças naturais, como os sinais que indicam a estação seca, a chegada da estação chuvosa, sendo um dos mais evidentes as vocalizações de aves que são percebidas pela capacidade de “adivinharem ou anunciarem chuva, seca ou frio” os quais são consideradas como ornitoáugures meteóricos. Marques (2002) conceitua ornitoáugures meteóricos como "aves cujas vocalizações atribui-se o poder de prenunciar eventos relacionados com o tempo e clima". “Mancauã, se ele cantá na madeira seco, vai tê muita seca, se canta na árvore verde, vai tê muita chuva, lá por agosto e setembro [...] ele faz previsão.” (BRS, 51 anos ♂). O Macauã (ou acauã) é reconhecido por outras culturas como etnoindicadores climáticos, como aponta estudos. Na região do Alto Juruá-Acre, Cunha e Almeida (2002) relatam que os indígenas da etnia Ashaninka reconhecem os diferentes cantos do Macauã e atribui 109 a determinados cantos a anunciação de chuva, o mesmo ocorre com a saracura e outros pássaros da região. Pesquisa de Simoni (2004), em uma comunidade ribeirinha do Rio Cuiabá na região de Nobres - MT foi citada a acauã como indicador climático com a mesma descrição (acima citada) ligada ao pouso em árvore seca ou verde. Araújo, Lucena e Mourão (2005) estudaram o prenúncio de chuvas pelas aves na percepção de moradores de comunidades rurais no Município de Soledade - PB, levantando trinta espécies que pressagiam mudanças de estação, entre elas, o acauã. As vocalizações das aves são importantes elementos que auxiliam a adaptação humana nos ambientes do Pantanal, como coloca Catunda (1994) “o canto dos pássaros nos ensinam a ouvir”. Em Cuiabá Mirim, as vocalizações são ouvidas em diversos horários, com diversas funções e entonações: “Saracura dá o sinal, se ela canta 4 h da manhã, 4 h da tarde vai chovê.” (BRS, 51 anos ♂). Marques (1999) realizou uma pesquisa para descrever o papel semiótico que as vocalizações das aves desempenham entre comunidades rurais, apontando que os camponeses brasileiros se envolvem tradicionalmente e emocionalmente com os sons das aves. Além das vocalizações, existem outros sinais-chave que são contemplados com valor informacional que os pantaneiros observam nas aves para mudança climática natural (figura 20): “quando vai começar a secá, começa passar os biuá e as garça. Quando passa de baixo pra cima significa que tem pexe aí para cima, na beira das lagoa, porque ta secando. Quando passa para baixo, ta indo pousá.” (SRS, 63 anos, ♂). 110 Figura 20: Categorias de sinais-chave das aves Os diversos sinais que são interpretados pelos ribeirinhos de Cuiabá Mirim em relação a aspectos etológicos das aves indicando mudanças temporais naturais estão apresentados na tabela 14, demonstrando a conexão entre o ser humano, o ambiente vivido e a ligação com as aves. vocalizações • canto • piado • choro • latido • horário das vocalizações tipo de vôo • circular • direcional • assanhado nidificação • altura do ninho • posição do ninho presença coloração • Anuncia a chegada do frio • Fica com a cor bem vermelhinha no frio AVES EM GERAL 111 Tabela14 – Avifauna Etnoindicadora de mudanças temporais. SINAL CHAVE RELATO DOS PANTANEIROS DE CUIABÁ MIRIM Vocalização do patinho d‟água (Cairina moschata) “quando patinho d’água ta latindo igual cachorro é que o rio vai encher.” Nidificação e localização do ninho do patinho d‟água (Cairina moschata) “ele faz ninho numa certa altura, bota os ovos, choca, a hora que sair o filho, a água ta encostando no fundo do ninho. A gente olha a altura que ele fez o ninho, a posição, porque quando ele tirá o filho a água ta encostando.” Canto da Saracura (Aramides cajanea) “quando Saracura Três pote canta, vai chovê...” “Saracura dá o sinal, se ela canta 4 h da manhã, 4 h da tarde vai chovê.” “Saracura gosta de cantá quando vai começar a chover”; Canto e localização do Mancauã (Herpetotheres cachinnans) “Mancauã, se ele cantá na madeira seco, vai tê muita seca, se canta na árvore verde, vai tê muita chuva, lá por agosto e setembro ele faz previsão.” Vôo do Biuá (Phalacrocorax olivaceus) e garça (Casmerodius albus) “quando vai começar a secá, começa passar os biuás e as garças. Quando passa de baixo pra cima significa que tem peixe aí para cima, na beira das lagoas porque ta secando. Quando passa para baixo, ta indo pousá”; Canto do Quá (Nycticorax nycticorax) “Quá, quando o rio vai vazá, ele avisa de madrugada...” “Quando o rio Cuiabá vai secar, em maio, o quá canta.” “Quando vai vazá, o quá desanda a cantá, cedinho, aí minha mãe falava que o rio já ia vazá...” “quando vê um quá, o rio vai vazá.” “Quando o rio Cuiabá vai secar, em maio, o quá canta.” Vôo circular da andorinha (Progne chalybea) “andorinha, quando tá arrumado pra chovê, fica assanhado, fazendo verão.” Vôo circular do gavião caramujeiro (Rosthramus sociabilis) “gavião caramujeiro vai voando e fazendo redemoinho circular ta adivinhando o tempo, vai chovê.” Canto do sabiá (Turdus rufiventris) “sabiá ta cantando vai chovê...” Presença e coloração da ave São Joãozinho (Pyrocephalus rubinus) “São Joãozinho quando aparece com o peito bem vermelho, e ele só aparece na época do frio.” “São Joãozinho, quando aparece todo mundo fala: - vai fazer frio porque são Joãozinho já apareceu.” Canto do Tem tem “Tem tem cantou é seca...” Nos diálogos com as fontes orais a respeito das aves etno-indicadoras, apareceram espécies da fauna e flora como etnoindicadores biológicos de 112 mudanças naturais, estação seca-chuvosa – ciclo hidrológico do Pantanal: período de enchente-cheia e período de vazante-estiagem e estação climática de frio, que os pantaneiros consideram como importantes. Pode-se evidenciar a visão ecossistêmica dos mesmos, trazendo à tona espontaneamente, os seguintes conhecimentos ecológicos tradicionais: FAUNA Vocalização e movimento corporal do Jacaré: “jacaré, quando começa a urrar, vai mudar o tempo (SCS, 63 anos, ♂).” “quando ele urra e mergulha borbulhando, vai chovê” (LRS, 53 anos, ♂). “quando ele urra e bate a boca, vai ventá e não vai chover” (LRS, 53 anos, ♂). Vocalização da onça: “Onça, quando tá arrumado pra chovê, ela bufa” (SCS, 63 anos, ♂). “lá onde nós pesca, a onça começa a urrar quando vai chover. Dá um urro longo, não é só um bufado [...]” (LRS, 53 anos, ♂). “Onça quando urra com a boca para baixo é chuva, os mais velho que dizia.” (BS, 28 anos, ♂). Presença da sucuri: “sucuri apareceu, pode falar que vai vazá [...]” (BSS, 59 anos, ♂). Movimento do caititu: “Caititu, quando vai enchê, ele aparece, vem caçá no seco, porque a água vem vinda” (BSS, 59 anos, ♂). Vocalização do bugio: “quando Bugio ta urrando, vai virar frio” (LRS, 52 anos, ♂). “[...] bugio avisa quando vai fazer frio” (GCS, 51 anos, ♂). “Quando bugio ronca ru, ru, ru, vai chover” (SBL, 53 anos, ♂). Coaxar de sapo e rã: “sapo ta cantando é chuva” (DRS, 31 anos, ♂). “Sapo e rã quando começam a cantá vai chove” (AGS, 54 anos, ♀). 113 Os ribeirinhos de Cuiabá Mirim observam o comportamento dos peixes e aspectos morfológicos foram colocados, como apontam as informações abaixo: Peixes em geral: “quando vai enchê, a gente olha e vê que os peixe tudinho vão pro campo, entram nas boca dos corixo e baía” (MAS, 37 anos, ♀). Sardinha: “quando a Sardinha, você pega ela, ta com barba, já vai enchê, ela fica barbada nessa época” (BSS, 59 anos, ♂). Dourado: “quando o Dourado bóia, ih, vai vazá [...]” (BSS, 59 anos, ♂). Lambari e piquira: “os Lambaris e Piquiras saem das bocas que eles entraram e ficam zoando (fazendo um barulho), vai vazá [...]” (MAS, 37 anos, ♀). FLORA Folhas da Abrobeira: “Uma árvore chamada abrobeira, quando vai chovê a folha dela vira tudo ao contrário, é um dos primeiro sinal que vai começar as chuvas, temporal que vai ter e muda muito começa ventá norte, venta de descida assim [...]” (BRS, 51 anos, ♂). Fenologia: floração da Beladona ou trombeteira (Datura suaveolens): “Beladona, aquela que nós planta no quintal, quando abre a flor e fica bem branquinha, pode falar que vai começar a chover” (ARP, 64 anos, ♀). Embaúba (Cecropia sp): “tem uma árvore, a embauveira, se ela amanhecer virada, o lado da folha da direita ta para a esquerda, é paulada, vai chovê. Meu bisavô explicava isso pra nós [...]” (BRS, 51 anos, ♂). Sardinheira: 114 “quando a sardinheira tá com flor, o rio vai encher” (BSS, 59 anos, ♂). Fenologia: floração de anxuma ou guanxuma (Malvastrum sp): “um mato chamado anxuma, que dá no terreiro, quando ela floresce é porque a água já vai abaixá” (LRS, 53 anos, ♂). Além dos sinais que os componentes bióticos indicam, os ribeirinhos tecem conexões sutis ligadas às interações com o ambiente abiótico, com o simbólico, sobrenatural e as práticas cotidianas de adaptação e resiliência, como se pode observar na tabela 15. O céu pode trazer informações importantes para os ribeirinhos em relação às mudanças temporais, de forma que eles podem organizar-se para pescar e desenvolver outras atividades que dependem da natureza. “quando tamos com a canoa lá na baía e começa ventá norte, vai chuvê, as água vai encrespando, vamo logo pra casa porque se não a baía dá umas ondonas na chuva e fica perigoso, é sinal que temos que vazá [...]” (SCS, 63 anos, ♂). Tabela 15 – Etnoindicadores Climáticos. ETNOINDICADOR RELATO DOS PANTANEIROS DE CUIABÁ MIRIM Céu – coloração “quando fica um barrão vermelho no céu, é que vai cortá as 115 chuva.” Céu - arco-íris “quando ta arrumando pra chovê, aí aparece o arco-íris”; “quando tá anuviado e o arco-íris panha água, vai começa as chuva.” Trovão e relâmpago “junta nuvem grossa e troveja”; “um troço que urra e brilha quando vai chovê” “à noite o céu fica fuzilando, ta perto de chover”; Nuvem - Coloração e forma da nuvem “quando ta arrumado, vai chovê, tem nuvem preta”; “nuvem desenha gente ou passarinho, aí vai arrumá pra chovê.” Lua nova / quarto crescente “a lua quando faz nova e fica emborcada para baixo, vai chover e quando ela ta com a boca reta emborcada para cima vai cortá a chuva...” “quando a lua nova está fazendo quarto-crescente e a lua ta torta para baixo, ta perto de chover”; Lua e horário cronológico- madrugada “de noite levanta de madrugada, tem essas manchas no céu e olha a lua, ela tá pense (meio virada para baixo) é sinal que já vai começar a chuva... Passagem da lua “na passagemde lua também sempre chove, é bom pra chovê”; Direção do vento: sul para norte “Quando começa o vento sul é sinal que já vai vazá, porque o vento sul é sinal de frio e o frio dá na época da seca.” “quando começa a ventá de baixo pra cima vai esfriar (de baixo pra cima em relação ao rio Cuiabá)”. Direção do vento: norte para sul “muitas vezes o tempo tá arrumado pra chovê e aí começa ventá norte, aí vai chovê”; Serração “quando começa a serração, vai minguá a chuva”; “serração tipo uma neblina é sinal de seca, os mais velho que falava...” “quando tem serração, vai cortá a chuva.” Sereno “quando começa serená vai cortá a chuva”; “quando amanhece tudo serenado no gramado vai minguá a chuva”; “quando ta serenando bastante, vai cortar a chuva.” Rio Cuiabá: turbidez e volume “Quando começa a sujar a água, vai começa a encher, a chovê.” “quando o rio vai vazando, a gente vê o rio vazando, vai cortando a água, as chuva...” “espiá no rio e a água ta fumaceando e vai tomar banho a água que tava fria fica morna...” Comunicação “... assisto na TV a previsão do tempo.” 116 de Massa –TV Religiosidade: dia de santa “depois de duas chuvas podemos plantar, plantamos nos dias de Santa Catarina e Nossa Senhora da Conceição, aí não falta chuva.” INDICADORES DE ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS O conhecimento dos pantaneiros a respeito das alterações climáticas (tabela 16) se dá por duas vias: o conhecimento vivido, com elementos da memória que foram apreendidos com os mais velhos e as informações externas adquiridas nas práticas sociais e através dos meios de comunicação de massa, como televisão e rádio. Adquirido pelos meios de comunicação de massa: “A destruição das mata ciliar, o desmatamento, os carros e a usina, a soja tem que desmatá, daí a camada de ozônio vai acabando” (IRP, 40 anos ♂). Adquirido pela vivência: “O que ajuda o calor é muito fogo, ajuda a esquentá [...]” (BRS, 51 anos ♂). Adquirido pelas práticas sociais-diálogos: “Depois que colocaram a usina de Manso a água ficou controlado, e as mudança no clima é grande, tá ficando um clima muito quente [...]” (IRP, 40 anos ♂). Nas últimas décadas é evidente a alteração das paisagens Mato-Grossense, em decorrência da expansão de atividades produtivas, diretamente ligadas ao agro-negócio no Estado. Os modelos produtivos e a utilização de novas tecnologias aplicadas na região dos planaltos ao redor do Pantanal vêm trazendo ameaças a este importante bioma, inclusive a falta de controle do uso de agrotóxicos nas lavouras de soja e algodão. Pesquisas de Alho et al. (1988), Mourão et al. (2002) e Vieira et al. (2004) evidenciam através de trabalhos de campo, que os agrotóxicos utilizados pela agricultura nas áreas ao redor do Pantanal contaminam os rios da planície pantaneira. Nas águas dos rios Taquari e São Lourenço, constata-se a presença significativa de pesticidas usados na lavoura de soja. Os pesquisadores revelam ainda que apesar de ter sido proibido o uso de mercúrio nos garimpos de Poconé - 117 MT, ainda é grande o índice de contaminação na cadeia alimentar por este metal, altamente agressivo à saúde humana. Tabela 16: Narrativa das fontes orais em relação às mudanças climáticas no Pantanal. Indicador Narrativa Pulso de inundação “antes quando era janeiro o rio já tinha carregado, agora ta vazio (fevereiro), porque não chove e que ta mudando ta, o calor ta muito mais do que era antigamente, uns vinte anos atrás”; “Tem época que em janeiro já era cheio, agora em fevereiro que veio chovê”; Queimadas “O que ajuda o calor é muito fogo, ajuda a esquentá...” Alteração no tamanho do Planeta Terra “ta mais quente porque o céu desceu, ta mais baixo...” “o povo acha que o sol baixô ou a Terra cresceu...” Atraso no início das chuvas e interrupção do período “o problema do calor ta sendo mais quente que uns anos atrás, desde a água do rio ta atrasando. Antigamente começa em novembro e agora a chuva começou em dezembro, parou e agora que começou de novo (fevereiro)”; Desmatamento “o desmatamento ta ajudando muito a esquentá, os velhos dizem que onde tem mais mato, tem mais chuva e é mais fresco”. “A destruição das mata ciliar, o desmatamento, os carros e a usina, a soja tem que desmatar, daí a camada de ozônio vai acabando.” -“ta ficando calor por causa das queimada e por causa da derrubação de pau, tão derrubando tudo...” “a chuva ta encurtando por causa do desmatamento, onde tem mais mato, chove mais...” “tá diferente, nem frio dá mais quase... É muita poluição e desmatamento, que ta fazendo isso.” Usina de manso “Depois que colocaram a usina de Manso a água ficou controlado, e as a mudança no clima é grande, ta ficando um 118 clima muito quente...” Idade x sensação térmica “o clima ta mais quente, ta melhor e o frio minguou.” “O frio vem e só acha os veios e o calor só acha os novos.” Tá acabando o oxigênio do tempo temos que ter consciência de preservar, se não vamos ter que ter um robô congelado para nós andar dentro.” Diminuição do frio “ta muito diferente, acabou a friagem e ta mudando só pra calor.” “Fazemos como antigamente, mas não dá...” Temporalidade “O calor, agora ta mais quente, quando eu era pequena era mais frio...”; “o frio ta acabando, de antigamente pra agora...”; “ta esquentando tanto que ta dando as doenças do sol na pele, que antes não tinha...”; “ta diferente, cada ano que passa ta mudando, modificando...” “já teve várias mudanças, de 70 a 80 dava um frio mesmo, de 90 para cá, não dá mais frio. O último que eu achei frio mesmo foi dia 10 de junho de 1989”; Simbólico- religioso “Fraqueza na plantação, antes plantava no dia santo (sete de dezembro) e chovia na certa, agora continua plantando, mas não chove”; “Na bíblia, nas reza conta que as coisas vão ser diferente”; “Uns falam que o céu desceu mais pra baixo, mas eu não acredito”; “O frio acabou mais porque Deus ta com dó de nós, nós passava muito frio antigamente”; “ta mais quente, o calor tem aumentado, ta chegando o fim do mundo, Jesus disse que quando estivesse perto da vinda dele muitos sinais iriam acontecer”. Nesse cenário atual, o patrimônio natural do Pantanal vem sofrendo ameaças importantes em sua biodiversidade, graças ao modelo de ocupação e manejo em seu território e nas áreas circunvizinhas ao território pantaneiro (HARRIS, 2005). 119 Vários fatores ambientais interferem na dinâmica desta enorme planície inundável do Mato Grosso, comprometendo um grande número de espécies animais, entre aves e mamíferos, como o tuiuiú (Jabiru mycteria), cabeça seca (Mycteria americana), veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus), o cervo-do-pantanal (Blastorecus dichotomus), a capivara (Hidrocaeris hidrocaris), além de espécies de anfíbios, répteis e a flora nativa deste bioma. De acordo com Padovani (2004), mais de 40% das florestas e savanas do Pantanal, foram alterados para a ocupação da pecuária, inclusive com a introdução de gramíneas exóticas, cujo impacto ambiental para o Pantanal ainda é desconhecido. As alterações desse desmatamento são percebidas pelos mais velhos, que afirmam que a mata é sinônimo de abundância para a vida e controle de temperatura. Com a ocupação das áreas para a criação de gado e lavouras de soja, cana- de-açúcar, algodão e outras práticas que envolvem o desmatamento, que ainda é uma atividade presente nos planaltos adjacentes ao Pantanal,o problema ambiental vem se agravando e comprometendo todos os Biomas Mato-Grossenses e ameaçando as práticas de subsistência. Vários relatos apontam o aquecimento do clima e relacionam com o desmatamento e queimadas: “ta ficando calor por causa das queimada e por causa da derrubação de pau, tão derrubando tudo... Os mais velho dizia que onde tem mais árvore é mais fresco [...]” (GS, 51 anos, ♂). O desmatamento vem trazendo alterações importantes como a diminuição das águas na região, de acordo com a percepção relatada pelos ribeirinhos: “O problema do calor ta sendo mais quente que uns anos atrás, desde a água do rio ta atrasando. Antigamente começava em novembro e agora a chuva começou em dezembro, parou e agora que começou de novo (fevereiro)” (IRP, 40 anos, ♂). “Antes quando era janeiro o rio já tinha carregado agora tá vazio (fevereiro), porque não chove e que tá mudando tá, o calor tá muito mais do que era antigamente, uns vinte anos atrás e as água ta minguando” (SBL, 50 anos, ♂). Na mesma direção, Harris (2005) cita os fatores ameaçadores à biodiversidade pantaneira, a perda de habitat pelo desmatamento ou queimadas, a 120 caça que no passado ameaçava espécies importantes do Pantanal como o Jacaré, a ariranha e a onça-pintada e parda e a falta de ordenamento da pesca. Na região alta do Rio Cuiabá, Simoni (2004) discute a percepção de uma comunidade em relação às alterações ambientais decorrentes dos projetos de desenvolvimento como a Usina Hidroelétrica de Manso e aponta a preocupação da comunidade com a alteração do ciclo hidrológico do mesmo rio onde está localizada a comunidade de Cuiabá Mirim. A mesma autora relaciona as aves como indicadoras climáticas e cita acauã como ave que anuncia as estações. Devido à complexidade dos sistemas naturais do Pantanal, é extremamente difícil compreender com exatidão o papel que as espécies desempenham na funcionalidade dos ecossistemas e até que ponto as diferentes espécies podem sobrepor na sua contribuição em determinada função particular de um ecossistema (HOBBS et al., 1995). É, no entanto possível identificar grupos de espécies que desempenham papéis mais relevantes no funcionamento de um dado ecossistema (HECTOR et al., 2001). Neste contexto, reporta-se a dois conceitos funcionais que emergiram na década de 80 relacionados às funções ecológicas das espécies: o conceito de espécie-chave e de ligadores móveis. As espécies-chave são aquelas que desempenham uma função determinante na estrutura e funcionamento dos ecossistemas e a sua perda terá um impacto significativo em outras populações, ou seja, o efeito cascata. Também são consideradas espécies-chave aquelas que indicam a degradação da qualidade do habitat natural (PAYNE, 1966). De acordo com De Groot (1992), estas funções podem assim serem entendidas: as funções de regulação estão relacionadas à capacidade dos ecossistemas naturais ou semi natural em regular os processos ecológicos essenciais e os sistemas suporte de vida, contribuindo para a manutenção da saúde ambiental pelo fornecimento de ar, água, solos não poluídos; as funções de suporte referem a capacidade dos ecossistemas naturais ou semi naturais em fornecem espaço e substrato adequados para muitas atividades humanas, tais como: habitação, cultivo, recreação; as funções de produção dizem respeito à capacidade 121 do ambiente em fornecer recursos, desde alimentos e matéria prima para o uso industrial, até recursos energéticos e material genético; as funções de informação compreendem a capacidade do ambiente em contribuir para a manutenção da saúde mental, pelo fornecimento de oportunidades para reflexão, enriquecimento espiritual, desenvolvimento cognitivo, estética. Conciliar conservação e gestão de recursos no Pantanal é uma tarefa que envolve respeitar os conhecimentos do ser humano pantaneiro e suas formas de interpretar a natureza (GUARIM NETO et al., 2008). 3.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O conhecimento ecológico tradicional a respeito das aves, suas categorizações e etnoindicadores climáticos apreendidos e expressos pela comunidade Cuiabá Mirim demonstraram a riqueza de saberes e as conexões que eles estabelecem com o ambiente pantaneiro moldado pelo pulso de inundação. Os etnoindicadores climáticos são percebidos pelos ribeirinhos que ao longo das gerações vem adaptando e desenvolvendo modos de viver e conviver com a dinâmica do ciclo das águas, marcados pelas fases de enchente-cheia-vazante-seca e a movimentação da biodiversidade. A perda de hábitat em função do desmatamento e queimadas refletindo no clima local é colocada por meio dos relatos dos ribeirinhos e ribeirinhas que tecem reflexões sobre o desmatamento e as queimadas, demonstrando as observações do ambiente e as ameaças vigentes, como diminuição no pescado. O Conhecimento Ecológico Tradicional enfocando etnoindicadores climáticos pelas comunidades locais vem sendo valorizados mais recentemente, devido este ser transmitido entre gerações, sendo considerado por isso um conhecimento de longo prazo, podendo contribuir significativamente com o monitoramento da biodiversidade. As comunidades tradicionais necessitam ainda de representatividade e empoderamento junto aos meios acadêmicos, discursos e políticas públicas sobre 122 mudanças climáticas, principalmente pelo fato de que serão afetadas por essas mudanças. O conhecimento ecológico tradicional do Pantanal pode contribuir para uma gestão integrada, eqüitativa e ética de um sistema sócio-ecológico complexo, que se sustenta através de percepções únicas com seu conhecimento da avifauna do Bioma Pantanal. 3.5. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ALBERNAZ-SILVEIRA, R.; QUADROS. I. Águas Pantaneiras e Conhecimento Tradicional. in. Seminário Estadual de Recursos Hídricos de Mato Grosso. Cuiabá- MT, 2009. ARTAXO, P. Mudanças climáticas globais: cenários para o planeta e a Amazônia, 2008. IN: Http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/content/mudancas-climaticas- Globais-cenarios-para-o-planeta-e-amazonia. AB‟SABER, A. N. O Pantanal Mato-grossense e a teoria dos refúgios. Rev. Brasileira de Geografia (50). FIBGE, Rio de Janeiro, 1988. ALHO, J. R. Environmental Degradation in the Pantanal Ecosystem of Brazil. BioScience 38: 164-171. 1988. ALHO, J. R. A teia da vida: Uma introdução à ecologia brasileira. Objetiva, Rio de Janeiro, 1992. ALLEM, A. 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Foi sempre um ente abençoado a garças. Nascera engrandecido de nadezas. (Manoel de Barros22) 22 Manoel de Barros: fragmento de Mundo Pequeno do Livro das Ignorãças. Figura 21: Arte do Chão I. Série Imagética Pantaneira. Ruth Albernaz, 2009. 130 RESUMO ALBERNAZ-SILVEIRA, Ruth. Conhecimento Ecológico Tradicional de aves da Comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertação – Mestrado em Ciências Ambientais). Este trabalho apresenta o Conhecimento ecológico tradicional-CET de aves relacionado à cosmologia da comunidade Cuiabá Mirim, Pantanal de Mato Grosso- MT. A área de estudo localiza-se no Município de Barão de Melgaço, com aproximadamente 97,5% de terras inundáveis no período das cheias. Para coleta de dados utilizou-se de métodos como: entrevista semi-estruturada, observação participante e diário de campo. Foram entrevistados 22 moradores da comunidade. O grupo estudado mostrou amplo conhecimento ecológico tradicional a respeito das aves enquanto etnoindicadoras simbólicas. Esses conhecimentos são transmitidos oralmente ao longo das gerações. A cultura pantaneira é rica em saberes sobre as aves, de forma que a mesma poderá contribuir significativamente para a implementação de políticas públicas que contemplem a gestão participativa do Pantanal e ações em Educação Ambiental voltadas para a conservação do Bioma. Palavras-chave: Pantanal, Conhecimento Ecológico Tradicional, Aves. Orientadora: Profª. Drª. Carolina Joana da Silva, UNEMAT; 131 ABSTRACT ALBERNAZ-SILVEIRA, R. Traditional Ecological Knowledge of birds in the Cuiabá Mirim Community, Pantanal of Mato Grosso. Cáceres: UNEMAT, 2010. 163 p. (Dissertation – Master in Environmental Science). This research presents Traditional Ecological knowledge about birds related in cosmology in the community of Cuiabá Mirim, Pantanal of Mato Grosso - MT - CET The studied area is located in the city of Barão de Melgaço, with almost 97,5% of flooded area during the flood period. The data collection used methods like: semi- structured interviews, participant observation and camp dairy. Twenty two people from the community were interviewed. The study group showed extensive traditional ecological knowledge about the birds while ethnoindicators symbolic. This knowledge is orally transmitted over the generations. Pantanal‟s culture is rich in knowledge about birds, so that it can contribute significantly to the implementation of public policies that include the participatory management of Pantanal and environmental education focused on the biome conservation. Key - words: Pantanal, Traditional Ecological Knowdledge, Birds. Advisor: Carolina Joana da Silva, UNEMAT; 132 4.0. INTRODUÇÃO O poeta pantaneiro Manoel de Barros traz a ligação do imaginário da cultura pantaneira entrelaçada com as aves em diversos momentos de sua obra literária. As aves são símbolos arquetípicos presentes ao imaginário de muitas culturas, na trilha do tempo da história da humanidade. Um pequeno passeio por algumas culturas nos trará esse cenário. O imaginário é um conjunto de produções mentais ou materializadas em obras de caráter visual ou em criações de linguagem; apresenta-se como um sistema organizador de imagens, comportando um conteúdo semântico, uma estrutura e uma visão de mundo. Seu dinamismo revela-se do poder poético de articulação de arquétipos, imagens simbólicas e mitos (LISBOA DE MELLO, 2007). Em diversos sítios arqueológicos do mundo, pode-se observar a presença de imagens de aves em pinturas rupestres, fragmentos de peças de arte e outros vestígios de atividades humanas, demonstrando essa ligação entre as aves e a cosmogonia dos povos. A mitologia apresenta um grande número de registros que contemplam a participação das aves em seu corpus. Na América do Sul, um ícone que se destaca é a imagem do colibri (beija- flor), representada em geoglifos no deserto de Nasca, no Peru, medindo 96 x 66 metros. O povo Nasca concede ao colibri caráter divino por atribuírem-lhe o papel de mensageiros entre os homens e os condores, que eram considerados deuses (DUKSZTO e ARGUEDAS, 2006). A importância dessas aves, enquanto símbolos sagrados para as culturas pré- colombianas também se apresenta na forma arquitetônica da cidade de Machu- Pichu, que traz as imagens do condor e o puma, afirmando a forte ligação da cultura Inca com a imagética da natureza, com conteúdo cosmológico ligado aos animais. De acordo com Salazar e Salazar (1996, pág. 53) o nome antigo de Machu Picchu foi dado em função de uma ave: 133 Este pode ser o sentido oculto no nome do antigo e o nome dado à cidade sagrada, a APU ou de Pássaro Espiritual, ainda invocado pela população local, o conselho e cura e nomeado para os maiores picos no bairro do Vale Sagrado, o Urubamba. O Apu que trouxe paz ao povo e ao mesmo tempo em que sobrevoam o Vale Sagrado para o oeste, deixando um rastro de luz, a Via Láctea, onde tudo começou e onde ele traz a Verdade, o Absoluto, atravessando o espaço e o tempo, para a idéia de Deus. No contexto do sagrado, em registros de relatos orais dos pajés Guarani, o mito de criação traz as “Palavras Formosas” (Anexo IV) que descreve a cosmogonia Guarani, onde o Grande Criador trouxe o colibri e a coruja como imagens de expressão de divindade (JECUPÉ, 2001). As aves também estão presentes nas práticas do xamanismo, pajés de diversas etnias utilizam a simbologia de algumas espéciesde aves, como a águia, o gavião real, a coruja e outros que são consideradas por algumas culturas como animais de poder23 para rituais de visão e trabalhos de cura. Na mitologia presente na cultura grega e etíope, a Fênix apresenta-se como um ícone bastante difundido por diversas culturas por ser um exemplo de renovação e de esperança de transformação nas adversidades. Eliade (1994) coloca que “o retorno à origem oferece a esperança de um renascimento.” De acordo com Chevalier e Gheerbrant (1994) a pomba é, entre os cristãos, um dos símbolos da pureza, da paz, e a representação inequívoca do Espírito Santo. Os autores lembram que, no início do Gênesis, o espírito de Deus se movia, como uma ave, sobre a superfície das águas primordiais. No pensamento de Edgar Morin, filósofo-sociólogo francês, “Cada civilização possui um pensamento racional, empírico, técnico, simbólico, mitológico e mágico. Também havendo sabedorias e superstições” (MORIN, 2004, p. 27). No contexto da formação cultural do Brasil, Ribeiro (1995, pág. 20) coloca que a sociedade e culturas brasileiras são “conformadas como variantes da versão 23 Na visão do Xamanismo, os animais de poder ancoram a energia de cura e proteção, sendo que cada pessoa possui um ou mais animais de poder (grifo nosso). 134 lusitana da tradição civilizatória européia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos.” O mesmo autor acrescenta que a confluência dessas matrizes „raciais‟ dá lugar a um povo novo, num novo modelo de estruturação societária. A cultura Brasileira Rústica, assim denominada por Id. (2007), é o resultado do desenvolvimento, das protocélulas culturais, no território nacional ao longo de quatro séculos, estando elas representadas pela área cultural crioula, sob a égide do engenho açucareiro no nordeste brasileiro. A área cultural caipira, constituída na zona dos mamelucos paulistas. Área cultural cabocla, relacionada principalmente à região amazônica nos seringais. A área cultural sulino-gaúcha, fortemente relacionada ao pastoreio no sul do país, e a Áreas culturais sertanejas, advindas pela atividade pastoril de gado nos vazios, desde o nordeste até a região centro- oeste. No cenário da cultura pantaneira atual, os assentamentos humanos, como a das comunidades tradicionais, têm influência européia e africana, e principalmente da matriz indígena: Esta região guarda uma grande importância histórica desconhecida e apesar deste aparente vazio de homens e de história, o Pantanal de Mato Grosso foi território povoado por inúmeros grupos indígenas (Paiguá, Guaikuru, Bororo e Guató) que lutaram intensamente contra colonizadores espanhóis e portugueses desde o século XVI. Alguns grupos sobreviveram à guerra contra eles travada, e estão atualmente ilhados em pequenas reservas: são eles os Bororo, os Kadiwéu (remanescentes dos Guaikuru) e os Guató (DA SILVA e SILVA, 1995, pág. 10). Essas influências culturais refletem no imaginário dessas comunidades em dois planos: material e simbólico, traduzidos nas estratégias de vida, no manejo da agricultura e pesca e nas crenças, no folclore e no pensamento mítico. A cultura dos que vivem e convivem em Cuiabá Mirim é dinâmica e se reinventa a cada aparição de elementos sobrenaturais vividos, narrados para aos mais jovens e nas diferentes circunstâncias . Esses saberes repassados entre as gerações conectam-se com os ensinamentos de Paulo Freire: 135 Aprender e ensinar faz parte da existência humana, histórica e social, como dela fazem parte a criação, a invenção, a linguagem, o amor, o ódio, o espanto, o medo, o desejo, a atração pelo risco, a fé, a dúvida, a curiosidade, a arte, a magia, a ciência, a tecnologia. E ensinar e aprender cortando „permeando‟ todas as atividades humanas (FREIRE, 2001, pág.12). Sob essa ótica, este capítulo tem como objetivo tecer um diálogo entre a relação cosmológica da comunidade Cuiabá Mirim e as aves, componentes do sistema sócio-ecológico complexo, envolvendo aspectos míticos e simbólicos. E tem a intenção de contribuir com a reafirmação da cultura e identidade dos pantaneiros de Cuiabá Mirim. 4.1. MATERIAIS E MÉTODOS A COMUNIDADE CUIABÁ MIRIM “Cuiabá Mirim é um lugá bom de vivê, é bonito, calmo, eu quero vivê sempre aqui. Eu sou ribeirinha, sou pescadora, nasci no pantaná e aqui que vou ficá [...]” (URNS, 67 anos, ♀). A comunidade Cuiabá Mirim localiza-se no Município de Barão de Melgaço, Pantanal de Mato Grosso. A paisagem de Cuiabá Mirim é um sistema complexo de ambientes que envolvem diversas unidades de paisagem: o Rio Cuiabá, mata ciliar, brejos, os sistemas das baías de Chacororé e Siá Mariana, firme, baixios e outras unidades que eles reconhecem como lugares e que foram estudados por Galdino (2006) e Galdino e Da Silva (2009). A comunidade de Cuiabá Mirim constrói e transforma o seu viver, conforme seu jeito de ver, sentir e pensar o mundo. Esta construção é fortemente marcada pelo ritmo das águas do Pantanal onde está inserida a comunidade na margem direita do Rio Cuiabá. Estudos realizados pelo Grupo de Pesquisa Conceitos Ecológicos e Etnoecológicos aplicados a Conservação da Água e da Biodiversidade do Pantanal descrevem que a origem da Comunidade Cuiabá Mirim está diretamente ligada à 136 história da Fazenda Flexas, que inicialmente era uma das grandes produtoras e beneficiadoras de cana-de-açúcar da região (início do século XX). Os moradores mais velhos de Cuiabá Mirim foram trabalhadores desta fazenda, no campo, nas plantações de cana-de-açúcar e no beneficiamento de produtos (GALDINO, 2006, GALDINO e DA SILVA, 2009; MORAIS, 2006; VIANA, 2008). Aspectos do imaginário de Cuiabá Mirim foram relatados: Os pantaneiros citaram várias histórias de encantamentos que permeiam o imaginário, relacionadas diretamente com o rio como sobre o Bicho D‟água; sereias e cavalos encantados, que aparecem nas baías Sinhá Mariana e Chacororé; fachos de luz e sobre a mãe do ouro. A partir da crença nessas histórias, costumam evitar a pesca e também sair à noite para não encontrarem esses seres encantados (VIANA, 2008, pág. 71). 4.2. MÉTODOS Percursos Sobrevoados Este trabalho está em consonância com outras pesquisas que foram realizadas pela pesquisadora Carolina Joana Da Silva desde 1995 na região do Pantanal. Este capítulo contempla um diálogo entre Gestão e Educação Ambiental, lançando mão de um hibridismo metodológico, utilizando-se de técnicas qualitativas. O primeiro passo foi o levantamento bibliográfico e visita à comunidade para observar quais os procedimentos para a coleta de dados se apresentaria como uma “boa” opção metodológica. Os procedimentos para a coleta de dados foram: entrevista semi-estruturada e observação participante. O registro dos dados foi amparado por meio de fotografias e anotações em diário de campo. O uso de diário de campo onde o pesquisador anota as “impressões subjetivas sobre fenômenos desconhecidos e intuições pode vir a constituir um instrumental precioso para futuros insights...” (VIETLER, 2002, pág. 18). 137 Após a escolha da metodologia e novo retorno à comunidade pesquisada foi realizado um pré-teste para adequação das entrevistas, para que se pudesse estabelecer um diálogo êmico/ético. Para selecionar as fontes orais a serem entrevistadas buscou-se reconhecer as pessoas com mais conhecimento de aves do Pantanal, identificadas por meio da técnica bola de neve snow ball sampling (BERNARD,2002), a qual possibilitou o desenho da rede social relacionada a este saber. O resultado da rede totaliza cinqüenta e uma pessoas - elos em forma de um complexo sistema de ligações entre pessoas que se relacionam e que uma indica outras em que, aquela pessoa que está sendo indicada é reconhecida como um entendedor ou entendedora do assunto relacionado às aves (apresentado no Capítulo I). A partir da rede social apresentada no capítulo I, foram entrevistadas 22 fontes orais (anexo V), onde utilizou-se para o diálogo entrevista semi-estruturada, com a seguinte pergunta norteadora (ou suleadora-oesteadora-lesteadora): “as aves dão recado (ou aviso ou sinal)? Qual o (a) senhor (a) conhece?” Buscar informações simbólicas trouxe a necessidade de ancorar em Geertz (1989) quando propõe um conceito de cultura que denota um padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida, imputando à cultura um caráter público e compartilhado. O cotidiano da comunidade foi vivenciado por meio da técnica da Observação Participante, acompanhando as mulheres em seus afazeres domésticos e na roça; e os homens nas tarefas associadas à pesca. A observação participante é um processo mutuamente educativo, nos lembra Macedo (2006, pág. 97) “o saber do senso comum e o saber científico se articulam na busca da pertinência científica e da relevância social do conhecimento produzido.” 138 4.3. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados desta pesquisa emergem os conhecimentos que são passados ao longo do tempo pela oralidade, estabelecendo as conexões da cultura pantaneira, na sua dinâmica Certauniana24 da reinvenção do cotidiano com os ciclos ecológicos, reproduzindo aqui o que Darci Ribeiro afirma sobre a cultura brasileira: A identidade étnica dos brasileiros se explica tanto pela precocidade da constituição dessa matriz básica da nossa cultura tradicional, como por seu vigor e flexibilidade. Essa última característica lhe permitirá de, como herdeira de uma sabedoria milenar, ainda dos índios, conformar-se, com ajustamentos locais, a todas as variações ecológicas regionais e sobreviver a todos os sucessivos ciclos produtivos, preservando sua unidade essencial (RIBEIRO, 1995, pág 272). Na construção do saber ambiental o conhecimento local é fonte de sabedoria pautada no fazer cotidiano. Esse conhecimento é construído por significados elaborados através de processos simbólicos que configuram estilos étnicos de apropriação do mundo e da natureza. E é nesse sentido que se apresenta os aspectos do imaginário da Comunidade Cuiabá Mirim que se ligam e fazem parte do corpus do Conhecimento Ecológico Tradicional-CET. Observou-se por meio dos relatos dos entrevistados que a estrutura do pensamento dos pantaneiros da comunidade Cuiabá Mirim é permeada pela crença no “Criador” - Deus - que rege todas as coisas que existem, incluindo a natureza - e pela visão ecossistêmica, onde eles compreendem bem as conexões ecológicas e 24 CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 2 v. 1994. 139 nesse contexto, os seres encantados ou míticos25 são os elos entre natureza ecossistêmica e o Criador, criando a natureza sobrenatural, onde “as aves são mensageiras de Deus26” (Figura 22). A comunidade Cuiabá Mirim está dividida entre um grupo “católico” e outro evangélico da denominação “Assembléia de Deus”, configurando formas diferentes de praticar a religiosidade. As fontes orais de ambos os grupos relataram a respeito dos sinais das aves, demonstrando que ambos os grupos ainda mantém o conhecimento das histórias míticas que ancoram o imaginário local. Figura 22: Interconexões do universo cosmológico dos ribeirinhos de Cuiabá Mirim. No sentido das interconexões onde há necessidade de um locus para ancorar os elementos perceptivos, o pensamento filosófico de Deleuze & Guattari percepto, afecto e conceito27, serve aqui como uma bricolagem28: 25 Mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. Mito é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípios, íllo tempõre, quando com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra , uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo que não era começou a ser. BRANDÃO, Junito de Souza, Mitologia Grega, vol I 19ª ed. –Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.p 35-41. 26 Relato de URNS, 69 anos, ♀, uma das moradoras mais antigas de Cuiabá Mirim. Ela conta muitas histórias da sua infância no Pantanal. DEUS- CRIADOR NATUREZA SOBRENATURAL NATUREZA ECOSSISTÊMICA SER HUMANO 140 Cada território, cada habitat junta seus planos ou suas extensões, não apenas espaço-temporais, mas qualitativos: por exemplo, uma postura e um canto, um canto e uma cor, perceptos e afectos. Cada território engloba ou recorta territórios de outras espécies ou intercepta trajetos de animais sem território, formando junções interespecíficas. É nesse sentido que num primeiro aspecto, desenvolve uma concepção de natureza melódica, polifônica, contrapontual. Não apenas o canto de um pássaro tem suas relações de contraponto, mas pode fazer contraponto com o canto de outras espécies, e pode ele mesmo, imitar outros cantos, como se se tratasse de ocupar um máximo de freqüências (DELEUZE e GUATTARI, 1997 pág.239). E parece ser nesse espectro de freqüências e contrapontos expressos pelos sinais das aves que os pantaneiros conseguem interpretar a vibração e comportamento desses seres da natureza em seu cotidiano. Esses sinais chave podem ser evidenciados pelas vocalizações, o tipo de vôo, a presença e os lugares onde aparecem os pássaros (Figura 23). 27 Os perceptos não mais são percepções são independentes do estado daqueles que os experimentam; os afectos não são mais sentimentos e afecções, transbordam a força daqueles que são atravessados por eles. As sensações, perceptos e afectos, são seres que valem por si mesmos e excede qualquer vivido (DELEUZE e GUATTARI, 1995). 28 A bricolagem é um termo utilizado por algumas áreas do conhecimento, podendo ser a união de vários elementos para a formação de um. Aqui a intenção é trazer o pensamento filosófico de Deleuze e Guattari, no sentido de conectividade entre o pensamento ecológico e filosófico num texto único. 141 Figura 23: Sinais-chave das aves etno-indicadoras simbólicas. Os sinais chaves traduzidos nas narrativas das 22 fontes orais entrevistadas evidenciam um conhecimento detalhado e específico do comportamento das aves (tabela 17). vocalizações •canto •desconjuro •estala o rabo (cauda) vôo •direcional •circular presença •anuncia a chegada de visita •notícias lugar • Acima da casa; • Dentro da casa. AVES 142 Tabela 17: Etnoindicadores simbólicos. SINAL CHAVE AVE ETNO INDICADOR A SIMBOLOGIA NARRATIVA Vocalização Almade gato (Piaya cayana) Anuncia chegada de visita -“alma de gato quando canta, vai chegar gente [...]” Vocalização Bilro (Melanerpe s Candidus) Anuncia chegada de visita -“Quando canta é sinal que vai chegar gente...” -“Bilro quando canta vai chegar visita...” Vocalização Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus ) Anuncia chegada de visita -“Quando canta vai chegar gente” Vôo e presença Beija-flor Boas notícias e anuncia chegada de visita -“quando entra em casa é coisa boa que vai acontecer” -“Beija-flor, quando ele entra dentro de casa, vai chegar gente...” -“Beija-flor quando voa na porta, vai chegar gente.” -“Beija-flor quando entra na casa é visita...” -Vôo direcional; -vocalização; - lugar Tesoureiro (Tyrannus savanna) Prenuncia morte na família -“quando passa por cima da casa a noite e estala o rabo igual tesoura, está cortando o pano para fazer o negócio do caixão...” -“tesoureiro, faz tem quê, tem quê... ta cortando e rá, rá, rá, rasgando o pano e aí avisa que vai morrê gente...” -“tesoureiro quando passa e corta mortália, ele rasga rá, gente que vai falecê...” Vocalização Coruja Mal agouro -“quando passa e fica cantando a noite, é azarento.” -Vôo direcional -vocalização; -Lugar Anhuma (Chauna torquata) Prenuncia acontecimentos ruins e morte. -“quando passa por cima da casa de dia, ta avisando que vai acontecê alguma coisa ruim na família. Ele fica voando com uma perna estirada e a outra pendurada e cantando...” -“anhuma quando passa por cima de casa, vai morrê parente, ta avisando...” 143 Vocalização Galo (Galus galus) Desconjuro -“o galo quando fica desconjurando cruz, cruz, é doença na família, eu apedrejo ele.” Presença Curiango do chão (Nyctidromu s albicollis) Relação de azar -“Curiango do chão, se você pegar o ovo dele, fica preguiça igual ele.” Vocalização Pica-pau de cabeça vermelho (Dryocopus lineatus) Agouro -“Quando ta cantando tic, tic, tic, ta agourando a gente.” Vocalização Massa Barro (Furnarius rufus) Anuncia as horas -“Canta as horas, 7 horas, doze horas...” -“Massa barro dá aviso da hora... Eu tenho uma tia que antigamente só fazia as coisa com o horário de passarinho. Meu tio dizia: -Maria, o almoço já ta pronto? - Espera Raimundo, o Massa Barro ainda não cantou.” -Vôo circular -vocalização Rolinha (Columbina sp) Anúncio de morte -“rolinha quando canta, ele fica rodeando casa e cantando ai Jesus, ai Jesus, porque morreu alguém...” Nesse cenário de ampla diversidade biológica e cultural, as aves são muito destacadas pela riqueza de espécies, abundância e beleza traduzidas pelas cores- texturas-vôos-cantos-ninhos que compõem o ambiente, servindo como elo das conexões da natureza e com a construção de sua cosmologia. Na cosmologia dos pantaneiros de Cuiabá Mirim, o imaginário é permeado por sinais de elementos da paisagem pantaneira que se expressam na vida cotidiana. Nesse sentido, Maffesoli (2001, p.74) nos lembra que “o imaginário é uma força social de ordem espiritual, uma construção mental, que se mantém ambígua, perceptível, mas não quantificável.” Para Souza Santos (2005) as situações da vida cotidiana serão entendidas como espaço de relações dialetizadoras e expressam uma imagem que não se restringe a sua leitura social, política, cultural e econômica, mas também, aos aspectos ambientais e simbólicos. 144 Nessa mesma direção, Viana (2008, pág. 55) ao discutir a respeito das comunidades do Pantanal faz uma discussão entre a territorialidade e o simbólico: [...] o território para as comunidades tradicionais, sejam esses permanentes ou não, é o espaço onde obtém os recursos naturais necessários a sua sobrevivência. O território não é apenas um local onde retiram esses recursos, mas sim um espaço cheio de significados, onde ocorrem as relações e representações sócio- culturais. Essas conexões revelam as aves como fonte de inspiração, elementos marcantes que contribuem para (re)afirmação da identidade cultural pantaneira, traduzida na poesia, música, religiosidade e mitos. Para Bachelard (1998, pág.03) “a imagem poética, em sua novidade, abre o porvir da linguagem”, que no Pantanal é expressa na musicalidade e aos elementos a ela associada: “Andorinha voou, sentou no telhado, Dança meninas pros seus namorado [...]” (música de siriri cantada por EL, 75 anos, ♀). Em relato, uma fonte oral colocou que, quando ela era jovem, sabia diversas músicas e versinhos de passarinhos, cantados no cururu e siriri, e então cantou: “Nandaia, nandaia, vamos todos nandaiá. Ó meu padre santo Antônio, venha me ensinar a dançá. Se não servir essa, ponha essa outra, pra senhora moça... Da uma volta no meio, põe mão no joelho [...]” (URS, 69 anos, ♀). O siriri e cururu são ritmos musicais bastante difundidos pelas comunidades tradicionais não-indígenas de Mato Grosso, tendo inúmeras letras com a imagética da natureza local como base das inspirações. Em Cuiabá Mirim há um grupo de cururueiros e de siriri. Eles se reúnem para treinar as danças e músicas e se apresentam nas festas, principalmente na de Santo, como a Festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores. Os instrumentos musicais que eles utilizam para cantar são: a viola de cocho, ganzá (figura 24) e mocho. A viola de cocho é confeccionada tendo como matéria- prima principalmente a madeira de uma árvore denominada popularmente por sarã 145 de leite. O ganzá, um tipo de reco-reco, “é um instrumento de percussão feito geralmente de taquara com 40 a 70 cm de comprimento, tendo um nó do próprio bambu em cada extremidade” (CUIABÁ, 2006). Figura 24: Imagem de Sebastião Mendes em acrílico s/ tela, compondo o painel do auditório da UNEMAT, mostrando cururueiros com o reco-reco à esquerda e com a viola de cocho à direita, num ambiente de festa pantaneira. A poética inspirada nas aves ora está presente nas letras das músicas, ora é a própria música, como a da etnoespécie da ave Quá: “Quá foi comprar remédio para a mãe que estava doente. Daí no caminho ele encontrou uma festa e começou a festá, dançá. Quando ele assustou tinha amanhecido o dia, correu para comprar [...] Quando chegou à casa da mãe, encontrou um monte de gente chorando. Quando foi ver, a mãe tinha morrido e tava no velório dela. Quá começou a cantar morreu, morreu, morreu e tá cantando até hoje, morreu, morreu, morreu [...]” (AGS, 51 anos, ♂). Essa narrativa descreve o comportamento semelhante aos humanos e com indicação da vocalização como um “desconjuro eterno” como forma de autopunição pela atitude de “não dar a devida atenção à mãe”, cabendo aí uma forma de ensinamento onde a “moral da história” está ligada ao respeito que os filhos devem 146 ter com os pais, na concepção social. Essa narrativa é bastante popular na comunidade e exerce um papel educativo. Numa cultura de tradição oral, além do cotidiano, os narradores, os contadores de causos, desempenham uma tarefa educativa extremamente importante. O papel da memória, em comparação com as culturas letradas, é significativo (CAMPOS, 2004). Para Freire (1996), o saber local é um conhecimento que se aprende e se ensina. Neste contexto, as aves, enquanto etno-indicadoras simbólicas fazem parte do bojo da cultura pantaneira, o qual nos remete a Deleuze e Guattari (2003, pág. 25), “a natureza não pode ser separada da cultura e precisamos aprender a pensar "transversalmente" as interaçõesentre ecossistemas, mecanosfera e universos de referência sociais e individuais.” O desafio requer traduzir os conhecimentos da comunidade em práticas coletivas de Educação Ambiental numa perspectiva de continuidade, de modo a garantir a conexão entre a identidade cultural e ecológica, na construção de sociedades sustentáveis. 147 4.4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O CET da Comunidade Cuiabá Mirim ao revelar o papel das aves como etnoindicadoras traz à tona nas narrativas uma riqueza de detalhes pautados no conhecimento ecológico e cultural, expressos nas vocalizações, nos vôos, na presença, nas cores, formas e texturas. Esses conhecimentos evidenciam ainda conexões entre o macro e o micro, entre o global e o local, evidenciando os traços da cultural universal e sua reprodução na cultura brasileira e a sua diferenciação na cultura pantaneira. A ligação entre a natureza e cultura presente na comunidade, traduzida nesta pesquisa no conhecimento das aves, pode contribuir como alicerce para construção de programas de EA participativos. 4.5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BACHELARD, G. A poética do espaço. Trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998. BERNARD, R. Research Methods in Anthropology: Qualitative and Quantitative Approaches. Almira Press, New York. 2002. DUKSZTO, A.; ARGUEDAS, J. M. H. Descubriendo Perú. Ediciones de Hipocampo. Lima. 2006. CAMPOS, C. Pantanal Matogrossense: o semantismo das águas profundas. Cuiabá: Entrelinhas. 2004. CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. Dicionário dos Símbolos. Lisboa, Ed. Teorema, 1994. CUIABÁ, Secretaria Municipal de Cultura. Viola de Cocho. 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A riqueza biológica das aves, seus hábitos e comportamentos conhecidos pela comunidade foram gentilmente apresentados nas narrativas e trouxeram grande descoberta pessoal e profissional. Os momentos dialógicos demonstraram o vasto conhecimento que a comunidade possui a respeito do tema pesquisado, trazendo a possibilidade de múltiplos olhares para as Ciências Ambientais, onde o assunto pede continuidade, com a perspectiva de novas pesquisas e ações voltadas para o monitoramento da biodiversidade, gestão e educação ambiental no Pantanal. A forma como a comunidade percebe e maneja os espaços e os recursos, entrelaçado pela cultura e as relações sociais, históricas e simbólicas refletem no conhecimento complexo das aves e suas conexões com o Bioma Pantanal, que são transmitidos por meio da oralidade dos mais velhos para os mais jovens e pela repetição de padrões de comportamento. Os sistemas classificatórios da avifauna pela comunidade pesquisada vão além do caráter utilitário, alçando vôos por espaços ecológicos até alcançar as relações do imaginário local, onde as aves assumem a função de etnoindicadores climáticos e simbólicos. Os seres humanos fazem parte do ecossistema global e ao longo da história vem alterando as características básicas desse sistema, tais como biodiversidade e clima. Essa capacidade de alterar os ecossistemas dá a todos uma responsabilidade como gestores destes recursos para gerações futuras, refletindo na urgência em se construir novos modelos de sociedades sustentáveis. A incorporação de serviços ambientais no sistema econômico parece ser uma prioridade para redirecionar as ações humanas que impactam estes serviços, tais como a manutenção de biodiversidade, a ciclagem de água e o balanço de carbono. 151 As evidências científicas de vários estudos em diversos biomas e das observações por meio do conhecimento ecológico tradicional apontam para o fato de que as mudanças climáticas representam um sério risco para os recursos hídricos no Brasil. Não só as mudanças do clima futuras representam risco, mas a variabilidade climática também; é só lembrar que pesquisas recentes mostram que o impacto do aquecimento global será mais alto, na região Centro Oeste e que as secas da Amazônia, do Nordeste, enchentes do Sul e do Sudeste do Brasil nos últimos dez anos têm afetado a economia nas escalas regional e nacional. O impacto das variações e mudanças do clima pode ser somado por outros fatores não-ambientais, como os aspectos políticos e sociais, e todos juntos podem gerar um custo elevado para a sociedade Estudos de longo prazo realizados em várias comunidades tradicionais poderão preencher grandes lacunas de conhecimento a respeito da riqueza de espécies de aves ocorrentes no Pantanal e sua função como etno-indicadoras de mudanças climáticas e simbólicas. Tais informações poderão ser fundamentais na elaboração de estratégias de manejo nas diferentessituações da paisagem pantaneira, bem como a aplicação do código florestal e outras legislações aplicáveis à conservação da biodiversidade deste Bioma. É fundamental o planejamento para estabelecer pesquisas e monitoramento na região do Pantanal Mato-Grossense para avaliar os riscos relativos às mudanças do clima, os quais poderão contribuir de forma significativa para o delineamento de programas de gestão ambiental em diversas escalas que possam contemplar as dimensões da sustentabilidade e subsidiar políticas de Educação Ambiental focadas na mitigação desses riscos. A pressão exercida pela crise ambiental vem refletindo na formulação de táticas e estratégias alternativas para garantir a sustentabilidade, baseadas na diversidade cultural, onde estão se legitimando os direitos das comunidades sobre seus territórios e espaços étnicos, sobre seus costumes e instituições sociais e pela autogestão de seus recursos produtivos. 152 Nesse contexto, os conhecimentos ecológicos tradicionais dos pantaneiros de Cuiabá Mirim a respeito de aves e as mudanças climáticas poderão oferecer pegadas importantes para a gestão ambiental. Este trabalho poderá ser utilizado para fomentar a implementação de políticas públicas no Pantanal Mato-Grossense, que incluam grupos sociais de menor visibilidade; e para uma reflexão sobre sociedade-natureza com vistas a integração das dimensões econômica, ecológica, territorial, e cultural da sustentabilidade. 153 ANEXOS ANEXO I – Lista de etnoespécies de aves indicadas pelos pantaneiros ETNOESPÉCIE FREQUÊNCIA % DE RESPOSTA RANQUE ÍNDICE Smith's Juruti 20 95 23.750 0.506 Garça 20 95 12.300 0.740 Tuiuiú 20 95 10.500 0.788 Mutum 19 90 15.316 0.637 Cabeca Seco (cab. Seca) 19 90 7.263 0.779 Arancuã 18 86 16.222 0.600 Baguari 18 86 17.444 0.561 Piriquito 18 86 22.500 0.512 Papagaio 18 86 17.278 0.562 Jaó 16 76 28.500 0.361 Cabecinha Vermelha 16 76 19.750 0.451 Marreca 16 76 30.750 0.341 Rolinha 15 71 28.467 0.334 Saracura 15 71 31.467 0.349 Beija-Flor 15 71 26.533 0.353 Massa Barro 14 67 19.643 0.410 Bem-Te-Vi 14 67 23.071 0.387 Sabiá 13 62 27.692 0.322 Colhereiro 13 62 13.769 0.461 Quero Quero 13 62 40.231 0.199 Martim-Pescador 13 62 32.231 0.273 Andorinha 12 57 24.917 0.294 Biuá 12 57 13.333 0.440 Anhuma 12 57 21.833 0.357 Cracará (Cabeça Chato) 12 57 36.417 0.225 Canarinho 12 57 27.083 0.277 Pixaroné (Pixoroné) 11 52 24.909 0.291 Pomba 11 52 21.545 0.310 Piriquito Barroso 11 52 26.636 0.273 Cafezinho 11 52 34.636 0.215 154 Jacutinga 11 52 25.545 0.308 Maracanã 11 52 34.000 0.212 Sicuíra 11 52 38.909 0.186 Tucano 11 52 28.364 0.262 Galo Da Campina 11 52 30.273 0.276 Taiamã 11 52 31.455 0.221 Japú 11 52 29.364 0.225 Passarinho Preto 11 52 33.818 0.231 Quá 11 52 29.727 0.240 Urubu 10 48 27.300 0.262 Socó 10 48 13.800 0.324 Gaivota 10 48 33.100 0.167 Coruja 10 48 31.700 0.195 Bica De Prata 10 48 20.500 0.267 Biuatinga 10 48 26.400 0.268 Sarí (Araçari, Laçari) 9 43 35.000 0.181 Pato 9 43 20.778 0.240 Curicaca 9 43 38.444 0.130 Bico Curto 9 43 30.556 0.214 Tabuiaiá 8 38 27.125 0.206 Gavião Caramujeiro 8 38 44.000 0.101 Nandaia 8 38 28.125 0.152 Sanhaço 8 38 29.375 0.168 Carão 8 38 47.000 0.120 Frango Dágua 8 38 26.625 0.205 João Pinto 8 38 20.625 0.235 Arara Amarela 7 33 40.143 0.097 Arara Azul 7 33 39.857 0.100 Caburezinho 7 33 44.857 0.091 Urutau 6 29 40.167 0.040 Garça Real 6 29 31.500 0.146 Curió 6 29 36.667 0.137 Arara 6 29 14.500 0.218 Vira Unha 6 29 48.667 0.056 Ema 6 29 28.667 0.164 155 Socó Boi 6 29 32.000 0.162 Seriema 6 29 18.500 0.169 Graia 6 29 51.167 0.068 Pomba Trocá 6 29 32.333 0.150 Pavãozinho 6 29 31.667 0.135 Xexéu 5 24 38.200 0.084 João Curutu 5 24 39.800 0.085 Tem-Tem 5 24 34.200 0.132 Pica-Pau 5 24 37.000 0.106 Gavião 5 24 23.200 0.133 Coriango 5 24 46.200 0.064 Massa Barro Do Campo 5 24 24.000 0.157 Jacú 5 24 17.000 0.162 Socó Galinha 5 24 37.200 0.116 Muié Véia 5 24 45.800 0.062 Japuíra 4 19 22.750 0.113 Chico do Capão 4 19 40.250 0.062 Bilro (Birro) 4 19 54.000 0.061 Macamã 4 19 57.000 0.022 Anu Preto 4 19 27.750 0.103 Gavião Pinhé 4 19 48.250 0.041 Peito De Moça 4 19 36.750 0.106 Pato do Mato 4 19 27.500 0.102 Arara Vermelha 4 19 36.750 0.057 Chama Chama 3 14 30.000 0.071 Perdiz 3 14 38.333 0.039 Bico De Prata 3 14 14.667 0.087 Alma De Gato 3 14 54.667 0.009 Marriquitinha 3 14 32.667 0.063 Patinho Dágua 3 14 42.000 0.043 Cardeal 3 14 27.000 0.066 Gavião Preto 3 14 58.667 0.029 Morcego 3 14 26.000 0.051 Nhana Cocá 3 14 21.667 0.092 Martim-Pescador Pequeno 3 14 63.667 0.028 156 Sao Joãozinho 3 14 29.667 0.082 Marrequinha 3 14 27.000 0.091 Garça Morena (Maria Faceira) 3 14 29.333 0.063 Pardal 3 14 31.333 0.082 Anú Branco 3 14 32.000 0.066 Pixui 2 10 20.000 0.073 Baitaca 2 10 41.000 0.023 Jacucaca 2 10 19.500 0.056 Pixuita 2 10 35.500 0.037 Urubu Branco 2 10 31.500 0.060 Gavião Real 2 10 45.000 0.039 Tico Tico 2 10 39.500 0.047 Bem-Te-Vi Monta Cavalo 2 10 38.500 0.037 Batuíra 2 10 41.000 0.010 Nambú 2 10 15.000 0.068 Garça Cinzenta 2 10 36.000 0.040 Pardalzinho 2 10 19.000 0.056 Chora Chuva 2 10 47.000 0.029 Gavião Carijó 2 10 50.500 0.023 Pinhé 2 10 60.000 0.027 Papagaio Trombeteiro 2 10 57.500 0.025 Rola Cinzenta 1 5 36.000 0.014 Martim Do Barranco 1 5 12.000 0.027 Curió Branco (Coleira Branca) 1 5 13.000 0.038 Coruja Do Peito Branco 1 5 41.000 0.010 Ararinha Verde 1 5 25.000 0.029 Coruja Buraqueira 1 5 42.000 0.009 Curicaca Cinza 1 5 43.000 0.015 Anuzinho 1 5 60.000 0.001 Pioró 1 5 14.000 0.035 Quem Quem 1 5 36.000 0.004 Pica Pau Da Cabeça Amarela 1 5 29.000 0.021 Curió Cor De Canário 1 5 12.000 0.039 Pomba Da Embauveira 1 5 41.000 0.016 Biguá 1 5 5.000 0.044 157 Gavião Có 1 5 57.000 0.004 Anú 1 5 36.000 0.014 Garça Boiadeira 1 5 36.000 0.020 Krikiri (criquiri) 1 5 41.000 0.008 Pica-Pau De Cabeça Vermelha 1 5 44.000 0.005 Curió Marronzinho 1 5 10.000 0.041 Canarinho Amarelo 1 5 6.000 0.044 Canário da Terra 1 5 18.000 0.032 Curió Preto com costa branca 1 5 11.000 0.040 Garça Carrapateira 1 5 35.000 0.017 José Fita 1 5 18.000 0.023 Marreca Sinharinha 1 5 25.000 0.013 Pato Brabo 1 5 26.000 0.012 Pomba Rola 1 5 12.000 0.031 Coruja De Orelha 1 5 40.000 0.010 Jacú Goela 1 5 16.000 0.030 Anú Canjiqueiro 1 5 59.000 0.002 Pato De Casa 1 5 9.000 0.036 Piriquito Peito Branco 1 5 19.000 0.037 Batuíra Pernilongo 1 5 47.000 0.004 Batuíra Colerinha 1 5 48.000 0.003 Gavião Marrom 1 5 55.000 0.005 Oleiro 1 5 31.000 0.030 Garça Pequena 1 5 36.000 0.028 Garça Grande 1 5 37.000 0.027 Bemtevizinho 1 5 45.000 0.013 Tesoureiro 1 5 29.000 0.006 Japú Preto 1 5 22.000 0.028 Nambu chintã 1 5 18.000 0.027 Ararinha 1 5 40.000 0.001 Corujinha 1 5 82.000 0.001 Andorinha pequenininha 1 5 28.000 0.022 João Congo 1 5 39.000 0.022 Pavão 1 5 42.000 0.021 Garça Fita 1 5 7.000 0.044 158 Rola Branca 15 37.000 0.013 Xuí 1 5 23.000 0.035 Chico Cartão 1 5 69.000 0.008 Pombinha 1 5 46.000 0.021 Trinca ferro 1 5 75.000 0.004 Pomba Apaga Fogo 1 5 79.000 0.002 Coriango Rebuçado 1 5 46.000 0.003 Rola 1 5 19.000 0.027 Batuirinha 1 5 29.000 0.015 Pica Pau 1 5 18.000 0.035 Bico De Agulha 1 5 13.000 0.040 Graia Cinza 1 5 16.000 0.038 Graia Branca 1 5 17.000 0.037 Bebe Ovo 1 5 41.000 0.022 Piriquito Nandaia 1 5 54.000 0.014 Urubu Cabeca De Sola 1 5 61.000 0.009 Chapéu Véio 1 5 70.000 0.003 As etnoespécies constam somente os nomes populares em função de ter sido trabalhado apenas o conhecimento tradicional, onde uma espécie poderá obter mais de uma denominação em etnoespécie, respeitando o nome de acordo com a pronúncia citada e não houve avistamento das espécies para identificá-las cientificamente. 159 ANEXO II FRAGMENTOS DO DIÁRIO DE CAMPO “Hoje fui pescar sauá (um peixe pequenino), com Darlan, um garoto de quatro anos, que insistiu para fazer uma pescaria comigo. Fomos pescar no barranco do rio Cuiabá, no porto de um das vizinhas da casa dele (ele disse que gostava de pescar ali, porque a dona do porto cevava os peixinhos com resto de comida, quando lavava as vasilhas). A isca que ele utilizava era uma massa de trigo com água, como se fosse massinha de pão, feito pela sua vó, dona Ursolina. O anzol parecia meio capenga (ele levou dois anzóis, pois eu não tinha “petrechos” de pescaria). Após pegarmos sete peixinhos e deixarmos guardados em um tamborete, daqueles que são reutilizados de algum recipiente de acondicionar produto químico. Quando a pescaria estava quase findando, lá pelas quatro da tarde, ele deu uma olhada geral nos pescados e começou a soltar vários peixinhos. Daí indaguei: - O que houve que você está jogando quase todos os peixinhos de volta na água? Tá acabando com nossa pescaria... Ele respondeu: - Tão todos fora da medida. Não pode comer peixe fora da medida. Enfim, restaram três peixinhos na medida... Naquele momento comecei a compreender as regras éticas das práticas, onde até as crianças já estavam com aquele conhecimento internalizado e com o discurso da sustentabilidade. Darlan limpando o peixinho da pescaria. Imagem: Acervo: Ruth Albernaz. 160 ANEXO III Ninho no caminho para a roça de uma família. Foto: Ruth Albernaz, 2009. Ninho de Massa Barro do Campo, em frente uma das residências da comunidade. Foto: Ruth Albernaz, 2009 161 Ninho de japus, em frente a uma residência. Foto: Ruth Albernaz, 2009. Ninho de Massa Barro, na margem do Rio Cuiabá. Foto: Ruth Albernaz, 2009. 162 ANEXO IV Fragmento de “Palavras Formosas” do Mito de Criação Guarani, extraído do livro “Tupã Tenondé: A criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani” de Kaká Werá Jecupé, 2001. Nosso Pai Primeiro Criou-se por si mesmo Na Vazia Noite iniciada. Da divina coroa irradiada Flores plumas adornadas Em leque Em meio às flores plumas floresce A coroa-pássaro Do pássaro futuro, Luz veloz Que paira Em flor e beijo, Que voa não voando. Nosso Pai Primeiro criava Futuro colibri, no curso de sua evolução, seu divino corpo. Existia no entanto em meio aos primeiros Ventos Futuros Como coruja dentro da noite primeira Olha-se revoando Seu futuro firmamento, sua futura terra, Brisas surgidas Enquanto colibrizava vidas Dos ventos produzidos do Imanifestado que fora: Um colibri. 163 ANEXO V FONTES ORAIS DESTE TRABALHO „RIBEIRINHAS E RIBEIRINHOS PANTANEIROS DE CUIABÁ MIRIM‟