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Aula 5   Pesquisa da Variação Sociolinguística Diatópica

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CEDERJ – CENTRO DE EDUCAÇÃO SUPERIOR A DISTÂNCIA 
DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO 
 
CURSO: Letras DISCIPLINA: Português VIII 
 
CONTEUDISTAS: Ana Cláudia Machado Teixeira 
 Luciana Sanchez Mendes 
 Nadja Pattresi de Souza e Silva 
 José Carlos Gonçalves 
 
 
Aula 5 – Pesquisa da Variação Sociolinguística Diatópica 
 
Meta 
Nesta aula, apresentamos a importância dos estudos da variação linguística diatópica e do 
reconhecimento da língua como um sistema vivo influenciado pelas relações culturais da 
comunidade linguística de um dado espaço geográfico. 
 
Objetivos 
 
Esperamos que, após o estudo do conteúdo desta aula, você seja capaz de: 
 
1. Reconhecer e identificar a variabilidade da língua em função de seus contextos de uso 
responsáveis pelos regionalismos e falares locais; 
2. Refletir criticamente sobre o uso da língua como representante dos costumes e da cultura 
de determinada região; 
3. Constatar que as diferenças se localizam nas formas de pronúncias das palavras, no uso 
de diferentes vocábulos e nas estruturas sintáticas entre as regiões geográficas; 
4. Compreender que as diferenças não representam valores, portanto não devem ser alvo de 
preconceito linguístico. 
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Introdução 
 
A língua natural é um sistema vivo e, por essa razão, ela se modifica, se matiza, se 
diversifica. Tais características são compreendidas como a variabilidade natural da língua e, 
nesta aula, estudaremos uma modalidade de variação: a diatópica (do grego “dia” = através 
de + “topos” = lugar). 
 
Em se tratando da língua portuguesa, um primeiro recorte geográfico que podemos 
promover é entre os falares do Brasil e de Portugal. As variantes fonético-fonológicas, 
lexicais, morfológicas e sintáticas entre esses falares ressaltam o quanto o espaço 
geográfico impacta e marca comunidades linguísticas. Por exemplo, podemos citar a 
diferença na pronúncia tanto das vogais átonas quanto das tônicas que aqui são claramente 
pronunciadas e, em Portugal, costuma-se "eliminar" as vogais átonas, pronunciando bem 
apenas as vogais tônicas, como em esperança > esp'rança. Com relação a variantes 
lexicais, ressaltamos as do tipo fila/bicha, banheiro/casa de banho, trem/comboio, 
moça/rapariga, ponto de ônibus/paragem, pedestre/peão e tantas outras. Além disso, na 
variedade não-padrão do português do Brasil, há uma simplificação da morfologia verbal 
que fica reduzida a duas pessoas: a 1ª do singular e as demais, como em: eu como e 
tu/ele/nós/vós/eles come, enquanto que, em Portugal, mantém-se uma morfologia mais 
variada/diversificada. No que se refere à sintaxe, em Portugal, usam-se, com mais 
frequência, os pronomes clíticos (eu o promovi), enquanto, no Brasil, é mais comum o uso 
do pronome pessoal nominativo em função acusativa: eu promovi ele. 
 
Como se pode perceber, diferenças geográficas marcam culturalmente comunidades 
linguísticas. É importante lembrar, conforme estudamos na aula sobre a formação do 
léxico, que o português foi estabelecido como língua oficial do Brasil em 17 de agosto de 
1758 por meio do Diretório de Marques de Pombal, proibindo-se o uso da língua geral. 
Nessa altura, devido à evolução natural da língua, o português falado no Brasil já tinha 
características próprias que o diferenciavam do falado em Portugal. 
 
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INÍCIO DO VERBETE 
Conforme Rodrigues (1996) aponta, língua geral é um termo que especifica determinada categoria 
de línguas oriundas da América do Sul nos séculos XVI e XVII em condições especiais de contato 
entre europeus e povos indígenas. Tal termo recebeu sentido bem definido no Brasil nos séculos 
XVII e XVIII, quando passou a designar as línguas de origem indígena faladas por toda a população 
originada no cruzamento de europeus e índios tupi-guaranis (especificamente os tupis em São Paulo 
e os tupinambás no Maranhão e Pará), a essa população foi se agregando um contingente de origem 
africana e contingentes de vários outros povos indígenas, incorporados ao regime colonial, em geral 
na qualidade de escravos ou de índios de missão. 
FINAL DO VERBETE 
 
Nesse sentido, afirmamos que língua é identidade. Não iremos nos aprofundar nessa 
questão já que refletimos sobre esse tópico na aula 04. Convém ressaltar, entretanto, que 
essa identidade, dentre outros fatores, deve-se ao fato de que “a inserção de qualquer 
falante na língua é sempre altamente pessoal, circunstancial, e isso faz da língua um fator 
de identificação muito eficaz; […] as pessoas se identificam com uma língua, ou se 
identificam entre si através de uma língua” (ILARI, 2004). 
 
Embora nossa língua seja altamente organizada, é variável, ou seja, é um sistema flexível. 
Dessa forma, nenhuma língua viva é fixa, fechada ou sólida. No Brasil, em que a língua 
portuguesa é o único idioma oficial, a língua pode sofrer diversas alterações feitas por seus 
falantes. O português que é falado no Nordeste do Brasil pode ser diferente do português 
falado no Sul do país. Obviamente, um idioma nos une, mas as variações podem ser 
consideráveis e justificadas de acordo com a comunidade na qual se manifestam. 
 
Calcula-se que existem mais de 200 milhões de pessoas que falam português em todo o 
mundo. Difícil manter uma uniformidade dentro dessa diversidade, certo? 
 
Dentro dessa diversidade toda não existe uma unidade linguística. Só no Brasil, temos por 
volta de duzentas línguas faladas em diversas partes do país, temos sobreviventes das 
antigas nações indígenas e comunidades de imigrantes estrangeiros que até hoje mantêm 
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viva a língua de seus ancestrais. Essa constatação refere-se apenas à diversidade do 
português em função das diversas línguas aqui faladas, apesar de predominar a ideia de que 
o português do Brasil é monolíngue. Imagine se compararmos com o português europeu, as 
variedades do português africano... 
 
Você conhece alguma pessoa brasileira que tem um sotaque diferente? Como é o sotaque? 
Já se perguntou de onde ele herdou essa maneira de falar? Você sabe por que as pessoas 
falam de diferentes maneiras? 
 
Citando um exemplo regional mais específico, notamos que o português falado em algumas 
cidades do interior do estado de São Paulo e de Minas Gerais pode ganhar o estigma 
pejorativo de incorreto ou inculto, mas, na verdade, essas diferenças enriquecem esse 
patrimônio cultural que é a nossa língua portuguesa. 
 
Observe o quadrinho do site HumorTadela e veja como essa variação linguística pode 
ocorrer: 
 
 
 
Nesse caso, há, na fala do personagem, um exemplo comum de variação linguística. É 
importante ressaltar que o código escrito, ou seja, a língua sistematizada e 
convencionalizada na gramática, geralmente não sofre grandes alterações, uma vez que é 
preservada. 
 
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Isso acontece em função de uma pressão por estabilidade porque não podemos decidir 
aleatoriamente como falamos. Se, de um lado, a variabilidade é um processo intrínseco a 
uma língua natural, de outro, a comunicação precisa ser estabelecida e, para isso, não 
podemos prescindir de um sistema linguístico determinado por certas regras que visam a 
possibilitar a comunicação. Contudo, o que o desenhista da tira fez pode ser compreendido 
como expressividade de um determinado falar, já que ele reproduziu, para a modalidade 
escrita, a variação linguística presente na modalidade oral. 
 
2. Variação geográfica 
 
A variação geográfica é a mais conhecida e fácil de identificar, é a variante de uma 
determinada região, chamada também de variação diatópica. É marcada por distinções na 
pronúncia das palavras, no uso de diferentes vocabulários e nas estruturas sintáticas. 
 
No