Aula 01
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Aula 01


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Meta da aula 
Apresentar a linguística gerativa como ciência 
dedicada ao estudo da dimensão cognitiva da 
linguagem humana.
Esperamos que, ao fi nal desta aula, você seja 
capaz de:
1. identifi car a abordagem cognitiva das línguas 
naturais; 
2. reconhecer as noções de faculdade da 
linguagem e de conhecimento linguístico; 
3. caracterizar teoria linguística, psicolinguística 
e neurolinguística como ciências cognitivas 
dedicadas ao estudo da linguagem na mente 
humana; 
4. caracterizar o gerativismo como o principal 
modelo de teoria linguística nas ciências 
cognitivas; 
5. identifi car Noam Chomsky como precursor 
e principal teórico do gerativismo.
Linguagem é coisa da sua 
cabeça: as línguas humanas 
como fenômeno cognitivo
Eduardo Kenedy
Ricardo Lima 1AULA
Linguística II | Linguagem é coisa da sua cabeça: as línguas humanas como fenômeno cognitivo
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Você, como estudante do curso de Letras, já pode ter direcionado, em algum 
momento, a sua curiosidade intelectual para questões como as seguintes. 
ALGUMAS QUESTÕES SOBRE A LINGUAGEM
 Todos os seres humanos, exceto aqueles acometidos por algu-
ma grave patologia, possuem a faculdade de produzir e compreender 
expressões linguísticas nas inúmeras situações do cotidiano que envol-
vem comunicação através de uma língua natural, como o português, 
o espanhol, o inglês ou qualquer outra. O que é afi nal essa faculdade 
para a linguagem? 
INTRODUÇÃO 
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Fonte: http://farm3.static.fl ickr.com/2317/2352128932_d4e84644ba.jpg
 Bebês humanos não demonstram, ao nascimento, capacidade 
de produzir e compreender palavras, frases ou discursos, mas, ao longo 
de um tempo muito curto, não superior a três anos, essa faculdade já 
se manifesta de maneira bastante produtiva. Por volta dos cinco anos, 
uma criança já demonstra habilidade linguística equivalente à de adultos. 
O que acontece com a criança durante o período em que ela está adqui-
rindo a língua de seu ambiente? 
 Já na adolescência, a capacidade de adquirir uma língua de 
maneira natural decai signifi cativamente. A partir de então, aprender uma 
nova língua envolve esforços conscientes que não acontecem durante a 
aquisição da linguagem em tenra infância, tais como frequentar cursos, 
ler manuais didáticos e dicionários, treinar a fala, corrigir erros com 
ajuda de professores etc. Por que aprender línguas estrangeiras é tão 
diferente de adquirir uma língua-mãe?
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 Quando estamos desconcentrados ou muito cansados, nossa 
capacidade de produzir e compreender enunciados linguísticos pode 
fi car prejudicada. Pessoas que sofreram derrames cerebrais ou que são 
acometidas por doenças neurológicas graves podem perder a capacidade 
linguística parcial ou totalmente. O que acontece na mente e no cérebro 
das pessoas quando elas usam a linguagem verbal? 
Questões como essas são formuladas quando temos a preocupação 
de entender aspectos da linguagem que estão relacionados à inteligência 
humana, à nossa cognição. Cognição é um termo científi co atualmente 
utilizado para fazer referência ao conjunto das inteligências humanas 
(ou não humanas, no caso dos estudos de certos animais). Cognição 
diz respeito, portanto, a tudo que se relacione a aquisição, estocagem, 
recuperação e uso de CONHECIMENTO. Além da linguagem, são também 
fenômenos cognitivos: percepção, atenção, memória, conceitos, crenças, 
raciocínio, emoções, tomadas de decisão, dentre outros. Logo, as questões 
apresentadas acima emergem quando interpretamos a linguagem como 
fenômeno cognitivo.
Se você se interessou por questões como essas, seja bem-vindo à 
Linguística II. É justamente nesta disciplina que abordaremos a linguagem 
humana tendo em conta a sua dimensão cognitiva, ou seja, é aqui que 
analisaremos a linguagem como conhecimento, como parte da inteligência 
dos seres humanos, algo existente em nossas mentes. Nosso objetivo no 
curso é levar você a identifi car as principais perguntas e as principais res-
postas que vêm sendo formuladas pela ciência da linguagem na sua tarefa 
específi ca de entender como a mente humana produz as línguas naturais. 
Nossas primeiras dez aulas serão dedicadas à caracterização da lin-
guagem, fi gurada nas línguas específi cas (o português, o alemão, o árabe etc.) 
como sistema cognitivo. Colocaremos a linguagem sob o microscópio da 
linguística para melhor compreender a natureza e o funcionamento do conheci-
mento linguístico humano. Começaremos pela presente aula, em que apresen-
taremos a você a linguagem como fenômeno da cognição humana e a linguísti-
ca gerativa como uma das ciências cognitivas. As dez aulas seguintes abordarão 
questões relativas ao fenômeno da aquisição da linguagem e aos problemas 
de desenvolvimento linguístico. Analisaremos como as crianças adquirem o 
conhecimento linguístico, como podem acontecer difi culdades no processo 
de aquisição e de que forma, em circunstâncias excepcionais, esse conheci-
mento pode ser perdido.
O termo CONHECI-
MENTO diz respeito 
ao estado mental de 
uma pessoa, o qual 
resulta da interação 
dessa pessoa com o 
seu mundo exterior, 
no meio físico 
e social. 
Linguística II | Linguagem é coisa da sua cabeça: as línguas humanas como fenômeno cognitivo
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Convidamos você para uma breve jornada pela mente humana, 
num de seus nichos mais espetaculares: a linguagem e as línguas naturais. 
Prepare-se, pois a nossa viagem já começou. 
A LINGUAGEM COMO FENÔMENO COGNITIVO
A linguagem humana, instanciada numa língua natural, é um 
fenômeno impressionante. Por meio de algumas dúzias de sons, podemos 
produzir e compreender palavras, frases e discursos que expressam os 
nossos pensamentos e que permitem o entendimento dos pensamentos 
das outras pessoas. Na verdade, tais sons podem ser substituídos por 
sinais entre os surdos ou por letras na língua escrita sem que o poder 
mobilizador da linguagem seja signifi cativamente alterado.
Imagine a seguinte situação. Uma pessoa apressa-se pelas ruas 
movimentadas do centro de uma cidade. Ela receia estar atrasada para 
um compromisso importante. Procurando informar-se sobre as horas, 
dirige-se a um transeunte e lhe diz: \u201cCom licença, o senhor pode me 
informar as horas?\u201d. O transeunte, por sua vez, compreende o estado 
mental de seu interlocutor e busca o comportamento adequado para a 
situação: olha o relógio de pulso, retira dele a informação necessária e 
produz a frase-resposta \u201cSão dez e meia\u201d. Um evento trivial como esse 
esconde sob si um acontecimento extraordinário: o funcionamento da 
mente humana na tarefa de produzir e compreender expressões linguís-
ticas numa LÍNGUA NATURAL (por oposição às LÍNGUAS ARTIFICIAIS). 
Uma LÍNGUA NATU-
RAL, como o portu-
guês, o xavante, o 
japonês, o inglês ou 
qualquer outra das 
mais de seis mil hoje 
existentes no mundo, 
é aquela que emergiu 
de maneira espontâ-
nea e não deliberada 
no curso da história 
humana. Opostas 
às línguas naturais 
fi guram as línguas 
artifi ciais.
LÍNGUAS ARTIFICIAIS, 
como o esperanto 
e aquelas criadas 
em obras de fi cção 
ou em programas 
de computador, são 
conscientemente 
inventadas por uma 
pessoa ou por um 
grupo de indivíduos. 
Se você viu o famoso 
fi lme Avatar, deve 
lembrar do \u201cnavi\u201d, 
a língua falada pelos 
personagens. Pois 
bem, o navi é um 
exemplo de língua 
artifi cial. Ela foi 
inventada pelos 
criadores do fi lme. 
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Embora raramente tenhamos consciência disso, \u201ca pessoa que 
produz frases e discursos\u201d envolve-se numa tarefa psicológica extrema-
mente complexa.