A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
9 pág.
A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA AUTONOMIA PRIVADA

Pré-visualização | Página 1 de 4

A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA AUTONOMIA PRIVADA
 
 
 
Página 
A INTERVENÇÃO DO ESTADO NA AUTONOMIA PRIVADA
Doutrinas Essenciais de Direito Civil | vol. 2 | p. 523 - 533 | Out / 2010
DTR\2012\1494
	
ANTÔNIO JOSÉ MARQUES NETO 
Professor de Direito Civil da Faculdade de Direito da Universidade de Salvador. Advogado. 
 
Área do Direito: Civil
Sumário:  
- 
 
Revista de Direito Civil • RDCiv 37/73 • jul.-set./1986
Pondo, ao largo,1 o que, talvez, fosse o primeiro aspecto da questão a ser tratada, que é o da crítica ao uso da expressão autonomia privada, no sentido do poder de autodeterminação da pessoa individual, ao argumento de que não corresponde ao seu sentido etimológico, nomos=lei e auto=próprio, mesmo, devo dizer-lhes que este é, sem dúvida, um dos mais apaixonantes temas em que se ferem as mais acalarodas discussões, no mundo jurídico, de hoje, por implicar na questão do exercício da própria liberdade do homem; envolvendo os aspectos dos seus limites e parâmetros, além do fato de a vontade individual ser ou não, ou em sendo, em que medida o é, fonte jurígena de direitos e obrigações das partes, fixados em uma dada relação jurídica. Por sobre isto, retoma a antiga discussão dos interesses e direitos individuais vs. interesses e direitos coletivos ou da sociedade.
Assim, não é de se desprezar, ao início desta conversa, que se remonte a um instante anterior, em que, antes mesmo de colocar a formulação da autonomia privada, sobreleva-se a pedra angular do ordenamento jurídico, o dogma da vontade, o princípio da autonomia da vontade, a figura do negócio jurídico.
Quer queiram quer não alguns juristas da mais expressiva proeminência do País, a mim parece-me que não se pode negar o reflexo do liberalismo econômico, do sistema do “laissez-faire, laissez-passer“ na ordem jurídica, estimulando ou dando estrutura ao chamado voluntarismo jurídico.
Neste passo, vale socorrermo-nos de Leonardo Weiss em seu Fundamentos de economia – Enfoque Econômico-Social, ao referir-se às origens de liberalismo econômico.
Diz ele: “No decorrer de 1700, o mercantilismo havia caído em desuso. A regulamentação centralizada se prestava à corrupção…Uma vez e outra, os regulamentos resultaram ser um obstáculo para o progresso econômico. Na realidade, as regras eram violadas com freqüência e, durante o processo, muitos homens de negócios honrados se converteram em infratores, ansiosos e sistemáticos”.
“Na França, um grupo de pensadores conhecidos como os fisiocratas, atacou o mercantilismo e exigiu uma nova política econômica. Conta-se que um deles, quando o monarca solicitou seu conselho, em matéria de economia, respondeu: “laissez-faire, laissez-passer“, querendo dizer que o rei devia deixar que toda a gente fizesse o que quisesse e fosse para onde bem lhe parecesse”.
Olhando o reverso da medalha, pois assim vejo a ordem jurídica e a ordem econômica, podemos compreender melhor toda à extensão dos ensinamentos de Stolfi, na sua obra Teoria do Negócio Jurídico, ao enfatizar: “o que há muitos séculos constitui o sinal distintivo do Direito Civil é o respeito escrupuloso à autonomia da vontade individual, entendida em seu mais amplo significado”.
“Para que os homens possam conviver uns com os outros e, por tanto, estreitar os laços familiares que dão sentido à vida ou intercambiar bens ou serviços que permitam facilitar sua existência, sem sentirem-se estorvados, pela vida de seus semelhantes, é necessário, que cada um deles possa agir como entende conveniente, qualquer que seja o estímulo ou a ocasião. Possa empregar como queira a sua própria atividade, sofrendo os danos ou desfrutando as vantagens das determinações adotadas e, nisso se compêndio a liberdade humana; assim a pessoa deve ser árbitro de obrigar-se ou não, de adquirir ou não direitos”.
Adiante, Stolfi, retomando a noção de que a figura do negócio jurídico foi delineada pelos jusnaturalistas alemães, nos fins do Século XVIII, continuada pelos pandectistas, levanta a possibilidade da pergunta de como foi possível uma semelhante e surpreendente concordância de pensamento entre os filósofos e juristas daquela época, sobretudo quando os últimos não perseguiam outro fim que o de fazer desaparecer a ideologia de um direito eterno e racional, impulsionado pelos primeiros, para contrapor-lhe a historicidade do direito positivo.
A resposta, diz Stolfi, “surge do fato de que jusnaturalistas e pandectistas viveram um dos períodos mais brilhantes do pensamento humano, quando florescia a idéia de liberdade, que dominou seu espírito e guiou suas investigações, a base da normal coincidência das doutrinas jurídicas q da ideologia social e política da mesma época”.
E arremata: “Assim, os primeiros fizeram valer a onipotência da vontade individual, também no campo do Direito, especialmente como impedimento à prepotência do príncipe. E, os segundos, remontados e desenvolvendo a doutrina dos justianeus de que o efeito jurídico dos fatos humanos depende diretamente da vontade individual, terminaram por criar um sistema de direito privado fundado na liberdade dos particulares e, no centro do mesmo, puseram o negócio jurídico, concebido como paradigma típico da manifestação de vontade, da qual deriva o nascimento, a modificação ou a extinção de uma relação pessoal ou patrimonial”.
Não seria pois de se estranhar que toda essa chama de liberdade, que os ideais libertários da época, ensejassem a formulação daquela teoria que se sintetiza, em conceitos de negócio jurídico como sendo:
• a atuação da liberdade do particular na esfera do Direito (Hugo);
• a atuação da força criadora da vontade privada no campo do Direito (Windscheid);
• a determinação autônoma no Campo do Direito (Dernburg).
Por isso, é que Stolfi vai ressaltar que a figura do negócio jurídico “se afirmaria não como uma simples noção técnica, mas sim como a conseqüência do princípio político da autonomia da vontade“.
É próprio, nesse passo, que, dentro dessa visão panorâmica, e, em sendo contrato a melhor expressão do negócio jurídico, recolhamos, em uma visão tópica, a advertência de Miguel Reale, quando assinala que:
“O contrato é uma das grandes conquistas da civilização humana, fruto de uma longa evolução histórica, conquista essa da qual não devemos abrir mão”.
“O contrato diz respeito ao homem na expressão de sua vontade, diante da vontade do outro, com o qual ele estabelece uma solução que atenda a ambas as partes”.
É oportuno, agora observarem-se as colocações de Federico de Castro y Bravo em sua obra O Negócio Jurídico, quando, sob o título a Mercantilização do Direito Privado, mostra que o princípio da autonomia privada é concebido pelo Século XIX, como um dogma científico, apoiado no da evolução darwiniana. O progresso da Humanidade, diz-se, é o passo cada vez mais completo do status para o contrato. Destaca que: “O variar da circunstância sócio-econômica leva a que, já no mesmo pandectismo (da segunda geração), se dê um novo sentido à soberania da vontade. O direito se “comercializa” e se postula a necessidade de atender com preferência “a segurança do comércio jurídico”. Mantém-se, nominalmente, o dogma da vontade, mas, já não como expressão de respeito à liberdade individual, mas, sim como um eficaz instrumento para o desenvolvimento do comércio”.
Daí, com a decadência do voluntarismo jurídico, consoante registra Orlando Gomes, em seu livro As Transformações Gerais nos Direitos das Obrigações, tornou-se necessária a explicação da categoria dos negócios jurídicos fora do dogma da autonomia da vontade e se foi buscá-la no conceito da autonomia privada.
Cuida o ilustre mestre de assinalar, em sua obra Contrato de Adesão, que autonomia da vontade e autonomia privada não são expressões sinônimas, “significando a primeira que a vontade real ou psicológica é a raiz ou a causa dos efeitos jurídicos”. Acrescenta: “A partir do momento em que se passou a sustentar que a força de vontade deriva do Direito objetivo e não da própria vontade, tornando-se indiscutível que todo efeito jurídico