Economia sem Truques
150 pág.

Economia sem Truques


DisciplinaFundamentos da Economia12.823 materiais167.884 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de nascerem na
pobreza e não receberem ajuda para dela se desvencilhar.
Nossa defesa dos programas de redistribuição de renda não é uma defesa da tese de que todos os
cidadãos do mundo devem ganhar a mesma renda, ou ser igualmente beneficiados pelo
desenvolvimento econômico. Não defendemos que Bill Gates, ou Beyoncé, não possam, ou não
devam, ganhar muito mais que o cidadão médio em nome da equidade. O lema marxista \u201cde cada um
de acordo com suas capacidades, e a cada um de acordo com suas necessidades\u201d sugere que a renda
seja distribuída às pessoas sem considerar o que elas produziram, ou quanto trabalharam. Tratar a
produção do país como algo que pertence a todos e que deve ser repartido igualmente entre a
população gera os problemas dos bens públicos discutidos no capítulo anterior: se eu recebo uma
parte muito pequena dos frutos do meu próprio trabalho, faltam incentivos para trabalhar, e o
resultado é que todos trabalhamos e produzimos pouco. Em suma, não advogamos pela equidade de
resultados, mas pela equidade de oportunidades.
Algumas religiões acreditam que os que nascem miseráveis nesta vida estão pagando pelos erros
cometidos em outras vidas ou seguindo penas impostas pela vontade divina por outros motivos. Se
assim fosse, a entidade responsável pela alocação dos nascimentos pelo mundo estaria fazendo cada
um pagar o preço pelos seus atos passados, um sistema de preços \u201cinter-vidas\u201d estaria operando, e
não seria preciso intervenção humana para ajudar quem nasce na miséria.
Neste capítulo, nós partimos do pressuposto que isso não ocorre, que as crianças que nascem na
miséria estão pagando pela falta de oportunidades ou pelos erros de seus pais. Portanto, cabe a nós,
humanos, tomar ações diretas para combater a desigualdade de renda. Programas de transferência de
recursos para os pobres e de melhoria da qualidade de serviços públicos mais utilizados pelos mais
carentes, como educação básica e saúde, servem a esta função.
 
11. 289 dias
 
Em um clássico estudo realizado em 1983 no Peru, os pesquisadores do Instituto Liberdade e
Democracia se propuseram a descobrir quanto tempo e dinheiro seria necessário para um peruano
abrir seu próprio negócio, cumprindo todos os procedimentos burocráticos legais. Para tal, eles
simularam a montagem de uma pequena fábrica têxtil no subúrbio de Lima e se empenharam para
cumprir todos os procedimentos exigidos, sem intermediários ou despachantes, como um peruano de
origem humilde faria se quisesse abrir uma empresa obedecendo todos os requisitos da lei.
Os pesquisadores decidiram não pagar propina aos agentes do serviço público a não ser que esta
fosse a única maneira de continuar com o experimento. No processo que requeria 11 procedimentos
legais, por 2 vezes eles tiveram que pagar propina para seguir adiante, apesar de terem cumprido
todos os requisitos da lei. Em outras 8 ocasiões, eles conseguiram, com alguma dificuldade, se
desvencilhar dos pedidos de suborno.
O processo levou mais de 9 meses. Mais precisamente, foram necessários 289 dias para que enfim os
pesquisadores dessem a luz à documentação legal necessária para se constituir uma empresa no Peru.
Será que tanto tempo e trabalho geram benefícios para a sociedade? Difícil acreditar. Para se ter uma
ideia, apesar dos 289 dias e 11 requisitos legais, as autoridades não perceberam, em momento algum,
que estavam lidando com uma simulação.[7]
Em capítulos anteriores, mostramos os benefícios que a intervenção pública pode gerar quando há
falhas de mercado. Mas, como mostra o estudo do Instituto Liberdade e Democracia, não é só o
mercado que falha.
As intervenções públicas, tão importantes para corrigir as falhas de mercado, têm seus efeitos
negativos. Este capítulo trata justamente destas falhas, ou seja, aborda os problemas e custos que
podem decorrer da intervenção pública, mesmo quando há bons motivos para que ela seja
implementada.
Em termos gerais, os custos da intervenção governamental são de dois tipos. O primeiro e mais
direto diz respeito aos recursos retirados da sociedade pra prover os serviços governamentais. O
segundo refere-se às mudanças nos atos das pessoas provocadas pela intervenção do governo,
mudanças com impactos negativos para a economia.
Como vimos no capítulo 9, cobrar a taxa do congestionamento em Londres e fiscalizar o cumprimento
da lei não sai de graça. Qual o custo? Ao contrário do que pode parecer, o custo para a sociedade da
lei anti-congestionamento não é a taxa que as pessoas pagam para saírem com seus carros. Para
implementar a lei, o Estado precisa construir uma estrutura de cobrança e fiscalização, comprar
câmeras e equipamentos, contratar gente pra multar e arrecadar o imposto, etc. Esses gastos,
financiados com impostos, constituem o real custo social da intervenção do Estado.
O montante arrecadado com a taxa do congestionamento é suficiente para pagar todos esses custos e
ainda gerar algum excedente. O custo da implementação da lei é, portanto, menor que a soma de
dinheiro provinda da taxação. Sobra algum dinheiro para financiar outros gastos do governo, mas
estes outros gastos não são custos da taxa do congestionamento, são custos de outros programas
governamentais. Assim, se a prefeitura de Londres aumenta a taxa do congestionamento, mas nada
mais muda - não se compram novas câmeras, não se contratam novos funcionários - esse aumento da
taxa não altera em nada o custo da implementação da lei.
A segunda categoria de custos da intervenção \u2013 as mudanças nos atos das pessoas provocadas pela
intervenção do governo \u2013 não é menos importante. Assim como as leis podem mudar o
comportamento das pessoas para o bem da sociedade ao fazê-las internalizar os custos sociais, por
exemplo, cobrando pela emissão de poluição, as leis também podem incentivar escolhas que geram
custos para a sociedade. Vamos agora entender esses custos.
É fácil entender que se há corrupção, a construção de uma ponte sai mais cara para o contribuinte e,
portanto, o montante arrecadado pelo Estado compra menos pontes. Mas a corrupção causa outra
distorção: quando o roubo do dinheiro público é fácil e largamente praticado, alguns políticos vão
decidir suas prioridades de gasto público com base nas facilidades relativas de se roubar inerentes a
diferentes projetos. Por exemplo, é mais fácil roubar construindo pontes do que aumentando o salário
dos professores da escola pública. No primeiro caso, o corrupto pede uma comissão à empreiteira
para fechar o contrato e ponto final; no segundo é mais difícil desviar a verba orçamentária \u2013 como
convencer um grupo enorme de professores a pagar propina ao político em troca de aumento salarial
e esconder a informação? Os políticos que decidem onde gastar de olho no seu próprio bolso
tenderão, portanto, a escolher mais pontes e menos salários para professores do que a sociedade o
faria.
Além disso, se muitas pessoas e empresas acabam empenhando tempo e recursos para obter favores
dos \ufffd\ufffdrgãos públicos encarregados de fiscalizá-las, taxá-las e liberar-lhes permissões, ou então se
dedicando à tarefa de encontrar brechas nas intrincadas regulamentações, ao invés de investir tempo
e recursos para inovar, produzir e crescer, a economia como um todo sai perdendo, pois recursos que
poderiam ser utilizados produtivamente são canalizados para atividades que não geram riqueza,
apenas redirecionam recursos na sociedade.
Como mostra o estudo do Instituto Democracia e Liberdade, as regulamentações do Estado implicam
em custos para se abrir uma empresa. Um trabalho posterior, publicado em 2002, compara o tempo
necessário para se abrir uma empresa em diversos países, obedecendo todos os requisitos legais.
Sendo difícil e custoso simular aberturas de empresas em várias partes do mundo, este estudo se
baseou apenas em informações oficiais. Em vista disto, o tempo computado no estudo é
provavelmente menor do que na prática se levaria para abrir uma empresa. De todo modo, os
resultados
Francisco Carlos
Francisco Carlos fez um comentário
Daria para me enviar
0 aprovações
Francisco Carlos
Francisco Carlos fez um comentário
Daria para me enviar o pdf?
0 aprovações
Luan
Luan fez um comentário
daria pra me mandar o pdf por email?
0 aprovações
Jaciele
Jaciele fez um comentário
gostaria da resenha de um capitulo ou resumo
0 aprovações
Carregar mais