Capitalismo-Contemporaneo - Carlos-Burke-Ensaio
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Capitalismo-Contemporaneo - Carlos-Burke-Ensaio


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pois não era unificado como hoje, mas por 
Estado da Federação. 
Portanto, esse "valor" do salário-mínimo em dinheiro da época nada nos diz. Eu 
até hoje sei quanto ganhava quando ainda era menor de idade e recebia dois salários-
mínimos. Eu transformava tudo em cerveja (não que bebesse tudo, só como referência): 
dava para comprar 380 garrafas de cerveja na época - 1976. Viu, é só calcular, em 
dinheiro atual, o meu poder de compra à época. 
Atualmente, o salário-mínimo está em 350 reais. Aliás, o mesmo nome do 
dinheiro de 1940. Desde então nosso dinheiro passou por vários nomes, expressões 
diferentes: Real, Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzeiro novamente, Cruzados, URV 
(horrível, apenas um mês!) e Real. 
Alguns economistas pegam o salário-mínimo da época e vêm corrigindo pela 
inflação para saber quanto deveria ser em dinheiro atual. Fica uma comparação meio 
distorcida, pois teria que comparar os produtos que entravam na composição da 
produção da força de trabalho mais simples na época, com os produtos de hoje. Não 
podemos esquecer que o valor dos produtos ou o tempo de trabalho socialmente 
necessário para produzi-los, diminui com o aumento da produtividade. Essa inclusive é 
a forma de se aumentar a mais-valia relativa, o que trataremos no capítulo 4. 
 
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 Agora em 2010, quando faço a revisão do texto para colocá-lo no blog, a China já se tornou a segunda 
economia mundial. Quando publiquei o livro em 2006 a China era a 5ª economia mundial. 
 
 
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Vamos ver o que diz a Constituição Federal do Brasil sobre o salário-mínimo 
atualmente: 
 
Art. 7° São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem 
à melhoria de sua condição social: 
 
IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a 
suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, 
educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes 
periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para 
qualquer fim
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; 
 
O DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-
Econômicos) entidade mantida pelos sindicatos de trabalhadores, tem em seu escopo de 
atividades a realização de pesquisas sobre o valor do salário-mínimo em relação à 
Constituição. 
O DIEESE parte justamente do enunciado acima, art. 7°, Parágrafo IV, para 
estabelecer um "valor" do salário-mínimo em dinheiro corrente. Assim, atualmente, 
chegam à conclusão que o salário-mínimo, arredondando, deveria estar em torno de 
R$1.500,00 para fazer valer o texto Constitucional. O interessante é que esse valor 
suscita as discussões mais acaloradas, pois o salário-mínimo é só de R$350,00. Deveria 
ser então 328% a mais? 
Aí vêm as análises monetárias todas, das razões dessa disparidade. 
Qualquer pessoa de bom senso sabe que se elevar o salário-mínimo a esse valor 
da Constituição, os preços de todas as outras mercadorias subiriam imediatamente, 
voltando o poder de compra do salário-mínimo à condição anterior, já que compraria as 
mesmas coisas que comprava com R$350,00, o que compra agora com R$1.500,OO. 
Talvez comprasse até menos, pois tem uma peculiaridade com essa mercadoria 
especial, a força de trabalho. Primeiro a entregamos para depois recebermos. No Brasil, 
em média, botamos a mão no dinheiro com trinta dias. As outras mercadorias têm seus 
preços aumentados imediatamente. Quando pegamos nosso dinheiro, as mercadorias 
todas já subiram. Quem viveu o período inflacionário no Brasil sabe dos malabarismos 
para manter o poder de compra do dinheiro. Íamos ao supermercado e comprávamos 
tudo o que podíamos, estocando até embaixo da cama. 
Mas a diferença de R$1.500,00 para R$350,00 não está nas razões monetárias. É 
uma questão básica das relações históricas econômicas e sociais: o princípio da 
igualdade de valor, na troca de mercadorias. 
O enunciado da Constituição diz que o salário-mínimo deve suprir as 
necessidades básicas do trabalhador e sua família, que no Brasil compõe-se, em média, 
de dois adultos e duas crianças, com homem, mulher e dois filhos. Algumas famílias são 
mulher com mulher, homem com homem, mas vamos usar o padrão. 
Quando ofereço no mercado minha força de trabalho, ofereço a quem está 
interessado em sua utilidade: o capitalista. Portanto, está adquirindo apenas uma força 
de trabalho, a do trabalhador (homem ou mulher). Não há sentido econômico nas 
relações de troca entregar mais valor e receber menos. A família compõe-se de mais 
uma força de trabalho adulta e duas em potencial (as crianças), que o capitalista não está 
obtendo. 
 
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 http://www.planalto.gov.br/ccivil/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm 
 
 
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O salário-mínimo reflete, portanto, o valor de uma força de trabalho, na sua 
capacidade mais simples, de acordo com o grau de civilização da sociedade. 
Por que o capitalista pagaria por duas forças de trabalho adultas e mais duas em 
potencial, se está recebendo apenas uma? Não têm lógica, como princípio da troca 
"justa", no qual se confrontam proprietários dos dois lados, valor contra valor, direito 
contra direito. 
Mas, pelas características próprias das relações sociais capitalistas, continuamos 
achando que a exploração está no salário, na relação de troca com o capital. No capítulo 
sobre mais-valia, poderemos abordar nossa visão de onde está a exploração de fato. 
Portanto, o que não estaria de acordo? O enunciado da Constituição. Guarda 
ainda o reflexo cultural de que o trabalhador deva ganhar o suficiente para sustentar 
toda a família. Como vimos, sob o capitalismo, a família não tem mais nenhum sentido 
econômico. Cada força de trabalho tem que reproduzir a si mesma. 
 
Proponho então que mudemos a Constituição. Ficaria assim: 
 
Art. 7° São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem 
à melhoria de sua condição social: 
 
IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender 
(parte de) suas necessidades vitais básicas (...) com moradia, alimentação, educação, 
saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos 
que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim; 
(em que o salário-mínimo direto, pago pela empresa, não conseguir atender ao 
trabalhador em suas necessidades vitais básicas, deverá ser suprido com produtos e 
serviços públicos de qualidade, pagos pelos impostos arrecadados por toda a 
sociedade).
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Pronto, resolvido o problema do salário-mínimo. O capitalista não desembolsa 
mais com salário diretamente, o que geraria aumento de preços e a diminuição do poder 
de compra do trabalhador e teria ainda assim disponível uma força de trabalho de 
melhor qualidade, com "mais valor". 
Com uma simples alteração na Constituição poderíamos eliminar tanta discussão 
em torno do salário-mínimo e economizar ao DIEESE o dinheiro gasto com as 
pesquisas. Avançaríamos nas discussões econômicas sobre nossas mazelas históricas e 
poderíamos educar a população para a Cidadania, sobre efetivamente o que é 
distribuição de renda, sem essas falácias que quebraria a Previdência, as Prefeituras, 
etc., etc. 
Deixando um pouco a ironia de lado, estaríamos apenas adequando o texto 
Constitucional à realidade histórica. Mas entre a realidade histórica e sua representação 
social, ideológica, há uma distância enorme. 
Por falar em história, vamos tentar responder a segunda pergunta: 
Por que o salário-mínimo no Brasil é mínimo? 
Frisamos anteriormente que o salário-mínimo