SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do Desenvolvimento Econômico
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SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do Desenvolvimento Econômico


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de requerer qualquer
espécie de bens, requer poder de compra. É o devedor típico na sociedade
capitalista.95
A argumentação deve ser completada agora com a prova negativa
de que o mesmo não pode ser dito de qualquer outro tipo e de que
ninguém mais é devedor pela natureza de sua função econômica. Evi-
dentemente há na realidade muitos outros motivos para tomar ou con-
ceder empréstimos. Mas a questão é que a concessão de crédito não
aparece então como um elemento essencial do processo econômico. Isso
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95 O empresário também é um devedor num sentido mais profundo, como pode ser enfatizado
aqui; recebe bens da corrente social \u2014 em princípio \u2014 antes de ter contribuído para esta
com alguma coisa. Nesse sentido é, por assim dizer, um devedor da sociedade. São-lhe
transferidos bens aos quais ele não tem aquele direito que é a única coisa que, em outros
casos, dá acesso ao dividendo nacional. Cf. capítulo II.
vale antes de tudo para o crédito ao consumo. Desprezando-se o fato
de que o seu significado só pode ser limitado, ele não é um elemento
das formas e necessidades fundamentais da vida industrial. Não faz
parte da natureza econômica de nenhum indivíduo que deva contrair
empréstimos para o consumo nem da natureza de nenhum processo
produtivo que os participantes devam incorrer em dívidas para o pro-
pósito de seu consumo. Portanto o fenômeno do crédito ao consumo
não tem maior interesse para nós aqui, e, a despeito de toda a sua
importância prática, o excluímos de nossa consideração. Isso não im-
plica nenhuma abstração \u2014 reconhecemo-lo como um fato, apenas não
temos nada particular para dizer a respeito. Exatamente o mesmo
vale para os casos em que surgir uma necessidade de crédito somente
para a manutenção de um negócio que foi perturbado, talvez, por con-
tratempos. Esses casos, que reúno sob o conceito de \u201ccréditos consun-
tivos-produtivos\u201d, também não fazem parte da natureza de um processo
econômico no sentido de que o seu tratamento integra a compreensão
da vida do organismo econômico. Também não são aqui de maior in-
teresse para nós.
Uma vez que toda espécie de extensão de crédito para fins de
\u201cinovações\u201d é por definição a concessão de crédito ao empresário, e
constitui um elemento do desenvolvimento econômico, então a única
espécie de concessão de crédito que resta para ser considerada aqui é
o crédito para a condução de um negócio no fluxo circular (Betriebs-
kredit). Nossa prova será conseguida se pudermos explicá-lo como \u201cnão-
essencial\u201d, no sentido que lhe damos. O que importa isso então?
Vimos no capítulo I que não faz parte da natureza do fluxo circular
que o crédito (Betriebskredit) seja correntemente tomado e concedido:96
quando o produtor terminou seus produtos, então, segundo a nossa
concepção, os vende imediatamente e começa de novo a sua produção
com os resultados dessa venda. Seguramente as coisas não ocorrem
sempre assim. Pode ser que ele deseje começar a produzir antes de
ter entregue os produtos ao seu freguês. Mas o ponto decisivo é que
podemos, sem deixar de lado nada de essencial, representar o processo
dentro do fluxo circular como se a produção fosse financiada corren-
temente pelas receitas. O crédito na rotina ordinária do negócio esta-
belecido deve sua importância prática somente ao fato de que há de-
senvolvimento e de que esse desenvolvimento carrega consigo a pos-
sibilidade de empregar somas de dinheiro que estão temporariamente
ociosas. Assim, todo homem de negócios tirará proveito dessas receitas
tão pronto quanto possível e depois tomará emprestado o poder de
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96 Deve-se esperar que o leitor não vá confundir esse \u201ccrédito corrente\u201d (no fluxo circular)
com a soma que deve também ser fornecida ao empresário para o \u201cfuncionamento\u201d, em
contraste com a fundação do negócio, ou seja, especialmente com o propósito de pagamento
dos salários correntes.
compra que possa requerer. Se não houvesse desenvolvimento nenhum,
então as somas de dinheiro necessárias à realização de transações nor-
malmente precisariam ser mantidas realmente em todas as empresas
e famílias e teriam que permanecer ociosas durante o tempo em que
delas não se necessitasse. É o desenvolvimento que altera isso. Logo
varre para longe os tipos cujo orgulho era o de nunca terem demandado
crédito. E no fim, quando todos os negócios \u2014 antigos como novos \u2014
são lançados dentro do círculo do fenômeno do crédito, os banqueiros
até preferirão essa espécie de crédito por envolver menor risco. Muitos
bancos, particularmente os do tipo \u201cdepósitos\u201d e também quase todas
as casas antigas, fazem-no efetivamente e se restringem mais ou menos
a tal crédito \u201ccorrente\u201d. Mas essa é apenas uma conseqüência do de-
senvolvimento já em plena atividade.
Essa interpretação não nos coloca tanto em oposição à predomi-
nante quanto se pode pensar.97 Pelo contrário, afirmamos por ela, em
completa concordância com a visão geral, que podemos dispensar o
crédito se quisermos captar o processo econômico do fluxo circular.
Apenas porque a teoria predominante adota a mesma visão e, como
nós, não vê no financiamento das transações correntes de mercadorias
pelo crédito nada de essencial para o entendimento da questão, é que
pode eliminar esse procedimento de seu tratamento das características
principais do processo econômico. Só por isso pode restringir sua visão
da esfera dos bens. Evidentemente dentro do mundo dos bens pode-se
encontrar algo como as transações a crédito, mas já chegamos a um
entendimento sobre isso. De qualquer modo a teoria predominante não
reconhece a necessidade de criar novo poder de compra nesse ponto,
como nós tampouco, e o fato de que também não vê tal necessidade
em qualquer outro ponto mostra de novo que é meramente estática.
Esse crédito corrente pode, portanto, ser eliminado de nosso tra-
tamento com a mesma justificativa que para o crédito ao consumo.
Chegamos à seguinte conclusão a partir do conhecimento de que se
trata apenas de uma questão de expediente técnico de troca \u2014 no
fluxo circular, é claro, porque com o desenvolvimento seria algo bem
diferente pela razão mencionada \u2014, expediente que não tem maior
efeito sobre o processo econômico. Para contrastar nitidamente o crédito
corrente com o crédito que desempenha um papel fundamental e sem
o qual a compreensão completa do processo econômico é impossível,
suporemos que no caso do fluxo circular todas as trocas são efetuadas
com dinheiro metálico que existe numa quantidade dada de uma vez
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97 Além disso, é comprovada diretamente pelos fatos. Por muitos séculos só havia praticamente
crédito ao consumo. Depois não havia mais do que crédito para a fundação de um negócio.
E o fluxo circular continuou sem ele. O crédito corrente só obteve a sua importância atual
nos tempos modernos. E uma vez que a fábrica moderna não difere economicamente de
uma oficina medieval em nenhum outro aspecto fundamental, chega-se à conclusão de que
a primeira não necessita em princípio de nenhum crédito.
por todas e com uma dada velocidade de circulação. Obviamente toda
a circulação de uma economia sem desenvolvimento também pode con-
sistir em meios de pagamento creditícios. Como esses meios de paga-
mento, contudo, funcionariam exatamente como o dinheiro metálico
por serem \u201ccertificados\u201d dos bens existentes e dos serviços passados e
como não há portanto nenhuma diferença essencial entre eles e o di-
nheiro metálico, ao usar esse recurso expositivo apenas indicamos que
o que consideramos como o elemento essencial no fenômeno do crédito
não pode ser encontrado no crédito corrente dentro do fluxo circular.
Com isso tanto provamos a nossa tese quanto formulamos pre-
cisamente o sentido que pretendemos dar-lhe. Apenas o empresário
então, em princípio, precisa de crédito; este só cumpre um papel fun-
damental para o desenvolvimento industrial, ou seja, um papel cujo
exame é essencial