SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do Desenvolvimento Econômico
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SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do Desenvolvimento Econômico


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segundo artigo, p. 85). Mas para esta há um \u201climite econômico
intransponível, na oferta de bens existente. Apenas na proporção em que essas medidas
artificiais podem pôr em circulação bens até então ociosos é que elas podem funcionar\u201d.
Se exceder esse limite, os preços sobem. O último certamente é correto \u2014 mas o ponto
importante para nós está precisamente aqui. Evidentemente concordamos que a escassez
de dinheiro não pode ser eliminada pela criação de poder de compra \u2014 ou, de qualquer
modo, só pode sê-lo quando se tratar de um pânico momentâneo.
100 Em primeiro lugar, o poder de compra dos produtores anteriores no mercado de bens de
produção será comprimido, depois o poder de compra no mercado de bens de consumo
daquelas pessoas que não recebem nenhuma cota ou só recebem uma cota insuficiente das
rendas monetárias aumentadas resultantes da demanda do empresário. Isso explica a ele-
vação de preços em períodos de alta. Se não estou enganado foi Von Mises quem cunhou
a expressão extremamente feliz \u201cpoupança forçada\u201d (erzwungenes Sparen) para esse processo.
Mas um lugar para ele é aberto à custa do poder de compra anterior-
mente existente.
Isso explica a maneira como funciona a criação de poder de com-
pra. O leitor pode ver que não há nada de ilógico ou místico nela.101
A forma externa dos instrumentos de crédito é bastante irrelevante.
Seguramente a questão é vista de modo mais claro no caso da nota
de banco sem cobertura. Mas também um título que não substitua
dinheiro existente e que não esteja baseado em bens já produzidos
tem o mesmo caráter, se realmente circular. Evidentemente isso não
será correto se apenas registrar a obrigação do empresário para com
o seu credor ou se apenas for descontado, mas somente quando for
usado no pagamento de bens. E todas as outras formas de instrumentos
de crédito, mesmo o simples crédito na contabilidade de um banco,
podem ser consideradas do mesmo ponto de vista. Assim como, quando
se introduz gás adicional dentro de um recipiente, a parte do espaço
ocupada por cada molécula do gás anteriormente existente é diminuída
pela compressão, também o influxo do novo poder de compra no sistema
econômico comprimirá o poder de compra antigo. Quando se completam
as mudanças de preços que se tornam assim necessárias, quaisquer
mercadorias dadas se trocam por novas unidades de poder de compra,
nos mesmos termos que pelas antigas, sendo apenas que as unidades
de poder de compra agora existentes são todas menores do que as que
existiam antes e sua distribuição entre os indivíduos se alterou.
Isso pode ser chamado de inflação creditícia. Mas se distingue
da inflação creditícia com propósitos de consumo por um elemento muito
essencial. Nesses casos também o novo poder de compra toma o seu
lugar junto ao antigo, os preços sobem, há uma retirada de bens que
resulta favorável a quem recebe o crédito ou àqueles a quem este paga
com as somas emprestadas. Aí o processo se rompe: os bens retirados
são consumidos, os meios de pagamento criados permanecem em cir-
culação, o crédito deve ser continuamente renovado e os preços subiram
permanentemente. Pode ser então que o crédito seja pago com a corrente
normal de renda \u2014 por exemplo, por um aumento dos impostos. Mas
essa é uma operação nova, especial (deflação), que, tendo um prosse-
guimento bem conhecido, restaura novamente a saúde do sistema mo-
netário, que, se não fosse por ela, não retornaria ao seu estado anterior.
Em nosso caso, contudo, o processo segue adiante vi impressa.
O empresário deve não apenas devolver legalmente o dinheiro ao seu
banqueiro, mas deve também devolver economicamente as mercadorias
ao reservatório de bens \u2014 o equivalente aos meios produtivos empres-
tados; ou, como o exprimimos, deve, em última instância, cumprir a
condição com a qual os bens podem normalmente ser retirados da
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101 Cf. também HAHN, A. \u201cKredit\u201d. In: Handwörterbuch der Staatswissenschaften.
corrente social. O resultado de seu empréstimo o capacita a cumprir
essa condição. Após completar o seu negócio \u2014 portanto, em nossa
concepção, após o período ao fim do qual os seus produtos estão no
mercado e os seus bens produtivos foram gastos \u2014, se tudo correu de
acordo com as suas expectativas, ele enriqueceu a corrente social com
bens cujo preço total é maior do que o crédito recebido e do que o
preço total dos bens direta ou indiretamente gastos por ele. Assim, a
equivalência entre o dinheiro e as correntes de mercadorias é mais do
que restaurada, a inflação creditícia mais do que eliminada, os efeitos
sobre os preços mais do que compensados,102 de modo que se pode
dizer que não há nenhuma inflação creditícia nesse caso \u2014 antes talvez
deflação \u2014 mas apenas um aparecimento não-sincrônico de poder de
compra e das mercadorias a ele correspondentes, o que temporaria-
mente produz a aparência de inflação.
Ademais, o empresário pode agora pagar a sua dívida (montante
creditado mais juros) em seu banco e normalmente ainda reter um
saldo credor (= lucro empresarial) que é retirado do fundo de poder
de compra do fluxo circular. Apenas esse lucro e juros necessariamente
permanecem em circulação; o crédito bancário original desapareceu,
de modo que o efeito deflacionário em si mesmo \u2014 e especialmente
se não forem financiados continuamente novos e maiores empreendi-
mentos \u2014 seria muito mais grave do que o indicado acima. É verdade
que na prática duas razões evitam o desaparecimento rápido do poder
de compra recém-criado: primeiro o fato de que a maior parte dos
empreendimentos não são terminados em um período, mas, na maioria
dos casos, apenas depois de uma série de anos. A essência do problema
não se altera com isso, mas o poder de compra recém-criado permanece
por mais tempo na circulação e o \u201cresgate\u201d na data legal toma fre-
qüentemente então a forma de uma \u201cprorrogação\u201d. Nesse caso não se
trata economicamente de nenhum resgate, mas de um método de testar
periodicamente a solidez do empreendimento. Economicamente isso de-
veria na verdade chamar-se \u201capresentação para exame das contas\u201d, ao
invés de \u201capresentação para pagamento\u201d \u2014 quer a coisa a ser resgatada
seja uma letra ou um empréstimo pessoal. Além disso, se é verdade
que os empreendimentos de longo prazo são financiados por crédito
de curto prazo, cada empresário e cada banco tentará, por razões óbvias,
trocar essa base, assim que for possível, por outra mais permanente,
e na verdade considerará uma façanha se puder saltar completamente
a etapa inicial num caso individual. Na prática isso coincide aproxi-
madamente com a substituição do poder de compra criado ad hoc pelo
já existente. E isso geralmente acontece no caso do desenvolvimento
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102 Só isso explicaria a queda dos preços em períodos de depressão e efetivamente explica a
queda tradicional do nível de preços em momentos que nenhuma outra causa, por exemplo,
a descoberta de ouro, pode evitá-la, como veremos no capítulo VI.
em plena marcha que já acumulou reservas de poder de compra \u2014
isso por razões que a nossa própria teoria explica e que não depõem
contra ela \u2014 e na verdade em dois passos. Em primeiro lugar, são
criados títulos e ações e seus montantes são creditados para o em-
preendimento, o que significa que os recursos bancários ainda financiam
o empreendimento. Depois dispomos dessas ações e títulos e estes são
pagos gradualmente \u2014 nem sempre de imediato, pelo contrário, as
contas dos fregueses subscritores freqüentemente são apenas debitadas
\u2014 pelos subscritores a partir de ofertas de poder de compra, reservas
ou poupanças existentes. Assim, como se pode exprimir, são reabsor-
vidos pela poupança da comunidade. O resgate dos instrumentos de
crédito é pois consumado e estes são substituídos por dinheiro vivo.
Mas esse ainda não é o resgate final da dívida do empresário, o resgate
em bens. Este último só vem mais tarde, mesmo nesse caso.
Em segundo