SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do Desenvolvimento Econômico
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SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do Desenvolvimento Econômico


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ainda em outras palavras, as várias formas de
poder de compra em geral não constituem capital nesse ponto; são
simplesmente meios de troca, meios técnicos para a realização de trocas
habituais. Com isso, o seu papel no fluxo circular está completo \u2014 a
não ser esse papel técnico, elas não têm nenhum outro, de modo que
podem ser desprezadas, sem que se deixe de lado nada realmente es-
sencial. Na realização de combinações novas, contudo, o dinheiro e
seus substitutos tornam-se um fator essencial e exprimimos isso ao
descrevê-los como capital. Assim, de acordo com o nosso ponto de vista,
o capital é um conceito do desenvolvimento, ao qual nada corresponde
no fluxo circular. Esse conceito incorpora um aspecto do processo eco-
nômico que somente os fatos do desenvolvimento nos sugerem. Gostaria
de chamar a atenção do leitor para essa afirmação. Muito contribui
ela para a compreensão do ponto de vista aqui desenvolvido. Se se
fala em capital com a conotação que a palavra tem na vida prática,
então sempre se pensa não tanto em coisas, mas em processos ou em
certo aspecto das coisas, isto é, na possibilidade de atividade empresarial
ou na possibilidade de controle sobre meios produtivos em geral. Esse
aspecto é algo comum a muitos conceitos de capital e os esforços para
pô-lo em relevo explicam, em minha opinião, as qualidades \u201cproteiformes\u201d
da definição real. Segundo ela, nada em si mesmo é realmente capital,
incondicionalmente e em virtude de qualidades imanentes, mas o que é
designado como capital o é apenas na proporção em que satisfaz certas
condições, ou apenas de um certo ponto de vista.
Definiremos o capital, então, como a soma de meios de pagamento
que está disponível em dado momento para transferência aos empre-
sários. No momento em que o desenvolvimento começa, a partir de
um fluxo circular em equilíbrio, apenas uma parte muito pequena dessa
soma de capital poderia, de acordo com a nossa interpretação, consistir
em dinheiro; pelo contrário, deveria consistir em outros meios de pa-
gamento recém-criados com esse propósito. Se o desenvolvimento já
foi desencadeado ou se o desenvolvimento capitalista se associa a uma
forma não-capitalista ou intermediária, começará com um suprimento
de recursos líquidos acumulados. Mas, na teoria estrita, não poderia
fazê-lo. E mesmo na realidade, quando uma coisa realmente significa-
tiva deve ser feita pela primeira vez, isso é sempre impossível.
SCHUMPETER
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O capital, então, é um agente na economia de trocas. Um processo
da economia de trocas está expresso na imagem do capital, a saber,
a transferência de meios produtivos ao empresário. Em nossa concepção,
portanto, há realmente somente capital privado e não \u201csocial\u201d. Os meios
de pagamento só podem desempenhar seu papel de capital nas mãos
de indivíduos particulares. Assim não haveria muito propósito em falar
de capital social, com esse sentido. Não obstante, a soma de capitais
privados nos diz algo: dá-nos a dimensão do fundo que pode ser posto
à disposição dos empresários, a dimensão do poder de retirar meios
de produção de seus canais anteriores. Portanto, o conceito de capital
social não é desprovido de sentido,105 embora não haja tal capital numa
economia comunista. No entanto, em geral se pensa no estoque de
bens de uma nação, quando se fala de capital social e somente os
conceitos de capital real conduziram ao de capital social.
O mercado monetário
Ainda há um passo a ser dado. O capital não é nem o todo nem
uma parte dos meios de produção \u2014 originais ou produzidos. Tampouco
o capital é um estoque de bens de consumo. Ele é um agente especial.
Como tal deve ter um mercado naquele sentido teórico em que há um
mercado para bens de consumo e para bens de produção. E a esse
mercado teórico deve corresponder, na realidade, algo similar ao que
ocorre no caso desses outros dois. Vimos no capítulo I que há mercados
para os serviços do trabalho e da terra e para bens de consumo nos
quais está assentado tudo de essencial ao fluxo circular, enquanto os
meios de produção produzidos, itens transitórios, não têm um tal mer-
cado independente. No desenvolvimento que introduz esse novo agente,
o capital, no processo econômico, deve haver ainda um terceiro mercado
em que ocorre algo interessante, o mercado de capital.
Isso existe: a realidade nô-lo mostra diretamente, muito mais
diretamente do que nos mostra os mercados de serviços e de bens de
consumo. Ele é muito mais concentrado, muito mais bem organizado,
muito mais fácil de observar do que os outros dois. É o que o homem
de negócios chama de mercado monetário aquele a respeito do qual
todo jornal noticia diariamente sob esse título. Do nosso ponto de vista,
o nome não é totalmente satisfatório: não é simplesmente o dinheiro
que é negociado, e poderíamos em parte nos juntar ao protesto dos
economistas contra essa concepção dele. Mas aceitamos o nome. De
qualquer modo, o mercado de capital é a mesma coisa que o fenômeno
que a prática descreve como mercado monetário. Não há nenhum outro
OS ECONOMISTAS
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105 Isso é sobretudo verdadeiro se se mede cada unidade de capital pelos montantes de bens
de produção obteníveis com ela num dado momento. Se se faz isso, pode-se falar também
de capital \u201creal\u201d \u2014 mas apenas em sentido figurado.
mercado de capital.106 Esboçar uma teoria do mercado monetário seria
uma tarefa atraente e proveitosa. Até agora não temos nenhuma.107
Seria especialmente interessante e proveitoso coletar e testar o signi-
ficado teórico das regras práticas da experiência que determinam as
decisões do homem prático e o seu julgamento de situações particulares.
Na verdade são formuladas de modo estrito em sua maior parte e
guiam todo autor de artigos sobre o mercado monetário. Essas regras
práticas de previsão econômica são atualmente muito desligadas da
teoria, embora o seu estudo auxilie profundamente a compreensão da
vida econômica moderna. Não podemos aqui entrar nesse assunto. Só
diremos o que for necessário para os nossos propósitos. Isso pode ser
feito em poucas palavras.
Numa economia sem desenvolvimento não haveria tal mercado
monetário. Se ela fosse extremamente organizada e suas transações
fossem liquidadas com meios de pagamento creditícios, haveria um
escritório central de liquidações, uma espécie de câmara de compen-
sação ou de centro contábil do sistema econômico. Nas transações dessa
instituição se refletiria tudo o que acontece no sistema econômico, por
exemplo, o pagamento periódico de salários e impostos, os requisitos
para proceder às colheitas e para os feriados. Mas esses seriam apenas
problemas de cômputo. Ora, essas funções também devem ser desem-
penhadas quando há desenvolvimento. Com desenvolvimento, além dis-
so, há sempre emprego para o poder de compra que esteja momenta-
neamente ocioso. E finalmente, com o desenvolvimento, como já foi
enfatizado, o crédito bancário penetra nas transações do fluxo circular.
É assim então que essas coisas se tornam na prática elementos da
função do mercado monetário. Tornam-se uma parte do organismo do
mercado monetário. E assim os requisitos do fluxo circular são acres-
centados à demanda do empresário no mercado monetário, por um
lado, e, por outro, o dinheiro do fluxo circular aumenta a oferta de
dinheiro nesse mercado. Por isso sentimos, em todo artigo sobre o
mercado monetário, a pulsação do fluxo circular, por isso vemos que
a demanda de poder de compra aumenta na época da colheita, quando
vence o prazo dos impostos etc., ao passo que depois desses momentos
a oferta aumenta. Mas isso não deve impedir-nos de distinguir as tran-
sações no mercado monetário que pertencem ao fluxo circular das ou-
tras. Apenas estas últimas são fundamentais; as primeiras são acres-
centadas a elas e de qualquer modo o fato de que apareçam no mercado
monetário é meramente uma conseqüência do desenvolvimento. Todos
os efeitos recíprocos que obviamente juntam