SOBRE O BEHAVIORISMO - B. F. Skinner
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SOBRE O BEHAVIORISMO - B. F. Skinner


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sociais não-codificadas das quais 
a lei originou-se.
As leis da ciência
Francis Bacon, que era um advogado, parece ter sido o primeiro 
a falar de leis científicas. Assim como um Estado bem governado 
devia sua ordem às suas leis, assim também seria possível descobrir 
as leis responsáveis pela ordem do mundo físico. As leis científicas 
surgiram dos conhecimentos do artesão e um exemplo simples ilus­
trará a diferença entre comportamento modelado por contingências 
naturais e comportamento gerado por uma regra. Na forja de um 
ferreiro medieval, um grande fole fornecia a corrente forçada de ar 
necessária para um fogo vivo. O fole tornava-se mais eficiente quando 
alguém o abria completamente antes de fechá-lo e quando era aberto 
depressa e fechado devagar. O ferreiro aprendeu a manejar o fole 
dessa maneira por causa do resultado reforçador de obter assim um 
fogo vivo e constante. Ele poderia ter aprendido a agir de tal modo 
sem descrever seu comportamento, mas uma descrição pode ter sido 
útil para a manipulação correta do fole ou para recordar como ma­
nipulá-lo, tempos depois. Uns versinhos serviam a essa função:
Para cima,
Para baixo,
Subir depressa,
Descer devagar,
Eis a forma de soprar.
Os versinhos eram úteis po r outra razão quando o ferreiro con­
tratava um aprendiz: podia dizer-lhe como manejar o fole ensinan­
do-lhe os versinhos como regra. O aprendiz seguia a regra, não por­
que o fogo ficasse então sempre vivo, mas porque era pago para 
fazê-lo. Não se fazia mister que visse o efeito sobre o fogo. Seu com­
portamento era inteiramente governado por regra; o comportamento 
do ferreiro era tanto modelado pelas contingências quanto, em certa 
medida, governado pela regra, depois de ele a ter descoberto.
As primeiras leis científicas completaram as contingências natu­
rais do mundo físico. Um lavrador cavando o solo, ou um canteiro
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arrancando uma pedra com uma estaca eram controlados pelas con­
tingências relativas às alavancas: o solo ou a pedra moviam-se mais 
prontamente se a força for aplicada o mais longe possível do ponto 
de apoio. O cabo das pás e as estacas são compridos por essa razão 
e algum conhecimento tradicional, semelhante à regra do ferreiro, 
pode ter sido usado para ensinar a novos trabalhadores como segurar 
as pás e as estacas. Um enunciado mais formal da lei das alavancas 
permitiu que o princípio fosse usado em situações onde o comporta­
mento modelado pelas contingências fosse improvável ou impossível.
Diferenças aparentes entre as leis da religião ou do governo e 
as leis científicas têm sido atribuídas a diferenças de processos de 
pensamento. Costuma-se dizer que as primeiras são \u201cfeitas\u201d enquanto 
as últimas são simplesmente descobertas. A diferença, todavia, não 
está nas leis, mas nas contingências que as leis descrevem. As leis 
da religião e do governo codificam contingências de reforço mantidas 
por ambientes sociais. As leis da Ciência descrevem contingências 
que prevalecem no meio independentemente de qualquer ação humana 
deliberada.
Com aprender as leis da Ciência, uma pessoa se toma apta a 
comportar-se de forma eficaz nas contingências de um mundo extraor­
dinariamente complexo. A Ciência a leva para além de sua experiên­
cia pessoal e da deficiente amostragem da natureza, deficiência ine­
vitável na duração uma só vida. A Ciência também a coloca sob 
controle de condições que não poderiam desempenhar qualquer papel 
no sentido de formar-lhe e manter-lhe o comportamento. A pessoa 
pode deixar de fumar por causa de uma regra derivada de um estudo 
estatístico das conseqüências, embora estas, por si mesmas, sejam 
remotas demais para exercerem qualquer efeito reforçador.
I
Comportamento modelado por contingências versus 
comportamento governado por regras
Em geral, regras podem ser aprendidas mais rapidamente do que 
comportamento modelado pelas contingências que descrevem. A maio­
ria das pessoas pode aprender a instrução \u201cEmpurre para baixo a 
alavanca do câmbio antes de colocá-la na posição de marcha-à-ré\u201d 
mais prontamente do que o efetivo movimento de mudança, em par­
ticular se a alavanca não se mover facilmente ou se, em outros carros 
com os quais o motorista esteja mais familiarizado, não for neces­
sário empurrar para baixo a alavanca. As regras tornam mais fácil 
tirar proveito das semelhanças entre contingências: \u201cEste câmbio 
funciona da mesma forma que o câmbio de uma B.M.W.". As regras
| Biblioteca "Prof. José Storópoli | 1nn
são particularmente valiosas quando as contingências são complexas, 
pouco claras ou, por qualquer outra razão, pouco eficazes.
Quando uma pessoa não foi adequadamente exposta a uma co­
munidade verbal, pode usar as regras de uma língua para falar cor­
retamente. Ao aprender uma segunda língua, por exemplo, pode 
descobrir as respostas apropriadas num dicionário bilingüe e as regras 
apropriadas numa gramática. Se estes auxílios forem adequados, ela 
poderá presumivelmente falar de modo correto, mas estaria perdida 
sem o dicionário e a gramática e, ainda que os aprendesse de cor, 
não conheceria a língua no sentido a ser discutido no próximo ca­
pítulo.
Uma pessoa que esteja seguindo uma orientação, aceitando um 
conselho, prestando atenção a um aviso, obedecendo a leis e regras, 
não se comporta exatamente da mesma maneira que outra que tenha 
sido exposta diretamente às contingências, porque uma descrição das 
contingências nunca é completa ou exata (usualmente, é simplificada 
para poder ser ensinada ou compreendida com facilidade) e porque 
as contingências de apoio raras vezes são mantidas plenamente. O 
aprendiz que maneja o fole simplesmente porque o pagam para fa­
zê-lo, não o maneja como se fosse diretamente afetado pela condição 
do fogo. Guiar um automóvel de acordo com instruções difere do 
comportamento finalmente modelado pelo movimento do carro numa 
rodovia. Falar uma língua com o auxílio de um dicionário e de uma 
gramática não é o mesmo que falá-la em virtude de exposição a 
uma comunidade verbal. Os sentimentos associados com as duas 
espécies de comportamento também são diferentes, mas não expli­
cam a diferença dos comportamentos.
O controle exercido por orientações, conselhos, regras ou leis 
é mais ostensivo do que o exercido pelas próprias contingências, em 
parte porque é menos sutil, enquanto o outro, por isso mesmo, pa­
recia significar maior contribuição pessoal e valor interno. Fazer o 
bem porque se é reforçado pelo bem de outrem merece maior apreço 
do que fazer o bem porque a lei assim exige. No primeiro caso, a 
pessoa se sente bem disposta; no segundo, pode sentir pouco mais 
do que o medo de ser punida. A virtude cívica e a piedade são 
reservadas para aqueles que não se limitam a seguir regras. Este é 
necessariamente o caso quando as contingências tenham sido analisa­
das \u2014 quando, como na poesia e no misticismo, são consideradas 
inefáveis.
O comportamento segundo regras é chamado de verniz da civi­
lização, enquanto o comportamento modelado por contingências natu­
rais vem das profundezas da personalidade ou da mente. Artistas, 
compositores e poetas às vezes seguem regras (imitar o trabalho dos
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outros, por exemplo, é uma forma de seguir regras), mas atribui-se 
mérito maior ao comportamento devido a exposição pessoal a um 
ambiente. Diferentemente daqueles que se submetem a contingências 
organizadas em apoio às regras, um artista, compositor ou poeta \u201cna­
tural\u201d comportar-se-á de maneira idossincrásica e terá melhores con­
dições de sentir as condições corporais chamadas excitação ou ale­
gria, ligadas a reforços \u201cnaturais\u201d.
O trabalho planejado ou bem executado pode tomar-se suspeito 
da mesma forma que qualquer comportamento premeditado. O mate­
mático intuitivo parece ser superior àquele que tenha de avançar 
passo a passo. Fazemos naturalmente objeções ao amigo calculista