experimentação_animal_versao1
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foi o de William Harvey (1578-1657), fisiologista inglês. Podemos 
afirmar que sua investigação sobre a circulação do sangue e o movimento do coração foi um marco na 
sistematização de procedimentos investigativos
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. Sua obra, Exercícios anatômicos sobre o movimento do coração 
e do sangue nos animais, escrita em 1628, confirmou, até certo ponto, o que Colombo já havia falado sobre o 
movimento do coração e do sangue para os pulmões, e pôs fim a uma controvérsia iniciada por Galeno, que 
afirmava, entre outros equívocos, que o septo cardíaco interventricular era permeável. \u201cEstava agora claro que o 
coração, sangue e fígado (e mesmo pulmões) não se comportavam como Galeno postulou, e que a evidência era a 
dissecção, vivissecção e os experimentos\u201d (FRENCH, 1999, p. 250). Segundo Delizoicov e colaboradores (2004, 
p.455), a proposição de Harvey foi responsável por pelo menos três mudanças: (a) as práticas de dissecação e 
experimentação para o entendimento anatômico-fisiológico; (b) \u201ca matematização dos fenômenos naturais, com a 
qual pode calcular o volume de sangue circulando no corpo\u201d e (c) uma crença na perfeição do movimento circular, 
\u201ca partir da qual propõe um movimento em um ciclo fechado\u201d \u2013 contrariando Galeno, que propunha um sistema 
aberto. 
 
12 Para uma discussão epistemológica deste tema, ver Delizoicov e colaboradores (2004) 
 
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Harvey tinha consciência do que significaria contradizer a doutrina centenária de 
Galeno. Mas, aos poucos, cautelosa e habilmente, soube convencer os membros do 
colégio de médicos da inegável correção de seus conceitos (p.455) 
Ainda assim, como Vesalius, enfrentou resistência com a divulgação do seu livro. O anatomista parisiense 
Jean Riolan (1577\u20131657) resistiu à teoria da circulação sanguínea proposta por Harvey, por pelo menos 20 anos. 
Esta resistência se deve ao fato de que a circulação do sangue dentro do corpo humano ia na contramão dos 
ensinamentos de Galeno, ao qual Riolan ainda prestava muito respeito (FRENCH, 1999). 
 A sistematização de Harvey teve considerável influência na obra e pensamento de Renée Descartes (1595-
1650). Segundo Delizoicov e colaboradores (2004, p.456), \u201cDescartes foi o primeiro a demonstrar a coerência de 
seu trabalho com uma visão totalmente nova da natureza: a filosofia mecânica\u201d. Houve uma identificação com o 
sistema proposto por Harvey, muito provavelmente pela forte articulação deste sistema com o mecanicismo 
emergente à sua época, e \u201csem o qual sua análise do fluxo sangüíneo \u2013 empregando conceitos da hidráulica e, 
portanto, da mecânica \u2013 não teria sido interpretada da maneira como foi\u201d. 
 Descartes, no entanto, negava a idéia de propósito na natureza, e foi um dos primeiros a romper com a 
tradição aristotélica vigente entre os anatomistas. Descartes fez muito uso da vivissecção e dissecção de animais, e 
trocou muitas correspondências com investigadores de seu tempo. Nas discussões com Harvey, a crítica era a de 
que \u201cnúmeros não eram parte da filosofia e que o trabalho de Harvey como filósofo deveria ser o de demonstrar 
causas\u201d (FRENCH, 1999, p.261). De fato, Harvey não identificou a causa do movimento do sangue, apenas a 
demonstrou. De toda forma, a controvérsia entre Harvey e Descartes impulsionou as práticas de vivissecção: ela 
foi \u201cimportante para os filósofos e médicos que lutavam para compreender e decidir entre a nova filosofia de 
Descartes e a circulação de Harvey\u201d (p.263). 
O anatomista italiano Marco Aurélio Severino (1580-1656), inspirado por Harvey na necessidade da 
vivissecção, chegou a propor uma disciplina única, fundindo anatomia animal e humana, a zootomia. O conceito da 
analogia, que hoje sustenta fortemente a experimentação animal, pode ter surgido, ainda que de forma 
rudimentar, a partir do trabalho deste anatomista. O termo similis (referente à similaridade) usado por Severino, 
por exemplo, deriva de simia (macaco). 
 
O uso médico do conhecimento anatômico 
Os anatomistas antigos davam grande prioridade à filosofia nos estudos anatômicos, e pouca prioridade aos 
usos médicos do conhecimento gerado nas incursões proporcionadas pela dissecção. Este perfil mudou no final do 
século XVI com a Reforma, que junto com o discurso cristão, passou a se interessar pelos usos práticos deste 
conhecimento - o seu uso médico de fato. Podemos falar de uma anatomia filosófica, oriunda principalmente da 
influência Aristotélica dos conceitos de forma e função. Esta anatomia estaria a serviço de \u201cinvestigar as ações e 
uso para a aquisição de conhecimento e para admirar a destreza artesanal da construção do corpo humano\u201d 
(p.256). 
 A influência de Galeno ainda persistia, mas o discurso agora estava atualizado com um contexto pós-
Reforma. O anatomista Jean Riolan, mencionado anteriormente pela sua posição contrária à teoria do movimento 
do sangue proposto por Harvey, ainda assumia que, na época de Galeno, os corpos eram maiores e mais fortes do 
que os da sua época. No entanto, a anatomia galênica nesta época ficava mais conspícua e distinta da anatomia 
aristotélica filosófica. Riolan foi um expoente desta transição entre uma anatomia com pouca aplicação prática e 
uma anatomia voltada aos usos e estudos mais práticos da medicina. O grande mérito de sua obra foi a 
combinação da anatomia com a patologia. A sistematização de uma anatomia patológica não existia até então, e 
foi inaugurada nas obras deste anatomista: 
O que Riolan fez em termos contemporâneos foi simples, porém pouco usual. Ele 
pegou a anatomia, a qual ele se referia como a dissecção voltada para o teatro 
 
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anatômico, e combinou com a patologia. (...) Foi simples, e para nós parece natural o 
suficiente porque nós imediatamente associamos doenças com uma aparência 
patológica. Mas parece ter sido uma combinação das circunstâncias de Riolan que o 
levou a esta direção, e não um progresso natural da medicina (FRENCH, 1999, p. 255) 
A aceitação do movimento do sangue, por Harvey, foi aceita dentro da crítica de que ela não tinha uso 
médico direto. Segundo French (1999), Harvey chegou à teoria da circulação do sangue pela anatomia filosófica, 
enquanto que \u201cRiolan queria a virtude da anatomia médica\u201d (p.256). A base desta anatomia consistia em comparar 
corpos saudáveis (normais) e doentes (anormais), vislumbrando um tratamento das anomalias identificadas. 
Alguns preceitos eram fundamentais nesta nova anatomia. O papel do anatomista não era mais um olhar 
estritamente funcional e estrutural (segundo uma tradição Galênico-Aristotélica), mas também, e enfaticamente, 
morfológico. Outro preceito era de que, como os espíritos e humores no corpo humano morto não se moviam, não 
era ocupação desta anatomia seu estudo, mas sim da fisiologia. Assim, se em Galeno não se podia diferenciar a 
anatomia da fisiologia (SOUSA, 1996), Riolan obteve este mérito. Esse olhar sobre o \u201cexterior\u201d (morphos) do corpo 
humano passou inevitavelmente a determinar as condições de sanidade do corpo. Tanto era assim que Riolan 
orientava médicos do seu tempo a examinarem o pulso, respiração e voz de noviços em monastérios. 
O que era feito com escravos era agora feito com amas-de-leite, como indicação de 
normalidade, e sinais de anormalidade eram buscados na forma, tamanho, aparência e 
assim por diante (FRENCH, 1999, p.258) 
 
A importância da obra de Claude Bernard 
Um importante nome a ser citado, já no pós-Renascimento, e que teve grande impacto com sua atividade 
de investigação (toda ela alicerçada na vivissecção), é o do fisiologista francês Claude Bernard (1813-1878), 
considerado como o pai da fisiologia experimental contemporânea (JUNIOR, 2002; TEIXEIRA, 2004). Rupke (1987), 
no entanto, acredita que outros fisiólogos