Elisabeth Roudinesco - A Família em Desordem
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Elisabeth Roudinesco - A Família em Desordem


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consentida entre os filhos e as filhas. O romance familiar freudiano supunha
com efeito que o amor e o desejo, o sexo e a paixão estivessem inscritos no cerne da instituição do
casamento.
Tendo captado muito bem a significação da invenção freudiana, os historiadores da família se
mostraram freqüentemente mais inovadores que os psicanalistas em seu deciframento da evolução
das estruturas familiares modernas. Assim, em um trabalho publicado em 1975, Edward Shorter se
serve da conceitualidade freudiana para analisar a revolução sentimental que se consolidou na
Europa durante todo o século XIX.
Consecutiva à Revolução Francesa e oriunda da própria sociedade civil, esta põe fim,
progressivamente, ao antigo sistema dos casamentos arranjados, em benefício da aventura amorosa
ou do amor romântico.2 Como conseqüência, explica Shorter, subvertia as relações matrimoniais,
tornando inaceitáveis os casamentos pré-púberes ou o acasalamento de homens e mulheres de
gerações diferentes: "Era a tendência crescente à igualdade da idade que é sinal do surgimento do
amor, ao passo que a disparidade provava a existência de considerações utilitárias... A revolução
sentimental da Europa ocidental tornou inaceitável o acasalamento de um homem jovem com uma
mulher mais idosa porque o próprio mecanismo do amor romântico é de natureza edipiana: o
problema é muito simplesmente apaixonar-se pela própria mãe. Como você teria tido tempo de
1 Durante a primeira metade do século XX, utilizou-se o termo "pansexualismo" para designar de maneira pejorativa a psicanálise,
criticada por reduzir o homem a sua genitalidade.
2 Ou romantic love.
conhecer e apreciar a mulher real que se encontra à sua frente? Você só a conhece há três minutos!...
A atração inconsciente exercida pela imagem materna produz sua rejeição consciente. Assim, quando
os homens realmente se apaixonaram, ficaram cheios de ódio pelas esposas que lhes evocavam suas
mães, de alguma maneira. Deixaram portanto de se casar com mulheres mais velhas do que eles."3
A concepção freudiana da família, como paradigma do advento da família afetiva, apóia-se em
uma organização das leis da aliança e da filiação que, embora instituindo o princípio do interdito do
incesto e da perturbação das gerações, leva todo homem a descobrir que tem um inconsciente e
portanto que é diferente do que acreditava ser, o que o obriga a se desvincular de toda forma de
enraizamento. Nem o sangue, nem a raça, nem a hereditariedade podem doravante impedi-lo de
alcançar a singularidade de seu destino. Culpado de desejar sua mãe e de querer assassinar seu pai,
ele se define, para além e aquém do complexo, como o ator de um descentramento da subjetividade.
Naturalmente, esse sujeito é suscetível de servir de cobaia tanto às abordagens experimentais da
psicologia como às derivações normativas da psicanálise. Pois, na medida em que Freud vincula a
psicanálise às figuras tutelares de uma soberania melancólica ou desconstruída \u2014 Édipo, Hamlet,
Moisés etc. \u2014, faz dela a expressão de uma busca da identidade moderna; a partir disso, sua
concepção de um sujeito culpado de seu desejo extrapola o quadro redutor da clínica e do complexo.
E, se a psicanálise se desvincula dessas figuras para encerrá-las no complexo, arrisca-se a se
transformar num procedimento de perícia que merece a hostilidade a ela reservada.
Sozinho entre os psicólogos de sua época, Freud cria então uma estrutura psíquica do
parentesco que inscreve o desejo sexual \u2014 isto é, a libido ou eros4 \u2014 no cerne da dupla lei da
aliança e da filiação. Priva assim a vida orgânica de seu monopólio sobre a atividade psíquica, e
diferencia o desejo sexual, expresso pela fala, das práticas carnais da sexualidade de que se ocupam
os sexólogos.
Embora conferindo ao desejo um novo status, faz da família uma necessidade da civilização
que repousa, de um lado, na "obrigação do trabalho" e, de outro, na potência do amor \u2014 "este último
exigindo que não fossem privados nem o homem da mulher, seu objeto sexual, nem a mulher dessa
parte separada de si mesma que era o filho. Eros e Ananké [necessidade] tornaram-se assim os pais
da civilização humana, cujo primeiro sucesso foi possibilitar que um grande número de seres
pudessem viver e permanecer juntos."5
A família não apenas é assim definida como sendo o filtro de uma força essencial à civilização,
como, de acordo com a tese do assassinato do pai e da reconciliação dos filhos com a figura dele, é
julgada necessária a toda forma de rebelião subjetiva: dos filhos contra os pais, dos cidadãos contra o
Estado, dos indivíduos contra a massificação. Com efeito, ao obrigar o sujeito a se submeter à lei de
um logos separador interiorizado, e portanto desvinculado da tirania patriárquica, a família o autoriza
a entrar em conflito com ela mesma, ao passo que sua abolição significaria o risco de paralisar as
forças de resistência que ela suscita nesse sujeito.6 Encontramos neste princípio a idéia segundo a
qual Édipo deve se tornar ao mesmo tempo o restaurador da autoridade, o tirano culpado e o filho
rebelde. Essas três figuras são indispensáveis à ordem familiar.
3 Edward Shorter, Naissance de la famille moderne (Nova York, 1975; Paris, 1977), Paris, Seuil, col. Points, 1981, p.192 e 194-5.
Assim, o casamento de Jocasta e Édipo correspondia de fato a uma lógica do presente e do arranjo, e não a um desejo, como pensa
Freud quando transforma o mito em um complexo. Como conseqüência, a idade da rainha não importava em nada \u2014 nem para
Sófocles nem para os atenienses.
4 A palavra libido, que significa desejo em latim, era utilizada pelos sexólogos do final do século XIX para designar uma energia
própria do instinto sexual (libido sexualis). Freud a retoma para designar a manifestação da pulsão sexual, e por extensão, a
sexualidade humana em geral, distinta da genitalidade (orgânica). Em Freud, eros designa o amor no sentido grego e a pulsão da vida.
5 Sigmund Freud, Malaise dans la civilisation, op.cit., p.51.
6 Consciente da importância da mensagem freudiana, que aliás critica, Theodor Adorno escreve em 1944: "A morte da família paralisa
as forças de resistência por ela suscitadas. A ordem coletivista a cuja escalada assistimos não passa de uma caricatura da sociedade
sem classes." Minima moralia. Réflexions sur la vie mutilée [Frankfurt, 1951], Paris, Payot, 2001, p.19.) [Ed. bras.: Mínima
moralia, São Paulo, Ática, 1993.]
Quanto à sexualidade, intolerável para a civilização devido a seus excessos, deve ser, segundo
Freud, canalizada sem ser reprimida, uma vez que só pode exercer sua influência de duas maneiras
contraditórias: de um lado, como poder destruidor; de outro, como forma sublimada do desejo.
Nem restauração da tirania patriárquica, nem inversão do patriarcado em matriarcado, nem
exclusão do eros, nem abolição da família: esta foi, segundo a leitura interpretativa que podemos
fazer de seus textos, a orientação escolhida por Freud para que o mundo admitisse a universalidade
de uma estrutura dita "edipiana" do parentesco. Não apenas esta pretende dar conta da natureza
inconsciente das relações de ódio e de amor entre os homens e as mulheres, entre as mães e os pais,
entre os filhos e os pais, e entre os filhos e as filhas, como recentrar a antiga ordem patriarcal, já
derrotada, em torno da questão do desejo. Só a aceitação pelo sujeito da realidade de seu desejo
permite ao mesmo tempo incluir o eros na norma, a título de um desejo culpado \u2014 e portanto trágico
\u2014, e de excluí-lo para fora da norma, caso em que se tornaria a ex-pressão de um gozo criminoso ou
mortífero.7
Compreende-se então por que Freud foi atacado tanto pelos partidários da abolição da família
como pelos conserva-dores, que o recriminavam por atentar contra a moral civilizada e por reduzir o
homem a suas pulsões genitais. Os primeiros viam a nova lei do logos interiorizado como a
recondução de uma ordem patriarcal tanto mais autoritária quanto
Kaciana
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