Elisabeth Roudinesco - A Família em Desordem
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Elisabeth Roudinesco - A Família em Desordem


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mas entre os pesquisadores que tentavam explicar suas relações.
De um ponto de vista antropológico, é possível classificar as sociedades humanas em duas
categorias em função da maneira como pensam as relações entre o sexo social (gênero) e o sexo
2 Aristóteles, Politique, vol.I, op.cit., p.24. Cf. também p.18 do presente volume.
3 Cláudio Galeno (131-201 d.C.), célebre médico e filósofo grego, comentador de Platão e autor de um tratado sobre as paixões e os
enganos da alma.
4 Cf. Françoise Collin, Évelyne Pisier e Eleni Varikas, Les Femmes, de Platon à Derrida. Anthologie critique, Paris, Plon, 2000.
5 Thomas Laqueur, La Fabrique du sexe. Essai sur le corps et le genre en Occident (1990), Paris, Gallimard, 1992, trad. fr. de Michel
Gautier.
biológico (sexo). A cada categoria corresponde uma representação, conforme um e outro se
emaranhem e se superponham, ou o gênero prevaleça sobre o sexo (ou ainda este último seja negado
ou tido como desprezível).6
Na primeira categoria, de longe a mais difundida, perfilam-se as sociedades para as quais o
pertencimento biológico importa pouco em relação ao papel social atribuído ou desempenhado por
indivíduos cujos lugares femininos ou masculinos são intercambiáveis. Em algumas dessas
sociedades, muito raras e freqüentemente hierarquizadas, guerreiras e polígamas, quando as mulheres
são em número insuficiente, homens podem às vezes esposar jovens rapazes, estes lhes prestando
então serviços "femininos".
A partir de 1970, uma reavaliação dita "pós-moderna" da questão sexual ocidental tomou
impulso considerável em certas universidades americanas ao se apoiar não sobre modelos de gênero
e de sexo descritos pela antropologia \u2014 ou postos em prática espontaneamente pelo movimento da
história \u2014 mas sobre a idéia especulativa segundo a qual o sexo biológico seria um dado do
comportamento humano tão "construído" quanto o gênero.
Nessa perspectiva, a teorização das relações entre os homens e as mulheres consiste em fazer
do sexo social (ou gender) o operador "colonialista" do poder de um gênero sobre outro. Daí uma
classificação com diferenças múltiplas, onde se misturam a orientação sexual e o pertencimento
"étnico": os heterossexuais (homens, mulheres, negros, brancos, mestiços, hispânicos etc.), os
homossexuais (gays e lésbicas, negros, brancos etc.), os transexuais (homens, mulheres, gays,
negros, brancos, mestiços etc.). Fundada em uma trans-posição da luta de classes para luta de sexos,
esta análise teve o mérito de trazer um fôlego novo aos estudos dedicados aos fundamentos da
sexualidade humana. Mas apresenta o triplo defeito de desnaturalizar ao extremo a diferença sexual,
de incluir o desejo sexual no gênero, e de dissolver o um no múltiplo. Como conseqüência, privilegia
a noção de que a própria sexualidade \u2014 biológica, psíquica, social \u2014 seria sempre a expressão de
um poder inconsciente de tipo identitário ou genealógico.
Em 1990 essas teses deram origem à queer theory,7 ou seja, a uma concepção da sexualidade
que rejeita ao mesmo tempo o sexo biológico e o sexo social, cada indivíduo podendo adotar a
qualquer momento a posição de um ou do outro sexo, suas roupas, seus comportamentos, suas
fantasias, seus delírios. Daí a afirmação de que as práticas sexuais mais opacas como o nomadismo, a
pornografia, o escarpismo, o fetichismo ou o voyeurismo teriam a mesma função antropológica que a
heterossexualidade mais clássica. Entre as centenas de estudos apaixonantes assim empreendidos há
mais de vinte anos, os trabalhos de Judith Butler8 desempenharam o papel de revelador de uma crise
identitária particularmente aguda da sociedade americana do final do século XX, em sua relação tão
particular com a sexualidade. E contribuíram para modificar as representações da sexualidade no
Ocidente ao lançar luzes especialmente sobre o caráter "perverso e polimorfo" da identidade sexual
"pós-moderna", mais à vontade nas metamorfoses de Narciso do que na tragédia edipiana.
Essa polêmica do gênero e do sexo já opusera, desde o século XVII, os partidários do primado
do universal aos adeptos do primado da diferença. Para os primeiros, apenas um universal do logos
separador, misturando o gênero e o sexo, permite equalizar as condições. Para os segundos, ao
contrário, apenas um pensamento da diferença, separando o sexo do gênero, pode contribuir para o
aperfeiçoamento das liberdades individuais.
6 Retomo aqui, modificando-as, certas teses, bastante interessantes, dei N Nicole-Claude Mathieu, in L´Anatomie politique.
Catégorisations et idéologies do sexe, Paris, Côté Femmes, 1991.
7 Queer significa bizarro. O termo foi inicialmente utilizado como injúria contra os homossexuais, antes de ser recuperado pelos
pesquisadores.
8 Judith Butler, Gender Trouble. Feminism and the Subversion of Identity (1990), Nova York, Routledge, 1999. Encontramos uma boa
exposição do conteúdo desse livro no de Didier Éribon, Réflexions sur la question gay, Paris, Fayard, col. Histoire de la Pensée, 1999.
Cf. também Stéphane Nadaud, Homoparentalité, une nouvelle chance pour la famille?, Paris, Fayard, 2002. A respeito da família dita
"homoparental", remetemos ao capítulo 8 do presente volume: "A família do futuro".
Em 1673, em uma obra célebre, Sobre a igualdade dos dois sexos, François Poulain de La
Barre decidiu aplicar o método da dúvida cartesiana9 ao preconceito da desigualdade. A condição
imposta às mulheres era para ele um escândalo do espírito, e o primeiro preconceito de que o gênero
humano devia se desfazer era o da pretensa superioridade dos homens sobre as mulheres.
Ao fazer uso de pesquisa pessoal e investigação histórica, Poulain de La Barre demonstrou que
os argumentos clássicos em apoio à tese da inferioridade não repousavam sobre fundamento algum.
À definição dita "natural" da mulher, opôs uma noção de diferença sexual oriunda não da natureza,
absolutamente, mas da existência social: "O cérebro das mulheres, apontava, é semelhante ao dos
homens, uma vez que ouvem como nós pelas orelhas, vêem pelos olhos e saboreiam com a língua."
Para remediar tanto a hierarquia preconizada pela sociedade como a alienação das mulheres que
aceitavam seus princípios, Poulain de La Barre propõe um programa revolucionário: abrir às
mulheres todas as carreiras sociais, da teologia à gramática, passando pelo exercício do poder, seja
militar ou estatal: Quanto a mim, não me espantaria ver uma mulher usando um capacete na cabeça
em vez de uma coroa. Ou presidindo um conselho de guerra como o de um Estado. Ou treinando ela
própria seus soldados, organizando um exército na batalha, dividindo-o em diversas tropas \u2014 como
ela se divertiria ao ver isso realizado... A arte militar não é em nada superior às outras de que as
mulheres são capazes, exceto pelo fato de ser mais rude e fazer mais barulho e mal."10
No século XVIII, dois discursos se opuseram no coração dos ideais da filosofia das Luzes.
Derivado da antiga teoria dos temperamentos, o primeiro sustentava a existência de uma "outra
natureza feminina invariante". Tomava como referência as posições expressas por Jean-Jacques
Rousseau na quinta parte do Emílio e na Nova Heloísa. Invertendo a perspectiva cristã, Rousseau
afirmava que a mulher era o modelo primordial do ser humano. Porém, ao ter esquecido o estado de
natureza, tornara-se um ser artificial e mundano. Para se regenerar, devia então aprender a viver
segundo sua verdadeira origem.
A regeneração devia assumir a forma de um retorno a uma linguagem anterior às palavras e ao
pensamento, que se assemelhasse a uma essência fisiológica da feminilidade. Nessa perspectiva, a
mulher poderia finalmente voltar a ser um ser corporal, instintivo, sensível, débil organicamente e
inapto para a lógica da razão.
O verbete "mulher" da Enciclopédia testemunha a pertinência desse discurso. A mulher é
efetivamente definida por seu útero, sua flexibilidade e sua umidade. Sujeita a doenças vaporosas, é
comparada
Kaciana
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obg!
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