INSERÇÃO E ATUAÇÃO DOS PSICÓLOGOS NO SUAS:  POSSIBILIDADES E IMPASSES   Dr. Silvio José Benelli Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras  UNESP – Campus de Assis – SP
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INSERÇÃO E ATUAÇÃO DOS PSICÓLOGOS NO SUAS: POSSIBILIDADES E IMPASSES Dr. Silvio José Benelli Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras UNESP – Campus de Assis – SP


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das formas de organização do estabelecimento institucional
f. Dimensão dos modos da relação da instituição/estabelecimento com a clientela e a população (incluindo o território), e modos da relação da população com a instituição/estabelecimento.
g. Dimensão ética 
a. Dimensão técnica ou prática: inclui o fazer, o processo de trabalho, os meios de ação sobre o \u201cobjeto\u201d/\u201csujeito\u201d, o plano das práticas (por ex.: acolhida, escuta, atendimento, encaminhamento, monitoramento, avaliação, etc). 
b. Dimensão teórica concepções sobre como é o \u201cobjeto\u201d/\u201csujeito\u201d: 
a) Psicologia: Clínica Tradicional (psicologia do ego, humanista, comportamental, psicometria, etc.), Clínica Psicanalítica, Análise Institucional, Sócio-História (dialética), Genealógica, Esquizoanalítica. 
b) Pedagogia: Tradicional (autoritária), Renovada (pseudodemocrática e psicologizante), Dialética (dialógica, democrática, politizadora, Educação Popular). 
c) Sociologia: funcionalista (reacionária), progressista (conservadora) (alienadas e mantenedoras da desordem social institucionalizada), dialética (revolucionária e transformadora).
c. Dimensão ideológica (valores, crenças, ideias) compõe o plano sociocultural, tanto o que existe e é historicamente hegemônico quanto o novo que pretende superá-lo:
a) Senso comum: preconceito/bom senso
b) Saber científico interventor autoritário: conhecer para saber, saber para prever, prever para intervir e controlar.
c) Saber transdisciplinar: tratar o outro como sujeito na ordem do conhecimento, da ação, do governo e da educação, o outro como sujeito da própria vida.
d) Elitismo arrivista: os direitos não são para todos, são privilégios de poucos.
e) Clientelismo: assistir os mais pobres é fazer favor, como concessão e benesse da autoridade.
f) Cultura da cidadania: todas as pessoas são sujeitos de direitos, que são complexos, interligados, indissolúveis, inalienáveis e intransferíveis. Os deveres seguem e são consequências dos direitos usufruídos. 
d. Dimensão política: se refere às decisões tomadas, as escolhas e as opções realizadas, bem como o planejamento e o desenho das orientações técnicas definidas, que são plasmadas nos textos e documentos escritos, incluindo as leis, as normas, os regulamentos escritos.
Entendemos que os problemas institucionais são também problemas sociais. Soluções técnicas apenas, muitas vezes não são suficientes para resolvê-los. Eles exigem soluções políticas para sua metabolização. A política não é uma questão meramente técnica (eficácia administrativa) nem científica (conhecimentos especializados sobre gerenciamento ou administração), é ação e decisão coletiva quanto aos interesses e direitos do próprio grupo social.
e. Dimensão das concepções das formas de organização do dispositivo institucional (prefeitura, secretaria, CRAS, CREAS, entidade de atendimento)
a) O modelo patrimonialista
b) O modelo de gestão piramidal, hierárquico e burocrático
c) O modelo gerencial
- copia o modelo da empresa capitalista como modelo de eficiência
- implementa uma gestão tecnocrática da administração pública
d) O modelo democrático na administração pública 
- co-gestão: participação, participacionismo, voluntariado, participação política
- conselhos municipais
- orçamento participativo
- audiências públicas
- conferências municipais
e) O modelo da organização em rede 
- a democracia radical
f. Dimensão dos modos da relação da instituição/estabelecimento com a clientela e a população (incluindo o território), e modos da relação da população com a instituição/estabelecimento.
a) Relação tuteladora e assistencialista, com as seguintes características gerais: consideram o problema social sob a aparência de ajuda; provocam a dependência por meio da doação ofertada; promovem atos compensatórios e não soluções concretas para os problemas; recriam a miséria sob a forma de tutela; promovem uma concepção naturalizante da pobreza, que é vista como normal, como residual e não como efeito estrutural da atual organização social; estigmatizam a pobreza e também o pobre; oferecem aos pobres condições de minimização da pobreza de modo também pobre e secundário; não pensam na intencionalidade ou na orientação ética com a qual a ajuda está sendo prestada; reconhecem apenas a noção de favor e não assimilam a noção de direito; são predominantemente paternalistas.
b) Relação emancipadora e cidadã: as ações assistenciais \u2013 sem nunca perderem de vista que o Modo Capitalista de Produção neoliberal não é uma sociedade direitos, no que pese sua ênfase ideológica no discurso dos direitos humanos e sociais \u2013 poderiam pautar-se pelas as seguintes características: fundamentam-se na lógica dos direitos humanos, dos direitos políticos, dos direitos sociais e dos direitos dos segmentos sociais específicos, superando a noção do favor; visam ao reforço da cidadania participativa; vão além da ajuda material e imediata; incluem atividades de orientação e de assessoria; promovem o sentido de reflexão, o aguçamento do espírito crítico e/ou tomada de decisões na população; também podem realizar as ações emergenciais necessárias, mas o fazem juntamente com uma análise pertinente das distorções promovidas pelo funcionamento da estrutura social, geradora do empobrecimento das classes populares; procuram desenvolver a articulação em rede entre todas as políticas sociais; buscam a causa dos problemas sociais de modo radical, situando-os no contexto social mais amplo, englobando as dimensões políticas, econômicas, culturais, jurídicas e sociais; buscam auxiliar as pessoas a exercerem a sua cidadania de modo integral.
g. Dimensão ética 
Ética da tutela \u2013 o indivíduo é tomado como objeto de intervenção e eu sei o que é melhor para o outro e vou aconselhá-lo, vou decidir e manda-lo fazer o que acho que seja correto para ele. O profissional é a figura de autoridade, investida de saber e também de poder.
Ética da interlocução \u2013 diálogo com o outro como um indivíduo igual a mim: somos duas pessoas racionais e capazes de escolhas e de decisões acertadas, permanecemos no plano da vontade individual, desconhecendo quaisquer fatores estruturais ou conjunturais que nos determinam ou condicionam. 
Ética da ação social: o indivíduo é tomado enquanto sujeito consciente e tratado formalmente como cidadão, precisando apenas de inclusão, de reabilitação, reinserção, ressocialização e de contratualidade social. Predomina uma sociologização terapêutica que dispensa qualquer tipo de clínica.
Ética do cuidado: variação do modelo anteriror, nela o indivíduo é tomado como objeto de cuidado, com base na solidariedade, compaixão e identificação, recaindo facilmente na ética da tutela.
Ética do sujeito do inconsciente: parte das contribuições teóricas, técnicas, éticas e políticas da Psicanálise do campo de Freud e Lacan, postulando um indivíduo que porta um sujeito do inconsciente, um sujeito do cuidar-se. O sujeito é alguém que aprende, que se organiza e que se implica de modo absolutamente próprio e singular.
Referências
ARAÚJO, F. I. C. \u201cMas a gente não sabe que roupa a gente deve usar...\u201d Um estudo sobre a prática do psicólogo no Centro de Referência da Assistência (CRAS). Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010. 
BENELLI, S. J. Entidades assistenciais socioeducativas: a trama institucional. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. 237 p. 
BENELLI, S. J. As éticas nas práticas de atenção psicológica na Assistência Social. Estudos de Psicologia, Puc-Campinas, vol. 31, n.2, p.269-278, 2014. 
CHRISTIANO, A. P. O psicológico na rede socioassistencial de atendimento à crianças e adolescentes. Dissertação (Mestrado em Psicologia e Sociedade) \u2013 Universidade Estadual Paulista, Assis, São Paulo, 2010. 
MARIANO, M. L. H. S. O praticante de psicanálise no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS): a intervenção retificadora e outras questões. Dissertação (Mestrado) \u2013 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2011. 
MACEDO, J. P.