Flávio C. Ferraz - Perversão
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Flávio C. Ferraz - Perversão


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se relacionava com esse tipo de homem que con-
siderava viril e até mesmo tosco, André introduzia uma outra 
variante na relação. Após a abordagem inicial, começava o 
ato, como de hábito, por sugar o pênis daqueles homens. Mas, 
ao perceber que eles começavam a gostar e a entusiasmar-se, 
então fazia-lhes também algumas carícias, nas pernas ou na 
barriga. se não encontrava resistência, usava sua técnica de 
ir conduzindo o parceiro a uma espécie de torpor extático, 
e então começava a passar a mão em suas nádegas. Quando 
conseguia esse feito, sentia-se vitorioso por provar que aquele 
homem se deixara tratar como um \u201cveado\u201d. Imaginar que es-
tava destruindo a masculinidade de um homem dava-lhe uma 
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sensação de triunfo. Certa vez, depois de praticar a felação 
em um caminhoneiro à beira da estrada, percebeu que este 
se inquietava porque seu filho adolescente, que fora dar uma 
volta, reaproximava-se do caminhão. Perturbado pelo medo de 
ser apanhado pelo filho, o parceiro pediu-lhe que saísse logo 
dali. Levando o homem ao desespero, André lhe propôs deixar 
que fizesse o mesmo com o filho. Afinal, ele não podia negar que 
havia gostado, e o filho poderia desfrutar do mesmo gozo... 
No fim da história, André acabou concordando em afastar- 
se dali, mas não sem antes divertir-se sadicamente diante 
daquele homem que ficara, por alguns minutos, em maus lençóis.
Havia um aspecto da vida de André que me chamava a 
atenção como algo significativo para a compreensão de sua 
dinâmica psíquica. Trata-se do fato de que ele dormia pouco, 
pois passava as noites em festas, invariavelmente seguidas de 
\u201ccaçadas\u201d e aventuras sexuais na madrugada. Mas, como era 
muito responsável em seu trabalho, acordava sempre logo 
cedo. Assim, não era raro que dormisse apenas duas ou três 
horas por noite, coisa que também me contava com uma soberba 
na po leônica. suas sessões eram no início da manhã e, mesmo 
assim, ele nunca faltava ou se atrasava, e, antes de chegar ao 
consultório, fazia uma hora de ginástica na academia. sua úni-
ca falta foi no dia em que o pai morreu repentinamente e ele 
teve de viajar às pressas para cuidar do funeral, visto que seus 
ir mãos eram incapazes de tal empresa. Do mesmo modo como 
negava sua necessidade de sono, negava também a falibilidade 
do seu corpo. se adoecia, procurava não se importar e em nada 
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alterava sua rotina; mesmo que estivesse com febre, mantinha 
o ritmo habitual de trabalho e de atividades sociais e sexuais.
Antes de vir ter comigo, André experimentara por poucas 
semanas um tratamento com um outro analista, de quem es-
capou apavorado. Contou-me que, ao narrar sua vida sexual 
promíscua, aquele analista lhe alertou para o perigo que corria 
de contrair AIDs. Como esse era um assunto no qual não que-
ria nem pensar, encerrou ali mesmo aquela breve experiência, 
queixando-se depois para mim que o outro analista tenta- 
ra arremessá-lo a um abismo, ao falar-lhe de uma coisa tão 
sombria que lhe despertara muito medo e o fizera sentir-se na 
iminência do desespero e de um colapso psíquico.
se eu estendesse o relato desse caso de forma pormenori-
zada, certamente teria matéria para centenas de páginas. 
Assim, o que cabe fazer, por ora, é mencionar alguns pontos da 
evolução da análise de André e algumas mudanças psíquicas 
conseguidas a duras penas, tanto para ele como para mim.
A série de relatos \u201cheroicos\u201d prosseguia, mas, cada vez mais, 
era-nos possível refletir sobre os afetos que veiculavam ou dissi-
mulavam, bem como sobre os afetos que André experimentava 
na situação analítica e, aos poucos, ia podendo exprimir. eu 
tinha a certeza de que a depressão potencial, ocultada por toda 
aquela montagem perversa, era algo de porte oceânico, e que 
a análise só resultaria em algum avanço se atravessássemos, ali, 
o pântano infernal que cercava sua vida psíquica.
Impressionava-me a quase compulsão com que André me 
contava de sua vida sexual, de detalhes minuciosos dos atos 
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sexuais e, particularmente, da anatomia sexual dos parceiros, 
de cuja fisionomia ele nem sequer se lembrava. Colecionava 
mentalmente os pênis que ia conhecendo e era capaz de passar 
minutos descrevendo-os. Gabava-se de conhecê-los aos milha-
res. eu me interrogava frequentemente sobre o sentido daquilo 
tudo, daquela falta de privacidade, daquele escancaramento. 
suas aventuras sexuais heroicas, que no início chocavam-me 
um pouco, passaram a entediar-me sobremaneira. Como sair 
daquilo? Fui percebendo, então, quão pobre era seu mundo 
onírico e quão estereotipadas e repetitivas eram suas fantasias. 
Aquilo que poderia parecer uma exuberância fantasmática ia-se 
revelando como um estado de verdadeira paupéria da vida 
mental. As fantasias eram imutáveis e invariavelmente atuadas 
de modo compulsivo. Aliás, André dizia que nunca sonhava, 
ou, pelos menos, nunca se lembrava de seus sonhos, se é que 
sonhava. Acreditava não ter sonhos.
eis, então, que, após dois anos de análise, teve um sonho 
pavoroso, um pesadelo que o despertou no meio da noite. seu 
estado de pânico foi tal que se sentiu mal fisicamente, achando 
que teria algum problema cardíaco, e não mais conseguiu con-
ciliar o sono naquela noite. Custou a decidir se o que lhe tinha 
sucedido era sonho ou se fora uma visão real. Ainda sob forte 
impacto emocional daquela experiência, ele me contou, na ses-
são da manhã subsequente, que sonhara com um pássaro preto 
e grande. essa ave horrenda e pavorosa, de mau agouro, havia 
entrado em seu quarto e feito um voo rasante, quase o atingindo. 
Achou que se tratava de um mau presságio. era só isso.
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Pensei então com meus botões que nos aproximávamos de 
elementos inconscientes da maior relevância: ali se delineavam 
as figuras da castração recusada, da loucura potencial que a 
perversão escondia como se fosse um muro sólido e irremovível, 
do pavor lancinante que o ameaçava constantemente mas era 
rechaçado com veemência e, enfim, da perigosa depressão em 
que cairia se removêssemos aquelas defesas que, ao longo de sua 
história, foram-se estruturando para que ele se protegesse da 
morte psíquica, da sensação de vazio, inexistência e futilidade.
Nesse momento crucial de sua análise, cabe dizer, sua vida 
vinha passando por significativas alterações. Arranjara um 
namorado com quem ficou por alguns meses, sem, no entanto, 
abandonar suas práticas sexuais corriqueiras. Confessou-me 
sentir-se aturdido por descobrir o quanto era bom dormir uma 
noite inteira com alguém e ter relações sexuais deitado, já que 
nunca havia experimentado uma relação que não tivesse sido 
rápida e realizada em pé em um canto secreto qualquer, muitas 
vezes em um banheiro público. Após essa experiência de na-
moro, conheceu um outro rapaz, de origem bem mais simples 
do que o primeiro, com quem permaneceu mais tempo e por 
quem se dizia apaixonado. Quando adoecia, geralmente com 
gripe, esse rapaz cuidava dele, levando-lhe chá e remédios na 
cama. André se emocionava muito com isto, embora sempre 
manifestasse desconfiança quanto à autenticidade de suas 
próprias emoções. Menciono esses fatos por acreditar que 
foram de uma importância monumental e resultantes de uma 
mudança psíquica conseguida que indicava, por consequência, 
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uma mudança concernente ao estatuto do objeto em seu 
mundo relacional.
É interessante também o fato de que, concomitantemente 
a essas mudanças, André passou a viver uma crise profissional 
em que, descontente