Heteridade - Revista de Psicanálise - vol. 6 - As realidades sexuais e o inconsciente
209 pág.

Heteridade - Revista de Psicanálise - vol. 6 - As realidades sexuais e o inconsciente


DisciplinaPsicanálise17.372 materiais281.936 seguidores
Pré-visualização50 páginas
filha permanecem silenciosos, mas não a analisante que comenta 
esse sonho achando, enfim, que sua mãe exagerou! É com efeito surpreendente que 
ela não se autorizasse até aqui nenhum comentário hostil contra qualquer pessoa, e 
73 
 
menos ainda contra um membro de sua família. Quanto a seu pai, humilhado, 
incapaz de interditar a mãe, dava-lhe pena. 
No decurso do sonho retornam duas lembranças, esquecidas. A primeira 
vinha completar e dar todo sentido à cena traumática. A diretora da escola estava 
grávida até o pescoço. Como ela pudera se esquecer? Era para protegê-la que ela se 
havia feito de morta. A segunda é bem mais antiga, antes do tempo da escola. A 
mãe lhe mostra o curativo que traz no dedo e que em francês também é chamado 
boneca (poupée). Ela quer ver a boneca mais de perto, quer que sua mãe lha 
entregue. A mãe descobre o dedo, ele traz o traço de um corte, ela é tomada de 
horror. Esse mesmo horror que provocou em outra analisante minha uma exposição 
recente, intitulada \u201cNascimentos\u201d. No lugar da mãe-toda que o cartaz lhe prometia 
(uma jovem mulher em sua plenitude tendo um bebê contra o seio), ela fora 
encontrar a mãe castrada, aquela cujo sexo escancarado se expunha na violência de 
um parto. É verdade que o sujeito descobre ao mesmo tempo que a castração 
materna, sua própria castração 
O falo é portanto o pivô de toda uma série de manifestações clínicas que 
se exige postular. É porque a mãe se revela privada do órgão que o pequeno 
neurótico, qualquer que seja seu sexo, tenta desastradamente se fazer objeto 
enganador, engodo, falo, na esperança vã de satisfazê-la. Mas a instauração da lei 
inconsciente do interdito do incesto obriga-o a reconhecer que ele não pode. 
A releitura recente, para os nosso encontros, dos textos que Freud 
consagrou à vida sexual e à sexualidade feminina, complementada pelos 
comentários de Lacan, me fez perceber ainda uma vez sua pertinência clínica 
intemporal a despeito das exigências sociais, daí o título desse trabalho. A perda da 
virgindade revelou, para essas duas mulheres modernas que são Charlotte 
Simmons e minha analisante, seu complexo de castração. A suspensão da amnésia 
infantil que pesava sobre a castração materna permitiu a uma ultrapassá-lo. A outra 
terá esta chance? 
74 
 
Retomemos esse complexo de castração que Freud descobre após o 
complexo de Édipo, que ele não situou com precisão cronológica em relação a este. 
Ele sobrevive à fase da primazia do falo, quer dizer, antes da fase de latência, mas 
sobrevive antes ou depois do Édipo? Freud fica confuso. Ele considera que ele é 
posterior ao Édipo no menino, e anterior na menina, para quem a escolha do pai 
como objeto não passa de uma das conseqüências possíveis, última, as duas outras 
sendo, uma, um modo de se desviar da sexualidade, e outra, a \u201cnão desistência, 
com uma segurança insolente, de sua masculinidade ameaçada\u201d e a escolha da 
homossexualidade. 
Lacan, relendo Freud trinta anos mais tarde, pode articular os dois 
complexos de forma muito mais simples. É o complexo de castração, 
cronologicamente anterior, qualquer que seja o sexo, que ele promove. Ele deixa 
cair o complexo para visar apenas a castração, \u2018crise essencial pela qual todo 
sujeito se introduz, se habilita a ser edipianizado de pleno direito\u2019. Ele a diferencia 
da frustração e da privação e a define como a operação simbólica que opera sobre 
um objeto imaginário, o falo. Esse objeto imaginário deve ser elevado à classe de 
significante para tornar-se instrumento na ordem simbólica das trocas. Esse 
significante que Lacan escreve com a letra grega maiúscula \u2026, se acha confrontado 
com aquilo que constitui o pivô do drama edipiano, a função pai, função que supõe 
a interdição do incesto materno e que ele escreverá igualmente grande \u2026, função 
fálica. 
Se realmente seguimos o fio que nos conduz, de 1956 a 1972, do 
Seminário sobre A relação de objeto até o L\u2019Etourdit, esse significante fálico \u2026, 
significante do desejo, é também o significante da lei que o rege. \u2026 é, portanto, 
tanto função fálica quanto função de castração. Essa função certamente nos evoca 
o pai da horda primitiva, aquele que Freud concebeu no Totem e Tabu. Mas é a um 
outro tabu, o da virgindade, que o romance de Tom Wolfe nos remete. A 
indelicadeza do deflorador de Charlotte vem nos lembrar que o homem moderno 
75 
 
tem tanto medo da mulher quanto o homem primitivo. E se ele zomba não somente 
de sua virgindade, mas também de seu tosão pubiano (ora, sabe-se que a moda é 
púbis depilados, imberbes), é para melhor esconder seu horror. 
Eu diria, para concluir, que se a virgindade se tornou um sintoma para as 
mulheres, ela permanece um tabu para os homens. 
 
 
 
Referências bibliográficas: 
EUGENIDES J. Middlesex. Paris: Éditions de l\u2019Olivier/Seuil, 2003 para a tradução 
francesa. 
FREUD, S. La Vie sexuelle. Paris: P.U.F., 1989 
______ (1918). \u201cLe Tabou de la virginité\u201d, p. 66-80. 
______ (1923). \u201cL\u2019Organisation génitale infantile\u201d, p. 113-6. 
______ (1925). \u201cQuelques conséquences psychiques de la différence anatomique 
entre les sexes\u201d, p. 123-32. 
______ (1931). \u201cSur la sexualité féminine\u201d, p. 139-55. 
LACAN, J. Ecrits. Paris: Seuil, 1966. 
______ \u201cLa Signification du phallus\u201d, p. 685-95. 
______ \u201cPropôs directifs pour un congrès sur la sexualité feminine\u201d, p. 725-36. 
______ \u201cDu Trieb de Freud et du désir du psychanalyste\u201d, p. 852. 
______ Le Seminaire, Livre IV, La Relation d\u2019objet. Paris: Seuil, 1994. 
______ \u201cL\u2019Etourdit\u201d. In: Autres Écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 449-95. 
MURAKAMI, H. Kafka sur le ravage. Paris: Belfond, 2006, para a tradução 
francesa. 
WOLFE T., Moi, Charlotte Simmons. Paris: Editions Robert Laffond, 2006, para a 
tradução francesa. 
 
 
76 
 
Do sexo dos gêneros... 
 ou o encontro do terceiro tipo 
 
Martine Menès 
 
(...) Como eles me parecem estranhos, esses homens e essas mulheres... Suas 
vozes parecem-me curiosas, muito graves ou muito agudas. São como grandes animais 
bizarros de duas espécies diferentes, (...)1 
 
Assim fala, em A mão esquerda da noite, um terráqueo que reencontra 
seus semelhantes depois de uma grande permanência em um outro planeta onde a 
diferença dos sexos não existe e os sujeitos são todos hermafroditas, salvo alguns 
considerados, então, como \u2018pervertidos\u2019, mudando de sexo conforme seus desejos 
passageiros. 
Então, 
 
As realidades sexuais... 
...surpreendem quem consegue olhar além de sua galáxia de referência. 
No planeta queer também, a sexuação é uma performance no sentido 
artístico do termo, ou seja, uma criação individual, renovável e exposta. 
Esta de-monstração, nós psicanalistas, olha. 
Da mesma forma que os sujeitos que apresentam a tendência queer, que 
expõem em plena luz \u201ca maldição sobre o sexo\u201d 2, endereçam-se à psicanálise 
ainda que seja para interpelar sua tendência mais conservadora. Tomarei este 
endereçamento ao pé da letra, colocando em ressonância os dois discursos, 
 
1 LE GUIN, U. La main gauche de la nuit. Paris: Le livre de poche, 1971, p. 399. 
2 LACAN, J. Télévision. Paris: Seuil, 1974, p.50. 
77 
 
considerando que um e outro não concordam sobre nada, a não ser sobre o 
essencial: a apreensão3, em todos os sentidos do termo, do real. 
Meu interesse é ressaltar os pontos de impacto entre aquilo que, nas 
teorias feministas e pós feministas sobre a diferença dos sexos, interroga o real 
questionando os limites da organização fálica e o que, nas formalizações lacanianas 
sobre a mesma questão, indicam pistas em que reconhecem tanto a relação entre 
simbólico e real, quanto o que resta excluído.