REICH, Wihelm. A Funcao do Orgasmo
199 pág.

REICH, Wihelm. A Funcao do Orgasmo


DisciplinaVegetoterapia4 materiais32 seguidores
Pré-visualização50 páginas
preço que as perturbações
da função cerebral, ou fuma secreção interna, causavam as enfermidades mentais. Os psiquiatras
exultavam ao ver que pacientes que sofriam de paresia geral apresentavam alguns sintomas de
autêntica esquizofrenia ou melancolia. "Vejam, isso é o que advêm da imoralidade": essa era, e ainda
é, a atitude freqüentemente assumida. Não ocorria a ninguém que os desequilíbrios das funções do
corpo, sob qualquer forma, poderiam igualmente ser os resultados de uma perturbação geral do
funcionamento vegetativo.
Havia três conceitos básicos sobre a relação entre a esfera somática e a esfera psíquica:
1. Toda enfermidade ou manifestação psíquica tem uma causa física. Essa era a fórmula do
"materialismo mecanicista".
2 Para este "ato sexual animal puro e simples" o original alemão traz a expressão vogeln e também o seu correspondente
inglês to fuck. (N. do T.)
41
2. Toda enfermidade ou manifestação psíquica pode ter somente uma causa física. Para o
pensamento religioso, todas as enfermidades somáticas são também de origem psíquica. Essa era a
fórmula do idealismo metafísico. Corresponde à idéia de que "o espírito cria a matéria", e não o
contrário.
3. O psíquico e o somático são dois processos paralelos que exercem efeito recíproco um sobre
o outro \u2014 paralelismo psicofísico.
Não havia nenhum conceito funcional-unitário da relação corpo-mente. As questões filosóficas
não desempenhavam qualquer papel no meu trabalho clínico, nem o meu trabalho clínico procedia de
qualquer filosofia. Pelo contrário, com base no meu trabalho clínico, desenvolvi um método que, a
princípio, apliquei bem inconscientemente. Esse método requeria clareza quanto à conexão entre os
campos somático e psíquico.
Inúmeros pesquisadores observaram corretamente os mesmos dados. No trabalho científico
entretanto eram rivais uns dos outros; a teoria do "caráter nervoso", de Adler, por exemplo, opunha-
se à teoria da etiologia sexual das neuroses, de Freud. Por mais que se hesite em admiti-lo, é todavia
verdade: "caráter" e "sexualidade" constituíam dois pólos irreconciliáveis do pensamento
psicanalítico. Falar demais em caráter não era exatamente o que a Associação Psicanalítica mais
apreciava. Eu lhe entendia as razões. Não havia outro tema que permitisse tantos sofismas quanto o
"caráter". Poucos estabeleciam uma distinção clara entre a avaliação do caráter ("bom" ou "mau") e
as investigações científico-naturais. Caracterologia e ética eram, e ainda são, quase idênticas. Mesmo
na psicanálise, o conceito de caráter não estava livre das avaliações morais. Havia um estigma ligado
ao caráter "anal"; também, embora menos, ao caráter "oral", mas este último era considerado infantil.
Freud havia demonstrado que a origem de inúmeros traços típicos de caráter está nos impulsos da
primeira infância. Abraham fornecera dados brilhantes sobre os traços de caráter na melancolia e nos
estados maníaco-depressivos. Por isso, a confusão entre avaliações morais e investigações empíricas
era absolutamente desconcertante. Dizia-se, naturalmente, que o trabalho científico tinha de ser
"objetivo" e "não-avaliativo". Mesmo assim cada frase sobre o comportamento do caráter era um
julgamento; não \u2014 o que seria correto \u2014 um julgamento sobre a "sanidade" ou a "enfermidade" de
uma forma particular de comportamento; mas um julgamento no sentido do "bom" e do "mau". A
idéia era de que havia certos "caracteres maus" incompatíveis com o tratamento psicanalítico. Dizia-
se que o tratamento psicanalítico requeria certo nível de organização psíquica no paciente, e que
muitos não valiam a pena. Além disso, muitos pacientes eram tão "narcisistas" que o tratamento não
conseguia vencer a barreira. Mesmo um QI baixo era considerado como empecilho para o tratamento
psicanalítico. Por essa razão, o trabalho psicanalítico limitava-se aos sintomas neuróticos
circunscritos às pessoas inteligentes, capazes de associações livres e possuidoras de caráter
"corretamente desenvolvido".
Esse conceito feudalista da psicoterapia, que pela sua própria natureza é extremamente
individualista, entrou naturalmente em conflito imediato com as necessidades do trabalho médico
quando se abriu, no dia 22 de maio de 1922, a Clínica Psicanalítica de Viena para pessoas pobres. No
Congresso de Budapeste, em 1918, Freud havia falado sobre a necessidade de fundar clínicas
psicanalíticas públicas para os que não podiam pagar um tratamento particular. Entretanto, disse,
ouro puro da psicanálise deveria ser misturado "com o cobre da terapia de sugestão". Um tratamento
em massa tornaria isso necessário.
Já no ano de 1920, uma clínica psicanalítica fora instalada em Berlim, sob a direção de Karl
Abraham. Em Viena, as duas autoridades médicas locais, que haviam autorizado a clínica
psicanalítica e também o departamento estadual de saúde, interpuseram dificuldades consideráveis.
Os psiquiatras estavam positivamente contra ela e apresentavam toda sorte de desculpas
esfarrapadas, enquanto a associação médica temia que a profissão viesse a sofrer prejuízos
42
financeiros. Resumindo, a criação de uma clínica foi considerada inteiramente inútil. Finalmente,
entretanto, conseguiu-se a necessária autorização. Mudamo-nos para algumas salas na secção de
cardiologia de Kaufmann e Meyer. Seis meses mais tarde foi emitida uma proibição contra a nossa
permanência ali. A clínica foi jogada de um lado para outro, porque as autoridades não sabiam o que
fazer com ela; nem ela se ajustava à estrutura do seu pensamento. Hitschmann, o diretor da clínica
psicanalítica, descreveu-lhe as dificuldades num livro escrito em honra do décimo aniversário.
Quero, entretanto, voltar ao meu tema principal.
A clínica psicanalítica tornou-se em um manancial de observações dos mecanismos das
neuroses, em pessoas pobres. Trabalhei nessa clínica desde o dia da sua abertura, como primeiro
assistente médico; trabalhei ali durante oito anos, ao todo; no fim, como diretor eleito. Os horários de
consulta viviam apinhados de gente. Havia industriários, funcionários de escritório, estudantes e
trabalhadores rurais. A afluência era tão grande que nós não dávamos conta, sobretudo depois que a
clínica se tornou conhecida entre o povo. Cada psicanalista concordou em oferecer gratuitamente
uma sessão diária. Mas não foi o suficiente. Precisávamos destacar os casos mais passíveis de
análise. Isso nos obrigou a procurar descobrir os meios de avaliar as possibilidades de tratamento.
Mais tarde, convenci os analistas a dar uma contribuição mensal. Queria empregar esse dinheiro para
contratar um ou dois médicos pagos; assim, podia esperar-se que o nome de "clínica" viesse a ser um
dia justificado. Segundo os padrões do tempo, acreditava-se que o tratamento requeria uma sessão
diária, durante pelo menos seis meses. Uma coisa se tornou logo clara: a psicanálise não é uma
terapia para aplicação em massa. A idéia de prevenir neuroses não existia \u2014 e ninguém saberia o
que dizer a respeito. O trabalho na clínica logo tornou claro o seguinte:
\u2014 a neurose é uma doença da massa, uma infecção semelhante a uma epidemia, e não um
capricho de mulheres mimadas, como se afirmou mais tarde na luta contra a psicanálise;
\u2014 a perturbação da função genital era, sem sombra de dúvida, a razão mais freqüentemente
apresentada para a vinda à clínica.
Eram indispensáveis critérios de avaliação dos resultados do tratamento psicoterapêutico se
queríamos fazer qualquer progresso. Quais os critérios para a determinação do prognóstico da
terapia? Essa questão não havia sido anteriormente considerada.
Por que um analista conseguia curar um paciente, e não outro, era também uma questão de
primeira grandeza. Se pudéssemos saber isso, então poderíamos fazer uma seleção melhor dos
pacientes. A essa altura, não havia uma teoria da terapia.
Nem o psiquiatra nem o psicanalista haviam pensado em pesquisar as condições de vida dos
pacientes. Sabia-se, claro,