REICH, Wihelm. A Funcao do Orgasmo
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REICH, Wihelm. A Funcao do Orgasmo


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o amor contrariado causa angústia. Igualmente, a
agressão inibida causa angústia; e a angústia inibe as exigências do ódio e do amor.
Tinha agora uma compreensão teórica do que experimentei analiticamente na solução da
neurose. Tinha também uma compreensão analítica daquilo que sabia teoricamente, e consegui o
mais importante dos resultados: a pessoa orgasticamente insatisfeita desenvolve um caráter artificial
e um medo às reações espontâneas da vida; e assim, também, um medo de perceber as suas próprias
sensações vegetativas.
Nessa época, as teorias sobre os instintos destrutivos começavam a adquirir importância na
psicanálise. No seu ensaio sobre o masoquismo primário, Freud introduziu importante mudança em
uma fórmula anterior. Dizia-se, inicialmente, que o ódio era uma força instintiva biológica, paralela
ao amor. A tendência destrutiva dirigia-se, primeiro, contra o mundo exterior. Sob influência deste
último, entretanto, voltava-se para dentro, contra si mesma, e assim se transformava em masoquismo,
i.e., no desejo de sofrer. Agora parecia que o inverso é que era verdadeiro: o "masoquismo primário",
ou "instinto de morte", estava no organismo desde o princípio. Fazia parte integrante das células. A
sua projeção para o exterior, contra o mundo, fazia emergir uma agressão destrutiva, que, por seu
lado, podia ser novamente voltada contra o ego, como um "masoquismo secundário". Afirmava-se
que a secreta atitude negativa do paciente era alimentada pelo seu masoquismo. Segundo Freud, o
masoquismo também era responsável pela "reação terapêutica negativa" e pelo "sentimento
inconsciente de culpa". Após muitos anos de trabalho em diferentes formas de tendência destrutiva,
que causavam sentimentos de culpa e depressões, comecei finalmente a ver a sua significação na
couraça do caráter, e a sua dependência da estase sexual.
Com o consentimento de Freud, comecei a pensar seriamente em escrever um livro sobre a
técnica psicanalítica. Nesse livro, eu tinha de assumir uma posição definida quanto à questão da
tendência destrutiva. Ainda não tinha uma opinião própria. Ferenczi discordara de Adler em um
ensaio intitulado "Weitere Ausbau der aktiven Technik". "Investigações do caráter", escrevera,
"nunca desempenham função relevante na nossa técnica". Apenas no fim do tratamento têm "alguma
importância". "O caráter assume importância apenas quando certos traços anormais, semelhantes à
psicose, rompem o curso normal da análise". Nessas frases, formulara exatamente a atitude da
psicanálise em relação à função do caráter. Nesse tempo, eu estava profundamente mergulhado nas
investigações do caráter. Adler invocara a análise do caráter no lugar da análise da libido. Eu estava,
porém, tentando desenvolver a psicanálise no sentido de uma "análise do caráter". A verdadeira cura,
afirmava eu, só pode ser conseguida pela eliminação da base dos sintomas no caráter do paciente. A
dificuldade do trabalho estava na compreensão das situações analíticas que exigiam não uma análise
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do sintoma porém uma análise do caráter. A minha técnica diferia da de Adler porque eu visava à
análise do caráter através da análise do comportamento sexual do paciente. Adler, entretanto, dissera:
"Não uma análise da libido mas uma análise do caráter". Não há nenhum paralelo entre o meu
conceito de couraça do caráter e a idéia de Adler quanto aos traços individuais do caráter. Qualquer
referência a Adler na discussão da teoria econômico-sexual da estrutura indica profunda divergência.
Traços de caráter como "complexo de inferioridade" ou "ambição de poder" são apenas
manifestações superficiais do processo de "encouraçamento", no sentido biológico da inibição
vegetativa do funcionamento vital.
Em Der triebhafte Charakter (1925), com base nas minhas experiências com pacientes
impulsivos, passei da análise do sintoma para a análise do caráter. Era lógico, mas eu não tinha
suficiente conhecimento clínico e técnico para ir adiante, naquele tempo. Assim, agarrei-me à teoria
do ego e do superego, de Freud. Entretanto, uma técnica de análise do caráter não podia ser
elaborada com os conceitos auxiliares da psicanálise. O que era necessário era formular uma teoria
da estrutura psíquica, funcional e biologicamente comprovada.
Ao mesmo tempo, as minhas experiências clínicas revelaram claramente que o objetivo da
terapia consistia em estabelecer a capacidade de conseguir plena satisfação sexual. Eu sabia que o
objetivo era esse, embora só o houvesse atingido em poucos pacientes. Não tinha idéia de uma
técnica, fosse qual fosse, que me permitisse alcançá-lo sempre. De fato, quanto mais firme eu me
tornava na minha afirmação de que a potência orgástica é o objetivo da terapia, tanto mais consciente
estava das imperfeições da nossa experiência técnica. Em vez de diminuir, aumentava a lacuna entre
o objetivo e a habilidade.
Terapeuticamente, os esquemas freudianos da função psíquica mostraram-se eficientes apenas
em um campo limitado. Tornar conscientes os desejos e conflitos inconscientes só tinha efeito
curativo quando a genitalidade também era restabelecida. Quanto à necessidade inconsciente de
punição, não tinham nenhuma utilidade terapêutica; pois, se há um instinto biológico profundamente
enraizado de permanecer doente e de sofrer, então a terapia nada pode fazer!
Muitos analistas desorientavam-se por causa da desolação reinante no campo da terapia. Stekel
não quis trabalhar sobre a resistência psíquica à revelação da matéria inconsciente, preferindo "atirar
contra o inconsciente com interpretações". Essa prática ainda é seguida por muitos psicanalistas
desorientados. Era uma situação desesperada. Stekel rejeitou as neuroses atuais e o complexo de
castração. Queria efetuar curas rápidas. Era a sua maneira de se destacar do arado de Freud, que,
embora lento, arava completamente.
Adler não pôde lutar contra a teoria da sexualidade quando percebeu sentimentos de culpa e
agressão. Acabou como filósofo finalista e moralista social.
Jung generalizou a tal ponto o conceito de libido que este perdeu completamente a sua
significação de energia sexual. Acabou no "inconsciente coletivo" e com isso no misticismo, que
mais tarde representou oficialmente como nacional-socialista.
Ferenczi, homem de talento e humanamente destacado, tinha perfeita consciência da desolação
reinante no campo da terapia. Procurou a solução no corpo. Desenvolveu uma "técnica ativa",
concentrada nos estados de tensão física
Mas não estava familiarizado com a neurose estásica, e cometeu o erro de não levar a sério a
teoria do orgasmo.
Rank também tinha consciência da desolação terapêutica. Reconhecia o desejo de paz \u2014
desejo de uma volta ao útero. Entretanto, não compreendeu o medo que o homem sente de viver
neste mundo horrível, interpretando-o biologicamente como o trauma do nascimento, que supunha
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ser o cerne da neurose. Não lhe ocorreu perguntar por que as pessoas querem fugir da vida real,
voltando para o útero protetor. Entrou em conflito com Freud, que prosseguiu com a teoria da libido;
retirou-se da Associação.
Todos eles afundaram por causa da questão única suscitada por toda situação psicanalítica:
onde e como deverá o paciente expressar a sua sexualidade natural quando esta for libertada da
repressão? Freud não aludia a essa questão nem podia sequer tolerá-la, como ficou claro mais tarde.
E finalmente, porque se recusara a tratar dessa questão central, o próprio Freud criou enormes
dificuldades ao postular um impulso biológico para o sofrimento e a morte.
Semelhantes problemas não podiam resolver-se teoricamente. Os exemplos de Rank, Adler,
Jung e outros dissuadiam-nos de apresentar argumentos que não houvessem sido clinicamente
comprovados em todos os pormenores. Eu podia estar correndo o risco de simplificar demais o
complexo total dos problemas: digam aos pacientes que tenham relações sexuais, se vivem em
abstinência; que se masturbem, e tudo