FOUCAULT, Michel. História da Loucura
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FOUCAULT, Michel. História da Loucura


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da loucura nessa época \u2014 ou, se
se preferir, ao seu não-renascimento \u2014 seu estilo particular. Toda
loucura oculta uma opção, assim como toda razão oculta uma
escolha livremente reali zada. Isto pode ser percebido no imperativo
insistente da dúvida cartesiana, mas a própria escolha, este
movimento constitutivo da razão no qual o desatino é livremente
excluído, se desenvolve na reflexão de Spinoza e nos es forços
inacabados da Réforme de l'entendement. Aí, a razão se afirma
antes de mais nada como decisão contra todo o desatino do
mundo, na clara consciência de que "todas as ocorrências mais
freqüentes da vida comum são vãs e fúteis"; trata-se portanto de
partir em busca de um bem "cuja descoberta e posse tivessem por
fruto uma eternidade de alegria contínua e soberana". Espécie de
aposta ética que será vencida quando se descobrir que o exercício
da liberdade se realiza na plenitude concreta da razão que, por sua
união com a natureza considerada em sua totali dade, é acesso a
uma natureza superior.
Qual é então essa natureza? Mostraremos que ela é o conhecimento da união
que a alma pensante tem com toda a natureza16.
A liberdade da aposta termina assim numa unidade onde ela
desaparece como escolha e se realiza como neces sidade da razão.
Mas esta realização só foi possível sobre o fundo constituído pela
loucura conjurada, e até o fim ela manifesta o perigo incessante
desta. No século XIX, a razão procurará situar-se com relação ao
desatino na base de uma necessidade positiva, e não mais no espaço
livre de uma escolha. A partir daí, a recusa da loucura não será
mais uma exclusão ética, mas sim uma distância já concedida; a
razão não terá mais de distinguir -se da loucura, mas de
reconhecer-se como tendo sido sempre anterior a ela, mesmo que
lhe aconteça de alienar-se nela. Mas enquanto o Classicismo
mantém essa escolha fundamental como condição do exercício da
16 Réforme de l´entendement, trad. APPUHN, Oeuvres de Spinoza, Garuer, 1, p.
228-229.
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razão, a loucura transparece no brilho da liberdade.
No momento em que o século XVIII interna como insana uma
mulher que "faz uma devoção à sua moda", ou um padre porque
não se percebe nele nenhum dos indícios da caridade, o juízo
que condena a loucura sob esta forma não esconde um
pressuposto moral: ele simplesmente manifesta a divisão ética
entre a razão e a loucura. Somente uma consciência "moral", no
sentido em que será entendida no século XIX, poderá indignar-se
com o tratamento inumano que a época anterior impôs aos loucos
\u2014 ou surpreender-se com o fato de não terem sido tratados nos
hospitais numa época em que os méd icos escreviam doutas obras
sobre a natureza e o tratamento da raiva, da melancolia e da
histeria. De fato, a medicina como ciência positiva não podia ter
influência sobre a divisão ética da qual nascia toda razão possível.
O perigo da loucura, para o pensamento clássico, nunca designa o
tremor, o pathos humano da razão encarnada, mas remete a essa
região da qual o dilaceramento da liberdade deve fazer nascer
com a razão o próprio rosto do homem. Na época de Pinel, quando a
relação fundamental da ética com a razão será convertida num
relacionamento segundo da razão com a moral, e quando a loucura não
será mais que um avatar involuntário sucedido, do exterior, à razão, se
descobrirá com horror a situação dos loucos nas celas dos hospícios. Vem
a indignação pelo fato de os "inocentes" terem sido tratados como
"culpados". O que não significa que a loucura recebeu finalmente seu
estatuto humano ou que a evolução da patologia mental sai pela
primeira vez de sua pré-história bárbara, mas sim que o homem
modificou seu relacionamento originário com a loucura e não a
percebe mais a não ser enquanto refletida na superfície dele mesmo,
no acidente humano da doença. Ele considera então inumano que se
deixem apodrecer os loucos no fundo das casas de correição e dos
quartéis de força, não mais entendendo que, para o homem clássico, a
possibilidade da loucura é contemporânea à escolha constituinte da
razão e, por conseguinte, do próprio homem. E tanto que nos séculos
XVII ou XVIII não há margem para tratar-se a loucura "humanamente",
pois ela é, de pleno direito, inumana, formando por assim dizer o outro
lado de uma escolha que possibilita ao homem o livre exercício de sua
natureza racional. Os loucos entre os correcionais: não há nisso nem
cegueira, nem confusão, nem preconceito, mas sim o propósito
deliberado de deixar que a loucura fale a linguagem que lhe é própria.
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Esta experiência de uma escolha e de uma liberdade,
contemporâneas da razão, estabelece com uma clareza evidente para
o homem clássico uma continuidade que se estende sem rupturas ao
longo do desatino: desordem nos costumes e desordem do espírito,
loucura verdadeira e simulada, delírios e mentiras pertencem, no fundo,
à mesma terra natal e têm direito ao mesmo tratamento.
No entanto, não se deve esquecer que os "insanos" têm,
enquanto tais, um lugar particular no mundo do internamento. Seu
estatuto não se resume ao fato de serem tratados como prisioneiros.
Na sensibilidade geral ao desatino existe como que uma modulação
particular que diz respeito à loucura propriamente dita e que se dirige
àqueles denominados, sem distinção semântica precisa, insanos,
espíritos alienados, ou desordenados, extravagantes, pessoas em
demência.
Esta forma particular da sensibilidade desenha o rosto próprio da
loucura no mundo do desatino. Ela diz respeito, em primeiro lugar, ao
escândalo. Em sua forma mais geral, o internamento se explica ou,
em todo caso, se justifica pela vontade de evitar o escândalo. Indica
mesmo, além disso, uma mudança importante na consciência do mal. A
Renascença tinha deixado vir livremente à luz do dia as formas do
desatino; a exposição pública dava ao mal um poder de exemplo e de
resgate. Gilles de Rais, acusado no século XV de ter sido e de ser
herético, relapso, sortílego, sodomita, invocador de maus espíritos,
adivinho, assassino de inocentes, apóstata da fé, idólatra, mal que leva ao
desvio da fé17,
acaba por confessar ele mesmo esses crimes, "que são
suficientes para fazer morrer 10.000 pessoas" numa confissão
extrajudiciária. Recomeça sua confissão em latim diante do tribunal,
depois solicita, ele mesmo, que
como a maior parte dos assistentes ignorava o latim, que a dita confissão
fosse publicada em língua vulgar e a eles exibida, para sua vergonha, a
publicação e a confissão dos ditos delitos perpetrados a fim de obter mais
facilmente a remissão de seus pecados e o favor de Deus para a abolição dos
pecados por ele cometidos18.
17 Art. 41 do auto de acusação, trad. francesa citada por HERNANDEZ, Le Procès
inquisitorial de Gilles de Rais, Paris, 1922.
18 Sexta sessão do processo, in Procès de Ciliar de Rais, Paris, 1959, p. 232.
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No processo civil, a mesma confissão é exigida diante do público
reunido:
foi-lhe dito pelo Senhor Presidente que ele contasse seu caso abertamente, e a
vergonha daí oriunda valeria como alívio parcial da pena que por isso ele
deveria sofrer.
Até o século XVII, o mal, em tudo aquilo que pode ter de mais
violento e mais inumano, só pode ser compensado e castigado se for
trazido para a luz do dia. Somente as luzes nas quais se executam a
confissão e a punição podem equilibrar as trevas de onde se originou.
Existe um ciclo de realização do mal que deve passar necessariamente
pela confissão pública e pela manifestação, antes de alcançar o
acabamento que o suprime.
O internamento, pelo contrário, trai uma forma de consciência
para a qual o inumano só pode provocar a vergonha. Há aspectos do
mal que têm um poder de contágio, uma força de escândalo tais que
toda publicidade os multiplicaria ao infinito. Apenas o esquecimento
pode suprimi-los. A respeito de um caso de prisão, Pontchartrain
prescreve não o tribunal público, mas o segredo de um asilo:
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