A Ciência do Direito - Agostinho Ramalho
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A Ciência do Direito - Agostinho Ramalho


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mais exigem prova, e podem ser vistos como 
definitivamente verificados, retira-se do jogo.\u201d7 O grau de maturidade de uma ciência se mede, 
portanto, pela sua capacidade de autoquestionar-se, de pôr constantemente em xeque seus 
próprios princípios, e não pelo fato de afirmá-los dogmaticamente, numa perspectiva 
conservadora, como se eles constituíssem a verdade absoluta. \u201cAs ciências não procuram jamais 
resultados definitivos. As teorias científicas irrefutáveis pertencem ao domínio do mito. O que 
caracteriza a ciência é a falsificabilidade, pelo menos em princípio, de suas asserções. As 
asserções \u201cinabaláveis\u201d e \u201cirrefutáveis\u201d não são proposições científicas, mas dogmáticas.\u201d8 Sem 
dúvida, a física newtoniana representou, à época em que foi formulada, uma autêntica revolução 
teórica no campo da Física, rompendo com as explicações anteriores e limitando-as. Mas, 
enquanto os cientistas e filósofos se limitaram, nos dois séculos subseqüentes, a afirmá-la como 
verdade inabalável ao invés de questionar seus princípios, contribuíram para estagná-la, 
impedindo-a de retificar seus conceitos. Foi assim que, de revolucionária, a física newtoniana 
passou, num certo sentido, a reacionária. Não é de estranhar, por conseguinte, que os físicos de 
formação newtoniana tenham sido os primeiros a manifestar-se contra as novas formulações 
teóricas de EINSTEIN, que, revolucionando novamente a Física, lhes retirou as verdades que 
eles tinham como suas e para cuja reformulação muitos deles já não mais possuíam a necessária 
flexibilidade de espírito. 
As ponderações acima deixam claro, segundo nos parece, que a acumulação de 
conhecimentos em qualquer ciência não resulta de um mero somatório das teorias que ela 
constrói nos diversos momentos de sua elaboração. Essa acumulação é descontínua, 
caracterizando-se pelo fato de as novas verdades serem verdades retificadas, que limitam as 
verdades anteriores, mantendo-as apenas em seus aspectos residuais, ou seja, naquilo que 
delas subsiste por não ter sido ainda retificado. É por isso que o conhecimento científico é 
antes aproximada que verdadeiro. 
O conceito de retificação é, pois, essencial à compreensão do conhecimento 
científico, tanto quanto os de corte epistemológico e ruptura, que tomamos neste trabalho 
designando o primeiro aquele momento em que a ciência se constitui por oposição às noções 
do senso comum; e o segundo, aquelas autênticas revoluções teóricas que se operam dentro da 
ciência e implicam num redimensionamento de seus princípios, de seu arcabouço teórico, de 
sua metodologia, de suas aplicações práticas e de seu próprio objeto. E esses conceitos são tão 
fundamentais assim porque toda teoria científica possui um conteúdo de erro. Uma das 
grandes contribuições de BACHELARD para a epistemologia contemporânea é, sem dúvida, 
a perspectiva inteiramente nova sob a qual ele enfoca o erra como parte integrante do 
processo de elaboração científica. É visando à superação do erro que ele aprimora 
magnificamente os conceitos de retificação e de corte epistemológico, de que já nos 
ocupamos. BACHELARD apresenta três axiomas que sintetizam esplendidamente seu 
pensamento acerca das características do conhecimento científico:
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 a) O primeiro diz respeito ao primado teórico do erro; \u201cA verdade só ganha seu pleno 
sentido ao fim de uma polêmica. Não poderia haver aí verdade primeira. Não \u201chá senão erros 
primeiros (...). Um verdadeiro sobre um fundo de erro, tal é a forma do pensamento científico\u201d. 
b) O segundo é relativo à depreciação. especulativa da intuição: \u201cAs intuições são 
muito úteis: elas servem para ser destruídas (...). Em todas as circunstâncias, o imediato deve 
dar lugar ao construído. Todo dado deve ser reencontrado como um resultado\u201d . 
c) O terceiro se refere à posição do objeto como perspectiva das idéias: \u201cNós 
compreendemos o real na medida em que a necessidade-o organiza (...). Nosso pensamento 
vai ao real; não parte dele\u201d. 
Os três axiomas acima apresentados evidenciam, de um lado, que o conhecimento 
científico se obtém através de um processo de construção teórica resultante da combinação da 
razão com a experiência, e, do outro, que é da prática efetiva da elaboração científica que se 
deve partir para caracterizar esse tipo de conhecimento. Com efeito, a ciência não existe, a 
não ser como abstração dos princípios gerais, comuns à produção científica. De fato, o que 
existe são ciências concretas, que se constituem historicamente e, por isso mesmo, o 
conhecimento científico é um processo sempre inacabado. 
 
2.1. O papel da teoria 
 
Todas as considerações que até aqui apresentamos deixam claro que ciência é 
essencialmente teoria. É a teoria que constitui o objeto de conhecimento; é através dela que se 
elaboram os métodos condizentes com a natureza de cada pesquisa; é ela que se aplica nas 
realizações práticas, técnicas, das ciências; é, finalmente, em função dela que a realidade pode 
apresentar algum sentido. 
Para o senso comum, as teorias científicas contêm verdades praticamente 
irrefutáveis. O homem comum assume diante do conhecimento científico uma atitude quase 
mística, como se as ciências formulassem, à semelhança das religiões, verdades eternas. Nada 
mais errôneo que tal atitude. Com efeito, uma teoria absolutamente irrefutável não poderia ser 
corretamente classificada como científica. É este o ponto de vista de POPPER, condizente 
neste particular com as epistemologias dialéticas, quando introduz o critério de 
falsificabilidade ou falseabilidade como um dos pontos característicos da teoria científica. 
Esta não deve afastar, de princípio, a possibilidade de sua falsificação, isto é, de ser 
potencialmente submetida a alguma experiência que a infirme ou retifique. Uma teoria que 
afaste de modo absoluto a possibilidade de vir a ser falsificada não é passível de ser 
submetida a qualquer tipo de experiência, a qualquer confronto com a realidade e, por isso 
mesmo, é metacientífica.
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 As próprias leis científicas - teorias de elevado grau de 
generalidade ou mesmo de universalidade - são antes teorias que ainda não foram infirmadas 
(embora possam vir a sê-lo), do que teorias absolutamente confirmadas pelos fatos. 
Por resultar de um trabalho de construção, a teoria científica é sempre retificável. 
E é por isso mesmo que ela comanda todo o processo de elaboração das ciências, visto que \u201co 
conhecimento nunca parte do vazio, do total desconhecido. Toda investigação supõe um 
projeto, um corpo teórico que lhe dá forma, orientação e significado (...). Não é a realidade 
que se dá integralmente e sensibiliza o observador, começando o conhecimento. Se um 
pesquisador observa alguma coisa, é porque a considera como importante no esclarecimento 
de algo dentro do contexto teórico mais geral, que o mobiliza para a pesquisa\u201d.l1 O comando 
da teoria no processo de elaboração do conhecimento científico é de tal monta, que às vezes é 
a partir de determinada concepção teórica que literalmente se criam novas realidades. O 
conceito de socialismo, por exemplo, precedeu historicamente a sua realidade concreta. 
 
2.1.1. Teoria e prática 
 
Acabamos de ressaltar a importância da teoria na elaboração do conhecimento 
científico, cuja principal característica é precisamente constituir um sistema teórico lógico e 
coerente. Mas as ciências não se destinam à produção de um saber desinteressado e 
contemplativo. As teorias científicas existem para serem aplicadas, para trazerem benefícios 
práticos à sociedade. Nunca é demais acentuar que as ciências são um produto social e, nessa 
perspectiva, a atividade científica há de ser necessariamente uma atividade engajada, 
comprometida com a problemática que a realidade social