A Ciência do Direito - Agostinho Ramalho
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A Ciência do Direito - Agostinho Ramalho


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estes se movem uns em relação aos outros.
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 A física einsteiniana 
veio, portanto, desmistificar o caráter absoluto que era atribuído ao espaço e ao tempo. \u201cNão há 
espaço, nem tempo, nem movimento absolutos, como na velha física newtoniana; pelo 
contrário, tudo é relativo, em face da impossibilidade de padrões absolutos de referência. Nem 
podemos tampouco cindir o espaço-tempo, desligando-o da matéria. O espaço é um continuum 
quadridimensional, em que o tempo representa a quarta dimensão de MINKOWSKI; o 
Universo, o complexo espaço-tempo-matéria\u201d.27 
 
2.2. O espaço-tempo social 
 
Os comentários que acabamos de fazer, embora muito resumidos, fornecem uma 
idéia aproximada acerca das novas concepções do espaço-tempo nos campos da geometria e 
da física modernas. Pode parecer estranho que, num trabalho que pretende abordar os aspectos 
científicos do Direito, recorramos a tais noções. Não obstante, elas são da maior importância 
para a compreensão deste trabalho. Em primeiro lugar, as noções de espaço e tempo estão, 
implícita ou explicitamente, no fundo de toda teoria científica ou filosófica;
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 em segundo 
lugar, o espaço-tempo social apresenta características extraordinariamente análogas às do 
espaço-tempo físico, como logo a seguir demonstraremos; e, em terceiro lugar, o fenômeno 
jurídico é necessariamente interior ao espaço social, não podendo, portanto, ser eficazmente 
estudado com abstração das condições espaço-temporais em que se gera e se modifica. 
O espaço social, como acima frisamos, apresenta características muito semelhantes 
àquelas que a teoria da relatividade atribui ao espaço físico. Podemos ficar em dúvida quanto ao 
caráter não absoluto do espaço-tempo físico, pois afinal essa noção contraria profundamente as 
evidências do senso comum, que rege a grande maioria de nossas ações diárias. Quando se trata, 
porém, do espaço social, a compreensão de seu caráter não absoluto se torna bem mais fácil. 
Suponhamos, por exemplo, o nosso planeta antes do surgimento dos primeiros agrupamentos 
humanos. É claro que ali não havia qualquer tipo de sociedade, por isso que não existiam 
homens que se associassem. E é claro, também, que não existia o próprio espaço social, visto 
que não havia matéria social (relações sociais) que o constituísse e preenchesse. O espaço 
social, por conseguinte, só existe em função da matéria social que o gera. Ele somente surge 
com a matéria social. É praticamente inconcebível a existência de um espaço social vazio, mas 
autônomo e absoluto, que ficasse simplesmente à espera de ser preenchido por futuras relações 
sociais.
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 Cada espécie de relação social cria e desenvolve o espaço que lhe é próprio. O sistema 
de crédito bancário, por exemplo, com todas as relações sociais que lhe são conseqüentes, só 
surgiu a partir do momento em que o desenvolvimento das relações econômicas tornou possível 
sua existência. E só a partir daí é que se pode falar nesse tipo específico de espaço sócio-
econômico, dinâmico e modificável como as próprias relações que o constituem. Antes, não 
havia sequer esse tipo de espaço, visto que as relações sócio-econômicas não tinham atingido 
suficiente grau de diversificação e complexidade para constituí-lo. 
Assim, o espaço social de modo algum é absoluto, mas relativo à natureza da matéria 
que o gera e o transforma, bem como aos diversos estágios do tempo social, que correspondem 
aos vários momentos histórico-culturais de cada sociedade concreta. Por isso mesmo, tanto quanto 
o espaço físico, é o espaço social essencialmente variável, em virtude do caráter eminentemente 
dinâmico da matéria social. Isto significa que ele não é homogêneo, pois apresenta diferentes 
características, não só em cada uma das diversas sociedades humanas quando comparadas umas 
com as outras, como também dentro de uma mesma sociedade, cujos inúmeros tipos específicos 
de relações não se desenvolvem uniformemente. Sendo heterogêneo, ele é também descontínuo, 
apresentando autênticas \u201crachaduras\u201d entre grupos de relações altamente complexas e 
diferenciadas, que conferem maior densidade ao espaço social, e outros grupos de relações mais 
simples e uniformes, de densidade mais baixa, que com os primeiros coexistem e muitas vezes a 
eles se opõem. Por outro lado, o espaço social, constituído como é por relações heterogêneas e 
descontínuas, é n-dimensional, no sentido de que comporta relações das mais diferentes naturezas, 
que constituem as dimensões sob as quais podem ser analisados os fatos sociais: dimensões de 
caráter econômico, jurídico, político, moral, religioso, científico, filosófico, artístico etc. Além 
disso, o espaço social se encontra, tanto quanto o espaço físico, em permanente expansão, visto 
que a dinâmica social não só diversifica continuamente as relações já existentes, como também 
gera a todo instante novos tipos de relações, aos quais correspondem espaços sociais específicos. 
Daí o seu caráter igualmente finito, embora ilimitado, e, por conseguinte, não euclidiano. 
Foi considerando essas características do espaço social, sobretudo a 
heterogeneidade, a descontinuidade e a n-dimensionalidade, que PONTES DE MIRANDA 
estabeleceu a teoria dos campos de socialificação, constituídos por grupos de relações sociais 
bastante complexas e diversificadas, com elevado grau de densidade, atribuindo-lhes a função 
de formarem autênticos campos de força que se traduzem na existência de um tensor social, 
análogo ao tensor material do mundo físico, em torno do qual se encurvaria o espaço social. 
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Convém usar de cautela diante de semelhante proposição, sobretudo se ela traduz a tendência 
da fisicalização da Sociologia, peculiar a diversas correntes empiristas, que afirmam a 
possibilidade de uma unificação da ciência a partir do emprego de uma metodologia comum. 
Outro, aliás, não parece ser o entendimento de PONTES DE MIRANDA, quando, em sua 
Introdução à Sociologia Geral, propõe: \u201cAs leis físicas são inteiramente aplicáveis\u201d (às 
relações físico-sociais), \u201cporque admitir o contrário seria destruir os princípios e leis 
universais, pois importaria aceitar a possibilidade de não serem válidos em algum domínio 
dos fenômenos do Universo.\u201d31 Ora, não é só porque as características do espaço-tempo social 
correspondem, de um modo geral, às determinadas pela teoria da relatividade, que devamos 
simplesmente fazer uma transposição destas para aquelas, abstraindo suas especificidades. 
Como sustentamos no item 1 deste capítulo, não só os fenômenos sociais são qualitativamente 
diferentes dos naturais, como a distinção entre as ciências se faz considerando sobretudo os 
seus particulares enfoques teóricos e os problemas que elas se propõem. Ainda que o espaço 
social possua, como efetivamente possui, diversos pontos em comum com o espaço físico, há 
características específicas que os distinguem, a partir mesmo da própria natureza das matérias 
que os constituem. E, mesmo que não houvesse diferenças qualitativas entre essas matérias, 
os enfoques teóricos e metodológicos das ciências sociais haveriam de ser diversos dos das 
ciências naturais, pois diversos são os pontos de vista sob os a quais cada ciência estuda a 
realidade, e diversos são os problemas que elas formulam e buscam resolver. Daí a autonomia 
de cada disciplina científica, que se traduz não numa separação absoluta entre elas, mas nas 
diferentes modalidades de enfocar teoricamente seus respectivos objetos de conhecimento. 
No que concerne ao tempo social, sua existência não é absoluta, mas relativa às 
características da matéria e do espaço. Por outro lado, o tempo social difere qualitativamente 
do tempo físico, pois só existe em função dos diversos estágios histórico-culturais interiores