A Ciência do Direito - Agostinho Ramalho
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A Ciência do Direito - Agostinho Ramalho


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que o dado não é dado: é 
construído. E justamente porque construído, é essencialmente retificável. Todas as verdades, 
inclusive as científicas, são aproximadas e relativas; são parcialmente verdade e parcialmente 
erro. A dialética destrói, desta maneira, um dos mitos do positivismo: o mito do cientificismo, 
(v.cap. III item 2.1.2), segundo o qual o conhecimento científico expressa verdades absolutas 
e inabaláveis e, por isso, constitui a forma válida por excelência de conhecer. Outro mito 
positivista que a dialética destrói, simultaneamente, é o da neutralidade científica absoluta, 
que retomaremos no item 2.1.2 do Capítulo II. Como pode ser absolutamente neutro o 
cientista, se observa o real à luz de um referencial teórico que, por sua vez, não é neutro, e se 
constrói, ele próprio, o seu objeto de conhecimento? 
O objeto de conhecimento tende a identificar-se com o objeto real, sem nunca 
atingi-lo, todavia, em sua plenitude. A objetividade é um processo infinito de aproximação, tal 
como ocorre no paralelismo assintótico de LOBATSCHEWSKY (1793-1856).
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 Todo 
conhecimento, por ser retificável, é essencialmente provisório, porque, \u201csendo sempre limitado, 
parcial, o conhecimento é necessariamente menos rico e complexo do que a realidade a que se 
refere (...)\u201d34. Só poderíamos falar de conhecimentos definitivos, se o objeto de conhecimento 
correspondesse exatamente ao objeto real, ou seja, se fosse possível formular a equação O.C = 
O.R. Mas não possuímos meios que nos permitam verificar essa correspondência. Todo dado é 
uma resposta e, por isso mesmo, supõe uma pergunta, um método de indagação, que é teórico. 
O que se pergunta (teoria) e como se pergunta (método) influi decisivamente no tipo de resposta 
que se obtém. Todos os conceitos são teóricos, e não reais, embora se refiram à realidade.\u201d (...) 
embora todo o esforço se dirija para o objeto, a relação que propicia o seu conhecimento se 
funda na teorização aceita no momento como dando conta dele, pelo menos parcialmente. No 
fundo, é a realidade que importa, mas não é ela que comanda o processo da sua própria 
inteligibilidade, (...) pois que o real que deverá fornecer a última palavra não é o real externo e 
concreto, mas o real que a própria teoria formulou\u201d.35 Isto não implica, de modo algum, na 
negação da realidade. O real existe em termos práticos. Quando vemos uma pedra, é 
efetivamente uma pedra que estamos vendo. Mas ao nível teórico, o conceito que fazemos, por 
mais elementar que seja, é sempre uma construção, não da razão pura evidentemente, mas da 
razão combinada com a experiência, da razão que participa ativamente da experiência e lhe 
acrescenta elementos teóricos, conceituais. Por serem o produto de um trabalho de construção, 
os conceitos não atingem a realidade, mas somente se aproximam dela. Evidentemente, o 
conceito de pedra não é em si mesmo, uma pedra, mas uma representação, mais ou menos 
aproximada, de suas características. 
Convém ressaltar que o processo de aproximação do objeto de conhecimento em 
relação ao objeto real não é de forma alguma contínuo, e muito menos linear. Ele se dá por 
cortes ou rupturas, cujos conceitos serão melhor explicitados no item 2 do Capítulo II. O 
conhecimento científico, por exemplo, não se constitui a partir do conhecimento comum, como 
uma simples sistematização deste. Na verdade, ele se elabora contra o conhecimento comum, 
rompendo com os pressupostos mesmos deste. Segundo a lição de BACHELARD, \u201c(...) toda 
verdade nova nasce apesar da evidência, toda experiência nova nasce apesar da experiência 
imediata.
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 Nos diversos momentos teóricos de uma ciência, igualmente, a aproximação não é 
linear. A física einsteiniana, por exemplo, não é uma continuação da física newtoniana, cujos 
elementos não contém, quer implícita, quer explicitamente. Pelo contrário: é um momento novo 
na ciência, que, para constituir-se, precisou romper com o sistema newtoniano de explicação 
então estabelecido. EINSINSTEIN (1879-1955) não lança NEWTON (1642-1727) fora da 
Física, mas limita, restringe a abrangência da validade de suas explicações, até então 
consideradas universais. Não há, portanto, continuidade entre esses dois momentos teóricos da 
Física, mas uma superposição, e superposição dialética, em que o segundo momento retifica o 
primeiro, sem com ele constituir propriamente uma síntese, ou seja, dá-se um processo dialético 
fora dos padrões idealistas hegelianos. Esses exemplos nos parecem evidenciar o fato de que a 
acumulação de conhecimentos é uma acumulação por descontinuidade, que não se traduz numa 
simples soma daquilo que hoje se sabe com o que ontem se sabia. Os novos conhecimentos de 
alguma forma rompem com os antigos, retificam-nos, acrescentam algo que eles não 
continham. Para ilustrarmos melhor as idéias apresentadas nos dois últimos parágrafos, 
elaboramos o gráfico apresentado na p. 18, o qual pretende oferecer uma visão, ainda que 
superficial, de como se opera o processo de aproximação entre o objeto de conhecimento e o 
objeto real, dentro de determinada relação cognitiva num campo qualquer do conhecimento. 
 
O gráfico representa quatro momentos teóricos de aproximação entre um objeto 
de conhecimento qualquer e o objeto real a que ele se refere (M1 a M4). O encontro Q.C. \u2013 
O.R. é uma simples tendência, não chegando realmente a efetivar-se. As linhas curvas 
indicam a evolução teórica do processo cognitivo dentro de cada um desses momentos. As 
rupturas estão representadas no salto que se opera durante a passagem de cada momento para 
o posterior. A acumulação por descontinuidade consiste na absorção, em cada momento, dos 
conhecimentos anteriores que permanecem, ou seja, que não foram retificados, ou foram 
apenas limitados, os quais se juntam aos conhecimentos novos.
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 Cada um desses momentos é 
construído e, por isso mesmo, passível de retificação. Nenhum deles é definitivo, pois todos 
contém uma margem maior ou menor erro. O gráfico traduz apenas imperfeitamente como se 
dá o processo de aproximação entre a razão e o real. Pode ocorrer, por exemplo, que 
determinado momento do objeto de conhecimento represente um autêntico retrocesso em 
relação ao momento anterior, distanciando-se, ainda mais do que este, do objeto real. Tal fato, 
todavia, não é muito comum na história do conhecimento, sobretudo do conhecimento 
científico. Quando uma teoria retrocede em relação à anterior, seus partidários geralmente não 
se dão conta disso. Podem até julgá-la um avanço. É preciso que se rompa, através da crítica, 
com essa teoria para que, numa visão retrospectiva, sejam apontadas e superadas suas falhas. 
Acabamos de proceder a uma síntese do moderno pensamento dialético naquilo 
que constitui os seus pontos capitais. Esse pensamento se opõe, de muitas maneiras, aos 
posicionamentos do empirismo e do racionalismo tradicionais no que tange à compreensão do 
ato de conhecer. Tentaremos, a seguir, esboçar os principais pontos em que a dialética rompe 
com essas correntes, ao mesmo tempo em que procuraremos indicar os princípios delas que 
ainda se mantêm. 
O defeito principal das diversas correntes empiristas, especialmente do 
positivismo, é a crença de que o sujeito simplesmente capta as características do objeto, 
\u201cquando na realidade elas só são encontráveis neste objeto por efeito da ideologia que as 
nomeia em seu discurso\u201d.38 Por oportuno, convém salientar que todo conhecimento encerra 
um substrato ideológico, implícito no processo mesmo de sua construção conceitual (v. item 
2.1.2 do Capítulo II). A crença empirista a que acima aludimos representa a convicção 
metafísica de que toda a verdade está contida no objeto, ignorando que o conhecimento é 
essencialmente obra