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Antropologia Filosófica   Parte 1.

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R. Lucas - Antropologia Filosófica Capítulo I 
 
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AA VVIIDDAA HHUUMMAANNAA 
 
 I. Visão histórica 
 1. O mecanicismo 
 2. O vitalismo 
 
 II. Elementos constitutivos do ser vivo 
 1. Significado pré-filosófico da vida 
 2. A vida como ação imanente auto-aperfeiçoante 
 a) A nutrição 
 b) O crescimento 
 c) A reprodução 
 
 III. O princípio vital e os graus da vida 
 1. Natureza do princípio vital: a forma substancial 
 2. Os graus da vida 
 3. A vida psíquica 
 4. Características da vida psíquica enquanto psíquica 
 a) Intencionalidade da vida psíquica 
 b) Consciência da vida psíquica 
 
 IV. Origem da vida 
 1. A geração espontânea da vida 
 2. A vida foi criada por um ser superior: Deus 
 
 
 
 
 
 
 
É evidente que o homem, em sua totalidade, é e permanece um ser vivo, e que, 
enquanto tal, acha-se submetido às leis do orgânico, de maneira que o comportamento do 
homem depende do ponto de vista biológico, da conservação da vida: é humano enquanto 
vive. 
Se o fenômeno da vida é um dado certo, seu significado não é tão óbvio, dado que 
abraça uma gama muito vasta de seres com características muito diferentes entre si; por 
exemplo, da flor que não fala e está quieta em um vaso, dizemos que vive; do cervo berra e 
corre pelos bosques dizemos que vive: o que é, portanto, a vida? 
 
 
 
 
 
 
I. VISÃO HISTÓRICA: MECANICISMO E VITALISMO 
 
 Capítulo I R. Lucas - Antropologia Filosófica 
 
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 A pergunta sobre o que é a vida é tão antiga como o estudo da natureza. Os estudiosos 
em todo tempo se dividiram em duas categorias opostas: mecanicistas e vitalistas. 
 
1. O mecanicismo 
 O mecanicismo reduz o ente vivo a um agregado de substâncias que atuam uma sobre 
a outra com uma complexa atividade físico-química; e dado que o mecanicismo reduz as 
atividades físico-químicas a ações mecânicas (movimento local) esta teoria, que nega a 
diferença específica entre ser vivo e ser inanimado, chama-se mecanicismo; não seria outra 
coisa que uma máquina mais perfeita1, redutível e divisível em seus elementos. Entre seres 
vivos e não animados não existiriam diferenças essenciais ou qualitativas, mas somente 
diferenças acidentais ou de quantidade. O fenômeno da vida não teria nada de 
verdadeiramente novo, com respeito ao físico-químico, salvo uma maior complexidade. 
 Além de uma certa concepção filosófica, esta teoria está apoiada por diversos motivos 
que podemos sintetizar principalmente em dois: 
1) A química orgânica conseguiu fabricar sinteticamente certas substâncias que se 
acreditava que só os seres vivos poderiam elaborar; 
2) Descobriu-se que também nos seres vivos, como nos corpos não animados, acontecem 
mudanças e transformações de energia; portanto, pensa-se que os futuros progressos da 
química orgânica permitirão fabricar artificialmente a vida, e que as assim chamadas 
atividades vitais não seriam outra coisa que processos físico-químicos muito complexos. 
Podem considerar-se mecanicistas, Demócrito e Leucipo, fundadores do materialismo 
atomístico; Descartes com sua analogia entre organismo e máquina; os materialistas em geral, 
que negam qualquer diferença essencial entre ser vivo e não animados por motivos diversos: 
preconceitos anti-religiosos, cientismo. 
 
2. O vitalismo 
 O vitalismo sustenta a existência de uma diferença essencial entre o ser vivo e o 
inanimado, e admite no ente vivo um princípio vital. Consideram-se vitalistas: Aristóteles, 
Santo Tomás de Aquino, os escolásticos e neo-escolásticos, e alguns dos cientistas mais 
ilustres: Pasteur, Lamarck, Driesch2. 
 
 
II. ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO SER VIVO 
 
 O termo vida expressa um conceito abstrato formal tirado do verbo viver. Viver é o 
conjunto dos atos que caracterizam aos seres vivos; o que existe na realidade não é a vida, 
mas os seres vivos que realizam os assim chamados atos vitais. Distinguimos, portanto, o 
nível do ser, do nível do fazer. No plano do fazer temos o viver, quer dizer as atividades que o 
ser vivo realiza. Quais são as atividades exclusivas ser vivo? 
 
1. Significado pré-filosófico da vida 
 
1 R. Descarte, Traité de l'homme, cap. XVIII, no Oeuvres, a cargo de Adam e Tannery [A.T.], Paris, Vol. XI, 
p. 119-120; Les passions de l'âme, art. III, A.T., vol. XI, p. 329. 
2 H. Driesch, Der Vitalismus als Geschichte und als Lehre, Leipzig 1906. 
 R. Lucas - Antropologia Filosófica Capítulo I 
 
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 Para formarmos um conceito do ser vivo partamos de uma fenomenologia da vida 
mesma e depois procuremos um aprofundar filosófico do conceito obtido. O que é a vida de 
um ponto de vista não científico? Se formularmos a pergunta em geral, o sentido comum do 
homem responde: “vive aquilo que se move”. Se durante uma excursão à montanha 
encontramos uma serpente que se apresenta ameaçadora diante de nós, dizemos: cuidado, uma 
serpente! Se depois, com paus e pedras a deixamos fora de combate, dizemos: está morta. 
Quando a serpente se movia ameaçadora dizíamos: está viva; quando já não se move, dizemos 
que está morta. Portanto, a vida está no movimento e um primeiro conceito de vida é a 
capacidade de mover-se. 
 Surge em seguida uma dupla dificuldade; se entendermos o movimento só no sentido 
de movimento local, devemos dizer que a pedra que cai está viva porque se move de um lugar 
a outro, enquanto a flor que está em um vaso não vive porque está sempre ali e não se move; 
mas nada nos autoriza a restringir assim o significado de movimento; por outra parte, nós 
distinguimos o movimento da pedra e o movimento da serpente: o ser vivo se move, a pedra 
não se move, mas sim é movida. A vida está, portanto, no movimento imanente. 
 
2. A vida como ação imanente auto-aperfeiçoante 
 Aprofundando filosoficamente esta primeira aproximação ao conceito de vida, 
podemos chamar ser vivo àquele ser que é capaz de um movimento imanente auto-
aperfeiçoante. O movimento, como já o definiu Aristóteles, não é só o movimento local, mas 
também, “o ato do ente em potência enquanto em potência” 3. Por ser vivo entendemos então 
um ser capaz de fazer-se passar a si mesmo da potência ao ato. Mover-se a si mesmo significa 
exercitar uma ação que termina no sujeito agente, e se chama ação imanente; contrapõe-se à 
ação transitiva que termina em um objeto distinto do sujeito agente; a ação imanente no ser 
vivo é uma ação que enriquece e que aperfeiçoa ao mesmo sujeito agente, e temos assim uma 
ação imanente auto-aperfeiçoante4. 
 Elemento constitutivo do ser vivo é, portanto, a ação imanente, que não é só uma 
diferença de grau de maior ou menor complexidade, mas sim uma característica essencial, 
uma diferença irredutível, um salto qualitativo. O ser vivo realiza atividades imanentes auto-
aperfeiçoantes essencialmente diversas daquelas dos não animados e irredutíveis a elas. Trata-
se de resolver o problema de se existe uma diferença essencial ou qualitativa entre ser vivo e o 
inanimado. O problema resolveria facilmente se si pudesse conhecer diretamente a essência 
das coisas. Entretanto, a essência dos seres escapa ao nosso conhecimento imediato. Nós 
conhecemos a essência das coisas indiretamente, mediante o conhecimento de suas 
propriedades. Dado que a natureza ou essência de um ser é a causa pela qual esse ser tem 
essas propriedades em vez de outras, o critério para estabelecer uma diferença essencial entre 
dois seres será estudar suas propriedades ou manifestações essenciais. Pois os efeitos estão 
proporcionados