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o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

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contrário, em que a ideia de fortalecimento 
dos mecanismos de defesa – reestruturação das Forças Armadas, revitalização ou 
desenvolvimento de uma indústria bélica regional etc. – tende a ser invocada. 
5 SEGURANÇA REGIONAL SUL-AMERICANA: DESAFIOS À INTEGRAÇÃO
Passada a euforia sobre o sucesso do processo de cooperação regional observado na 
década de 1990, constatam-se alguns óbices limitadores do avanço da integração 
regional, nos campos da defesa e segurança, na América do Sul.
1) Um primeiro aspecto, decorrente em boa medida da geopolítica de 
contenção que predominou até a década de 1980, diz respeito à frágil 
infraestrutura física de circulação e à escassa complementaridade 
econômica entre os países sul-americanos. De fato, diferentemente 
do processo que ocorreu na porção norte do continente americano – 
Estados Unidos e Canadá –, na América do Sul, os países se desenvolve-
ram “de costas” uns para os outros. Um exemplo disto é a dificuldade de 
integração ferroviária no Mercosul em virtude da diversidade de bitolas 
usadas entre os países do bloco, herança de um cenário geopolítico em 
que os vizinhos se enxergavam mutuamente como ameaças e adotavam 
bitolas oficiais próprias com o objetivo de retardar uma eventual invasão 
militar (Camargo, 1999). Esta fragilidade regional afeta, em primeiro 
lugar, o avanço da cooperação econômica. Eis a questão a ser respondida: 
é possível avançar no campo da integração política quando os níveis de 
cooperação econômica são ainda claudicantes?
2) Um segundo óbice decorre da fragilidade da agenda democrática no 
continente. A principal limitação parece recair sobre as condições 
políticas em que se desenvolvem as democracias regionais. O baixo grau 
da continuidade e institucionalização das chamadas “regras do jogo” em 
38 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
vários países da região impossibilita um mínimo de congruência entre 
a racionalidade formal e a prática efetiva da democracia (Villa, 2006). 
Sem estabilidade democrática não há confiança política; sem esta, dificil-
mente os arranjos regionais avançarão para além de acordos entre governos.
3) Um terceiro óbice diz respeito à fragilidade das instituições regio-
nais e à ausência de instituições supranacionais. A dificuldade em se 
avançar em arranjos supranacionais parece estar relacionada ao receio dos 
próprios Estados-membros de que a adoção de instituições regionais 
fortes implique cessão de soberania e, em última instância, cessão de 
parte de suas liberdades e de seu poder de decisão. Como consequência, 
os acordos entre os países da região exigem, necessariamente, o consenso, 
o que acaba por gerar paralisia quando da necessidade de discussão de 
temas mais complexos, como geralmente são os de defesa e segurança.
4) O quarto e, talvez, o mais relevante dos óbices, diz respeito à manutenção 
na região de um considerável estoque de desconfiança mútua. Apesar do 
cenário de ausência de guerras clássicas, e em que pesem as mudanças 
ocorridas a partir do processo de democratização iniciado nos anos 1980, 
persistem na região velhas desconfianças envolvendo questões com poten-
cial de se desdobrar em conflito armado. Três aspectos podem ser aponta-
dos. O primeiro se refere a questões territoriais ainda não resolvidas, sendo 
a mais importante a da saída boliviana para o mar. O segundo aspecto, 
não obstante o esmaecimento do pan-americanismo na região, refere-se 
à forte influência dos Estados Unidos, gerando um quadro de “amor e 
ódio” no qual as ideologias nacionais se fundam. Atualmente, este aspecto 
representa a maior ameaça de uma possível “fragmentação” regional. 
O último aspecto se relaciona às supostas posturas “imperialistas” de seu 
principal líder. Acontecimentos recentes envolvendo o Brasil e países da 
região (Bolívia, Equador e Paraguai) apontam neste sentido e mostram 
que as elites destes países continuam muito sensíveis a discursos e imagens 
do passado sobre as intenções expansionistas do Brasil (Villa, 2006). 
O fato de o CDS ter tido como principal propagador um político brasileiro 
contribuiu para que se levantassem suspeitas sobre a possibilidade de o Conselho 
refletir um projeto estratégico brasileiro de liderança do subcontinente. Nesse 
sentido, o CDS poderia ser entendido como uma espécie de plataforma para a 
exportação dos planos militares do Brasil. Sendo assim, a proposta apenas refletiria 
a estratégia de “sul-americanização” do Brasil, segundo a qual o país tenderia a 
maximizar seus ganhos, ampliando suas relações com a América do Sul. Sob tal 
perspectiva, a construção de uma comunidade sul-americana para o Brasil poderia 
ser não um fim em si mesma, mas um meio para a sua projeção.
39Breve Panorama de Segurança na América do Sul
Além das questões geopolíticas clássicas, contribuem para a manutenção desse 
estoque de desconfiança um conjunto de problemas que possui origens difusas e pode 
estar relacionado às vulnerabilidades sociais e à fraqueza institucional dos Estados 
da região, somados à proliferação de grupos criminosos de natureza transnacional.
6 CONCLUSÃO
A geografia política sul-americana possui dinâmicas muito particulares que 
envolvem, concomitantemente: i) elementos de conflito e cooperação; ii) ausência 
de guerras; e iii) elevados índices de violência social. Tais condições, porém, não 
se espalham de forma homogênea no espaço sul-americano. Algumas áreas são 
marcadas pela instabilidade regional, não só no que diz respeito às antigas descon-
fianças territoriais, mas também a fortes vulnerabilidades sociais que colocam em 
risco a própria manutenção do estado de direito, como é o caso nos países andinos. 
Outras porções do subcontinente têm apresentado transformações radicais nas suas 
relações externas e se configuram como candidatas à formação de uma comunidade 
de segurança pluralística, como é o caso dos países do Cone Sul.
Um dado interessante é o diferente comportamento observado entre as 
porções regionais do subcontinente no que diz respeito à porcentagem de gastos 
com defesa em relação ao PIB ao longo das últimas duas décadas (tabela 1). 
Enquanto a porcentagem dos países que compõem o Cone Sul manteve uma 
tendência decrescente, a porcentagem entre os países que compõem a Amazônia 
e os Andes manteve tendência crescente ao longo do período considerado. Estas 
diferenças têm relação com as características geopolíticas predominantes nestas 
porções. Na primeira – Cone Sul –, a região vive um cenário de relativa estabili-
dade política e aproximação estratégica entre seus atores centrais: Brasil-Argentina 
e Argentina-Chile. As demais – Andes e Amazônia – constituem o chamado “arco 
da instabilidade”, onde coexistem ameaças tradicionais e novas. A combinação 
entre a permanência de antigas tensões geopolíticas, a influência norte-americana 
naquela área, a necessidade de superar o obsoleto estoque de material bélico e as 
novas percepções de ameaças têm contribuído para a ampliação da desconfiança 
de alguns daqueles países. Sob tais condições, o avanço no processo de integração 
torna-se menos provável.
Independentemente de como se possa classificá-la, deve-se destacar o fato 
de que a América do Sul é hoje uma região que, não obstante a permanência de 
potencial conflitivo, possui um conjunto de características que a qualifica como 
uma das regiões mais estáveis do mundo: apresenta gastos com defesa relativa-
mente muito baixos; é uma região livre de armas químicas e nucleares; e não 
registra guerras convencionais em seu território há quase um século. A discussão 
sobre quais seriam os fatores determinantes de tal situação parece controversa. 
40 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
Há quem defenda explicações de ordem material: periferia regional e presença 
do poder hegemônico norte-americano; baixa capacidade de poder militar dos 
países