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o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

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e é comandada por um general, o que favorece a atuação conjunta com as Forças Armadas. 
A articulação entre as forças de segurança e de defesa é facilitada pelo fato de a Colômbia ser um Estado unitário, que 
detém uma só polícia em todo o território nacional.
2. A origem da Fuerza de Despliegue Rápido remonta à criação do Batalhão de Helicópteros do Exército, em dezembro 
de 1999, pelo presidente Andrés Pastrana. Atualmente, a Fudra está localizada em Melgar – a maior base militar da 
América do Sul, a noventa quilômetros de Bogotá, onde se encontra também a Brigada de Helicópteros, entre outras 
organizações militares. A Brigada de Helicópteros tem esquadrões de Mil Mi-17, esquadrões de UH-60 Blackhawk (nos 
quais se incluem os modernos Blackhawk ARPIA) e alguns esquadrões de apoio. 
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Entre a “Segurança Democrática” e a “Defesa Integral”: uma análise de duas doutrinas 
militares no canto noroeste do subcontinente sul-americano
3.2 Venezuela
As estratégias de defesa e segurança na Venezuela têm passado por profundas trans-
formações desde a aprovação da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, 
em 1999. Desde então, a principal hipótese de conflito anunciada pelo governo 
venezuelano refere-se a uma eventual intervenção de um poderio bélico exógeno 
ao subcontinente, à qual se tem denominado de “ameaça imperialista” (leia-se 
norte-americana).3 Diante deste quadro, o modelo de força adotado tem levado 
em consideração os princípios da “guerra assimétrica” ou “guerra de 4a geração”.4 
Entre os conceitos adotados pelo então governo de Hugo Chávez – com 
repercussão direta sobre a percepção e, consequentemente, sobre o emprego 
militar –, está o de “segurança integral”5 da nação, que se traduz numa proposta 
de aproximação entre Estado e sociedade (movimentos populares).6 Neste sentido, 
a mudança do nome de Ministério da Defesa para Ministério do Poder Popular para 
a Defesa parece sugestivo. Como consequência destas transformações, observa-se 
entre os militares um alto grau de politização, potencializado pelo importante papel 
que o governo tem conferido às Forças Armadas para a realização de seu principal 
projeto político: o “socialismo do século XXI”.7
No desenvolvimento dessa nova cultura estratégica, o processo de integração 
regional tem sido visto pelo governo venezuelano como parte necessária à consoli-
dação do “projeto bolivariano” para a América Latina. Neste sentido, o governo do 
país tem manifestado interesse em estabelecer uma aliança militar no subcontinente, 
uma espécie de Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) do Sul. 
Em várias ocasiões,8 o ex-presidente Hugo Chávez fez referências a uma suposta 
3. A Ley Orgánica de las Fuerzas Armadas Nacionales (Venezuela, 2005) estabelecia explicitamente, no Artigo 3o, como 
uma das funções das Forças Armadas: “[r]esistir ante a ocupação do país por forças militares invasoras, incluindo ações 
de prevenção contra forças hostis que demonstrem tal intenção”, em uma clara alusão aos Estados Unidos. 
4. Para uma discussão sobre o conceito de guerra de quarta geração ver Marques e Medeiros Filho (2010).
5. O Artigo 322 da Constituição da República Bolivariana da Venezuela (Venezuela, 1999) propõe que a segurança da 
nação se fundamenta no desenvolvimento integral e na responsabilidade mútua entre Estado e sociedade: “a segurança 
da nação é de competência e responsabilidade do Estado. Em sua perspectiva integral, a defesa é responsabilidade de 
todos os venezuelanos, sejam elas pessoas físicas ou jurídicas, de direito público ou de direito privado”. 
6. De acordo com o Artigo 2o da Ley Orgánica de la Fuerzas Armadas Nacionales (Venezuela, 2005), uma das missões 
das Forças Armadas da Venezuela era “a defesa do exercício democrático da vontade popular”. Este trecho foi suprimido 
da Ley Orgánica de las Fuerzas Armadas Nacionales Bolivarianas (Venezuela, 2008).
7. Durante as comemorações do 186o aniversário da Batalha de Carabobo, realizado na Academia Militar da Venezuela, 
o ex-presidente Hugo Chávez reiterou que a essência do projeto nacional é o socialismo e que as Forças Armadas são 
chamadas a impulsionar este projeto: “as Forças Armadas são uma instituição do Estado e, portanto, do povo, para levar 
adiante, junto a outras instituições do Estado, o projeto nacional; e o projeto nacional que a maioria dos venezuelanos 
temos assumido se chama socialismo. Por isso, quando um soldado diz Pátria, Socialismo ou Morte, ele se coloca no 
centro do alvo do momento histórico que os venezuelanos estamos vivendo. Que não haja engano: o socialismo é o 
caminho para a pátria e para a verdadeira democracia” (Presidente…, 2007).
8. Pelo menos em duas oportunidades o ex-presidente Chávez sugeriu a formação de uma força militar no Mercosul 
(incluindo a Venezuela) como forma de proteger a soberania dos países do bloco. A primeira ocorreu por ocasião do 
lançamento da ideia de criação do Conselho de Defesa Sul-Americano junto aos presidentes Lula e Kirchner, em 19 
de janeiro de 2006, em Brasília (Marin, 2006). A segunda ocorreu no dia 5 de julho de 2006, em Caracas, em reunião 
com presidentes do Mercosul, um dia após a entrada da Venezuela no bloco (Elias, 2006).
52 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
organização militar de defesa dos países da região, especialmente do Mercado 
Comum do Sul (Mercosul), incluindo a Venezuela. Com a resistência dos países 
da América do Sul em criar uma aliança militar, Chávez vinha se voltando cada vez 
mais para o estabelecimento de uma estratégia de defesa envolvendo os países que 
constituem a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba).9 Em 31 
de maio de 2012, por exemplo, a Alba inaugurou em Santa Cruz (Bolívia) a sua 
Escola de Defesa. Segundo a Agência Venezuelana de Notícias (AVN), a escola foi 
criada com o propósito de fortalecer a integração do bloco e desenhar estratégias de 
defesa ante as ameaças de intervenção estrangeira no continente (Escuela..., 2011). 
3.2.1 A estrutura de defesa venezuelana
As forças de defesa da Venezuela possuem tradicionalmente quatro componentes: 
Exército, Armada, Aviação e Guarda Nacional.10 A partir de 2005, com a adoção 
da nova estratégia de defesa nacional, esta estrutura passou por alterações, com 
a criação da chamada Guarda Territorial, que, junto com a Reserva Nacional, 
complementaria a estrutura de “defesa da nação”.11 De acordo com a proposta, 
a Guarda Territorial seria composta por cidadãos que, voluntariamente, se orga-
nizariam para cumprir funções de resistência ante qualquer agressão interna ou 
invasão de forças estrangeiras (Venezuela, 2005, Artigo 11). Esta estrutura se adéqua 
à política de “segurança integral” implantada na Constituição de 1999, e que se 
traduz em uma espécie de fusão entre civis e militares no preparo para a guerra de 
resistência contra uma potência invasora. 
A partir de 2008, a então Guarda Territorial passou a se chamar Milícia 
Territorial, compondo, junto com os cuerpos combatientes (reservistas), a chamada 
Milícia Bolivariana. A Milícia Bolivariana se destina a complementar a Força 
Armada Nacional Bolivariana na “defesa integral da nação” e está subordinada 
diretamente ao presidente da República, inclusive no que diz respeito aos aspectos 
operacionais (Venezuela, 2008, Artigo 43).
Além de reestruturar seus quadros militares, o governo da Venezuela tem reali-
zado importantes aquisições de material militar. Desde o ano de 1998, a Venezuela 
incrementou dramaticamente suas importações de armas, a ponto de, em 2007, o país 
ter ocupado, em termos de aquisição de armas, a quarta posição entre os países em 
desenvolvimento e a primeira entre os países da América do Sul (Villa, 2008, p. 6-7). 
9. A Alba foi criada em dezembro de 2004 pelos então presidentes Hugo Chávez e Fidel Castro. Atualmente ela é composta 
por oito países: Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua,
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