A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
292 pág.
o brasil e a seguranca no seu entorno estrategico america do sul e atlantico sul

Pré-visualização | Página 15 de 50

Equador, Antígua e Barbuda, Dominica e São Vicente e Granadinas.
10. Assim como no caso colombiano, a força de segurança nacional é subordinada ao Ministério da Defesa, e não ao 
Ministério do Interior, como é mais comum na região. Na Venezuela, a Guarda Nacional é a responsável pela condução 
das operações para manutenção da ordem e da segurança interna do país. 
11. “As Forças Armadas Nacionais são compostas por quatro estruturas: o Exército, a Armada, a Força Aérea e a 
Guarda Nacional. Para cumprir a defesa da nação, elas funcionam de maneira integral e são complementadas pela 
Reserva Nacional e a Guarda Territorial” (Venezuela, 2005, Artigo 9o).
53
Entre a “Segurança Democrática” e a “Defesa Integral”: uma análise de duas doutrinas 
militares no canto noroeste do subcontinente sul-americano
A partir de 2005 começou a ganhar impulso a aquisição de armamentos russos, 
que incluem cerca de 100 mil fuzis AK-103, 24 caças Sukhoi Su-30MK, cinquenta 
helicópteros de transporte, sistemas antiaéreos de mísseis portáteis Igla-S e 92 carros 
de combate T-72 (Chávez..., 2009).
Do ponto de vista doutrinário, a reestruturação das Forças Armadas vene-
zuelanas sugere a preparação do país para a defesa contra uma suposta “ameaça 
imperialista”, na qual a participação das milícias bolivarianas teria papel relevante, 
tendo em vista a natureza assimétrica da guerra imaginada.
4 CULTURA ESTRATÉGICA: ANÁLISE COMPARATIVA E ALGUMAS 
CONCLUSÕES PARCIAIS
Tanto a Colômbia como a Venezuela passam por transformações significativas em 
suas culturas estratégicas, por diferentes motivos. No caso colombiano, chama 
atenção o crescimento e o fortalecimento das Forças Armadas do país, bem como 
seu novo papel na “retomada” do território nacional pelas instituições estatais. 
No caso venezuelano, era percebido o esforço do ex-presidente Chávez para 
incorporar as Forças Armadas ao seu projeto político, o que em termos concretos 
significa uma mudança substancial: nas relações entre civis e militares; nas 
missões desempenhadas; e na postura estratégica das forças militares venezuelanas. 
Nos dois casos as mudanças estão sendo engendradas pelo Poder Executivo, e 
destoam profundamente das posturas adotadas pelas elites que governaram os dois 
países desde a independência (Uribe-Uran, 2009; Trinkunas, 2009). 
Historicamente orientadas para a manutenção da ordem interna, as Forças 
Armadas da Colômbia e da Venezuela estão paulatinamente se voltando para o 
front externo, sem que isso signifique que estas instituições estejam desenvolvendo 
doutrinas militares ofensivas ou convencionais. Por um lado, tanto a Política Integral 
de Segurança e Defesa para a Prosperidade, da Colômbia, quanto o conceito de 
defesa integral, adotado pela Venezuela em seus documentos de defesa, mostram 
uma preocupação crescente com o ambiente externo (em razão das “novas ameaças” 
percebidas no sistema internacional e da política norte-americana para a América 
Latina, centrada no combate às drogas e ao terrorismo) e com as mudanças no 
panorama estratégico sul-americano (o reequipamento das Forças Armadas sul-
-americanas). Por outro, nenhum dos dois países pretende fazer frente a estas 
possíveis ameaças preparando suas Forças Armadas para a “defesa externa” e o 
combate convencional. A seu modo, colombianos e venezuelanos investem numa 
combinação de diplomacia e força para alcançar seus objetivos.
No plano diplomático, a Colômbia aposta na “diplomacia para a segurança”, 
usando os fóruns regionais e os encontros bilaterais para defender sua guerra ao 
“narcoterrorismo” e a necessidade de cooperação norte e sul-americana para o 
54 O Brasil e a Segurança no seu Entorno Estratégico
sucesso de sua empreitada. No plano militar, os colombianos investem na retomada 
e controle do território nacional por suas forças de emprego rápido, preparadas 
para o combate convencional e não convencional. Modernas e eficientes, estas 
forças representam um signo de poder tanto para os inimigos internos (os grupos 
armados ilegais) como para os eventuais inimigos externos (os rivais bolivarianos). 
No que diz respeito à influência doutrinária norte-americana na preparação 
das Forças Armadas colombianas, vale lembrar que esta é muito anterior ao Plano 
Colômbia: há uma missão militar norte-americana no país desde a década de 
1940 (Gantiva e Palacios, 1997). No entanto, os militares colombianos afirmam 
que a influência norte-americana se restringe à doutrina de guerra convencional. 
A doutrina de guerra não convencional das Forças Armadas foi desenvolvida pelos 
próprios colombianos. A coletânea Hablan los generales, publicada em 2006, por 
exemplo, faz parte do esforço dos militares colombianos para divulgar os principais 
feitos das Forças Armadas colombianas no combate à insurgência e ao crime 
organizado entre a década de 1960 e o início da implementação da Política de 
Segurança Democrática (Osorio, 2006).
Ainda no que tange às Forças Armadas colombianas, é importante frisar que, 
desde a implementação da Política de Segurança Democrática, as forças militares 
vêm ganhando prestígio e poder. Ressentidos por nunca terem sido consultados 
e ouvidos durante as tentativas de se negociar a paz com as forças insurgentes 
(Gantiva e Palacios, 1997), os militares assumem agora um papel proeminente 
não somente no combate às guerrilhas e ao tráfico de drogas, mas também no 
estabelecimento da autoridade estatal em regiões do país anteriormente controladas 
por grupos armados ilegais, graças ao aumento significativo de unidades militares 
e policiais na Colômbia.
 As Forças venezuelanas também estão aumentando seu contingente, poder 
e participação no âmbito interno. Desde a última década, os militares venezue-
lanos estão se preparando primordialmente para resistir a uma eventual invasão 
“imperialista” ao seu país. No entanto, ao contrário da Colômbia, esta mudança 
no foco das atenções das Forças Armadas não corresponde a um desejo castrense e 
sim à percepção chavista de que o país corre perigo. A leitura chavista do cenário 
estratégico internacional engendrou mudanças significativas na estrutura e na 
formação das Forças Armadas venezuelanas que, assim como as Forças colombianas, 
eram vigorosamente influenciadas pelos Estados Unidos no campo doutrinário. 
Para alcançar seus intentos, Chávez – assim como seus antecessores em períodos de 
grandes mudanças sociais – recorreu à figura de Bolívar e seu legado para construir 
uma nova estratégia diplomática e militar para a Venezuela. 
No plano diplomático, o governo venezuelano apela para o antigo projeto 
bolivariano de união dos povos latino-americanos na tentativa de consolidar uma 
55
Entre a “Segurança Democrática” e a “Defesa Integral”: uma análise de duas doutrinas 
militares no canto noroeste do subcontinente sul-americano
aliança política (e militar) com os demais países da América do Sul e Central que 
os “liberte” do “imperialismo ianque”. Neste ponto, os projetos da Colômbia e da 
Venezuela são inconciliáveis. A Colômbia defende e preza a parceria com os Estados 
Unidos, que vem lhe permitindo restabelecer o controle sobre seu território, e não 
pretende abrir mão da ajuda financeira e militar norte-americana. A Venezuela vê 
o Plano Colômbia como uma ingerência externa nos assuntos latino-americanos 
e uma ameaça ao país, tendo em vista que os norte-americanos estariam usando a 
presença na Colômbia para tentar desestabilizar o governo venezuelano e apropriar-se 
de suas riquezas minerais (petróleo) e naturais (reservas de água doce, biodi-
versidade). Os colombianos seriam “inocentes úteis” a serviço do Império. 
Para se defender da “ameaça imperialista”, os venezuelanos estão desenvolvendo uma 
doutrina de guerra assimétrica própria que, segundo seus formuladores, é inspirada 
nas experiências de indígenas e criollos que resistiram à invasão da